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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Peso de condenação: a noção cristã de inferno

Dante e Virgílio no Inferno,
quadro de William-Adolphe Bouguereau (1850)
Por André Gomes Quirino

Tomo emprestada parte do título da obra de C. S. Lewis Peso de Glória porque ele mesmo já a emprestara de Paulo, o apóstolo: “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2 Co 4.17). A princípio, esse texto parece trazer em si um termo incompreensível: “peso de glória”, que viria a ser isso? “Peso” se refere a coisas materiais, com extensão, que se pode mensurar; “glória” traz-nos à mente brilhos ofuscantes, lampejos etéreos, emanações espirituais. “Peso de glória”, numa primeira audição, soa tão incompreensível quanto “metros de saudade” ou “graus de madeira”.

Peso de glória é um convite ao conhecimento. Por seu caráter paradoxal, o termo se nos impõe, como um peso. A tribulação que enfrentamos na terra é leve – pesada é a glória que ela produz no céu. O termo aponta, de um lado, para a unidade da criação de Deus: o que se faz na terra tem efeito no céu – assim não fosse, Jesus não poderia ter legado à Igreja chaves para ligar e desligar coisas na terra e no céu. De outro lado, tal unidade não é do tipo panteísta, que equipara ontologicamente tudo o que existe: o termo não nega a contradição entre o que pesa e o que resplandece, mas a radicaliza – é surpreendente que haja um peso de glória, que a glória pese. E noto ainda uma terceira intuição subjacente ao termo “peso de glória”: dá-se, entre os elementos opostos, uma primazia de significado à glória – é ela que pesa, o que pesa é a glória: tribulações são leves – e uma primazia de sensação ao peso – a glória sobressai-se à tribulação porque pesa. O peso não é a glória, a glória não é o peso, mas a glória pesa, pode-se sentir a glória – e, perante ela, as tribulações são leves.

A noção cristã de céu, portanto, não é como a arcaica, que projeta brutamente para um além as benesses tidas como ideais, e que para a maioria das pessoas são intangíveis, nesta vida – sombra, água fresca e mulheres bonitas ad infinitum. Também não é como a espiritualista, que imagina a eternidade como uma vadeação errante de espíritos desincorporados, que eventualmente podem se alegrar ou sofrer como recompensa ou castigo de atos outrora cometidos em corpo. Há uma continuidade, e constantes intercâmbios, entre esta vida e a que há de vir. O céu não é só de peso, como também não é só de glória: é de um peso de glória.

Mas, assim como a esperança cristã contempla o peso e contempla a glória, o evangelho fala de céu e fala de inferno. E, se quisermos pregar fielmente todo o conselho de Deus, deveremos saber comunicar ao mundo a eminência do juízo sem fazer depender essa anunciação de imaginações arcaicas. Caso contrário, continuará a parecer atraente ao mundo moderno a escatologia isenta de inferno – e, por conseguinte, isenta de juízo – dos universalistas e outros liberais.

Entendo que as menções bíblicas ao inferno apontam para a existência de um peso de condenação. Não se trata de um termo haurido ipsis litteris da Escritura, e nem poderia ser o caso: falta-lhe beleza. Seu paradoxo é de outro tipo. Permanece aqui uma tensão entre o que pesa e o que é declarado, mas o conteúdo do que é declarado já remete mesmo a alguma espécie de peso. Todos já experimentaram, após uma falha, a sensação de “consciência pesada”. É intuitivo associar a declaração de uma sentença com o bater, o cair, o cair pesado do martelo de um juiz. Essa queda ganha um apelo dramático quando o juízo final é de que o réu é culpado. O remorso de alguém que errou costuma externar-se com a decadência do semblante, a precipitação da lágrima, o curvar do corpo – no limite, o cair ao chão sob o peso da culpa. “Peso de condenação” é um termo ordinário porque pouco paradoxal. Sequer instiga a investigação do que é que tem a primazia de significado, do que é que tem a primazia de sensação. Instiga apenas a vontade de escapar, de estar-lhe longe. Todos sabemos de algum modo o que é um peso de condenação, e por isso mesmo não o queremos conhecer.

O profeta Daniel foi impelido por Deus a dizer ao rei Belsazar: “Pesado foste na balança e foste achado em falta” (Dn 5.27). Na Bíblia, com efeito, juízos pesam. Ezequiel, o profeta-místico, repete incansavelmente expressões peculiares para denotar o juízo de Deus sobre Israel: “porei sobre ti os teus caminhos” (Ez 7.4), “porei sobre ti todas as tuas abominações” (v. 8), “conforme os teus caminhos, assim carregarei sobre ti” (v. 9), “eu farei recair o teu caminho sobre a tua cabeça” (16.43). O caminho trilhado por Israel será lançado, como uma pedra, sobre sua cabeça e, porque pesa, o ferirá. Israel conhecia seu próprio caminho, cada hebreu sabia o que tinha feito; a última coisa que eles desejavam era que lhes fossem lançados os seus caminhos, era sentir o peso dos seus atos.

Todo pecado é uma tentativa de fuga. Pecamos quando queremos desaparecer, quando queremos simplesmente não ser alvos de juízos morais, quando queremos abstrair de nossos atos seus significados, seu peso. O pecado é uma revolta contra o fato incontornável e irremediável da vida, contra o fato de ela ser definitiva. É uma blasfêmia contra a criação de Deus, contra o ato por que Deus despendeu de Si mesmo, despendeu de Seu amor. Daí a síntese paulina: “tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14.23). É pecado tudo que se faz sem a convicção de que foi Deus quem o proporcionou e de que é para Deus que se deve desfrutá-lo.

O pecador quer criar um mundo paralelo para si, um mundo em que vinguem os seus valores, e os seus valores são: o que é feito aqui acaba-se aqui. Nesse mundo, é proibido firmar compromissos. De um ponto de vista cristão, a condição para o perdão é o arrependimento. Arrependimento, por sua vez, é dar meia-volta, é reafirmar a centralidade de Deus e a positividade da existência, é recolocar-se no mundo que Deus criou. A falta de arrependimento, a reafirmação do mundo próprio, a renegação da criação de Deus, eis o caminho para o inferno. Trata-se de algo muito mais assustador do que um lago de fogo e enxofre literal, com demônios a constantemente espetar os sofredores: trata-se de choro e ranger de dentes causados pela autoafirmação incessante, pela repetição infinita.

O inferno, nas palavras de Jesus, é onde o verme não morre e o fogo não se apaga (Mc 9.48). Essa noção, ligeiramente distinta da que consta do Antigo Testamento, é implicada desta logicamente. Para os hebreus, o seol, o Seio de Abraão, o mundo dos mortos, e somente ele, é onde não se pode louvar a Deus (Sl 88.11), onde não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma (Ec 9.10). Deus não se lembra de quem está lá (Sl 88.5). Para muitos modernos, este seria o próprio paraíso. Para o salmista, porém, é motivo de lamentação sincera e ensejo para outra esperança: “não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16.10). Jó também proclama: “eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). A Igreja primitiva vê na ressurreição de Jesus a realização dessa esperança, como se depreende do discurso de Pedro no dia de Pentecostes (At 2.14–36). Cristo, com Sua ressurreição, desceu ao hades e de lá levou cativo o cativeiro (Ef 4.8–10): há uma esperança pós-morte para os justos. E para os injustos, o que esperar?

Reservada-lhes está a fome do pecado levada às suas últimas consequências. Como em Provérbios 27.20: “O inferno e a perdição nunca se fartam, e os olhos do homem nunca se satisfazem”. A mera ideia de uma autoafirmação infinita é desesperadora. E tal repetição é a demonstração de que toda autoafirmação enquanto fuga, mesmo a que se pretende passageira, é um terrível engano. Na perspectiva da eternidade, qualquer fuga é enganosa. E, nas palavras novamente de Jó (26.6), o inferno está nu perante Deus. A quem está nu, qualquer toque, mesmo o da mais leve brisa, é forte e pesado. Em oposição ao peso de glória que revestirá os habitantes do céu, o peso de condenação que afligirá os habitantes do inferno será indelicado, será insuportável.

Como aprendemos com Lewis, estará no inferno quem ouvir de Deus: “a tua vontade seja feita”. Esta será a última das sentenças, o peso de condenação. Vivemos, portanto, a guardar pesos – de glória ou de condenação. A vida aponta para eles. Uma história humana se define em virtude da atenção que o indivíduo dispensa às imagens da eternidade, em virtude da aceitação ou não de seu significado. O cristão está imerso no paradoxo de sentir o peso da existência ao mesmo tempo em que sabe que, perante o peso eterno, ele é leve. E sua atitude para com cada perdido deve ser a de quem está disposto a mover o mundo inteiro com o intento de que ele se salve. Pois foi esse o ato de Deus em Cristo, o ato pesado da morte e ressurreição. Na cruz, encontram-se o homem e Deus, o peso e a glória. O inferno é trivial: é a negação de Deus. É de tão ordinário que ele se torna insuportável. O inferno é o inferno porque é a abolição do paradoxo.

sábado, 22 de novembro de 2014

Podcast dos Colunistas- o PENTECAST



Olá amigos do Blog Teologia Pentecostal,


A partir de hoje, com alguma regularidade, vamos publicar podcasts com os colunistas do blog (Gutierres Fernandes Siqueira, editor; Victor Leonardo Barbosa, André Gomes Quirino, Charles Souza e o Wirley Almeida). Nesse primeiro episódio vamos discutir a relação entre a doutrina da salvação (soteriologia) e o pentecostalismo.


Ouça agora ou baixe o MP3 para ouvir mais tarde. 

No Soundcloud é possível baixar para ouvir depois.



No 4Shared clique no símbolo da "seta para baixo" para fazer o download do programa.




E fique a vontade para comentar. PS: Os dois textos mencionados pelo Wirley Almeida são: William W. Menzies – The Reformed Roots of Pentecostalism (link aqui) e Open Theism: An Arminian-Pentecostal Response (link aqui). E o livro mencionado pelo Gutierres Siqueira é: Cinco Perspectivas sobre a Santificação (Editora Vida) editado por Stanley Gundry.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Minha Escatologia

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Escatologia, substantivo feminino (datação 1873) 1. É a doutrina ou teoria sobre o fim do mundo e da humanidade 1.1 teologia: doutrina que trata dos eventos que envolvem o destino final do homem e do mundo 1.2 qualquer das diversas doutrinas cristãs concernentes à segunda vinda de Cristo à Terra, à ressurreição dos mortos ou ao Juízo Final. Etimologia: escato- (gr. éskhatos,ē,on 'extremo, último') + -logia (estudo). [Dicionário Houaiss]


A volta de Cristo é objeto de muitos debates teológicos entre várias escolas e tendências cristãs. E não há mal nenhum nisso. A existência de muitas controvérsias sobre esse tema só mostra a sua complexidade e sua grandeza perante as limitações da razão humana. Diante disso, quero aqui apresentar a minha escatologia. 

Uma escatologia perfeita é impossível de ser concebida e crida. Portanto, evite o excesso de dogmatismo quando o assunto é o "ainda não", o futuro, o além do presente. O farisaísmo judaico em parte rejeitou a Cristo porque esse não se encaixava na estrutura escatológica por eles criada. “Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa”, escreveu o irmão de Jesus (Tiago 4.14). Não podemos controlar o futuro e, muito menos, abraçar a escatologia como uma ciência exata. 

Não podemos perder tempo com especulações vazias. É desnecessário buscar informações sobre se essa ou aquela nação ficará aliada ao anticristo ou se tal e tal tecnologia será usada no final dos tempos contra os cristãos. Ora, devemos evitar essa fascínio pelo detalhamento do futuro. “Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade. Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” [Atos 1.7-8]. Essas foram as últimas palavras de Jesus antes de Ascensão aos céus. O que Jesus disse? Ora, literalmente que deixássemos a especulação de lado e trabalhássemos em prol do Reino de Deus sob o poder do Espírito Santo. 

Não devemos jogar fora o foco sobre o principal: Cristo voltará. Maranata! Não importa qual a linha escatológica você siga dentro da tradição cristã ortodoxa. Cristo simplesmente voltará. Muitos estão tão obcecados pela escatologia que até perderam o prazer no esperar o Senhor ansiosamente.

Maranata!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Posso orar ao Espírito Santo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Quem se inebria do Espírito está radicado em Cristo. (Ambrósio) [1]

Espírito Santo, ore por mim/ Leve pra Deus tudo aquilo que eu preciso/ Espírito Santo, use as palavras/ Que eu necessito usar, mas não consigo/ Me ajude nas minhas fraquezas/ Não sei como devo pedir/ Espírito Santo, vem interceder por mim/ Todas as coisas cooperam pra o bem/ Daqueles que amam a Ti/ Espírito Santo, vem orar por mim/ Estou clamando, estou pedindo/ Só Deus sabe a dor que estou sentindo/ Meu coração está ferido/ Mas o meu clamor está subindo. (Canção “Espírito Santo”)

Um leitor deste blog fez a pergunta titular deste texto. É uma questão interessante. Ela reflete uma consequência secular na teologia cristã ocidental que transformou o Espírito Santo num "deus desconhecido" e "sem um altar" ateniense ou romano para lembrá-lo e exaltá-lo. Somente em meados do século XX o Espírito Santo voltou para o debate teológico sob o incêndio do pentecostalismo. Antes disso as teologias sistemáticas ignoram a pneumatologia. E, infelizmente, a ignorância sobre o papel do Espírito Santo traz consequências para a Igreja até os nossos dias.

É bem verdade que nenhuma oração é dirigida ao Espírito Santo no Novo Testamento [2]. Agora, como poderíamos ser privados de orar a uma pessoa divina? Mas observe bem: quase, também, nenhuma oração é dirigida ao Filho [2 Coríntios 12.8-10, como exceção]. O padrão da oração é quase sempre a pessoa de Deus Pai. Todavia, a Trindade é a pluralidade de pessoas na unidade de um só Deus. Portanto, falar com o Pai, o Filho ou o Espírito Santo especificamente não é nenhum sacrilégio senão grande privilégio do cristão orante. Na comunhão da Trindade é possível falar com três pessoas. O escritor C. S. Lewis falou sobre essa comunhão única na oração com a Trindade: “Estou de pleno acordo em que a relação entre Deus e o homem é de índole mais particular e íntima do que qualquer outra relação possível entre duas criaturas da mesma espécie” [3].
Outro ponto importante: o louvor é uma espécie de oração. E na tradição cristã sempre se louvou ao Espírito Santo. Wayne Grudem lembra:

Muitos hinos em uso há séculos dão louvor ao Espírito Santo, tais como o Gloria Patri (“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito, como era no princípio, agora e para sempre, por todos os séculos. Amém!”) ou como a doxologia (“A Deus, supremo benfeitor, anjos e homens dêem louvor; a Deus, o Filho, a Deus, Espírito, glória dai. Amém”). Essa prática é baseada na convicção de que Deus é digno de adoração, e como o Espírito é plenamente Deus, Ele é digno de adoração. Tais palavras de louvor são uma espécie de oração ao Espírito Santo, e, se elas são apropriadas, parece não haver razão para pensar que outras espécies de oração ao Espírito Santo não sejam apropriadas [4].


Portanto, ao louvar o Espírito Santo se faz uma oração em reconhecimento por Sua divindade e Soberania, como não poderia ser diferente. O Espírito é Deus.

Espírito Santo, o nosso companheiro de oração

Agora, mais importante é entender que o Espírito Santo é o nosso companheiro de oração. Sim, como Deus Ele ouve a nossa oração na posição de Divino, mas também nos auxilia a falar bem com o Pai. A oração não é uma dádiva humana perante um deus insaciável de oferendas. Deus não é um ídolo e, portanto, de nada necessita. A oração é fluxo de comunhão entre o homem e a Trindade onde o Espírito Santo nos interpreta e interpreta o Pai para nós. A oração é, também, graça advinda do Espírito Santo. É Ele que nos ajuda a orar bem. “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’, a não ser pelo Espírito Santo” escreve o apóstolo Paulo [1 Coríntios 12.3] e continua:

Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus [Romanos 8. 26-27].

O ato de orar é um trabalho divino em nós. É um dom de Deus através da Pessoa do Espírito Santo. Como Karl Barth escreveu:

“Quando acontece de o homem obter liberdade tornando-se um ouvinte, responsável, agradecido, uma pessoa esperançosa, não é por causa de um ato do espírito humano,  mas somente por causa do ato do Espírito Santo. Portanto isto é, em outras palavras, um Dom de Deus. Isto tem que ver com um novo nascimento, com o Espírito Santo” [5].

Assim, encerro este texto com uma oração e um louvor ao nosso Deus na Pessoa do Espírito Santo: “Oh, Espírito Santo de Deus, ajuda-me! A minha vida de oração é cada vez mais fraca e diluída nas preocupações do presente século. Espírito Santo, me conduz a Ti. Conduza-me ao Senhor subjugando a minha carne e a minha própria vontade. A ti, Deus Soberano, limpa o meu ser do pecado maculador. Espírito Santo, me conduz nas águas refrigeradoras da comunhão com a Santíssima Trindade. Em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!”


Referências Bibliográficas:

[1] Aurélio Ambrósio (340-397), Pai da Igreja e bispo de Mediolano. Frase citada em: RATZINGER, Joseph. Escola de Oração: A Vida Interior e a Elevação da Alma. 1 ed. Campinas: Editora Ecclesiae, 2014. p 236.
[2] “É apropriado orar ao Espírito? Não existe em nenhuma parte das Escrituras um exemplo deste costume; visto, porém, que o Espírito é Deus, não pode ser errado invocá-o e nos dirigirmos a ele, se há uma boa razão para fazê-lo [...] e a oração ao Espírito será igualmente apropriada quando o que buscamos dele é uma comunhão mais íntima com Jesus...”. PACKER, James I. Na Dinâmica do Espírito. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1991. p 254-255.
[3] LEWIS, C. S. Oração: Cartas a Malcolm. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 17.
[4] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999. p 179-180. Na edição atualizada (2 ed/2010) essa nota não consta e o texto subsequente está entre as páginas 309 e 310.
[5] BARTH, Karl. Esboço de uma Dogmática. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. p 202.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Boas notícias de Belém!


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Na semana retrasada eu participei da 4° Conferência Graphe em Belém (PA) como palestrante. O evento é promovido por um grupo de jovens de uma congregação da Assembleia de Deus. Eu gostei da experiência por diversos motivos:

  1. É raro ver aqui em São Paulo uma congregação assembleiana onde a maioria da membresia é jovem. Aliás, eu nunca vi isso aqui em sampa. E vi em Belém. Há alguma atração de entretenimento? Não. É a Harpa Cristã, hinos conhecidos e um bom espaço para a pregação. É claro que essa congregação não reflete todas as Assembleias de Deus da cidade, mas só o fato de existir uma já me deixou feliz.
  2. É importante notar que a Assembleia de Deus, mesmo sendo uma igreja enorme e rica, quase não promove seminários teológicos. E ali em Belém um grupo pequeno de jovens resolveu quebrar esse gelo com recursos próprios para discutir a própria relevância do pentecostalismo como teologia e prática. Há muitos eventos nas Assembleias, mas pouca discussão teológica no seio das igrejas.
  3. Outro fato positivo é ver um evento teológico, ainda que pequeno no número de participantes, promovido inteiramente pela disposição de um grupo jovem. Isso mostra que é necessário mais força de vontade do que recursos para fazer alguma coisa relevante.
  4. Outro ponto positivo em Belém é ver que a maior parte dos assembleianos já não cultivam o atraso doutrinário dos “usos e costumes” institucionalizado. Embora seja visível uma forte influencia neopentecostal, especialmente na mídia assembleiana local, a superação desse debate sobre costumes é um avanço considerável.  
  5. Na cidade, que é onde nasceu a Assembleia de Deus brasileira, há um pequeno museu sobre o trabalho pioneiro dos missionários suecos e paraenses. Vale muito a pena visitar.  E próximo do museu há uma congregação que reproduz fielmente a fachada do primeiro templo assembleiano.
  6. E, também, não deixa de ser uma experiência rica conhecer o local das docas onde os missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren desembarcaram do navio Clement. A Estação das Docas, local de turismo na cidade, reproduz alguns objetos do começo do século XX. Portanto, é uma experiência que respira história.

E, por fim, a recepção dos belenenses deixou a viagem ainda melhor.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

“Fenômeno Religioso”, Experiências e Teologia Bíblica

É possível tolerar pelo pluralismo um fenômeno como este?
Por Victor Leonardo Barbosa

O conceito de “Fenômeno Religioso” está intimamente ligado ao estudo das Ciências da Religião e das Religiões Comparadas e, também, em alguns setores do estudo da psicologia. Assim, se trata de um termo técnico dado a qualquer manifestação de caráter supranatural nas expressões religiosas, ou seja, o “fenômeno” ocorre quando determinados indivíduos de uma crença fideísta passam por uma experiência com o transcendente ou “numinoso”, expressão utilizada pelo teólogo Rudolph Otto, ou o “real”, segundo o teórico das Religiões John Hick, ou seja, aquilo que vai além da natureza física ou atos naturais.

Cientistas da religião e psicólogos tentam utilizar o conceito para avaliar ou descrever as experiências religiosas. Em geral, esses acadêmicos utilizam conceitos da sociologia e outras disciplinas. A visão adotada é o ceticismo disfarçado de neutralidade ou, então, um agnosticismo espiritual: não se pode haver uma definição sobre o que trata o fenômeno em si, pois na visão de Hick, o “Real” é inexprimível e não pode ser conhecido, pois o que importa é o significado experimentado pelo ser humano no fenômeno [1] . A solução adotada por ele e outros é afirmar que todas as religiões e manifestações espirituais são válidas e, assim, promover o “diálogo”, o ecumenismo e pluralismo das religiões [2].

Ao fazemos uma análise do fenômeno religioso acontecido na igreja em Toronto (conhecido popularmente como “cai-cai”) que depois se espalhou para muitas igrejas, vemos que tal prospectiva entra em choque direto com a teologia e doutrina bíblica do cristianismo. É válido, por exemplo, justificar a “bênção de Toronto” como fenômeno do pluralismo pela “experiência real e subjetiva” do sujeito envolvido nessa histeria coletiva?

O cristianismo ortodoxo não prima simplesmente pela questão ética, mas pelo relacionamento com um Deus que se revela e se faz conhecido aos homens (1 Tm 3.16; Hb 1.1-2). A experiência cristã não é algo simplesmente subjetivo e indescritível. Por mais que o elemento emocional e subjetivo esteja intensamente presente, o cristão experimenta uma realidade revelada que abarca um entendimento da experiência espiritual (Lc 10.27, 1 Co 14.45). A experiência cristã tem como fundamento uma revelação sobrenatural, todavia registrada de maneira inteligível (2 Tm 3.16). Jesus Cristo é chamado de “Verbo” (do grego Logos, que pode significar discurso, palavra, lógica, etc.) e descreve um intelecto iluminado pelo Espírito Santo (1 Co 2.10-16). Na fé cristã a revelação julga e analisa a manifestação espiritual (1 Jo 4.1), sendo que há sempre um alerta bíblico para que o cristão não abandone sua capacidade de raciocínio diante da experiência.

Na reportagem veiculada pelo Domingo Espetacular acerca do “cai-cai” é possível ver pessoas agindo como animais, ou seja, seres que não possuem entendimento (Sl 32.9). A reportagem mostra inclusive uma mulher “uivando” enquanto imaginava que isso fosse algum dom dado por Deus. Tais manifestações espirituais são anti-bíblicas e perigosas, pois trazem uma espiritualidade alienada do Evangelho. Essas são manifestações que não encontram nenhum respaldo nos dons espirituais como mostrados no Novo Testamento. Pode haver consequências psicológicas sérias como traumas, culpa e desilusão. Dentre os indivíduos que saíram desse meio há o testemunho expressivo de uma cabeleireira que demonstra tristeza por ter participado do movimento e a preocupação dela pelos amigos ainda envolvidos da “bênção de Toronto”. Percebe-se na reportagem que há uma maturidade oriunda da Bíblia naqueles que abandonaram esse movimento.

Portanto, se conclui que uma análise através de uma “fenomenologia da Religião” do fenômeno do cai-cai é danosa para a teologia bíblica, pois não apresenta os pressupostos e padrões para avaliar e, muito menos, orientar sabiamente no parecer destas questões, pois mesmo Deus estando acima da razão e sendo Ele maior do que a limitação do homem, o que conhecemos é real e verdadeiro, e a adoração cristã envolve todo o ser humano, inclusive o intelecto, como afirma John Stott: “Nossa razão é parte da imagem divina na qual Deus nos criou. Ele é o Deus racional que nos fez seres racionais e nos deu uma revelação racional. Negar nossa racionalidade é, portanto, negar nossa humanidade” [3]. Por isso, só uma análise cristã pode entregar um correto veredito em tais manifestações.

Referências:
[1] Cf. ROCHA, Alessandro. Uma Introdução a Filosofia da Religião. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2010. p.16
[2] Uma excelente e concisa crítica a Hick se encontra no livreto escrito por Douglas Groothuis, “Todas as Religiões são iguais?”, in: GROOTHUIS, Douglas.  Todas as Religiões são Iguais?. Tr. Elias Santos Silva. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

[3] STOTT, John. Cristianismo Equilibrado. 3 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p. 22