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sábado, 26 de novembro de 2016

Quem disse que todo mundo fala em línguas no culto pentecostal?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Eis um dado interessante e pouco conhecido: 50% dos pentecostais brasileiros e 49% dos pentecostais norte-americanos afirmam que nunca falaram em línguas, segundo pesquisa realizada em 2006 pelo respeitado instituto Pew Research Center. Creio, sem muita dúvida, que dez anos depois esse número deve ser ainda maior. Quem não fica surpreso com esses dados?

Se, de um lado o dado é preocupante e fortalece a tese que vivemos um crescente pós-pentecostalismo entre os próprios pentecostais, do outro lado mostra como há uma série de estereótipos que nada informam sobre a vivência do pentecostalismo histórico no Brasil, especialmente o experimentado nas Assembleias de Deus.

Quem olha de fora parece contemplar um grupo homogêneo onde em cada culto há sempre manifestações abundantes de glossolalias e outros carismas espetaculares. Não é assim. Sou membro das Assembleias de Deus há 15 anos e posso afirmar que muitos ficaram surpresos como quão formal e previsível é o culto assembleiano. E, também, como a maioria dos membros sequer abre a boca durante o culto.  

É claro que desejo que todo pentecostal fale em línguas, pois isso é bíblico. É claro que desejo um culto com o verdadeiro fervor e vida do Espírito. Mas o que quero enfatizar nesse texto é que o pentecostalismo não pode ser estereotipado por uma ou outra experiência. O conhecido barulho sempre foi produzido por uma minoria. O chamado “reteté”, que é uma distorção do verdadeiro fervor, é também uma invenção dos anos 1990 e sempre teve a aderência de membros bem agitados e de destaque, mas minoritários. Ouça e veja os pastores mais antigos das Assembleias de Deus e você poderá observar que a moda de impostar a voz é outra invenção dos anos 1990.

A antiga liturgia assembleiana é ordeira. É uma liturgia, especialmente nas igrejas maiores, com corais, orquestras e hinos clássicos da Harpa Cristã. Mas não é assim que somos conhecidos, infelizmente. Somos conhecidos quase que como anárquicos. Somos conhecidos pelo o que aparece na mídia ou entre pregadores famosos. É estranho para quem vive há muito tempo numa Assembleia de Deus ver que a sua igreja é retratada como um lugar onde só há pessoas do “manto” e do “sapatinho de fogo”. Eu sempre vi que o povo do “manto” era e é uma minoria no nosso meio. Mas, infelizmente, eles conseguiram associar a imagem da denominação a esse movimento bizarro do “reteté”. Ora, se fosse pelo menos dons espirituais, estaríamos de acordo, mas na maioria das vezes não passa de emoção produzida pelo homem.

Lembro a primeira vez que entrei numa Assembleia de Deus, talvez ainda com seis ou sete anos de idade, e me deparei com uma cena um tanto formal.  Ali tinha um grupo de pessoas vestidas socialmente com hinários nas mãos. Estavam todos acompanhando o ritmo ditado por uma pequena orquestra. O templo era médio e talvez tivesse mais de 150 pessoas naquele espaço. Havia uma empolgação, uma alegria, mas ninguém pulava e ninguém dava cambalhotas; ninguém fazia aviãozinho. Lembro-me do rosto do pastor até hoje. Era o rosto de um homem sisudo, de meia idade, muito sério. Acho que ele não contava piadas no púlpito e nem dava pulos. E havia muita oração. E, como criança que era, saí dali com sono diante da formalidade típica e clássica do culto assembleiano. Por outro lado, há quem nunca tenha entrado numa Assembleia de Deus, mas é capaz de sempre divulgar na internet que o nosso culto é manto pra lá e sapatinho de fogo pra cá.

Veja um exemplo abaixo da liturgia clássica assembleiana. O vídeo é da Assembleia de Deus no bairro Vila Carrão, São Paulo (SP).




domingo, 13 de novembro de 2016

O moralismo e o amor romântico


Por Gutierres Fernandes Siqueira

A ética está na moda. Quase todo universitário tem aulas de ética. O aluno aprende ética na administração, ética na comunicação, ética nas ciências econômicas etc. Aliás, desde o primário a pedagogia contemporânea assumiu para a si a “missão de formar cidadãos éticos”. As empresas também estão preocupadas com a transparência, com o ambiente saudável e com as boas práticas de gestão e, também, hoje as maiores corporações possuem departamentos de compliance, uma espécie de garantidor de padrões morais.

Todavia, a ética na sociedade contemporânea não tem como base primária a fé, mas a razão. Algo é moral porque é racional e traduz o bom convívio em sociedade. Na verdade, há uma variedade de bases para a ética contemporânea, até mesmo a utilidade e o sentimento. Eu passo a ser ético não porque abraço um mandamento divino, mas sim porque uso sacolas biodegradáveis e deixo de comprar madeira sem certificação ambiental. Como lembra John Stott, essa é uma ética circunstancial[1]. Essa ética, embora os seus postulantes relutem em admitir, é fraca, cede a acordos e pressões, e busca continuamente o prazer próprio em detrimento do outro.   

O protestantismo afirma a “salvação pela fé somente”. A colocação das obras em segundo plano, na teologia protestante, não é chancelada para uma vida dissoluta e depravada. Todavia, há uma distância enorme entre a teoria teológica e a própria psicologia social do indivíduo. Assim, é fácil entender porque muito se vive essa tensão entre moralidade interior e exterior em ambientes evangélicos.

Jesus não veio propor uma nova moralidade. Aliás, como lembra Peter Kreeft, “não existe essa coisa de nova moralidade, existem apenas novas imoralidades” [2]. Jesus veio, na verdade, mostrar a insustentabilidade de uma vida pautada na moralidade. Jesus declarou: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5.20). Jesus se apresenta como o único capaz de cumprir a lei (cf. Mateus 5.17, 19. 16-30).

O moralismo e o amor romântico vulgar

O moralismo contemporâneo é marcado pelo sentimentalismo como paradigma ético. É um romantismo vulgar cujo lema pode ser resumido na sentença “o amor vence”. Assim, esquece-se da grande lição de C. S. Lewis: o amor também pode ser um ídolo, um verdadeiro demônio. Não há amor saudável onde o sujeito está desassociado de Deus. Não sei se os primeiros românticos reagiriam bem aos seus contemporâneos que são marcados por uma visão de mundo altamente moralista. São como um pelagianismo moderno onde as obras e a bondade humana continuam a salvar. Na teologia, esses teólogos colocam o amor como uma marca superior de Deus, mas Deus não tem atributo superior porque em tudo Ele é pleno.

O amor de Deus é hoje o tema central da teologia contemporânea. Outrora temas como fé e esperança estavam no bojo dos teólogos. Mas, especialmente no começo do século XXI, o amor assumiu a dianteira. O teólogo Kevin J. Vanhoozer lembra bem que a teologia contemporânea define o amor de Deus segundo termos da cultura moderna: empatia, compaixão, mutualidade, solidariedade, inclusividade. Vanhoozer escreve: “a cultura, junto com a história das ideais, no entanto, continua em marcha” [3]. No entanto, o real problema da teologia contemporânea é eleger o amor como um atributo divino que embarca os demais.

É necessário lembrar que a grandeza do amor de Deus torna a realidade do pecado ainda mais delicada e terrível. O pecado não é meramente um deslize perante regras de conduta, mas é a quebra de uma aliança, de um relacionamento. Na frente de uma placa proibitiva eu posso exclamar com as mãos na cabeça: “puxa vida, eu estacionei na vaga de idosos”, mas, ora, a essa placa falta pessoalidade; a placa não me ama, a placa é seca e impositiva. Todavia, sob a sombra da bondade de Deus o pecado é uma alienação e uma rebelião transformada em uma força ainda mais egoísta, mesquinha e cruel.  A própria realidade do amor divino expõe o mal com mais claridade. Há alguns séculos o grande teólogo norte-americano Jonathan Edwards (1703 -1758) pregou o famoso sermão “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado”. O título certamente é propositadamente chocante, mas as implicações de “pecadores nas mãos de um Deus amoroso” são ainda mais fortes. Ofender alguém iracundo não soa moralmente ofensivo quanto se rebelar contra quem oferece a outra face.  O apóstolo Pedro lembra em seu sermão um paradoxo da crueldade diante do amor: “matastes o Príncipe da vida” (Atos 3. 15) recoando a parábola dos lavradores maus (cf. Mateus 21. 33-45) e, mostrando assim, como a depravação aumenta diante do amor exposto. Esse aumento não é qualidade ou em quantidade, mas em transparência. 

Portanto, longe da pregação sobre o amor de Deus ser leniente com o mal, muito pelo contrário, a exposição sobre o amor de Deus é a melhor maneira de denunciar o mal. Se isso não acontece é porque o “amor divino” exposto em púlpitos e cátedras universitárias está mais parecido com uma versão vulgar de romantismo ingênuo e desconectado com a realidade.



[1] STOTT, John. As Controvérsias de Jesus. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2015. p 112.
[2] KREEFT, Peter. Jesus: o Maior Filósofo que Já Existiu. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009. p 99. O título da edição brasileira é infeliz e dá a ideia de ser um livro de autoajuda. O título original é The Philosophy of Jesus (A filosofia de Jesus).
[3] VANHOOZER, Kevin J. Teologia Primeira: Deus, Escritura e Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2016. p 97.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Você é um cristão ateu?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há poucos meses uma pastora da Igreja Unida do Canadá anunciou que não acredita em Deus. Mas, apesar da confissão cética, a reverenda Gretta Vosper permanece como membro da igreja canadense. Estranho, não é verdade? Todavia, não é nenhuma novidade. Na década de 1960 já existia nos Estados Unidos um forte movimento chamado “Deus está morto” que tinha como expoentes os teólogos Thomas Altizer (1927 -), Paul van Buren (1924 - 1998), William Hamilton (1924 –2012) e Gabriel Vahanian (1927- 2012). O mais proeminente nome até os nossos dias dessa teologia é, no entanto, o professor aposentado de Havard e teólogo Harvey Cox (1929-), ainda que ele nunca tenha reivindicado o pertencimento ao grupo. O movimento ficou conhecido como Teologia Radical e contou com a simpatia de teólogos liberais como Rudolf Bultmann (1884 – 1976) e Paul Tillich (1986- 1965)[1].

Embora não fosse um grupo homogêneo nem no entendimento do que seria essa tal “morte de Deus”, esses teólogos primavam pela apresentação de um cristianismo secularizado, ou seja, que falasse a língua do homem desencantado e desprovido de espiritualidade. Por exemplo, William Hughes Hamilton dizia que o teólogo contemporâneo não possui nem fé nem esperança, mas, no entanto, restava a ele o amor. A missão do homem moderno, segundo Hamilton, seria imitar Jesus em atitudes de compaixão, pois a “salvação” estava nas manifestações de caridade para com o próximo. O amor não só “vence” como “salva” na teologia negativista de Hamilton. Esse teólogo, apesar de sua vasta erudição, só não entendeu o que os mais simples cristãos já tinham entendido: não é possível um amor verdadeiro desprovido de fé e esperança. As três virtudes teologais (1 Coríntios 13. 13) são inseparáveis, ainda que o amor seja a principal delas. O amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13.7) só pode ser realmente sustentável juntamente com a esperança e a fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Só mesmo quem acredita que “Deus está morto” é capaz de produzir uma teologia tão manca.



A Teologia da Morte de Deus se apresenta também como uma variante da Teologia da Libertação. Na teoria, essa crítica teológica se propõe a revolucionar o mundo diante das estruturas de injustiça social e inércia dos homens religiosos. Todavia, esse “humanismo cristão” não se comunica com o homem comum. Esse tipo de teologia é a típica reflexão advinda de ambientes prósperos. Todos esses teólogos estudaram ou lecionaram em universidades de ponta. Jamais uma “teologia da morte de Deus” nasceria na periferia do mundo entre os crentes mais pobres da nossa época. É uma teologia provinciana, por assim dizer, porque tal desejo de mergulho no mais profundo secularismo moderno não é compartilhado pelo homem religioso das vilas e favelas ou dos campos e florestas. O desencantamento do mundo nunca foi expresso pelos mais pobres, mas muito pelo contrário, os mais desvalidos continuam em busca do encanto, da magia, das superstições e das religiões institucionalizadas ou não.  

Ao mesmo tempo em que uma teologia que propõe a morte de Deus é um absurdo lógico, bíblico e eclesiástico, também é necessário afirmar que nem sempre a negação de Deus é um processo intelectual. O Deus da Bíblia é - como certa vez afirmou Dietrich Bonhoeffer- um Deus “se deixa empurrar para fora do mundo”[2]. Ou seja, Deus, em sua soberania, permite que o homem busque o seu próprio espaço ao ponto do Senhor entregá-lo “às concupiscências do seu coração” (Romanos 1.24). É como se o Todo-Poderoso dissesse: “ok, viva a sua vida, se é assim que você deseja!”. Outro exemplo eloquente está no profeta Oseias, pois Yahweh informa a Israel sobre um pesado juízo: “Não sois o meu povo e eu não existo para vós” (Oseias 1. 9 TEB). O pecado de Israel era tamanho que ainda que houvesse uma profissão cúltica de fé, simplesmente Deus já não mais existia entre eles.

O homem aprofundado no pecado é um ateu prático. Ele não diz que “Deus não existe” ou “que Deus está morto”, mas vive como se essa fosse a verdadeira realidade. Quando Deus não faz nenhuma diferença na nossa vida vivemos um ateísmo real. Quando dizemos que somos cristãos e não oramos; ou quando dizemos que cremos em Deus, mas não na Igreja; ou ainda quando dizemos que Deus existe, mas da “minha vida cuido eu” etc., ora, tudo isso manifesta do nosso ateísmo factual. Quando cremos realmente em Deus isso reflete em nosso dia a dia obrigatoriamente. Viver vivenciando Deus é viver “sob a realidade da verdade que não é nosso produto, mas nossa soberana. [É] viver sob a direção da justiça que não só pensamos, mas que é poder e nos determina a nós mesmos. [É] viver sob a responsabilidade do amor que espera por nós e nos ama. [É] viver sob a exigência da eternidade...”, como escreveu Joseph Ratzinger[3].




[1] Altizer, por exemplo, foi aluno de Tillich.
[2] BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão. 1 ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2003. p 488.
[3] RATZINGER, Joseph. Dogma e Anúncio. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008. p 386.

domingo, 30 de outubro de 2016

A Reforma Protestante não tem dono!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há um crescente movimento nas redes sociais onde se julga quem tem a devida legitimidade ou não de comemorar a Reforma Protestante. Alguns possuem critérios tão rígidos que até o próprio Lutero seria impedido de celebrar a data. A Reforma Protestante é um momento histórico que produziu uma nova lógica na relação do homem com Deus: a graça de Cristo voltou a ser devidamente cultivada. Logo, ela não é propriedade de um grupo. É um princípio que está além de uma denominação ou vertente teológica. O cerne do pensamento reformado certamente está em cinco expressões latinas: Sola fide (somente a fé), Sola scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola gratia (somente a graça) e Soli Deo gloria (glória somente a Deus).

Essa bandeira de “propriedade da Reforma” normalmente é levantada pelos irmãos calvinistas, logo porque o calvinismo brasileiro se apresenta no debate teológico como extremamente sectário. É raro ver por aqui um calvinista que aprecie outras tradições cristãs, mesmo primando pela sua própria tradição, como podemos contemplar em teólogos estrangeiros do calibre de Alister McGrath e James K. A. Smith.  Aliás, Smith é um raro confessional que rejeita a apropriação do termo “reformado” como sinônimo de calvinismo. Em tom de conselho Smith escreve:

Querido Jesse: O quê?! Você começou a achar que ser “calvinista” não é necessariamente sinônimo de ser “reformado”? Bem, então meu trabalho aqui já está feito. Mas você está certo, e me sinto encorajado por você ter colocado desta forma: “reformado” talvez não se reduza a “calvinismo”, nem mesmo “calvinismo” se reduza a soteriologia ou a uma fixação na TULIP. Tampouco “reformado” pode ser compreendido numa única doutrina como soberania ou eleição ou, ainda, a glória de Deus. Aliás, espero que você tenha percebido que não pretendo resumir o calvinismo ou a tradição reformada a algum ponto específico, doutrina ou ideia. Venho tentando enfatizar que a Reforma — e, por isso, a tradição reformada — foi um amplo e complexo movimento de renovo que teve implicações não apenas para a doutrina da salvação, mas também para a eclesiologia, para a adoração, para o discipulado, e até mesmo para um engajamento cultural no mundo e para o mundo. Calvinismo é menos parecido com uma roda presa a apenas um eixo e mais semelhante a um jardim cuidado por um Jardineiro que deseja ver milhares de flores desabrochando. Não é uma doutrina fundamental, mas uma visão ampla.[1]

Mas o pentecostalismo pode ser visto como uma derivação da Reforma de Lutero? É claro que sim. O pentecostalismo surge no seio do protestantismo anglo-saxão e não no catolicismo romano ou ortodoxo e, observem bem, isso não é à toa. O protestantismo permitiu cada semente do pentecostalismo. Aliás, o pentecostalismo é um reavivamento da “descoberta protestante”, para usar uma expressão do historiador Richard Stauffer. Alguns elementos importantes como a oposição à escolástica, a autoridade da Bíblia, o sacerdócio universal de todos os crentes, a crítica ao magistério e a rejeição dos sacramentos estão bem presentes do início e no desenvolvimento do pentecostalismo.

Penso que existe apenas no fundamentalismo atrasado de certo calvinismo nacional a discussão se o pentecostalismo é ou não filho da Reforma. E talvez entre alguns norte-americanos também. Enquanto isso, o teólogo Alister McGrath não tem dificuldade de definir o pentecostalismo como uma continuidade da Reforma. McGrath escreve:

O pentecostalismo deve ser entendido como parte de um processo protestante de reflexão, reconsideração e regeneração. Ele não é consequência de uma “nova Reforma”, mas o resultado legítimo do programa contínuo que caracteriza e define o protestantismo desde seu início. O pentecostalismo, como a maioria dos outros movimentos do protestantismo, fundamenta-se no que aconteceu antes. Seu igualitarismo espiritual é claramente a redescoberta e a reafirmação da doutrina protestante clássica do “sacerdócio de todos os crentes”. Sua ênfase na importância da experiência e na necessidade de transformação remonta ao pietismo anterior, em especial, como desenvolvido na tradição de santidade. Contudo, o pentecostalismo uniu e casou essas percepções em sua própria percepção distintiva da vida cristã e de como Deus é encontrado e anunciado. Ele oferece um novo paradigma de autoexpressão para o protestantismo, antes, considerado marginal e levemente excêntrico pelos crentes da corrente principal; cem anos depois, o pentecostalismo, cada vez mais, passa, ele mesmo, a definir e a determinar essa mesma corrente principal. [2]

Como pentecostais somos filhos da Reforma de Lutero. Sem o "princípio protestante", para usar a famosa expressão de Paul Tillich, o pentecostalismo seria simplesmente impossível. Mas também somos filhos do pietismo de Philip Jakob Spener, do puritanismo de Jonathan Edwards, do wesleyanismo de John Wesley, do mileniarismo de John Nelson Darby, do biblicismo conservador da Aliança Evangélica, da missiologia de Albert Benjamin Simpson, etc. Somos a soma de várias tradições e, consequentemente, podemos celebrar a Reforma com entusiasmo. A Reforma não tem dono porque ninguém pode registrar um avivamento divino em algum cartório como sua propriedade exclusiva. Ou será que esqueceram que o protestantismo não tem papa - seja humano ou institucional? Somente a Deus a glória!







[1] SMITH, James K. A. Cartas a um Jovem Calvinista. 1 ed. Brasília: Monergismo, 2014. p 119, 120.
[2] McGRATH, Alister. A Revolução Protestante. 1 ed. Brasília: Editora Palavra, 2012. p 428.