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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Da atualidade do Antigo Testamento e do primitivismo dos pós-cristãos

Caim e Abel
Por André Gomes Quirino

Alguém já disse que acreditar em Deus ficou mais difícil depois que se inventou a energia elétrica. “Por que apelar a um ser supremo que começou a criar o mundo dizendo ‘Haja luz’ quando o homem pode fazer surgir luz diante de si no simples ato de apertar um interruptor numa parede?”, pergunta-se o homem moderno. A descrença é especialmente enfática quando se está diante do Antigo Testamento. Aos olhos modernos, as narrativas veterotestamentárias permeadas de sangue parecem demasiado impuras, não condizentes com o nosso ideal de boa religião. Entre cristãos, a descrença se atenua, mas permanece como seu resquício um desconforto. Temos dificuldade em pregar toda a Palavra inspirada (2 Tm 3.16), que inclui os escritos primitivos – destinados ao nosso ensino (Rm 15.4) –, para uma sociedade que se crê avançada o suficiente para superar as guerras passadas e futuras.

A solução para esse impasse não está em se enfiar o Antigo Testamento goela abaixo dos ouvintes, como costumeiramente se faz. De fato, a Lei se cumpriu em Cristo e, portanto, o Novo Testamento tem alguma prioridade em nossa devoção e nossa pregação. Mas, quando não se crê nem na Lei nem na sua consumação, que é Cristo, qualquer crença alternativa será um retrocesso em relação tanto a Cristo quanto à Lei. A crença moderna está fundada, essencialmente, no ser humano. Essa é a fé dos que se autodenominam “pós-cristãos”. Contudo, a fé no ser humano é não somente pré-cristã (e o prefixo “pré” aqui carrega, sim, um julgamento de valor, assim como “pós” em “pós-cristão”), mas também pré-hebraica.

Trata-se de uma crença ingênua. O ser humano mudou muito menos do que se imagina, desde a Antiguidade. O instinto violento que nos escandaliza no Antigo Testamento permanece em nós e, se, por um lado, construímos dispositivos legais que servem de alternativa à violência como resolução de conflitos na comunidade, por outro lado, quando esses dispositivos são insuficientes, a violência eclode com força redobrada. As duas grandes guerras do século XX dão mostra disso, e a nossa afetação de que aqueles foram episódios isolados, já devidamente superados, é sintomática. Agimos com cinismo, repetindo, como quem quer convencer a si mesmo, que tragédias como as do século passado não podem acontecer de novo, não aqui, não agora. No fundo sabemos que podem e, o que é pior, é por covardia que não o assumimos.

Precisamente aí reside a relevância do Antigo Testamento para a modernidade. As invejas, as brigas, as guerras que lemos na Torá não nos são estranhas, e ela não apenas escancara a natureza que está em nós e da qual erroneamente tentamos esquecer, mas, pelo fato mesmo de a expor, nos dá também uma lição de honestidade e coragem. Ao olhar hoje para cadáveres amontoados, com muita razão perguntamos onde está Deus. Os antigos também faziam essa pergunta, mas algo de essencial diferencia a atitude deles da nossa: eles esperavam pela resposta. “Onde está Deus?”, nas bocas modernas, tornou-se uma pergunta retórica. É para nós mesmos que a fazemos. Os antigos, que eram menos covardes, faziam-na ao próprio Deus – e, como vemos no Antigo Testamento, Ele a respondia.

O existencialismo, na modernidade, pensou ser o primeiro movimento do intelecto humano a se colocar diante da morte e encará-la. Mesmo um gigante como Shakespeare, interpretamo-lo como um pretenso redescobridor da roda, que, ao fazer Hamlet dizer, com uma caveira na mão, “ser ou não ser: eis a questão”, estaria enunciando uma preocupação tipicamente moderna. Na verdade, o questionamento de Hamlet – e Shakespeare certamente sabia disso –, embora novo na forma, é de um conteúdo tão antigo quanto a própria razão humana.

O homem moderno não é o primeiro a encarar a dureza e frieza de um cadáver que se decompõe. Outros já a encararam e, ao fazê-lo, reagiram mais sabiamente – conquanto não menos desesperadamente. O moderno dirige suas perguntas àquele que inventou a luz elétrica, chega mesmo perto de dirigi-las ao interruptor que está na parede de sua casa. Precisa aprender com a coragem e sinceridade do salmista que lamenta: “No Seol, ninguém te louva” (Sl 6.5), do piedoso que esbraveja: “Acaso tens tu olhos de carne?” (Jó 10.4) e dos judeus que repetidamente desabafam: “Por que o Senhor não escolhe outro povo?” É desconcertante dizê-lo, mas é necessário: a modernidade que pensa ter superado Deus não aprendeu ainda sequer a ofendê-Lo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Marina e a "profecia"

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Corre na internet uma "profecia" onde um pastor norte-americano diz que o Senhor levantaria uma "mulher segundo o coração de Deus" para levar o Brasil à prosperidade e à paz. Essa pregação, segundo a descrição do vídeo, teria ocorrido numa igreja brasileira nos Estados Unidos no ano de 2011. 

Bom, muitos evangélicos eufóricos viram em Marina Silva o cumprimento dessa "palavra profética" com toda as aspas possíveis.

Eu creio em profecias, mas eu não creio em ungidos políticos ou políticos ungidos. A democracia demanda a ausência de utopias e sacerdotes de ideologias, mesmo as ideologias religiosas. Não podemos aceitar uma teonomia e nem uma teocracia e muito menos um messianismo político. O Brasil não precisa de um Davi. O rei Davi era para a Antiga Aliança. O Brasil precisa de gente competente...

Bom, por que tudo isso é uma grande bobagem?

a) É muito comum em igrejas neopentecostais as ditas "palavras proféticas" sobre "um novo tempo no Brasil". Quem acompanhou a candidatura de Anthony Garotinho à presidência em 2002 viu uma série desses espetáculos. A diferença é que não existia viral de internet na época. Eu era um adolescente recém-convertido e muito ouvi em 2002 que Deus nos daria "um novo país" com o "primeiro presidente evangélico". Bom, além da bobagem mística em si, houve até mesmo um erro histórico, pois o Brasil já teve dois presidentes protestantes, respectivamente o presbiteriano Café Filho e o autoritário luterano Ernesto Geisel. A própria Marina Silva foi objeto de profecia de que seria presidente ainda em 2010, segundo mais uma trapalhada da “apóstola” Valnice Milhomens.

b) O Brasil não é Israel da Antiga Aliança. É até possível que um presidente seja reverente e piedoso, mas isso não é garantia de prosperidade e paz para uma nação. Havia uma relação entre o líder piedoso e o desenvolvimento do povo na Antiga Aliança, ou seja, entre Deus e Israel, mas a Antiga Aliança acabou enquanto que "a lei e os profetas duraram até João" (Lucas 16.16). Muitos evangélicos esquecem esse princípio elementar do cristianismo, ou seja, estamos em uma nova Aliança entre Cristo e o indivíduo e não entre Cristo e uma nação.

c) Marina é apenas mais uma candidata. Caso queria votar nela, vote pelas propostas e pelo projeto político. Não espiritualize a candidatura de Marina. É muito perigoso para a democracia uma candidatura espiritualizada por parte considerável da população. Na história antiga e moderna esse modelo híbrido entre política e “sujeitos ungidos”
nunca deu certo. "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, disse o próprio Jesus em Mateus 22.21. É necessário separar devidamente o Estado da Igreja.

Marina não é candidata ao ministério pastoral, mas sim à Presidência da República, portanto, trate-a como tal.

domingo, 17 de agosto de 2014

Assembly of God, 100 anos

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No último final de semana a Assembleia de Deus nos Estados Unidos (AG) comemorou cem anos e o Concílio Geral promoveu uma grande festa na cidade de Springfield (MO, Estados Unidos), a sede mundial dos assembleianos. O Rev. George Wood, presidente da organização, celebrou a grandeza da denominação e chegou a destacar que havia mais Assembleias de Deus pelo mundo do que lojas do McDonald's, uma analogia que no Brasil é apenas trocada pelos pontos de venda da Coca-Cola. Coreanos do sul, indianos, africanos e brasileiros com outras diversas nacionalidades fizeram parte da programação.

A AG não começou em 1911 como muitos pensam. A denominação com essa nomenclatura nasceu apenas em 1914 no acampamento de Hot Springs, Arkansas, como uma reunião formal de uma série de igrejas pentecostais independentes. Em seu bojo era uma formalização de igrejas congregacionais.  Havia, infelizmente, um forte componente de divisão racial, pois a AG nasceu como uma versão branca dos pentecostais americanos.

Bom, o que quero comentar neste post é sobre a festa em si e as diferenças que um simples evento pode transparecer sobre a coirmã brasileira.  Você também pode acompanhar os vídeos e reportagens das comemorações pelo site: 100.ag.org.

1) A festa foi bem organizada. Havia o momento certo para entrada de pastores e cantores, assim como havia um controle do tempo e das imagens no telão em sincronia com as falas. Isso me chama atenção porque o assembleianismo brasileiro não tem a cultura de organização. A maioria das nossas festas e eventos ainda são feitos na base do improviso. Não é incomum o dirigente de um culto não saber exatamente quem vai ou não cantar naquele momento, além disso, não há um planejamento se os diversos participantes não serão excessivos para o tempo disponível naquele culto.
2. Não há personalismo. Sabe aquelas placas em homenagens aos pastores-presidentes e aos convidados ilustres? Sabe aquela bajulação dos convidados pelo pastor anfitrião? Bom, não espere essa bobeira na festa americana.

3. Hinos bem escolhidos. De clássicos aos hinos contemporâneos você não vai ouvir aquele estilo triunfalista que tanta marca as nossas festas.

4. Legalismo não é a palavra de ordem, mas sim a contextualização. Por aqui, a contextualização anda algumas vezes um tanto desorganizada e o legalismo ainda impera.

5. Houve uma bela apresentação sobre direitos humanos. Aqui, quando se fala em política e sociedade, logo só se fala em eleições. É a nossa velha mania nacional de resumir a vida pública ao Estado.

Bom, de maneira geral a AG deveria ser um exemplo para a Assembleia de Deus brasileira. Não falo de cópia automática, mas sim sobre um perfil de uma denominação que conseguiu se desenvolver e superar muitos vícios comuns na nossa terra.

domingo, 10 de agosto de 2014

Deus desnuda nossa alma na angústia!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Este breve ensaio é a base para o esboço de um sermão pregado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras, São Paulo (SP) neste domingo.

[6] Aborreço aqueles que se entregam a vaidades enganosas; eu, porém, confio no SENHOR. [7] Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois consideraste a minha aflição; conheceste a minha alma nas angústias. [8] E não me entregaste nas mãos do inimigo; puseste os meus pés num lugar espaçoso. [Salmos 31.6-8 ARC]

[6] Odeio aqueles que se apegam a ídolos inúteis; eu, porém, confio no Senhor. [7] Exultarei com grande alegria por teu amor, pois viste a minha aflição e conheceste a angústia da minha alma. [8] Não me entregas-te nas mãos dos meus inimigos; deste-me segurança e liberdade. [Salmos 31. 6-8 NVI]


Introdução. Davi, segundo a tradição judaica, escreveu este salmo enquanto fugia da fúria do rei Saul. A vida de Davi não foi fácil, mas totalmente atribulada com problemas familiares, perseguições e a ácida consequência do próprio pecado. O teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) escreveu que a angústia nasce com o pecado, especialmente com o pecado hereditário, sendo a marca humana do vazio e do desespero. Essa foi uma verdade bem presente na vida do grande rei de Israel. Neste grande salmo destaco apenas um pequeno trecho onde o Davi angustiado condena a idolatria e o vazio dos ídolos que nada fazem na angústia e abraça com confiança ao Senhor diante das correntes do desespero.

Odeio aqueles que se apegam a ídolos inúteis. Embora o amor cristão seja paradigma para com todos, ainda assim o pecado alheio não deve ser tratado com apatia e benevolência. Odiar é um sentimento forte, mas também estava presente no meigo Jesus. Hoje, especialmente na teologia água com açúcar, Jesus é tratado como um hipster velho e bonachão, mas ao mesmo tempo sem nenhum pulso moral. É claro no texto hebraico que o ódio não é dirigido para uma abstração como a “idolatria”, mas para com os idólatras. Agora, como é possível cultivar ódio se o próprio Cristo nos ensinou a amar os nossos inimigos? A resposta está na “forma como uma pessoa fica nervosa e o motivo por que fica assim é uma pista real do que ela realmente é”, como bem escreveu John Eldrege [1].

Na literatura hebraica o ódio faz com frequência uma antítese ao amor (cf. 2 Sm 13.15; Sl 11.5; 26.5,8; 45.7, 8; 119.163; Pv 12.1; Ec 3.8 etc.). O ódio pode ser mera antipatia causada pela raiva e o rancor justificado ou não, mas também significa aquilo que deve ser repugnado. O ódio outras vezes é expresso na Bíblia como um amor secundário, em menor escala ou comparativo (cf. Dt 21.15 comp. Lc 14.26). Há também um tempo para a aversão (Ec 3.8). Por exemplo, em Provérbios 11.15 “servir como fiador” deve ser evitado com “ódio”. Mas estamos mal acostumados com a palavra portuguesa para ódio e esquecemos a amplitude desse termo na cultura hebraica e mesmo nos derivados latinos. Ódio nem sempre expressa desprezo raivoso. Assim como é possível amar as coisas erradas é possível odiar de maneira certeira. Ora, não foi esse o sentimento de Cristo diante dos cambistas? Ou você não sentiria repugnância diante de um pedófilo confesso? Caso a resposta seja não, talvez estejamos diante de um super-homem da misericórdia ou alguém cuja frieza da alma já não desperta nenhum senso de justiça. A repugnância correta é quando se aborrece o que Deus aborrece e, é claro, a começar em nossas próprias vidas (Sl 139. 21).

A ARC (Almeida Revista Corrigida) traduz o verbo odiar por aborrecer. A escolha é muito feliz porque etimologicamente aborrecer significa “afastar-se com horror”. Outras versões trabalham com o próprio Deus como o sujeito do verbo e não o salmista (exemplo: ARA, BJ, NTLH, Nova Vulgata, BVA). Porém, a maior parte das traduções protestantes colocam o salmista como sujeito principal (ARC, ARF, NVI, TB, BV etc.).

No Salmo 31.7, Davi apela para a sua inteira e simples rendição a Deus. Odioso para ele são aqueles que adoram imagens vãs, ao passo que, por outro lado, Davi se unirá ao Senhor. Os falsos deuses que são chamados de  הבלי־שׁו [vãos], ou seja, como seres sem ser, ídolos que não são de nenhum serviço aos seus adoradores e só decepcionam suas expectativas. O vazio dos ídolos aumenta o desespero dos homens. Provavelmente (como no Salmo 5.6) o termo hebraico שׂנאת [ódio] é para ser lido como nas traduções da LXX, Vulgata, Siríaco e versões árabes (Hitzig, Ewald, Olshausen e outros) [2]. No texto antes de nós, que não nos dá o corretivo Kerî como em 2 Samuel 14.21; 4.5, ואני ["Eu" em hebraico. Essa expressão não é um contraponto a afirmação anterior] não é uma antítese à afirmação anterior, ou seja, não é um contraponto ao ódio que ele sentia àqueles que se “apegam aos ídolos inúteis” (v. 6), mas faz parte da referida sentença que o precede imediatamente. A fé e a confiança do salmista em Deus não é uma antítese- um contraponto conectado- mas uma sentença independente. Ou seja, ele não adora a Deus porque odiava os ídolos inúteis, mas os odiava porque o amor era somente ao Senhor. A nossa fé não pode ser marcada pela antítese do mal, pois a conexão com o objeto do ódio nos torna identificáveis com ele.

Na oração de Jonas (2.8,9), por exemplo, esse contraponto é expresso pela frase hebraica משׁמּרים הבלי־שׁוא [ou seja הבלי - שׁוא, vaidades inúteis, são todas as coisas que o homem faz como ídolos ou objetos de confiança. הבלים são, de acordo com Deuteronômio 32.21, os falsos deuses ou ídolos.] como no presente versículo (v.6), e é utilizado no sentido de “observar”, “atentar” ao Deus verdadeiro em Oséias 4.10, e também em Provérbios 27.18. Na espera da ação divina está incluída, de acordo com o Salmo 59.10, a espera derivada da confiança. A palavra בּטח que denota fiducia fidei, expressão latina para "certeza de fé", é geralmente interpretado com בּ “aderir”, ou על de “repousar sobre”, mas aqui ele é combinado com אל de “pendurar em” alguma coisa. O enunciado no Salmo 31.8 expressão intenção. Olshausen e Hitzig traduzem como um enunciado optativo: “pode ser capaz de se alegrar”; mas isso, como uma continuação do Salmo 31.7, parece menos adequado. Certo de que ele vai ser ouvido, o salmista determina o manifestar da alegria agradecida pela misericórdia de Senhor, porque (אשׁר como “enunciado de ligação de causa e efeito” em Gênesis 34.27 ARC) Ele atentou (ἐπέβλεψε, Lucas 1.48) para sua aflição. Porque o Senhor conheceu e esforçou-se sobre angústias de sua alma. É lindo sentir e observar que o Senhor está a observar a nossa dor e a nossa angústia com uma atenção carinhosa e presente, mas que num primeiro momento se ouça nada mais do que silêncio e nenhuma resposta.

A expressão hebraica ידע בּ está presente em textos como Gênesis 19.33; 19.35; Jó 12.9; 35.15. Esses são textos denotam completa “falta de atenção”. "Não dá a mínima atenção" (Jó 35.15 NVI).; mas neste Salmo (v. 7) a expressão é mais significativa do que "saber de nada, nada notou, não deu atenção"; בּ é como ἐπι em ἐπιγιγνωσκειν usado na “percepção” ou “conhecimento abrangente”, ou seja, aquele que pega um objeto e toma posse dele, ou se faz mestre desse objeto. Isso mesmo, pois o Senhor desnuda a nossa alma para que a mesma seja plenamente conhecida no momento da dificuldade. Mas uma vez citando o teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard, logo descobrimos que a angústia transparece nossas ilusões: “A angústia é a possibilidade da liberdade, só esta angústia é, pela fé, absolutamente formadora, na medida que consome todas as coisas finitas, descobre todas as suas ilusões” [3]. Lewis, depois de uma intensa dor da perda, escreve:

Deus certamente não está fazendo uma experiência com minha fé nem com meu amor para provar sua qualidade. Ele já os conhecia muito bem. Eu é que não. Nesse julgamento, ele nos faz ocupar o banco dos réus, o banco das testemunhas e o assento do juiz de uma só vez. Ele sempre soube que meu templo era um castelo de cartas. A única forma de fazer-me compreender foi colocá-lo abaixo [4].

הסגּיר, Salmo 31.8, συγκλείειν, como em 1 Samuel 23.11 (na boca de Davi) é ser abandonado na mão de outrem que fecha as mãos sobre aquilo que lhe está entregue, ou seja, é um objeto que está completamente sob seu poder. Deus não permite que tão mal destrua com o salmista. Esse é o nosso bom Deus. Com Ele temos a segurança que a pior situação pode ser revertida e isso se chama fé.

מרחב, como em Salmos 18.19, cf. Salmos 26.12. Cujo significado é “um lugar amplo ou espaçoso” (ARC).  A liberdade e a segurança (NVI) representados em um “grande campo”. Na linguagem de Davi, onde a linguagem da Torá está permeada, Deuteronômio é mais especialmente ecoado (32.30; 23.16). É um contraponto ao próprio conceito de angústia que nos remete a algo apertado como um poço fundo e estreito.

Conclusão. Olhando o salmo em retrospectiva (versículo 5, por exemplo) vemos como ele lembra o sofrimento de Cristo na Cruz. Cristo sofreu a angústia de diante de um dia claro que fica escuro e tenebroso ao meio-dia e grita sobre o abandono de Deus e o Pai nada responde naquele momento. É a síntese da forma como muitas vezes nos sentimos, mas assim como Cristo foi confortado por um anjo [Lucas 22.43] nós termos a segurança que nunca, de forma alguma, somos abandonados por Deus mesmo que a circunstância aponte para um doloroso silêncio do Todo-Poderoso.  Assim como o Pai o Verbo emeduce” e a última expressão de Jesus é um suspiro. Assim, diante do silêncio de Deus nasce também o nosso reverente silêncio para ouví-lo no próprio silêncio, pois como escreveu Joseph Ratzinger: “Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam” [5]. Deus em Cristo Jesus é bom, e isso basta!

Referências Bibliográficas e Notas:

[1] ELDREDGE, John. Um Mestre Fora da Lei. 1 ed. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013. p 151.

[2]  A exegese do hebraico em parte foi consultada pela obra clássica Keil and Delitzsch Commentary on the Old Testament de Karl Fredreich Keil (1807-1888), um famoso exegeta protestante alemão.

[3] KIERKEGAARD, Søren. O Conceito de Agústia. 1 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2011. p 169.

[4] LEWIS, C. S. A Anatomia de uma Dor: um luto em observação. 1 ed. São Paulo: 2007. p 71.

[5] RATZINGER, Joseph. Escola de Oração. 1 ed. Campinas: Editora Ecclesiae, 2014. p 193.

domingo, 3 de agosto de 2014

Minhas impressões sobre a Times Square Church e a Redeemer Presbyterian Church

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No último domingo tive a oportunidade de visitar duas igrejas que há muito eu desejava conhecê-las. A primeira é a Redeemer Presbyterian Church liderada pelo teólogo e pastor Timothy Keller. A outra é a Times Square Church, uma igreja pentecostal independente fundada pelo Rev. David Wilkerson, morto em 2012 num acidente de carro. Os pastores Keller e Wilkerson influenciaram e influenciam a forma como penso a fé cristã hoje, mesmo que ambos sejam de ministérios tão distintos. E creio que influencie muitos dos que estão lendo este texto. O que quero compartilhar como vocês são as minhas impressões, pois uma coisa é você ler e ouvir falar dessas igrejas, mas outra coisa completamente diferente é participar dessas igrejas, mesmo que seja apenas de um culto.

Times  Square Church

Arquitetura. A congregação fica no coração de Nova York. É locada em um antigo e lindo teatro na esquina com a famosa praça cheia de telões de LED e propagandas chamada Times Square. Apesar dos prédios pós-modernos ao redor, o antigo teatro é de arquitetura clássica. A típica iconoclastia protestante não afetou Wilkerson que manteve os belos desenhos de cenas religiosas no teto da igreja. Aliás, isso em si já diferencia algumas igrejas em São Paulo que usam prédios históricos (antigos cinemas e teatros, por exemplo) e normalmente redesenham segundo um péssimo gosto arquitetônico. E, também, supera o medo que existe em nossas igrejas pentecostais brasileiras de colocarem símbolos tradicionais como a cruz ou desenhos que representam cenas bíblicas. Na tradição cristã sempre houve a consciência que a arquitetura de um templo é mais uma forma de comunicação e didática. Não é à toa que o Templo de Salomão de Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) seja uma réplica do antigo templo de Israel, pois tal fato mostra muito da mensagem que aquela igreja quer passar. No caso da IURD é o reforço da hermenêutica dependente fortemente do Antigo Testamento sem a mediação do Novo Testamento. Assim, fica mais fácil em falar tanto em sacrifícios, ofertas, prosperidade e desenvolver uma teologia da retribuição.

Na Times Square Church diante do
quadro "nossos fundadores"
Louvor e diversidade étnica. A música é contagiante e fortemente influenciada pelo tradicional black gospel. Isso mesmo, uma igreja fundada por um casal branco, mas como forte conotação do soul (ou spirituals) gospel. Pra mim foi uma experiência nova cantar empolgadamente esse tipo maravilhoso de som. Fiquei feliz de ver essa diversidade de "povos". Inclusive, o tema da igreja é Apocalipse 7.9: "Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas". Sabemos que a história americana é marcada pela segregação e ainda hoje é raro ver um casal "misturado". Além disso, há inúmeras igrejas que são majoritariamente negras e outras brancas e ainda outras latinas. No coral da Times Square Church cantam negros, brancos, hispânicos e sino-americanos. Os pastores também refletem essa diversidade étnica. É um exemplo para a igreja norte-americana. 

Bom, esse comentário pode parecer bobo para você que conhece apenas a nossa realidade brasileira. Aqui não houve segregação institucionalizada como nos Estados Unidos e na África do Sul logo após o fim da escravidão. O que houve e há são casos de preconceitos individualizados, mas isso é bem diferente de uma prática institucionalizada que até separava igrejas, o bebedouro, o lugar no ônibus etc. de brancos e negros.

Pregação. Gostei especialmente da pregação. A retórica do pastor David Ham era agradável de ouvir, ou seja, nem escandalosa e nem como quem fala a um grupo de freiras. Agora, o conteúdo da mensagem, que é o mais importante, veio muito bem. No começo até fiquei preocupado pois o tema era "sobre ter coragem” e na hora pensei que pudesse ser mais uma pregação terapêutica e de autoajuda. Não era nada disso. De fato, era uma exortação para ser corajoso na vida diante da tentação da covardia, mas o tempo todo o pregador destacava que a base de nossa coragem não era a nossa própria vontade, mas a cruz de Cristo. Ou seja, era mensagem prática, mas cristocêntrica. Assim, vi que o legado de Wilkerson acabou por deixar uma congregação bem discipulada onde é possível associar uma mensagem para encorajamento sem cair no moralismo terapêutico de autoajuda. Na verdade, o tema do sermão que era Take Courage In Jesus (algo como “tome coragem em Jesus”) já destacava o papel central de Cristo.


Redeemer Presbyterian Church


O nível de organização dessa igreja me deixou impressionado. Primeiro, diferente das igrejas presbiterianas no Brasil que estão cada vez mais influenciadas pela ideia de liturgia puritana, essa igreja sabe discernir o público e não sacraliza a liturgia sob o engessamento de um "princípio regulador", mesmo sabendo que toda liturgia cristã deve ter uma regulação central, ou seja, a glorificação exclusiva de Cristo Jesus. 

Há dois cultos no domingo. No primeiro chamado "clássico", logo cedo, o louvor é “antigo”, os instrumentos idem e a música predominante é dos hinários. O pastor prega de terno e gravata. Logo, o público costuma ser mais velho. Eu, porém, participei do segundo culto que é chamado de "contemporâneo". Nele, o louvor está mais para Hillsong (não confunda Hillsong United, que são grupos diferentes) e, também, são cantadas músicas clássicas, mas com nova roupagem musical. Inclusive, realizei o desejo de cantar com a congregação a clássica canção Amazing Grace (Maravilhosa Graça). 

Outro fato interessante: a estrutura da liturgia, incluindo inclusive trechos do sermão, são disponibilizados no site da igreja e muitos dos membros já levam o boletim impresso ou nos tablets e smartphones. Aliás, os jovens faziam inúmeras anotações de um sermão que era exposto com aula de universidade americana, ou seja, lido em muitas partes para o público. 

Apesar de sempre ouvir que a Redeemer Presbyterian Church é um exemplo de inclusivismo étnico, na verdade, como disse acima, vi isso melhor na Times Square Church. Agora, há sim uma tentativa de diversidade e como exemplo um dos hinos cantados foi em espanhol por um hispânico. 

A pregação foi boa. Era sobre a alegria de Cristo em meio ao sofrimento. Quem acompanha os neocalvinistas sabe que é uma mensagem recorrente e fortemente influenciada pela obra de John Piper com "A Teologia da Alegria".  A pregação ficou a cargo do Rev. John Lin, um jovem líder e pastor da igreja no centro de Nova York. 

Conclusão

Ainda me impressiona o poder de renovação da igreja norte-americana e, por isso mesmo, essa não deixará tão cedo de ser uma inspiração para o nosso ministério no Brasil. Além disso, é mais uma prova que a riqueza econômica de uma nação não matará a sede espiritual de nenhuma pessoa. Felizmente, nem só de mazelas teológicas e decadência vivem nossos irmãos do norte.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Mitos e Verdades Pentecostais

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O meu colega Rodrigo Bibo de Aquino comanda o BiboTalk, um ótimo podcast de teologia. No último episódio há uma conversa sobre “os mitos e verdades sobre o pentecostalismo”. Nesse bate-papo participam o próprio Bibo, o pastor Geremias do Couto e eu, Gutierres Fernandes Siqueira. Vale a pena baixar esse e outros episódios.

Ouça agora ou faça o download dessa conversa neste link.