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domingo, 18 de setembro de 2016

A fé pentecostal: uma reação popular à modernidade


O pentecostalismo representou uma rebelião popular contra o moderno culto da razão. [Karen Armstrong]

Enquanto Rudolph Bultmann desenvolvia sua abordagem de demitologização ao Novo Testamento, os pentecostais silenciosamente (bem, talvez não tão silenciosamente) oravam pelos enfermos e expulsavam demônios. Enquanto os teólogos evangélicos, seguindo os passos de B. B. Warfield, procuravam explicar por que devemos aceitar a realidade dos milagres registrados no Novo Testamento, mas, ao mesmo tempo, não esperar que ocorram hoje, os pentecostais estavam (pelo menos aos nossos olhos) testemunhando que Jesus operava “prodígios e sinais” contemporâneos quando estabeleceu a igreja. [Robert P. Menzies]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A modernidade é um período histórico-filosófico, influenciado pelo Iluminismo, “em que o homem passa a se reconhecer como um ser autônomo, autossuficiente e universal, e a se mover pela crença de que, por meio da razão, pode-se atuar sobre a natureza e a sociedade”, como define sinteticamente o dicionário Houaiss. O pensamento moderno é marcado pelo racionalismo, cientificismo, tecnicismo, historicismo etc. O grande deus moderno é justamente a razão humana.

O pentecostalismo é essencialmente antimoderno. Um exemplo dessa disposição é a forte crença na Bíblia como a Palavra de Deus. O povo pentecostal sempre teve a Bíblia em grande estima, ainda que fosse deficiente no exercício hermenêutico e exegético. O carinho pela “Palavra” não se traduziu, é bem verdade, em uma rígida escolástica, mas é um erro desprezar as consequências dessa paixão pelas Escrituras. A marca desse apego está na crença não apenas que a Bíblia é genericamente a voz de Deus, sem implicações práticas, mas que Deus fala ainda hoje ao seu povo, ou seja, Deus é aquele que se revela, seja escrituralmente seja profeticamente.  Ele não apenas se revelou como continuamente se faz transparente!

O pentecostal lê as histórias bíblicas e se identifica com elas. A estrutura epistemológica de muitos pentecostais- especialmente daqueles que vivem no continente africano, na América Latina e na Ásia- está mais próxima da visão de mundo dos cristãos primitivos do que do racionalismo moderno ocidental. O teólogo Robert P. Menzies escreve:

A hermenêutica da maioria dos crentes pentecostais não é excessivamente complexa. Não está cheia de questões sobre a confiabilidade histórica ou repleta de cosmovisões ultrapassadas. Não é excessivamente reflexiva sobre os sistemas teológicos, a distância cultural ou as estratégias literárias. A hermenêutica do crente pentecostal típico é direta e simples: as histórias em Atos são minhas histórias. (grifo do autor).[1]

Não é à toa que as narrativas do Antigo Testamento exercem um verdadeiro fascínio nos púlpitos pentecostais, assim como as histórias de milagres de Jesus nos Evangelhos e dos apóstolos em Atos. A narrativa é, por assim dizer, o grande trunfo de identificação do pentecostal com o mundo bíblico. O pentecostal olha a Bíblia não como uma literatura a ser dissecada pela exegese ou pelos estudos críticos, mas como uma página onde ele pode mergulhar. Assim, para o pentecostal, a Bíblia como estrutura histórica passa a ser mimética.

Mesmo as motivações tortas de rejeição à teologia nutriam uma expectativa de honrar as Escrituras. Os círculos mais anti-intelectuais do pentecostalismo, por exemplo, se baseavam numa autossuficiência exagerada das Escrituras para justificar qualquer ojeriza à formalização da dogmática ou de confissões de fé. O anti-intelectualismo, de certa forma, manifestava uma crença na autonomia do conhecimento advindo pela fé.  O pentecostal antigo era anti-intelectual não porque desprezasse o conhecimento, mas sim porque acredita que o conhecimento tinha como fonte o contato direto com as Escrituras por meio da orientação fideísta do Espírito Santo. Sabemos que isso é problemático, mas é instrutivo observar que esse anti-intelectualismo era mais rejeição ao formalismo do que ao conhecimento em si.

Liberalismo e Pentecostalismo

Enquanto os liberais esperavam traduzir a Bíblia para o homem moderno em um processo científico de desmitologização, os pentecostais não estavam nem aí para a racionalidade iluminista com seu naturalismo científico e, assim, continuaram a orar a Deus pedindo a cura do corpo e o enchimento do Espírito à semelhança dos mais antigos religiosos pré-modernos. Enquanto educados teólogos protestantes do começo do século XX, filhos da burguesia, diziam que a crença em anjos e demônios era incompatível com a eletricidade e os automóveis, os pentecostais se enxergavam como parte atuante de uma batalha cósmica. O pentecostalismo é antimoderno não como militância, mas na vivência. Diferente dos fundamentalistas que usavam ferramentas racionalistas para combater a ideologia moderna, o pentecostalismo optou pelo caminho prático: a oração pelo milagre e a crença que Deus se revela. E diante de um milagre não há desmitologização que se sustente. O teólogo Amos Yong observa apropriadamente:

O surgimento do pentecostalismo nas primeiras décadas do século XX pode ser entendido, pelo menos em parte, como uma reação ao liberalismo e ao modernismo. Ao contrário dos fundamentalistas que, comprovadamente, tinham reagido ao modernismo usando o racionalismo do próprio modernismo; os pentecostais reagiram ao modernismo, em parte, com o desencadeamento de um grito de dentro do espírito humano. A glossolalia simboliza esse “discurso” contramoderno que irritou e derrubou as “gaiolas de ferro” (Weber) do racionalismo iluminista. [2]

O liberalismo procura entender Jesus à luz dos “estudos críticos que descontam a possibilidade do milagroso, os pentecostais, sem hesitação, aceitam o Jesus operador de milagres do Novo Testamento”[3]. A incompatibilidade é totalmente visível. Embora o liberalismo seja em alguma medida útil ao pentecostalismo, especialmente quando critica o excesso de dogmatismo do cristianismo ocidental, ao mesmo tempo, apresenta uma fé tão fluída e sem qualquer base autoritativa que dificilmente lembra a fé pura dos primeiros apóstolos, todavia representa tão somente mais um moralismo filosófico de base humanista. O liberalismo quis ser tão relevante ao mundo moderno que simplesmente se tornou igual ao mundo moderno.

Pentecostalismo e Fundamentalismo

Como já observado acima, a crença antimoderna do pentecostalismo não se confunde com o fundamentalismo. Logo porque o fundamentalismo é uma reação moderna ao liberalismo teológico. O fundamentalismo se vê como ainda mais racional do que o próprio liberalismo. O fundamentalista, como lembra Karen Armstrong, “coexiste com o liberalismo ou secularismo agressivo numa relação simbiótica e, quando atacado, invariavelmente se torna mais radical e exacerbado”[4]. Armstrong aponta outras diferenças importantes entre as duas correntes:

Enquanto os fundamentalistas desenvolviam sua fé moderna, os pentecostais elaboravam uma visão “pós-moderna” que correspondia a uma rejeição popular da modernidade racional do Iluminismo. Enquanto os fundamentalistas retornavam ao que consideravam a base doutrinal do cristianismo, os pentecostais, que não se interessavam por dogmas, remontavam a um nível ainda mais fundamental: a essência da religiosidade primitiva que ultrapassa as formulações de um credo. Enquanto os fundamentalistas acreditavam na palavra das Escrituras, os pentecostais desdenhavam a linguagem que, como os místicos sempre enfatizaram, não podia expressar adequadamente a Realidade existente além dos conceitos e da razão. Seu discurso religioso não era o logos dos fundamentalistas, mas extrapolava as palavras. Os pentecostais falavam em “línguas”, convencidos de que o Espírito Santo descera sobre eles da mesma forma que descera sobre os apóstolos de Jesus na festa judaica de Pentecostes, quando a presença divina se manifestou em línguas de fogo e conferiu aos apóstolos o dom de falar idiomas estrangeiros.[5]

É uma pena que muitos pentecostais, especialmente a partir da década de 1980, tenham abraçado o fundamentalismo como paradigma de cristandade. O fundamentalismo é, no fundo, uma ameaça ao pentecostalismo assim como o liberalismo teológico. O fundamentalismo é mais sutil porque, aparentemente cultiva a ortodoxia, mas sufoca a fé pentecostal com seu racionalismo de tendência cessacionista e com seu espírito sectário. O pentecostalismo, se sectário for, certamente morrerá, logo porque a crença pentecostal aposta na liberdade do Espírito.

Portanto, o pentecostalismo como uma fé antimoderna supera o liberalismo e o fundamentalismo.  Nesse sentido, o pentecostalismo é uma manifestação evangelical antes mesmo do evangelicalismo.




[1] MENZIES, Robert P. Pentecostes: Essa História é a Nossa História. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p 22.
[2] YONG, Amos. Academic Glossolalia? Pentecostal Scholarship, Multi-disciplinarity, and the Science-Religion Conversation.  Journal of Pentecostal Theology 14:1 (2005), pp 61-80. 
[3] MENZIES, Robert P. Pentecostes: Essa História é a Nossa História. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p 98.
[4] ARMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. pos 4072.
[5] ARMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. pos 4082.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Rápidas impressões sobre a Conferência Mundial Pentecostal (CMP)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A 24° Conferência Mundial Pentecostal (CMP) foi um evento interessante em diversos aspectos. 
Vejamos:

O evento foi muito bem organizado. Os pentecostais brasileiros são conhecidos pela desorganização. Não sei se essa fama é derivada da nossa práxis carismática ou da nossa brasilidade. De qualquer forma, a organização foi impecável. Eu particularmente não peguei fila ao retirar o meu kit e, segundo um casal de amigos que almoçou no templo, a distribuição de comida funcionou muito bem diante de centenas de pessoas. É claro que houve falhas pontuais, especialmente na qualidade do som, no gerenciamento do conteúdo dos telões e no trabalho de tradução – muitas falas e músicas não tinham acompanhamento em inglês. Mas, no geral, a marca da organização foi positiva.

Os cultos do evento tiveram a imagem e semelhança da Assembleia de Deus, especialmente do Ministério Belém. O Pentecostal World Fellowship é um órgão cooperativo de igrejas e grupos pentecostais de todo o mundo e organiza a Conferência Mundial Pentecostal a cada três anos. Nessa instituição estão denominações como a Igreja de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Igreja Metodista Wesleyana etc., mas os cultos foram reproduções da liturgia assembleiana local. Isso se explica porque o comitê organizador tinha como nomes principais alguns pastores assembleianos. Não sei como isso foi encarado pelos irmãos de outras denominações que estiveram presentes no evento. O ponto alto dessa “marca assembleiana” esteve na apresentação da orquestra John Sorhein e na banda da igreja do Belenzinho.

Pregações marcantes. Infelizmente, não pude acompanhar as plenárias. Amigos meus que participaram elogiaram a abordagem dada aos temas apresentados pelos pastores estrangeiros. Mas, em compensação, pude desfrutar das pregações. A melhor e mais impactante, certamente, foi ministrada pelo alemão Reinhard Boonke. O evangelista Boonke prega com vitalidade, mesmo diante dos seus 76 anos, e tem mantido uma mensagem cristocêntrica, especialmente focada em salvação de almas. Apesar de simples, a pregação de Boonke simbolizou o melhor do querigma pentecostal.

Um pentecostalismo institucionalizado. O fervor característico do culto pentecostal esteve presente, mas em nada lembrou outros eventos de nomenclatura carismática. Chamou minha atenção quando o evangelista Reinhard Bonnke comparou o culto local com os cultos na África. Após afirmar que gostava de pregar no continente africano Boonke, em forma de exortação e indagação, falou: “o que está acontecendo com os crentes do Brasil?”. A pergunta é pertinente, especialmente no contexto assembleiano, onde há um pêndulo entre o pentecostalismo tresloucado do reteté e o pós-pentecostalismo que cultiva uma fé apenas como monumento histórico e teórico. O desafio sempre será o equilíbrio.

Que outros eventos como esse aconteçam em nosso país!

domingo, 4 de setembro de 2016

24º Conferência Mundial Pentecostal: Está chegando a hora!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Com a permissão de Deus eu vou participar desse evento histórico aqui na cidade de São Paulo (SP). A Conferência Mundial Pentecostal é uma organização de confraternização de pentecostais de todo o mundo. Entre os fundadores desse evento estava o grande teólogo inglês Donald Gee, talvez a melhor mente do pentecostalismo pioneiro. É uma ótima oportunidade de rever irmãos, conhecer outros pentecostais e desfrutar de uma reunião literal de pentecostes, ou seja, com várias nacionalidades reunidas sob o poder do Espírito Santo. Voltarei aqui no blog com as impressões sobre o evento.

Saiba mais sobre o evento acessando: www.24cmp.com.br




sábado, 27 de agosto de 2016

A liturgia pentecostal

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O pentecostalismo é muitas vezes tido como um movimento antilitúrgico, mas essa avaliação não se sustenta na prática. A marca da espontaneidade ainda vive, mas o culto pentecostal é previsível e há elementos comuns mesmo em diferentes culturas e contextos.  O Movimento Pentecostal sempre teve uma liturgia, embora não tenha produzido os chamados livros de orações, calendários de festas oficiais, uso exclusivo de hinários em cânticos, etc. É, obviamente, uma liturgia menos rígida, mas não deixa de ter certo aparato e ordem esperada.[1]


Os primeiros pentecostais sempre evitaram o uso das palavras liturgia e sacramento e usavam termos sinônimos como cerimônia e ordenança. Como uma reação ao clericalismo da época toda reafirmação de diferença era importante. As igrejas pentecostais ainda olham com desconfiança a sacramentalização da liturgia. Todavia, ao mesmo tempo hoje existe um reconhecimento sobre a necessidade dela. Exemplo é a Bíblia Obreiro Aprovado produzida por pastores assembleianos brasileiros. Essa obra contém um Manual Litúrgico onde se lê instruções para o culto dominical, a Ceia do Senhor, o batismo nas águas, o culto fúnebre etc. O teólogo Claudionor de Andrade, por exemplo, lembra que a liturgia é inevitável: “Só há uma maneira de se evitá-la: deixar de se reunir, e não mais celebrar publicamente a bondade divina”[2].  Ou seja, onde há verdadeiramente um culto há alguma carência de ordenamento.

A glossolalia: uma espécie de sacramento

Uma forte marca litúrgica do pentecostalismo é o uso da glossolalia na adoração. Assim, a glossolalia é uma espécie de sacramento na liturgia pentecostal.  O sacramento é na tradição cristã “o sinal sensível que manifesta a presença atuante e salvadora de Deus no meio de seu povo” [3]. A glossolalia é um sinal que se sente e se vê no enchimento do Espírito para o testemunho do Evangelho. É a forma que o crente se sente encorajado a uma missão. Assim, a divisão elitista entre povo e clero simplesmente acaba. A doutrina do sacerdócio universal de cada crente é mais viva no pentecostalismo pentecostal do que no protestantismo não-pentecostal, logo porque esse sacramento não é ministrado por um sacerdote designado, mas vem em cada crente que tem acesso livre ao poder do Espírito. Sobre esse ponto o teólogo Robert P. Menzies observa:

Gostaria de acrescentar que esse sinal (glossolalia) deve ter sido tremendamente encorajador para a igreja de Lucas, como é para inúmeros cristãos contemporâneos. Expressava a ligação que tinham com a igreja apostólica e confirmava a identidade de cada membro como profeta do fim dos tempos. Acho interessante que tantos crentes de igrejas tradicionais de hoje reajam negativamente à ideia da glossolalia como um sinal visível. Perguntam com frequência: Será que devemos mesmo enfatizar um sinal visível como as línguas? Não obstante, esses mesmos cristãos participam de uma forma litúrgica de adoração que está cheia de sacramentos e imagens; uma forma de adoração que enfatiza sinais visíveis. Sinais são valiosos quando eles apontam para algo significativo. Lucas e sua igreja claramente entendiam isso.[4]

Veja que a glossolalia, como aponta magistralmente Menzies, serve como uma espécie de sinal litúrgico. É uma ligação em continuidade entre a igreja contemporânea e a igreja primeva. O pentecostalismo sempre alimenta a esperança que a igreja primitiva seja o modelo para a os nossos dias. Nesse sentido, a língua não é apenas uma ligação com os céus em oração, mas também é uma forma de continuidade em comunhão e missões com os primeiros cristãos. É comum no culto pentecostal lembrar que a igreja “nasceu no Pentecostes”. Dessa forma, o pentecostal se sente como parte da continuidade dessa comunidade.

A liturgia pentecostal como modelo para o protestantismo não-pentecostal

O protestantismo tradicional há muito tempo vem absorvendo a influência da liturgia pentecostal em seus cultos, especialmente através da música. Olhando para o mundo, talvez o caso mais emblemático seja o grupo de louvor Hillsong. Essa Assembleia de Deus na Austrália simplesmente mudou a forma como quase todas as denominações celebram seus cultos a partir da década de 1990.

O louvor contemporâneo de adoração é esmagadoramente produzido por cantores e compositores pentecostais e carismáticos. Quem aqui nunca cantou canções como Aclame ao Senhor, Majestade, A Ele a Glória, Oceano, Santo Espírito etc.? Todas essas canções são teologicamente impecáveis, com arranjos musicais bonitos e foram escritos por pentecostais como Ron Kenoly, Darlene Zschech, Kevin Jonas etc. Mesmo um grupo queridinho dos reformados como o Sovereign Grace Music segue a escola Hillsong de louvor.

Outro ponto a ser destacado é o uso do corpo na liturgia protestante. O corpo agora passar a ser parte também da celebração. O culto protestante tradicional desprezava de tal forma o corpo que qualquer movimento era lido como mundanismo e sacrilégio. É o que podemos chamar de maniqueísmo litúrgico ou mesmo legalismo cúltico. Essa mudança é outra influência do pentecostalismo e é de natureza positiva. Embora saibamos dos exageros com o corpo embriagado no emocionalismo como movimentos conhecidos como “bênção de Toronto” ou “retete”, é importante lembrar que o ser humano é integral. O culto não pode ser voltado apenas ao homem interior. O corpo também comunica nossas emoções e recebe instruções.

O culto cristão não é meditação, não é aula, não é seminário. O culto não é apenas do e para o intelecto. Embora o culto envolva a instrução, o ensino, a doutrina, ele será incompleto sem o elemento emocional. O homem é um ser emocional, antes mesmo de ser racional. Se isso é verdade em culturas mais mergulhadas na modernidade, o que dizer então da realidade brasileira? Vivemos numa cultura fortemente marcada pela emoção. Isso não é depreciativo nem exultante, mas é apenas nossa realidade. O culto pentecostal resgatou a importância da emoção. É certo que muitos leitores logo pensarão nos exageros emocionais, mas é importante destacar que o formalismo também é um excesso. O teólogo e filósofo James K. A. Smith lembra:

O culto cristão histórico é fundamentalmente formativo porque educa nossos corações através de nossos corpos (que, por sua vez, renova nossa mente), e faz isso de uma forma que é mais universalmente acessível (e eu acrescentaria, mais universalmente eficaz) do que muitos dos hábitos de adoração excessivamente cognitivos que adquirimos na modernidade. A esse respeito, Amos Yong, com razão, critica a forma como o culto protestante tende a ser definido na iniciação e no discipulado cristão. “Isso é especialmente problemático no protestantismo”, observa ele, “com a sua convicção de que a salvação é efetivamente mediada através do conhecimento (de conteúdo doutrinário ou teológico) e que o processo catequético deve ser focado em transmitir cognitivamente esse conhecimento para aqueles que buscam a iniciação cristã. No entanto, insistimos agora que essa antropologia platônica e cartesiana é problemática, precisamente por causa da subordinação do corpo... Na medida em que o hebraico yada se refere mais ao conhecimento do coração do que da cabeça, agora os protestantes podem aprender com as tradições católicas e ortodoxas, especialmente no que diz respeito ao modo como o conhecimento humano de Deus é mediado através da formação, imitação, afetividade, intuição, imaginação, internalização e engajamento simbólico”. Porque todos os seres humanos são fundamentalmente mais afetivos do que cognitivos, e tal fato também é verdadeiro para o culto cristão. [5]

Negar o elemento emocional do ser humano não é prudente, nem correto com a Revelação bíblica. Ao mesmo tempo, o culto pentecostal não pode ser uma baderna de vaidades. Há a necessidade de ordem e decência. O uso e o abuso dos dons espirituais necessitam de disciplina conforme orientação das Escrituras, especialmente em 1 Coríntios 14. Mas, não custa lembrar, apesar de todos os erros e exageros, defeitos e dificuldades, o pentecostalismo trouxe um culto mais autêntico para o protestantismo como um todo. Embora fossem igrejas conservadores na doutrina, muitas igrejas tradicionais eram racionalistas na adoração. Há casos passados onde pessoas foram disciplinadas porque testemunham uma cura no ambiente do culto. Ora, tal atitude lembra quem nos Evangelhos?





[1] “Todo culto cristão— se anglicano ou anabatista, pentecostal ou presbiteriano— é litúrgico, no sentido de que ele é governado por normas, se baseia em uma tradição, inclui rituais corporais e rotinas, e envolve práticas formativas. Por exemplo, embora o culto pentecostal seja muitas vezes considerado a antítese da liturgia, efetivamente ele inclui muitos dos mesmos elementos: o culto carismático é muito encarnado (mãos levantadas em louvor, ajoelhado no altar em oração, imposição de mãos em esperança, etc.); tem uma rotina comum, não escrita (música de "louvor", seguida de música mais silenciosa de "adoração", seguido do sermão e depois, muitas vezes, de um “tempo de oração no altar"); e essas práticas de culto pentecostal são profundamente formativas, moldando nossa imaginação ao se relacionar com o mundo de uma forma única. Nesse sentido, mesmo o culto pentecostal é litúrgico”. SMITH, James K. A. Desiring the Kingdom: Worship, Worldview and Cultural Formation. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2009. p 152.
[2] ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Manual de Liturgia. Bíblia Obreiro Aprovado. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 1081.
[3] FOUILLOUX, Danielle (Ed). Dicionário Cultural da Bíblia. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1998. p 231.
[4] MENZIES, Robert P. Pentecostes. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p 78.
[5] SMITH, James K. A. Desiring the Kingdom: Worship, Worldview and Cultural Formation. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2009. p 137-138.