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quarta-feira, 23 de abril de 2014

O batismo no Espírito Santo é condição necessária para o recebimento dos dons espirituais? [Parte 2]

Por Gutierres Fernandes Siqueira
O artigo anterior sobre o tema gerou alguns questionamentos e opiniões divergentes [leia aqui]. É sempre bom lembrar que o debate saudável e inteligente é o objetivo deste blog. Assim, agradeço cada participação pelo enriquecimento do assunto ora tratado. Vejamos algumas questões:
a) O Batismo no Espírito Santo como porta de entrada necessária para os Dons Espirituais carece de apoio bíblico? Sim, essa é a questão real. A nossa base de fé é a Escritura e nela não encontramos sustentação para tal doutrina. Não podemos aceitar algum ensino meramente porque o lemos numa revista de Escola Dominical ou porque alguns pioneiros da denominação abraçavam tal ideia. A tradição é importante, mas é apenas importante. A tradição não é autoridade essencial.  
Batismo no Espírito Santo
Capacitação para o serviço evangelístico.
Igreja para os não-cristãos
Dons Espirituais
Capacitação para a edificação na comunidade.
Igreja para Igreja

b) Este blogueiro está inventando a roda sem ter gabarito para provocar revisionismo doutrinário? Não, obviamente não. Muitos teólogos pentecostais- incluindo a velha guarda- já questionavam esse ensino. Obviamente, essa questão não é uma invenção deste blogueiro. Exemplo é o já falecido William W. Menzies, talvez a segunda maior autoridade teológica nas Assembleias de Deus dos Estados Unidos depois do Stanley M. Horton. Outros nomes podem ser mencionados como Craig S. Keener, Robert Menzies, Anthony D. Palma e, em grau mais radical, Gordon Fee. Embora, é verdade, outros nomes importantes do pentecostalismo associam Batismo com Dons como Antonio Gilberto, John W. Wyckoff, Eurico Bergstén etc.
c) Essa revisão não representa o fim da teologia pentecostal? Longe disso, é natural que uma doutrina relativamente nova passe por um processo de amadurecimento. É bom lembrar que essas questões são secundárias na fé cristã e, naturalmente, podem ser revistas sem prejuízo para os fundamentos do cristianismo e, também, para a fundamentação do pentecostalismo como movimento e doutrina. Apresentar resistência à qualquer "novidade" não é demérito, mas é a própria virtude da sobrevivência. Agora, a resistência sem fim e lógica não fará de alguém um ser firme e resoluto, mas apenas um obstinado. É alguém que diz: "eu creio porque aprendi assim". Frase essa que cheira idolatria.
d) O Batismo como porta de entrada para os Dons é uma doutrina oficial? Onde acho a “doutrina oficial” das Assembleias de Deus?  A doutrina oficial das Assembleias de Deus do Brasil pode ser encontrada no documento Cremos publicado neste link. O Cremos é a confissão de fé das Assembleias de Deus deste país [1]. É uma versão mais enxuta do que o documento norte-americano Verdades Fundamentais das Assembleias de Deus publicado pelo Concílio Geral das Assembleias de Deus dos Estados Unidos.  Bom, agora leia atentamente a confissão de fé assembleiana brasileira e, veja por si, que não há qualquer menção do Batismo como pré-requisito para a concessão dos Dons [2]. Na versão americana há uma ilação a partir na difusa frase: “com ela (a experiência do Batismo no Espírito Santo) chega a concessão de poder para a vida e o serviço, a doação dos dons e seu uso no ministério” [3]. A ambiguidade da frase aceita uma revisão dessa ideia do Batismo como “porta de entrada” obrigatória para os dons. No máximo é uma experiência que ajuda e maximiza a recepção dos dons. Agora, duas breves observações: a) E é bom lembrar que a voz oficial de uma denominação é a sua confissão de fé e não a opinião de seus ilustres professores. Alguns dos grandes mestres do pentecostalismo brasileiro e americano abraçam essa ideia, mas sem nenhum desrespeito é possível discordar veementemente. b) Ainda que a declaração da Confissão de Fé afirmasse tal doutrina, é necessário lembrar que esse documento não é autoridade escriturística. É apenas uma organização didática. A Bíblia, naturalmente, é a autoridade.
e) É possível Batismo no Espírito Santo e dons espirituais entre católicos? Bom, essa pergunta está fora do tema e não está ao mesmo tempo, mas surgiu no meio do último post. Se você considera a Igreja Católica Apostólica Romana uma seita pseudocristã, logo fica difícil imaginar a manifestação do Espírito nela. Eu não acredito nisso, pois vejo a Igreja Católica como mais um braço do cristandade, mesmo que cheia de equívocos sérios (por isso não sou católico como também não sou neopentecostal, neopuritano, hipercalvinista etc.). Uma igreja equivocada e cheia de erros pode manifestar dons? Sim, é claro. Veja Corinto. E outra: há igreja perfeita?
Prossigamos.

Referências Bibliográficas:
[1] Os Credos são profissões de fé universais, logo é de toda a cristandade e não apenas de um grupo. Exemplos: Credo de Nicéia, Credo de Atanásio, Credo dos Apóstolos, Credo da Calcedônia etc. A Confissão de Fé é normalmente de um grupo ou denominação cristã. Exemplos:  Confissão de Augsburgo (luterano), Catecismo de Heidelberg (Igrejas reformadas da Holanda e Alemanha), Confissão de Fé de Westminster (Igrejas de orientação calvinista), Declaração de Savoy (Igrejas congregacionais), Declaração de Verdades Fundamentais das Assembleias de Deus (ADs dos EUA), Cremos (ADs do Brasil) etc. 
[2] “Cremos na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme  sua soberana vontade (1Co 12.1-12)” [Décimo Ponto].
[3] “This was the normal experience of all in the early Christian church. With it comes the enduement of power for life and service, the bestowment of the gifts and their uses in the work of the ministry (Luke 24:49; Acts 1:4,8; 1 Corinthians 12:1-31) [Statement of Fundamental Truths of The General Council of the Assemblies of God]. Para ler a explicação de cada um dos 16 pontos do documento americano veja: MENZIES, William e HORTON, Stanley. Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 248.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Por que o culto precisa de ordem?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

1. Porque o próprio Deus estabelece um convívio entre adoração e educação. Tanto na construção do Tabernáculo- com seus ornamentos em Levítico - como o culto neotestamentário- em 1 Coríntios- eram baseados na instrução por meio das analogias, símbolos e liturgias.

2. O culto não é um momento para êxtase, ou seja, emoções que tiram o homem de si, da racionalidade. Êxtase é marca do culto pagão, não do culto cristão. O culto cristão não é racionalista, pois não pode ser confundido com uma sala de aula, mas é racional (Rm 12. 1-2). Há uma razão, um princípio, meio e fim.

3. O culto não é seu, nem meu. O culto é do Senhor. Portanto, é segundo a vontade de Deus que o culto precisa seguir. Se Ele estabeleceu ordem quem sou eu para fazer do culto um pequeno show pessoal?

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vozes do Pentecoste

Por Gutierres Fernandes Siqueira

SYNAN, Vinson. Vozes do Pentecoste: Relatos de vidas tocadas pelo Espírito Santo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2012.

Vinson Synan é hoje o principal historiador do pentecostalismo mundial. Professor emérito de história da Igreja no Regent University, a mais avançada faculdade carismática do mundo, Synan é destaque quando o assunto envolve historiografia do Movimento Pentecostal mundial. Ele, juntamente com William Menzies, o historiador das Assembleias de Deus norte-americana, fundaram a Society for Pentecostal Studies (Sociedade de Estudos Pentecostais) e sempre esteve envolvido em atividades acadêmicas e na reitoria de universidades. É autor de dezesseis obras, sendo quinze sobre a pentecostalidade. Há poucos anos a Editora Vida publicou Vozes do Pentecoste: Relatos de vidas tocadas pelo Espírito Santo [2012, p. 192]. O livro foi escrito a convite de Bert Ghezzi, um editor e escritor católico-carismático norte-americano, e foi publicado em inglês ainda em 2003.

Vozes do Pentecoste é interessante para a leitura dos pentecostais por motivos diversos.

Em primeiro lugar, mostra uma tendência ecumênica no historiador pentecostal. Synan sempre esteve presente entre os católicos carismáticos como escritor e palestrante. No Brasil, o pentecostalismo cresceu sob forte oposição ao catolicismo e a historiografia nacional sempre destacou a perseguição feita por padres nas primeiras décadas do século XX. Logo, essa aproximação é sempre vista com estranheza. Mas no mundo anglo-saxão a realidade é diferente. Por exemplo, o inglês Donald Gee, talvez o principal teólogo pentecostal do século XX e fundador da Assembleia de Deus nas terras anglicanas, foi um entusiasta do diálogo com o catolicismo. E o famoso pregador David Wilkerson participou dos primeiros congressos da Renovação Católica Carismática dos Estados Unidos na década de 1970. Outro exemplo é a própria Society for Pentecostal Studies que nasceu entre pentecostais clássicos e hoje envolve católicos carismáticos e, inclusive, já sediou reuniões do diálogo católico-pentecostal do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.  Consciente das diferenças doutrinárias entre pentecostais clássicos, metodistas, presbiterianos, católicos etc. Synan observa ainda “uma unidade surpreendente nos testemunhos das manifestações de dons do Espírito”[p. 10]. No livro, algumas páginas são dedicadas a proeminentes romanistas como Francisco de Assis, Papa Paulo VI e João Paulo II.

Em segundo lugar, Synan simplesmente ignora o Brasil. Na longa lista de grandes personalidades carismáticas não há nenhum brasileiro. Até a católica italiana Elena Guerra é citada, mas nada deste país. E por que isso é importante? Ora, a Igreja Pentecostal Brasileira é a maior do mundo e assim será por muitos anos. No mínimo é uma lacuna na obra de Synan. No seu grande e principal livro traduzido como O Século do Espírito Santo: 100 Anos de Avivamento Pentecostal e Carismático [1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009], também, os pentecostais brasileiros são ignorados. O pentecostalismo hispânico ganha destaque, mas as terras tupiniquis não passam de frases breves. Não é possível especular o motivo de tal esquecimento, mas é um tanto decepcionante para o leitor nacional. O missionário sueco Lewi Petrus, por exemplo, é umas vozes do pentecoste citado no livro, mas a sua longa estadia no Brasil não é sequer mencionada.

Em terceiro lugar, Vozes do Pentecoste não é situado apenas nos últimos cem anos. Cita de Santo Agostinho a Billy Graham. Logo, vários nomes não são necessariamente membros de denominações e organizações carismáticas. Isso mostra que o pentecostalismo não é meramente um ramo denominacional, mas um “movimento” no sentido filosófico do termo, ou seja, é um processo de mudança nas relações doutrinárias e de espiritualidade no cristianismo. É o resgate, inclusive, de uma pneumatologia esquecida na história da cristandade ocidental. Quem pode, por exemplo, ignorar o avivamento entre os metodistas com John Wesley?

Em quarto lugar, o livro apresenta uma estrutura devocional. Não é acadêmico, mas serve para qualquer pesquisa mais aprofundada, especialmente pelas fontes citadas no final da obra. Synan apresenta um breve relato sobre a pessoa estudada e depois coloca um trecho da experiência com cura, batismo no Espírito Santo ou dons espirituais da própria testemunha. O livro, obviamente, não tem caráter de apologética interna, logo porque cita autores controversos sem entrar no mérito das polêmicas. É o caso, por exemplo, de Kenneth Hagin, o maior divulgador da Confissão Positiva e Pat Robertson, uma espécie de Silas Malafaia misturado com Marco Feliciano.

Portanto, é uma obra recomendável porque cada página será uma surpresa. A fé cristã-protestante não é baseada em tradições e experiências, mas isso não é o mesmo que dizer que tais aspectos da vida sejam desprezíveis no enriquecimento e crescimento do cristão.

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PS: Esta resenha foi escrita originalmente para a publicação imprensa de 2014 da  Azusa Revista de Estudos Pentecostais. O periódico é publicado pela CEEDUC (Associação Centro Evangélico de Educação, Cultura e Assistência Social) e a entidade pertence à Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (SC).

sábado, 19 de abril de 2014

Dons de Revelação

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Classificar alguns dons como de relevação é meramente uma atribuição didática, pois a estrutura do texto paulino não justifica uma divisão rígida. E, também, como veremos o dom da palavra da sabedoria não é necessariamente uma revelação. Agora, vejamos neste texto a descrição dos dons da palavra do conhecimento, palavra da sabedoria e discernimento de espíritos.

Palavra do Conhecimento e Palavra de Sabedoria

A expressão “palavra de conhecimento” (λόγος γνώσεως- logos gnōseōs) ocorre apenas uma vez em o Novo Testamento, assim como a locução  “palavra de sabedoria” (λόγος σοφίας- logos sophias).  Portanto, qualquer tentativa de definir esses dons é limitada pela ausência de outras referências. É necessário reconhecer essa limitação, pois uma definição precisa desse dom poderá ocasionar em erros e especulações infundadas. Donald Gee, escrevendo sobre essa dificuldade, nos lembra que “devemos cuidadosamente evitar a dogmatização desse assunto” [1]. Enquanto ensinar sobre línguas, curas e profecias é relativamente fácil pela abundância de referências no próprio Novo Testamento, esse fato não se aplica à palavra do conhecimento e à palavra de sabedoria.

A tentativa viável de definir o dom da palavra do conhecimento e a palavra de sabedoria é buscando o sentido de conhecimento e sabedoria no corpus paulino. Embora, como defende D. A. Carson, a ênfase não é o conhecimento ou a sabedoria em si, mas sim a palavra [2]. Agora, se a ênfase é a palavra, logo tais dons podem estar relacionados diretamente a atividade de pregação e ensino. Logo, o dom tem um caráter sobrenatural porque o mesmo ocorre, segundo o contexto, dentro do ambiente de culto. Não é a sabedoria ou o conhecimento no dia a dia e nas atividades triviais. Não é o conselho para um jovem casal ou a decisão de construir uma casa. É a sabedoria e o conhecimento no contexto eclesiástico para a necessidade da igreja local.

Outra questão que pode ser levantada é: existe distinção nesses dons? Ou a sabedoria e o conhecimento são nuances do mesmo dom? Se a sabedoria é o conhecimento da razão aplicado por que a expressão vem antes da palavra de conhecimento? É provável que aja diferenças e possamos falar em dons no plural.

Conhecimento  e sabedoria no pensamento paulino. O conhecimento de Deus é insondável (cf. Rm 11.33-34), logo qualquer participação nesse conhecimento só pode ser recebida de maneira sobrenatural. É insondável porque o conhecimento divino transcende a capacidade humana e, somente com o Espírito Santo, é possível compreender algumas nuances do pensamento de Deus (cf. 1 Co 2.11). Portanto, o dom tem um caráter revelacional no sentido técnico do termo, ou seja, uma “manifestação sobrenatural de uma verdade que se achava oculta” [3]. Enquanto que por 24 vezes Paulo fala em sabedoria distinguindo a humana da divina.

No contexto da Carta aos Coríntios o apóstolo Paulo combate um certo protognosticismo, pois para muitos coríntios o conhecimento era confundido com espiritualidade ou superioridade (cf. 1 Co 8). O conhecimento de Deus não é algo adquerido por meritocracia ou excelência profissional, mas apenas pela graciosa misericórdia de Deus (cf. 1 Co 2. 6-16). O conhecimento deveria ser exercido com amor e, também, para a edificação da comunidade cristã (cf. 1 Co 8 .1). Portanto, conhecer era amar a Deus. Era, em si, o conhecimento verdadeiro. Conhecimento esse que advém do Espírito Santo para homens espirituais.

O que o dom não é? Como escreveu Benigno Juanes, a Palavra do Conhecimento não é: a) ciência adquirida através da reflexão e estudo, b) um fenômeno ou uma percepção extra-sensorial ou telepatia, c) uma habilidade humana especial, d) psicologia das massas ou auto-sugestão [4] e nem é e) uma profecia como lembra Donald Gee [5]. Assim, o dom é igualmente sobrenatural como a cura ou a língua estranha. A ênfase na “palavra” nos dita que é uma mensagem específica na hora certa. “É óbvio que a palavra da ciência tem a ver com a verdade da Bíblia ou sua aplicação. E não com onde estão as coisas perdidas ou que pecado ou doença uma pessoa tem- embora Deus possa ajudar nestas situações”, observa Stanley M. Horton [6] O mesmo serve para a Palavra da Sabedoria.

O que o dom é. Portanto, é uma bênção no contexto do culto que aja, da parte do Espírito Santo, uma palavra de sabedoria e ou conhecimento na edificação da Igreja. Não é que o portador seja necessariamente sábio ou conhecedor de muitas coisas, mas sim alguém que é usado para trazer uma palavra de acordo com a necessidade local [7]. O dom da Palavra da Sabedoria é, basicamente, a pregação e exposição das Sagradas Escrituras com graça, verdade, autoridade sob a direção sobrenatural do Espírito Santo. É a palavra que “queima” em nossos corações. Lembre que o dom espiritual não precisa ser, necessariamente, dramático. O dom da Palavra da Sabedoria pode vir, também, para aqueles na liderança que precisam de uma direção divina na resolução de problemas (cf. At 6.1-7).  O dom da Palavra do Conhecimento é a revelação de uma verdade ou fato não evidente. Em todo caso, essa revelação serve para propósitos de edificação e crescimento da igreja, e não serve para humilhação pública ou de natureza adivinhatória e megalomaníaca.

Discernimento de Espíritos

O dom de discernir espíritos é a capacidade sobrenatural de distinguir o verdadeiro do falso, a verdade da mentira. Infelizmente, nem toda mentira é explícita e discernível pelo uso da racionalidade apologética. E é importante lembrar que espírito nesse contexto não é o mesmo de 1 João 4.1 [8], mas sim 1 Coríntios 14, onde espírito é o nosso ser usado pelo Espírito Santo na manifestação sobrenatural, logo, discernir espíritos é discernir o bom uso dos dons (cf. 1 Co 14. 12, 29).

Vamos buscar os dons! Veja a descrição de cada e observe como o bom uso dos dons ajudará a Igreja na edificação.

Referências Bibliográficas:

[1] GEE, Donald. Concering Spiritual Gifts. 20 ed. Springfield: Gospel Publishing House, 2007. pos. 454.
[2] CARSON, D. A. A Manifestação do Espírito. A contemporaneidade dos dons à luz de I Corintios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 40.
[3] ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 16 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 321.
[4] JUANES, Benigno. Profecia, Interpretação, Palavra de Conhecimento. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p 145-146.
[5] GEE, Donald. Op. Cit. pos. 475.
[6] HORTON, Stanley M. I e II Coríntios: os Problemas da Igreja e suas Soluções. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 115.
[7] “Os crentes não se tornam reservatórios desse tipo de sabedoria” GEE, Donald. Op. cit. pos. 447.

[8] FEE, Gordon D. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Eedmans Publishing, 1987. p 597.

domingo, 13 de abril de 2014

O batismo no Espírito Santo é condição necessária para o recebimento dos dons espirituais?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não há nenhuma evidência bíblica que indique o Batismo no Espírito Santo como uma condição necessária (conditio sine qua non) para o recebimento dos dons espirituais. Essa “doutrina” não é nem bíblica-teológica e nem oficial na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, como alguns erroneamente pensam, porém é mais uma “ensino” popular e fruto da oralidade que ganha um contorno de autoridade e oficialidade. O Antigo Testamento é cheio de exemplos de dons espirituais em ação, ainda que o Batismo no Espírito como revestimento de poder não havia sido concedido, logo porque não existia a Igreja com a missão gentílica.

O respeitado teólogo assembleiano Anthony D. Palma escreveu:

“O Batismo no Espírito Santo é um pré-requisito para receber os dons espirituais”. Mas onde encontramos isso nas Escrituras? O povo de Deus experimentou todos os dons nos séculos anteriores ao Dia de Pentecostes. É mais correto dizer que o batismo no Espírito Santo intensifica a sensibilidade e a receptividade espirituais, fazendo da pessoa um candidato mais propenso aos dons espirituais. Isso é amplamente demostrado pelo fato de que há maior incidência dos dons entre aqueles que foram batizados no Espírito Santo do que entre os que não foram. [1]

Outros teólogos assembleianos que trabalham essa questão são William e Robert Menzies. Eles lembram que associar o Batismo no Espírito Santo (isto é, o dom do revestimento) no texto lucano com os dons espirituais ensinados pelo apóstolo Paulo é não respeitar os respectivos contextos [2]. O batismo no Espírito Santo, nunca custa lembrar, não mantém uma ligação direta com os dons. Sim, é possível falar que o Batismo ajuda na recepção de experiências, mas não é condição nata. Isso porque o batismo é um revestimento de poder para testemunho do Evangelho entre aqueles que ainda não abraçaram Cristo como Salvador (cf. Atos 1.8). Enquanto isso, os dons visam a edificação da Igreja (cf. 1 Co 14.12). O batismo capacita a Igreja para a evangelização, enquanto os dons edificam a Igreja entre os já convertidos e, assim, é parte do discipulado. E, também, é necessário lembrar que o próprio Batismo no Espírito Santo é um dom.

E as línguas? Bom, é possível falar em línguas sem o batismo no Espírito Santo? Essa é uma questão controversa e para resolver o empasse a teologia assembleiana [3] costuma diferenciar a língua estranha como sinal e/ou dom. Enquanto sinal, todos os batizados recebem como evidência física inicial no momento do revestimento de poder. Agora, como dom alguns recebem em forma de variedade. O sinal é normalmente um louvor, ou seja, uma proclamação para Deus, enquanto o dom de variedade de línguas é normalmente equivalente a uma profecia, portanto, uma mensagem para homens (cf. Atos 2.11 comp. 1 Coríntios 14.2, 5). Essa diferenciação é bem carente da base escriturística sólida, pois a variedade de línguas pode- muito bem-  ser um louvor ampliado e, mesmo interpretado para edificação coletiva, seria um cântico ou oração de engradecimento (e não uma mensagem profética) em idioma local. Por exemplo, não somos edificados com os Salmos? A língua interpretada pareceria mais um salmo do que uma profecia, logo porque as referências bíblicas indicam que a língua tem uma direção vertical e não, necessariamente, horizontal (cf. Atos 2.11; Romanos 8.26; 1 Coríntios 14,2, 14, 15; Efésios 6.18; Judas 20).  

Agora, é sim possível dizer que o dom de línguas tem uma relação especial com a natureza do próprio Batismo no Espírito Santo, diferente dos outros dons que em nada dependem dessa experiência. O apóstolo Paulo indica que a língua é um “sinal para os infiéis” (cf. 1 Coríntios 14. 21,22) e o Batismo no Espírito Santo é um revestimento de poder para testemunhar àqueles que não se converteram (Atos 1.8, 2. 1-47). Não é à toa que a língua sempre está presente no Batismo do Espírito Santo (cf. Atos 2.1-13; 8.4-25; 9.24-48; 19.1-6). Portanto, é possível concluir que, excetuando o falar em línguas, os demais dons em nada dependem do Batismo no Espírito Santo.


Referências Bibliográficas:

[1] PALMA, Anthony D. Os dons e o fruto do Espírito. Em: Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 77, n. 1465, Julho de 2007, p. 18.


[2] MENZIES, William W. e MENZIES, Robert P. No Poder do Espírito: Fundamentos da Experiência Pentecostal: um chamado ao diálogo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 237- 249. 

[3] Essa diferenciação entre línguas como sinal e dom é mais uma doutrina assembleiana do que pentecostal. Muitos pentecostais, incluindo o reverendo William Seymour, não colocavam (ou atualmente colocam) as línguas como o sinal definitivo do Batismo no Espírito Santo. Logo, não fazem diferenciação entre sinal ou dom.

sábado, 12 de abril de 2014

O Propósito dos Dons Espirituais

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Os dons espirituais possuem propósito, embora não seja apenas um. O primário objetivo dos dons é a glorificação de Cristo por meio da edificação do Corpo- a Igreja do Nosso Senhor. A palavra chave é o verbo edificar e o substantivo edificação. E isso é evidente a partir da leitura de 1 Coríntios 14, onde o verbo grego ocorre três vezes (cf. 14.4,17) e o substantivo quatro vezes (cf. 14.3,5,12, 26). O principal poder dos dons está no fortalecimento, amadurecimento e edificação da Igreja. Assim, os dons tornam a Igreja “mais capaz” de cumprir a missão como agente do Reino de Deus nesta terra (cf. At 9.31). Logo, se os dons cessaram a igreja contemporânea não precisa de edificação? Se os dons não cessaram e sabemos desse objetivo construtor, logo por que desprezamos os dons com medo da espiritualidade líquida e exótica de muitos carismáticos?

Sempre reclamamos da apatia que cobre a igreja moderna, mas ao mesmo tempo estamos esquecendo a ferramenta da graça dada por Deus para a edificação da mesma. Ela está disponível para nós hoje. Infelizmente, poucos estão orando a Deus pedindo dons. O apóstolo Paulo, mesmo diante de uma assembleia cheia de dons, continuava a exortar que eles buscassem mais dons (cf. 1 Co 14.12). O problema dos coríntios não era a abundância de dons, mas o conformismo em usar alguns dons, especialmente o falar em línguas, com o mesquinhez e egoísmo. Repito: o problema não era a posse dos dons, mas o propósito por trás do uso. Não podemos rejeitar os dons porque eles são manifestações do próprio Deus entre o seu povo. “Os dons espirituais são revelações concentradas da atividade divina, e apenas secundariamente da atividade humana. Os dons espirituais são a presença do próprio Espírito se expressando de maneira relativamente clara, e até dramática, na forma como exercemos o ministérios. Os dons são a manifestação pública de Deus entre o seu povo”, como escreveu Sam Storms [1]. Não é uma relação deística, ou seja, Ele lá no céu derramando graça para homens solitários na terra. Não, Ele se faz literalmente presente entre o seu povo por meio dessa graça. Assim, o mal uso dos dons não pode levar a igreja contemporânea ao terrível erro de rejeitar essas bênçãos do Senhor.

Só solidez doutrinária não basta. Muitas vezes, nós que lidados com o ensino, pensamos que uma igreja formada por doutos senhores e senhoras na ciência teológica seria a solução perfeita para todos os nossos problemas eclesiásticos. Tal pensamento é de uma infantilidade que faz do entusiasta da educação teológica um ignorante igual aos piores militantes do anti-intelectualismo. A formação doutrinária, como uma ponta solta, nunca será suficiente para manter uma comunidade viva, embora seja importantíssima! A igreja de Éfeso é um exemplo, pois a fortaleza doutrinária daquela comunidade não foi suficiente para deter a falta do primeiro amor (cf. Ap 3.4). Na epístola aos efésios o apóstolo Paulo não os repreende por erros doutrinários e, escrevendo igualmente uma carta, o apóstolo João elogia o esforço apologético dela, mas houve o abandono do primeiro amor.  O entusiasmo, a paixão e a celebração do início foi embora para longe, literalmente jogada fora, e agora, o que resta, é apenas o vazio de uma ortodoxia inflamada pelo embate. Hoje, assim como no passado, na severidade do zelo doutrinário muitos perderam a paixão por buscar a Deus e os seus dons. “Se estar certo tornar-se mais importante para nós do que adorar a Deus, então nossa teologia já não diz mais respeito a Deus. Diz respeito a nós”, escreveram Joshua Harris e Eric Stanford [2]. Nada é bom em excesso, nem o zelo pela verdade.

Agora, há o outro lado da moeda. Inúmeros usam o dom como promoção pessoal, sinal de santidade e até mesmo como expressão de curandeirismo. Como acima visto, o propósito bem usado dos dons acaba com esses pecados. Veja esse quadro.

O propósito dos dons
Como devem ser vistos

O que combatem
Edificação da Igreja (coletividade)
Combatem o egoísmo, a megalomania, a elitização da igreja e de seus membros e a visão de “eu sou ungido e você não é”.
Edificação da sociedade (Expressão profética)
Combatem o enclausuramento da Igreja
Edificação pessoal
Combatem a apatia espiritual

Portanto, o dom não tem como propósito a promoção do portador desse dom, nem como santo e nem como milagreiro. A edificação mútua inibe muitos abusos, logo porque o melhor regulador dos dons espirituais é o amor. Não é à toa que o poema do amor em 1 Coríntios 13 está entre o capítulo 12 e 14. Os temas são completamente relacionados. Portanto, se alguém abusa do dom “porque se sente bem”, esse esqueceu do mandamento para edificação mútua. Falar em línguas, por exemplo, é muito bom para edificação pessoal, mas falar o tempo todo no microfone ajudará alguém? Pense nisso, o culto não é seu ou para você. O culto é da igreja, para edificação dessa comunidade, e para a glória dEle.

Referências Bibliográficas:

[1] STORMS, Sam. Dons Espirituais: uma introdução bíblica, teológica e pastoral. 1 ed. Rio de Janeiro: Anno Domini, 2014. p 15.

[2] HARRIS, Joshua e STANFORD, Eric. Ortodoxia Humilde. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 45.