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domingo, 28 de setembro de 2014

Conferência Graphe 2014

Caros amigos de Belém (PA) e região.

A Conferência Graphe 2014 está próxima. É agora entre os dias 16 a 18 de outubro. Eu, Gutierres Fernandes Siqueira, darei duas palestras. A primeira será sobre "Donald Gee e o equilíbrio bíblico" e a segunda "Liturgia Pentecostal- A pregação e os dons de um culto pentecostal".


Endereço: Rua Antônio Barreto n° 1016, entre as ruas Alcindo Cacela e 14 de Março. Bairro Reduto, Belém (PA). É na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, congregação Antônio Barreto II.


A organização do evento é feita por uma equipe de jovens em Belém, entre eles o nosso colunista Victor Leonardo. É uma ótima iniciativa para promover um pentecostalismo sadio.


Participe. E que Deus seja glorificado!


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domingo, 21 de setembro de 2014

Por que historicamente a Assembleia de Deus abraçou o legalismo?

AD em Recife. Ainda um pedaço de resistência legalista.
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Graças a Deus, hoje a Igreja Evangélica Assembleia de Deus não é mais um exemplo negativo de legalismo nos usos e costumes. Especialmente na última década houve mudanças significativas nos costumes assembleianos. É verdade que ainda há alguns bolsões, especialmente em cidades pequenas, onde o “pecado” é identificado com o “grave erro” de tomar banho na praia (!) ou assistir o Jornal Nacional. Todavia, hoje de maneira geral o assembleiano não teme o teatro e o cinema, a maquiagem e o jeans, o rock e o jazz, a teologia e a filosofia etc.

Mas, então, como nasceu essa maldição legalista no seio assembleiano? A explicação é dupla: o pietismo e a pobreza.

O pietismo. Os missionários fundadores das Assembleias de Deus, assim como outros nomes que reforçaram o evangelismo e ensino nessa denominação, tinham formação batista pietista.  Historicamente,  o pietismo foi importante para reagir ao exagerado escolasticismo luterano ainda no final do século XVII. O escolasticismo pecava pelo cunho excessivamente racionalista e pouco preocupado com a espiritualidade. Porém, o antídoto pietista logo abraçou o seu próprio exagero espiritualista. O pietismo é uma visão de mundo, aliás, uma visão sem mundo, pois o mundanismo é confundido com o próprio mundo. Entenderam? Bom, no fundo o pietismo é acético, antipolítico e algumas vezes um tanto gnóstico, pois o mistério assume um papel tão revelante quando a verdade revelada. Além, é claro, do forte legalismo.

A pobreza. A pobreza favorece o legalismo. Ora, é fácil condenar os costumes e os valores da classe média quando você não faz parte dela. Isso não vem de hoje. Na obra monumental de Edward Gibbon A História do Declínio e Queda do Império Romano, o historiador britânico comenta que no início do cristianismo a censura do luxo era uma constante entre os Pais da Igreja, mas esse discurso foi sendo esvaziado a medida que a classe rica romana aderiu ao cristianismo nascente. Gibbson comenta[1]:

Em suas censuras ao luxo, os pais da Igreja eram extremamente minuciosos e circunstanciais; entre os diversos artigos que lhes excitavam a piedosa indignação podemos enumerar as perucas, os trajes de outra cor que não a branca, os instrumentos de música, os vasos de ouro ou prata, as almofadas macias (visto que Jacó pousava a cabeça numa pedra), o pão branco, os vinhos estrangeiros, os cumprimentos públicos, o uso de banhos quentes e o hábito de barbear-se, o qual, segundo a expressão de Tertuliano, é uma mentira contra nossos próprios rostos e uma tentativa ímpia de melhorar a obra do Criador. Quando o cristianismo se introduziu entre os ricos e os elegantes, a observância desses singulares preceitos foi deixada, como o seria hoje, aos poucos que aspirassem à superior santidade. Mas é sempre fácil, tanto quanto agradável, para as classes inferiores da humanidade, alegar como mérito o desprezo daquela pompa e daqueles prazeres que a fortuna lhes pôs fora do alcance. A virtude dos cristãos primitivos, tal como a dos primeiros romanos, tinha a guardá-la, com muita frequência, a pobreza e a ignorância.

Veja como o discurso é um tanto parecido com décadas anteriores das Assembleias de Deus. Hoje, porém, muitos assembleianos são de classe média e suas derivações. A classe média sempre frequentou cinemas, teatros, estádios e shows. Além disso, o final de semana na praia ou em algum clube esportivo também é parte dessa paisagem. A classe média é, também, ávida por produtos de beleza. Portanto, a forte pobreza extrema do norte e nordeste do país favoreceu a condenação “do mundo” pelas três primeiras gerações de assembleianos no Brasil. Veja que nos Estados Unidos, por exemplo, o problema do legalismo nunca foi central, logo porque os pentecostais assembleianos de lá já nasceram na classe média.

É uma boa notícia saber que o legalismo hoje é um problema menor, mas é igualmente preocupante saber que essa melhoria no conceito dos costumes não veio acompanhada do esforço no ensinamento bíblico, mas apenas por questões sociais e históricas.

Referência Bibliográfica:

[1] GIBBSON, Edward. Os cristãos e a queda de Roma. 1 ed. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2012. pos 535.

domingo, 14 de setembro de 2014

O dom de línguas é uma manifestação de êxtase?


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Para responder a essa pergunta é necessário definir o que vem a ser êxtase na atualidade. Quase todas as palavras sofrem no decorrer do tempo alguma alteração referente ao sentido original. Este é mais um exemplo. O conceito contemporâneo de êxtase pode ser expresso como o "estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente etc.”, como definido pelo Dicionário Houaiss. Embora, especialmente no grego bíblico, êxtase seja sinônimo de uma visão espiritual, mas sem a privação da racionalidade (At 10.10; 11.5; 22.17; Ap 1.10).

Em nenhum texto bíblico os dons espirituais são associados a ficar “fora de si”. Não há suspensão das faculdades mentais. Os dons, incluindo o falar em línguas, sempre é manifestado com plena consciência dos atos. Ficamos cheios do Espírito, mas não embriagados (Ef 5.18). A plenitude do Espírito não é a opressão da mente. “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14.32) não é um texto solto, mas um princípio básico: nenhuma manifestação espiritual é feita à revelia da liberdade humana.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O mito do voto evangélico

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A simplificação como o evangélico é tratado na figura de eleitor impressiona. De um lado há os pastores oportunistas que julgam possuir capital político para determinar o voto de suas ovelhas. De outro lado há analistas e cientistas sociais que veem os evangélicos como massa de manobra fácil de ser manipulada. É uma derivação da velha e equivocada doutrina da tabula rasa. A verdade é que os pastores só podem falar por si, assim como os eleitores evangélicos trabalham diversos fatores no voto efetivo. O voto evangélico não é simplista.
Dilma na Assembleia de Deus do Brás.
Imagem: Veja.com
O “povo não sabe votar” é a opinião corrente entre grupos de direita, esquerda e também dos anarquistas radicais como black blocs. A bem da verdade é que o voto costuma ser muito racional. Veja que desde a democratização em 1985 nenhum candidato majoritário ganhou com um discurso de ódio, radicalismos, propondo moratória da dívida ou apostando apenas em minorias. O voto brasileiro, mesmo quando dedicado a candidatos à esquerda do espectro político, aponta para uma acomodação conservadora. É a política da prudência. O maior grupo político no Brasil não é o extremo, mas o centro.
O chamado “voto evangélico” é uma abstração. Evidente que entre os evangélicos é possível perceber como os costumes sociais são importantes para a decisão de voto. Agora, repito, não é e nunca foi o principal fator. Em 2008 o principal ministério das Assembleias de Deus em São Paulo apoiava abertamente o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) contra ex-prefeita Marta Suplicy (PT). Numa reunião um pastor falava da importância de votar em Kassab contra a agenda LGBT da senhora Suplicy - papo furado, mas era necessário algum discurso. No final daquela reunião muitos diziam que iam continuar a votar em Marta Suplicy, que na ocasião era popular na periferia de São Paulo, e um dos jovens justificava o voto na petista: “Ela prometeu internet grátis nas praças”. Veja que para aquele jovem evangélico a agenda populista da internet “grátis” era mais importante do que a agenda dos costumes.
O evangélico não é nenhum perigo para a democracia brasileira. Os evangélicos, em geral, não são fundamentalistas, ou seja, não querem subjulgar as instituições do Estado brasileiro ao cristianismo protestante. Grupos defensores de uma espécie de teocracia (teonomia, na linguagem teológica) representam uma minoria. A acomodação secularista do protestantismo impede qualquer adesismo religioso ao Estado. O evangélico é sim conservador, como é a sociedade brasileira. É um conservadorismo um tanto estranho, é verdade, porque abraça com afinco o Estado de bem-estar social. Não é nenhum Tea Party. O conservadorismo também não representa necessariamente perigo à democracia e o nosso país é um exemplo nesse sentido: toda minoria tem espaço de reinvindicações fora da proporção de sua própria população- o que é natural numa democracia sólida.
E outra, na eleição de 2006, a bancada evangélica foi afetada em cheio pela repercussão do escândalo da “Máfia das Sanguessugas", um esquema irregular e imoral de desvio de recursos públicos, especialmente da saúde, por meio da apresentação de emendas parlamentares ao Orçamento. Entre os 72 deputados envolvidos, a maioria da base aliada do governo Lula, os evangélicos eram 28. Nenhum se reelegeu na eleição daquele ano. Isso mesmo, nenhum deputado evangélico envolvido no escândalo foi reeleito. Povo manipulável?

A CGADB quer montar um partido. O outro lado (equivocado) da relação política com os evangélicos.

A Assembleia de Deus por meio da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) quer montar um partido político. Essa notícia teve até chamada de capa no jornal Valor Econômico de hoje, embora essa história já é do conhecimento da membresia há 15 dias. E não é a primeira vez que a CGADB faz essa tentativa, pois em 2008/2009 também houve pedidos de assinaturas para a formação de um partido.
O nome do partido? Previamente é descrito como Partido da Democracia Direta (PDD). Péssima escolha de nome e espero que não reflita numa ideologia que despreze as instituições legislativas. O recolhimento de assinaturas já começou nas congregações e a justificativa é: a Convenção quer maior controle sobre os candidatos que se identificam como parte da denominação. O fato é que depois da criação do PSD com a garantia do fundo partidário pelo Supremo Tribunal Federal (STF) começou uma corrida maluca pela criação de novos partido, ou seja, novas bocas para a União. Hoje, também, administrar um partido político é um bom, aliás, um ótimo negócio.
Pastor Lélis Marinho, Coordenador político da CGADB
Imagem: Valor Econômico 
Outra observação: os nossos interlocutores políticos são mal preparados. O pastor Lélis Marinho, presidente do conselho político da CGADB, infelizmente manifestou opiniões sem estrutura em entrevista ao jornal Valor Econômico. Sobre Marina Silva ele disse: "Vejo a ascensão de Marina como um avanço. É uma possibilidade de diálogo com o governo dentro de outro ponto de vista, mas com ela ainda estamos estabelecendo um diálogo. É curioso, mas temos que buscar interlocução com uma de nossas seguidoras. Ela não assumiu compromissos". Ora, isso deveria ser exaltado por ele como maturidade da candidata que é membro da Assembleia de Deus. Ao que parece há alguma lamentação por Marina não será, digamos, tão aberta à igreja. Outra frase infeliz: “Somos a favor do Estado laico, mas um governante precisa ser alguém que tema a Deus. A falta de crença faz toda a diferença”. Como assim? Desde quando na Nova Aliança Deus exige que um governante seja um fiel? É ignorância bíblica, teológica e política. É bom lembrar que os pais fundadores dos Estados Unidos, exaltados por um suposto cristianismo, eram em sua maioria deístas.
Infelizmente, enquanto há problemas doutrinários sérios na Assembleia de Deus, a grande Convenção preocupa-se apenas com o poder temporal. E está mal preparada para isso. Felizmente, os membros são mais espertos e muitos recusam a assinar a ficha para criação desse partido.

domingo, 7 de setembro de 2014

Marina Silva, a democracia e a Assembleia de Deus

Por André Gomes Quirino e Gutierres Fernandes Siqueira
“A democracia é a pior forma de governo existente, exceto todas as outras”, asseverou o conservador Churchill, e desde então muitas e divergentes interpretações de sua máxima têm sido apresentadas. A que considero mais consistente – e conservadora, no sentido muito positivo do termo – é a que se lembra de que o ser humano é em sua própria natureza mau, que todas as formas de governo refletirão com alguma intensidade esse dado e que, na exata medida em que a democracia iguala juridicamente todos os homens, evitando assim que algum deles tenha poder suficiente para efetuar toda a maldade de que é capaz em detrimento da liberdade dos outros, ela, por não anular essa mesma maldade, obriga a que os maus – ou seja, todos nós – executem seus planos em surdina e apresentem uma imagem alternativa de si mesmos e seus planos para fins de publicidade. A democracia inventou o marketing, e o marketing é desde o seu nascedouro democrático: todos agimos como marqueteiros nalgum momento da vida em sociedade.
Nos países democráticos, os períodos de disputa eleitoral fazem pulular, simultaneamente, a nossa tendência e a nossa aversão ao marketing. É com justiça que nos aborrecemos em frente à TV ao vermos candidatos a cargos públicos repetindo discursos, promessas e sorrisos que sabemos ser mentirosos. Mas desconfio que a verdadeira razão para o nosso aborrecimento encontra-se entre o desejo que secretamente alimentamos de ser o alvo do marketing que coroa o candidato na telinha e a ira de nos vermos – ainda que minimamente – comovidos por aquela mesma propaganda que sabemos ser mentirosa. No fim das contas, é o marketing que vence as campanhas: sabemo-lo, detestamo-lo, mas não somos capazes de nos desenredar disso, a menos que sob o preço de abdicar da democracia – a pior forma de governo existente, exceto todas as outras.
O fenômeno Marina Silva tem impressionado a todos. Em que o fenômeno Marina Silva interessa a um blog de teologia pentecostal? Interessa em que Marina seja, desde 1998, evangélica pentecostal, membro da Assembleia de Deus, e, desde 2012, evangelista na AD do Distrito Federal. A candidata considerada – por grande parte do eleitorado, dos analistas políticos e da imprensa – um símbolo de renovação está filiada à denominação religiosa considerada – por boa parte desses mesmos analistas, jornalistas e cidadãos – símbolo de atraso e fundamentalismo. Interessa-nos que a presença de Marina na disputa pela presidência coloca-nos, aos conservadores, numa delicada e interessante posição política. Não por acaso, ela tem alcançado apoio de teólogos liberais tanto quanto de ortodoxos.
Marina Silva é uma defensora apaixonada do que chama “nova política”. Quando começou a coleta de assinaturas para a criação de seu partido Rede Sustentabilidade – que não foi viabilizado a tempo de participar oficialmente das eleições deste ano, mas continua sendo formado, o PSB servindo apenas de barriga de aluguel para a candidatura de Marina –, a ex-senadora o caracterizou como “nem de esquerda, nem de direita, nem situação, nem oposição”. “Estamos à frente”, foi o que afirmou. Seu discurso é notadamente “contra tudo que está aí”: a corrupção, os fisiologismos, o aparelhamento do Estado, as alianças partidárias unicamente movidas por conveniências eleitorais etc. Em seu programa de governo, uma grande atenção é dedicada ao tema da reforma política, criticando-se o presidencialismo de coalizão e o “desapreço dos ocupantes de cargos públicos por práticas de accountability e transparência”. Críticas acertadas e necessárias. Mas elas não param por aí. O programa também critica o fato de que o debate político “é delimitado por estreitas orientações de marketing, e o sistema político confunde-se com o mercado: só tem valor o que tem preço”. E arremata: “Assim é o atual modelo brasileiro de democracia, em evidente crise”.
Compartilho da consternação pela nossa dependência do marketing. É especialmente vergonhoso que a escolha, feita por um partido, do marqueteiro que conduzirá uma campanha possa ser decisiva no êxito eleitoral. Mas volto ao começo do texto para lembrar que esse é um dos muitos problemas intrínsecos à democracia. Ao menos da democracia como a conhecemos. Talvez por isso Marina tenha de chegar a diagnosticar na nossa uma “evidente crise”. Ocorre que só pode enfrentar crise o que um dia já foi exitoso. E esse definitivamente não é o caso da democracia brasileira, jovem e perturbada como só. Reconheço que as democracias possam atenuar o problema da dependência do marketing, mas isso acontece fundamentalmente pelo esclarecimento e amadurecimento da consciência política dos cidadãos – um ato de liberdade por parte destes, em vista do qual o governo pode apenas fornecer as condições materiais, e que só se dá maciçamente numa população quando o país que a abriga já se encontra num estágio consideravelmente avançado de desenvolvimento. E o que Marina propõe para superarmos a suposta crise? Conforme consta de seu programa de governo, uma “democracia de alta intensidade”, uma “democratização da democracia”. Ainda citando o documento: “Democratização da democracia pressupõe combinar os movimentos sociais históricos com as mobilizações que surgem por meio das novas tecnologias”. Vale dizer: pressupõe que cada grupo de interesses (noutro lugar, o programa fala em OSCs: Organizações da Sociedade Civil) seja o marqueteiro de si mesmo e transporte a batalha de marketing das propagandas eleitorais da TV para as novas tecnologias, democratizando-a.
Democracia marinista
Poder-se-ia falar aqui em oclocracia, não fosse por uma premissa, na proposta de Marina, que julgo equivocada. Lê-se também em seu plano: “A política brasileira vive, atualmente, uma das crises de legitimidade mais agudas da redemocratização. Tornou-se comum a ocupação dos espaços públicos por cidadãos que não pretendem mais delegar tudo a seus governantes”. A bem da verdade, o que se viu nas manifestações do ano passado iniciadas em junho, ou na maior parte de suas reivindicações, foi, ao contrário, uma pretensão enorme, mesmo incontrolável, de se delegar tudo aos governantes. Era a estes que os pedidos de transporte, saúde e educação “padrão Fifa” se dirigiam. Via-se não um anseio por democracia direta (da qual, se viesse a ser implantada, não tenho dúvida que a esmagadora maioria dos manifestantes de junho rapidamente se cansaria), mas por uma democracia verdadeiramente representativa, e eficiente.
Alguém questionará: “Como você ousa discordar de Marina Silva, se foi precisamente nela que o eleitorado encontrou a encarnação do ‘espírito das ruas’?” De fato, a se confirmar o que as pesquisas têm indicado, foi nela que o eleitorado encontrou a encarnação desse tal “espírito”. Mas pergunte a um eleitor médio: “Por quê?” Por que exatamente Marina Silva? Devido a quais propostas? Ainda não me deparei com uma resposta convincente. Parecerá uma obsessão pelo termo, mas devo dizer que o que faz o eleitorado vislumbrar uma similitude entre a postura de Marina e o “espírito das ruas” é o marketing. Marina se apresenta como a interlocutora ideal dos manifestantes e, talvez exatamente por não descer às minúcias de suas propostas, sua imagem convence. Pode ser um novo marketing, mas é marketing e, a rigor, não é nova política. Marina não escapa à disputa política como mercado, e é mesmo beneficiada por ela: está sendo a vencedora dessa concorrência por valor e por demanda. E, embora possa soar como uma ofensa aos ouvidos de um marinista, tal constatação não me surpreende, nem me desaponta. Apenas confirma a tese de que a dependência do marketing é um dos problemas intrínsecos à democracia.
E, correndo o risco de parecer ter sucumbido à imprecisão “sonhática” do marinismo, digo que justamente aqui podemos ter uma boa razão para, num segundo turno, endossar a candidatura de Marina Silva.
Se eleita, Marina precisará negociar e fazer concessões. Esse é um bem intrínseco à democracia. O chefe de Estado não governa sozinho. Mas digo com mais precisão: tornando-se presidente, Marina terá uma oposição – o que hoje lhe falta, já que a maior parte do eleitorado e da imprensa está encantada com sua figura. Há muito tempo a direita democrática reclama, com razão, por não haver partidos que a representem politicamente no Brasil. Temos tido de nos contentar com o partido da socialdemocracia porque é o que de menos à esquerda existe no espectro ideológico dos partidos locais. É difícil saber o que esperar de um governo Marina, mas é um exercício interessante se perguntar quem lhe faria oposição. Há pontos fortíssimos em seu programa de governo (para além da reforma política) que certamente não encontrarão apoio em quem hoje é situação (ou está à esquerda do governo): menor intervenção estatal na economia, empresas estatais menos fechadas à concorrência, política externa sem compromissos ideológicos de grupos políticos etc. Há pontos obscuros, como o tratamento com o agronegócio, que podem ou não ter apoio do atual governo e de quem está à sua esquerda – mesmo porque há que se considerar a possibilidade de, fora do governo, o PT dirigir-se novamente ao radicalismo que o poder lhe ensinara a adestrar. Será que fora do governo a órbita petista manterá a sua força? E o PSDB, como se comportará sem o PT no poder? Se hoje ele não faz oposição sistemática ao PT, que é o seu maior rival dentre os partidos relevantes, terá a boa vontade de se opor ao PSB/Rede quando com ele tiver divergências? Certamente elas serão menos frequentes do que as que há com o governo atual, mas não serão pequenas – por exemplo, no modo de promover a participação popular na política. Estamos num terreno nebuloso, mas algo bastante provável é que quatro anos sem PT nem PSDB no governo federal diminuam a força política de ambos os partidos. E quando o possível governo de Marina enfrentar problemas – nossa única certeza é que enfrentará –, aqueles e os que giram em suas órbitas saberão apresentar alternativas tão eficazes quanto atraentes? Não é absurdo supor que, para o debate com o governo Marina, forme-se um terreno fértil a ideias até agora ausentes do cenário político brasileiro, ideias liberais ou conservadoras, defendidas, por exemplo, pelos embrionários partidos Liber e Novo. Isto é: não é absurdo supor que a busca precipitada por uma “democracia de alta intensidade”, com Marina, nos ajude a avançar no processo de consolidação da jovem democracia brasileira, lançando, no mercado das ideias, alternativas que os políticos e eleitores tupiniquins ainda não têm considerado. Em suma: o marinismo, por vezes, causa a impressão de que um governo Marina Silva inauguraria de uma vez para sempre uma nova fase na política brasileira. Obviamente, essa é uma esperança ingênua, e perigosa. Mas, exatamente por ser irrealizável, o tal governo permitiria que florescessem alternativas a si mesmo.
É desconcertante votar tão fria e calculadamente? Bem, a julgar pelas pesquisas, a nossa outra escolha seria mais quatro anos de PT no Planalto. Antes superá-lo com frieza do que sofrê-lo com paixão. É desconcertante decidir o voto encaixando-o em projeções do que o restante do eleitorado pretende votar? “A democracia é a pior forma de governo existente, exceto todas as outras”.
Marina é uma candidata assembleiana?
Superando a crise da democracia e sua representação há outra grande dúvida no debate público sobre Marina Silva: a influência da fé no processo político. Marina Silva seria fundamentalista? A afirmativa a essa pergunta é uma grande injustiça. Marina não quer subordinar as instituições à religião cristã e ao evangelicalismo pentecostal em particular. Ela nunca se portou como a “candidata assembleiana” mesmo sendo “missionária” das Assembleias de Deus. Entre os principais candidatos Marina apareceu em poucos templos enquanto a agnóstica Dilma Rousseff é quase uma beata. Marina sabe separar bem a esfera política da esfera religiosa. Entre os evangélicos políticos mais famosos a postura de Marina é rara.
Outro ponto em questão: como a Assembleia de Deus abriga pessoas tão diferentes como Marina Silva, Marco Feliciano e o pastor Everaldo? Essa é mais uma prova que mesmo uma única denominação evangélica não é um grupo monolítico.  A Assembleia de Deus como uma gigante da religião abriga diversos tipos, ou seja, não está sob um único esteriótipo. Alguns pastores até pensam que possuem um rebanho, mas o “rebanho” é mais autônomo do que a intelligentsia nacional suporta.
Neste fim de semana algumas matérias na imprensa escrita falam do "voto evangélico" como algo uniforme e manipulável. No geral o tom é: os fiéis seguem a indicação dos seus pastores. Essa é a opinião, por exemplo, do famoso cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília à revista Época (p. 42 ed 849). Pura ignorância ou preconceito? Talvez seja ignorância até sobre as teorias da comunição. O processo do voto não é automático, pois se assim fosse o nanico pastor Everaldo seria um fenômeno há algum tempo. Como qualquer cidadão, o evangélico vota decidindo sobre vários interesses pessoais. Nessa soma de fatores há também uma análise sobre costumes, mas não é o único fator. Lembro que muitos (ou a maioria dos) evangélicos da periferia votaram em 2008 na candidata Marta Suplicy, uma musa da causa LGBT. Falar em "voto evangélico" é o tipo de bobagem influenciada pela ideia de "massas manipuláveis". Para não ser injusto houve apenas um artigo na imprensa que não seguiu esse caminho fácil. O professor Leandro Karnal escreveu no Estadão (p. E3, edição 07/09/2014) que o eleitorado evangélico não vota em bloco e não é uma ameaça ao processo democrático.

Conclusão. Marina Silva é ainda uma dúvida sobre a relação política e no fortalecimento das instituições pela democracia representativa, mas não é obscura sobre outro fato importante: nela o Estado laico não está apenas assegurado como também sairá mais fortalecido.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Da atualidade do Antigo Testamento e do primitivismo dos pós-cristãos

Caim e Abel
Por André Gomes Quirino

Alguém já disse que acreditar em Deus ficou mais difícil depois que se inventou a energia elétrica. “Por que apelar a um ser supremo que começou a criar o mundo dizendo ‘Haja luz’ quando o homem pode fazer surgir luz diante de si no simples ato de apertar um interruptor numa parede?”, pergunta-se o homem moderno. A descrença é especialmente enfática quando se está diante do Antigo Testamento. Aos olhos modernos, as narrativas veterotestamentárias permeadas de sangue parecem demasiado impuras, não condizentes com o nosso ideal de boa religião. Entre cristãos, a descrença se atenua, mas permanece como seu resquício um desconforto. Temos dificuldade em pregar toda a Palavra inspirada (2 Tm 3.16), que inclui os escritos primitivos – destinados ao nosso ensino (Rm 15.4) –, para uma sociedade que se crê avançada o suficiente para superar as guerras passadas e futuras.

A solução para esse impasse não está em se enfiar o Antigo Testamento goela abaixo dos ouvintes, como costumeiramente se faz. De fato, a Lei se cumpriu em Cristo e, portanto, o Novo Testamento tem alguma prioridade em nossa devoção e nossa pregação. Mas, quando não se crê nem na Lei nem na sua consumação, que é Cristo, qualquer crença alternativa será um retrocesso em relação tanto a Cristo quanto à Lei. A crença moderna está fundada, essencialmente, no ser humano. Essa é a fé dos que se autodenominam “pós-cristãos”. Contudo, a fé no ser humano é não somente pré-cristã (e o prefixo “pré” aqui carrega, sim, um julgamento de valor, assim como “pós” em “pós-cristão”), mas também pré-hebraica.

Trata-se de uma crença ingênua. O ser humano mudou muito menos do que se imagina, desde a Antiguidade. O instinto violento que nos escandaliza no Antigo Testamento permanece em nós e, se, por um lado, construímos dispositivos legais que servem de alternativa à violência como resolução de conflitos na comunidade, por outro lado, quando esses dispositivos são insuficientes, a violência eclode com força redobrada. As duas grandes guerras do século XX dão mostra disso, e a nossa afetação de que aqueles foram episódios isolados, já devidamente superados, é sintomática. Agimos com cinismo, repetindo, como quem quer convencer a si mesmo, que tragédias como as do século passado não podem acontecer de novo, não aqui, não agora. No fundo sabemos que podem e, o que é pior, é por covardia que não o assumimos.

Precisamente aí reside a relevância do Antigo Testamento para a modernidade. As invejas, as brigas, as guerras que lemos na Torá não nos são estranhas, e ela não apenas escancara a natureza que está em nós e da qual erroneamente tentamos esquecer, mas, pelo fato mesmo de a expor, nos dá também uma lição de honestidade e coragem. Ao olhar hoje para cadáveres amontoados, com muita razão perguntamos onde está Deus. Os antigos também faziam essa pergunta, mas algo de essencial diferencia a atitude deles da nossa: eles esperavam pela resposta. “Onde está Deus?”, nas bocas modernas, tornou-se uma pergunta retórica. É para nós mesmos que a fazemos. Os antigos, que eram menos covardes, faziam-na ao próprio Deus – e, como vemos no Antigo Testamento, Ele a respondia.

O existencialismo, na modernidade, pensou ser o primeiro movimento do intelecto humano a se colocar diante da morte e encará-la. Mesmo um gigante como Shakespeare, interpretamo-lo como um pretenso redescobridor da roda, que, ao fazer Hamlet dizer, com uma caveira na mão, “ser ou não ser: eis a questão”, estaria enunciando uma preocupação tipicamente moderna. Na verdade, o questionamento de Hamlet – e Shakespeare certamente sabia disso –, embora novo na forma, é de um conteúdo tão antigo quanto a própria razão humana.

O homem moderno não é o primeiro a encarar a dureza e frieza de um cadáver que se decompõe. Outros já a encararam e, ao fazê-lo, reagiram mais sabiamente – conquanto não menos desesperadamente. O moderno dirige suas perguntas àquele que inventou a luz elétrica, chega mesmo perto de dirigi-las ao interruptor que está na parede de sua casa. Precisa aprender com a coragem e sinceridade do salmista que lamenta: “No Seol, ninguém te louva” (Sl 6.5), do piedoso que esbraveja: “Acaso tens tu olhos de carne?” (Jó 10.4) e dos judeus que repetidamente desabafam: “Por que o Senhor não escolhe outro povo?” É desconcertante dizê-lo, mas é necessário: a modernidade que pensa ter superado Deus não aprendeu ainda sequer a ofendê-Lo.