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domingo, 23 de agosto de 2015

A “Declaração de Fé das Assembleias de Deus” e o seu momento histórico

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil (CGADB) criou uma comissão especial para a elaboração de uma inédita Declaração de Fé das Assembleias de Deus. A previsão é que essa comissão conclua o trabalho em 2017. Nesses próximos meses alguns fóruns serão realizados em todo o país para que a elaboração do documento tenha a contribuição da igreja nacional.  

A Assembleia de Deus não está formulando um credo.  A palavra Credo está sempre associada aos primeiros documentos da Igreja Cristã antes da primeira cisão entre a igreja ocidental e oriental. Nesse grupo de documentos há o Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano. O que caracteriza o Credo é o seu caráter ecumênico (serve a todas as tradições cristãs- católica, ortodoxa e protestante), histórico, devocional e sacramental. Os assembleianos também não estão formulando uma Confissão de Fé ou um Catecismo Maior. Essas nomenclaturas normalmente estão associadas aos documentos do período da Reforma Protestante. Nesse grupo de documentos há o Catecismo Maior de Lutero, a Confissão de Fé Belga, o Catecismo de Heidelberg, a Confissão de Fé de Westminster, os 39 Artigos da Religião etc. O que a Assembleia de Deus está fazendo é uma Declaração de Fé, um documento que naturalmente sofrerá influências dos credos da tradição cristã e das confissões reformadas.

Até a presente data o único documento doutrinário institucional das Assembleias de Deus brasileira é o Cremos. O Cremos, um texto conciso e simples, é um resumo das Verdades Fundamentais- que é a declaração de fé das Assembleias de Deus norte-americana (AG). Adaptar o documento americano para a igreja brasileira foi uma iniciativa do pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos (1914-1988). Vasconcelos trabalhava com a perspectiva que a igreja brasileira precisava de consolidação. O Cremos teve a primeira publicação em junho de 1969 no jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial de comunicação de denominação.

“Declaração das Verdades Fundamentais”

Inicialmente com o nome Declaração de Verdades, as Assembleias de Deus nos Estados Unidos (AG) prepararam esse documento ainda em 1916, ou seja, apenas dois anos após a fundação oficial da denominação. No Concílio Geral da AG em 1961 foi aprovado o atual documento Declaração das Verdades Fundamentais com 16 pontos. A única diferença entre os dois papéis era a expressão “inteira santificação”, que, ao ser excluída na nova declaração de 1961, retirava da doutrina assembleiana a influência wesleyana.


Desde cedo a AG teve forte preocupação doutrinária. Isso porque no seu começo alguns grupos defendiam doutrinas não trinitárias e pregavam um restauracionismo além dos limites da ortodoxia. Outro debate importante na época girou em torno da santificação- onde a visão próxima da tradição reformada do evangelista William Howard Durham sobre a “obra consumada no Calvário” acabou prevalecendo em relação à santificação como “segundo obra da graça” de Charles Fox Parham e William Seymour, ambos de origem no Movimento da Santidade que, por outro lado, teve decisiva influência da doutrina da “perfeição cristã” de John Wesley.

Ao contrário da irmã americana, a Assembleia de Deus no Brasil só agora determinou a criação de sua própria Declaração de Fé, mas o debate não é recente. Desde a década de 1960 pastores mais esclarecidos, como o próprio Alcebíades Vasconcelos, alertavam sobre a necessidade de oficialização doutrinária. E, é claro, tais pastores sofreram a oposição daqueles líderes que temiam o tradicionalismo nas Assembleias de Deus.

A necessidade de posição na catolicidade da igreja

Embora o Cremos seja ortodoxo e consistente há a necessidade de um documento mais amplo. E, talvez, essa seja a principal novidade da declaração que está sendo elaborada, pois esta não ficará restrita aos atuais temas do Cremos (trindade, salvação, santificação, escatologia, ordenanças etc.), mas também trará a posição da denominação em assuntos de ética e moralidade (divórcio e segundo casamento, homossexualidade, aborto, eutanásia, etc.). É importante que não somente a igreja tenha posição, mas saiba o conteúdo da daquilo que acredita.  

Espera-se que o documento não seja excessivamente hermético e nem caia na tentação de fechar qualquer assunto não essencial como fundamental. Ainda que aja a necessidade de um aprofundamento, esse processo não deve ser feito à custa da consciência que o “Espírito sopra onde quer” e que a Igreja não pode viver em função do denominacionalismo, ainda que seja ela mesma uma denominação histórica. A AD é apenas parte da cristandade e sempre precisa lembrar aos seus membros deste fato. A igreja do Senhor nunca é uma seita, ou seja, fechada em si como o grupo iluminado e exclusivo.  O pastor E. N. Bell, o formulador da Declaração de Verdades da AG em 1916, humildemente declarou sobre o documento pronto: “a fraseologia empregada em tal declaração não é inspirada e nem a defendemos contenciosamente” (grifo meu) [1]. Que esse seja o lema dessa nova Declaração de Fé.

Outra posição que cabe destacar é de Jacó Armínio, que longe da controvérsia soteriológica, declarou pela moderação na relação entre as confissões e seus rebeldes:

Mas o Sínodo não deverá assumir a autoridade de impor aos outros, pela força, as resoluções que possam ter sido aprovadas por consentimento unânime. Pois esta reflexão sempre deve ser sugerida: “Embora este Sínodo possa parecer ter feito todas as coisas conscientemente, é possível que, afinal, possa ter cometido um erro de juízo”. Essa modéstia e moderação de mente terão maior poder e maior influência que qualquer rigor excessivo possa ter sobre a consciência dos dissidentes obstinados, e sobre todo o grupo de fiéis, porque segundo Lactâncio, 'Para recomendar a fé aos outros devemos fazer dela assunto de persuasão, e não de compulsão'. Tertuliano também diz: “Nada está mais distante de ser algo religioso do que o emprego da coerção a respeito da religião”. [2]

É importante sempre defender as doutrinas da denominação sem, é claro, esquecer-se da catolicidade da igreja, ou seja, lembrando que a Igreja do Senhor tem um caráter além do tempo, do espaço, da cultura e das histórias locais. A denominação não pode usar o combate ao sincretismo como desculpa para o sectarismo, como bem escreveu o teólogo Justo González:

No entanto, o que muitas vezes não vemos é que o sincretismo e o sectarismo caminham paralelamente, que é muito fácil usar a ameaça do sincretismo como desculpa para sectarismo, e que, inclusive, o sincretismo pode ser sectário. Como o próprio nome indica, uma seita é um grupo que toma uma parte da realidade e da experiência como se fosse o todo. O termo “seita”, por si mesmo, não diz nada acerca da verdade ou falsidade, ortodoxia ou heterodoxia dos ensinamentos de um grupo. O que quer dizer é que um grupo, não importa o quanto ortodoxo seja, se equivoca quando considera que seu próprio âmbito da realidade, sua própria perspectiva limitada são toda a realidade ou a única perspectiva possível. Uma seita pode, então, ser perfeitamente ortodoxa. Certamente, pode ser mais ortodoxa que qualquer outro grupo. Mas, enquanto se considera como a única ortodoxia possível, torna-se sectária. [3]

Portanto, o momento é histórico e relevante, mas ao mesmo tempo, como dito acima, se deve evitar qualquer tentação sectária. Que o documento seja claro o suficiente para evitar interpretações dúbias em questões essenciais e seja livre o suficiente nas controvérsias não essenciais. E, ao mesmo tempo, que honre às Sagradas Escrituras e a tradição pentecostal-assembleiana. O desafio não é fácil e a comunidade assembleiana faz bem ao orar por esse período de elaboração e meditação.

Referências Bibliográficas:

[1] HORTON, Stanley M. e MENZIES, William W. Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.  p 11. Bell ainda declarou: Essas Assembleias opõem-se a toda Alta Crítica radical da Bíblia, a todo o modernismo, a toda a incredulidade na igreja e à filiação a ela de pessoas não-salvas, cheias de pecado e de mundanismo; e acreditam em todas as verdades bíblicas genuínas sustentadas por todas as igrejas verdadeiramente evangélicas [HORTON, Stanley M. (Ed.) Teologia Sistemática: uma Perspectiva Pentecostal. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. p 21.]

[2] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. p 174.


[3] GONZÁLEZ, Justo L. Mapas Para a História Futura da Igreja. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 99.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Entrevista com o pastor José Gonçalves- situando a hermenêutica pentecostal

Pastor José Gonçalves
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Hoje entrevistamos o pastor José Gonçalves, líder da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Água Branca, Piauí, graduado em Teologia pelo Seminário Batista de Teresina e em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí. Ensinou grego, hebraico e teologia sistemática na Faculdade Evangélica do Piauí. É comentarista de Lições Bíblicas da Escola Dominical da CPAD e autor dos livros: Porção Dobrada (CPAD); Por que Caem os Valentes (CPAD); As Ovelhas Também Gemem (CPAD); Defendendo o Verdadeiro Evangelho (CPAD); A Prosperidade à Luz da Bíblia (CPAD); Rastros de Fogo – o que diferencia o pentecostes bíblico do neopentecostalismo (CPAD); Sábios Conselhos para um Viver Vitorioso (CPAD); Lucas – o evangelho de Jesus, o Homem Perfeito (CPAD) e coautor do livro: Davi – as vitórias e derrotas de um homem de Deus (CPAD, ganhador do prêmio ABEC). É presidente do Conselho de Doutrina da Convenção Estadual das Assembleias de Deus no Piauí e membro da Comissão de Apologética da CGADB (Convenção Geral). Foi condecorado com o prêmio “Mérito Renascença” pelo Governo do Estado do Piauí como reconhecimento do seu trabalho literário junto à comunidade evangélica. E-mail: goncalvescostagomes@gmail.com

TP. Na década de 1980 o teólogo canadense Roger J. Stronstad escreveu a importante obra The Charismatic Theology of St. Luke (A Teologia Carismática de São Lucas) e, recentemente, o senhor trouxe às escolas dominicais das Assembleias de Deus o tema sobre o Evangelho de Lucas. A obra de Stronstad é considerada um divisor de águas na teologia pentecostal.  Por que a teologia lucana é tão importante para o pentecostalismo clássico?

JG. Walter Hollenweger, escritor e teólogo suíço, observou que o pentecostalismo clássico em seus primeiros estágios, dependia quase que exclusivamente de Lucas-Atos para fundamentar seus pressupostos teológicos.

Devemos destacar que Lucas foi um teólogo que escreveu a história e, por isso, seu material tem fins didáticos e não apenas narrativos ou descritivos. Essa é sem dúvida alguma uma das maiores contribuições modernas da hermenêutica para uma correta compreensão das obras de Lucas. Essa nova metodologia, que vê Lucas como um teólogo e não apenas como um narrador de fatos históricos, começou a ganhar notoriedade com o livro: Luke – Historian & Theologian (Lucas – historiador e teólogo) escrito em 1970 pelo conceituado teólogo escocês Ian Howard Marshal.  Marshal destacou nessa obra que: “A investigação moderna há enfatizado o fato de que [Lucas] foi teólogo. Seu conceito da teologia o levou a escrever a história (...) Lucas tinha o direito de ter seus próprios pontos de vista, e não se deve pensar mal dele quando de alguma forma difira de Paulo nesse ponto. Ao contrário, ele é um teólogo por direito próprio e deve ser tratado como tal”.

Essa nova abordagem da teologia lucana se firmou no meio acadêmico e também pentecostal graças à obra The Charismatic Tehology of St. Luke (A Teologia Carismática de Lucas) escrita em 1984 pelo teólogo canadense  Roger Stronstad. Tomando por base o evangelho de Lucas, Stronstad libertou a teologia pentecostal das armadilhas exegéticas nas quais ela havia sido enlaçada por intérpretes que insistiam em “paulinizar” o pensamento lucano. A teologia cessacionista, numa tentativa de fazer frente ao pentecostalismo, insistia no fato de que Lucas-Atos continham apenas material narrativo ou descritivo e não didático, como de fato são. Dessa forma os fenômenos carismáticos narrados nas obras de Lucas possuíam pouca ou nenhuma relevância para a igreja contemporânea.

O grande mérito de Stronstad foi, portanto, demonstrar que o pentecostalismo clássico não havia cometido nenhum desvio hermenêutico quando tomou para si como paradigma normativo os pressupostos da teologia lucana.

Quando escrevi a obra Lucas – o evangelho de Jesus, o Homem Perfeito (CPAD, 2015), que serviu como livro de apoio às Lições Bíblicas da Escola Dominical da CPAD, procurei por em destaque esse aspecto carismático da teologia lucana. Não há dúvida alguma que Lucas é o mais carismático dos evangelhos.

TP. O pentecostalismo é muitas vezes acusado de pobreza exegética e destempero hermenêutico. O senhor já foi professor de grego bíblico e, como teólogo profissional, já lidou com inúmeros trabalhos exegéticos. Em sua opinião, o pentecostalismo é realmente pobre exegeticamente e sem fundamentação hermenêutica?

JG. A resposta a essa pergunta não pode ser dada fora do contexto do desenvolvimento histórico da hermenêutica pentecostal. Em 2009 o escritor Kenneth J. Archer (PhD) produziu um dos melhores textos sobre o desenvolvimento da hermenêutica pentecostal. A obra de Archer foi publicada com o título A Pentecostal Hermeneutic – Spirit, Scripture and Community (Hermenêutica Pentecostal – Espírito, Escritura e Comunidade) e, revela como se deu a consolidação dessa hermenêutica dentro do universo pentecostal. É interessante a metodologia usada por Archer quando divide o desenvolvimento da hermenêutica pentecostal em três estágios. Posteriormente esses estágios foram resumidos por ele no verbete “Hermeneutics” (Hermenêutica) da obra Handbook of Pentecostal Christianity (Manual do Cristianismo Pentecostal). De acordo com Archer, esses períodos:

Período pré-crítico (1900 a 1940);
Período moderno (1940 a 1980);
Período contemporâneo (1980 até o presente).

Archer observa que no primeiro estágio a interpretação pentecostal consistia no método de leitura da Bíblia, o mesmo procedimento interpretativo como foi usado pelas tradições do Movimento de Santidade. Ele destaca que esse período foi marcado por uma abordagem interpretativa pré-crítica, de senso comum, que assumindo que a Bíblia precisava ser lida de uma maneira simples e que poderia ser entendida pela pessoa comum.

Por outro lado, o período moderno marca a entrada da hermenêutica pentecostal no universo acadêmico. Aqui os intérpretes pentecostais são instruídos, modernos e primam pela prática interpretativa. Nesse estágio os pentecostais valem-se do método histórico-crítico de interpretação. O foco aqui é o texto. Somente o que poderia ser cientificamente e historicamente verificável poderia ser aceito como verdade. É também nesse estágio que os intérpretes pentecostais recorrem ao método histórico-gramatical para fundamentarem suas crenças.

Finalmente, destaca Archer, no período contemporâneo os pentecostais descobrem que a metodologia é importante, mas que a experiência pentecostal é muito ampla para caber dentro de um único método. Isso conduz os intérpretes a examinar o papel da experiência - e como estas podem apontar para metodologias que sejam mais convenientes para as necessidades da experiência da comunidade.

Dentro desse contexto do desenvolvimento da hermenêutica pentecostal clássica, é possível fazermos algumas observações. Primeiramente, fica claro que nos seus primeiros passos, o pentecostalismo, até mesmo pelo contexto no qual nasceu, era carente de uma maior estrutura hermenêutica e a aplicação dos seus princípios – a exegese. Mas eu não diria que ele seria “pobre exegeticamente” nem tampouco “sem fundamentação hermenêutica”. Isso se torna perceptível quando nos damos conta que a “teologia pentecostal” se formou a partir da teologia histórica. Podemos citar, por exemplo, o livro Batismo no Espírito Santo (1895), escrito pelo renomado teólogo (histórico) R. A Torrey que teve enorme influência sobre a crença pentecostal do batismo no Espírito Santo como uma experiência subsequente à Salvação.

Por outro lado, durante o estágio moderno – com o desenvolvimento de uma maior estruturação hermenêutica, onde o método histórico-gramatical se sobrepôs, o pentecostalismo clássico viu nascer em suas fileiras o academicismo. A consequência natural desse fato foi a geração de uma erudição pentecostal, uma grande produção literária e a visibilidade por parte das igrejas históricas. Todavia não podemos negar que isso também teve efeitos colaterais. É aqui que, paradoxalmente, os pentecostais experimentam algumas baixas em suas fileiras quando alguns de seus intérpretes passam a questionar os seus próprios pressupostos doutrinários. O fato positivo desse processo é que esse “fogo amigo” fez com que a teologia pentecostal buscasse a superação das suas supostas aporias teológicas e se firmasse cada vez mais. E isso foi feito de forma convincente.

Por último, o estágio contemporâneo viu não somente a aceitação do pentecostalismo dentro do cristianismo histórico, como também a consolidação de uma hermenêutica genuinamente pentecostal. Os trabalhos do canadense Roger Stronstad e do peruano Bernardo Campos são exemplos claros desse fato.

TP. Como pastor de uma igreja local, além de teólogo, como o senhor tem lidado com os inúmeros modismos que tentam assaltar as congregações pentecostais?

JG. Avivamentos, modismos e inovações sempre fizeram parte da história da igreja. A igreja sempre teve que, em diferentes momentos da história, lidar com os entusiasmos religiosos. Foi assim nos primeiros anos da igreja com o movimento montanista; com a Reforma Radical; com o movimento wesleyano; com Jonhatan Edwards; com o movimento de Edwar Irwing; com o movimento Holiness, com o Movimento Pentecostal e atualmente com o neopentecostalismo.

O que observamos é que as emoções sempre fizeram parte dos movimentos de renovação da igreja. A resposta, portanto, não é negá-los ou superestimá-los, mas trata-los à luz das Escrituras Sagradas. Como pastor de tempo integral, pastoreando há uma década e meia com uma igreja pentecostal, aprendi a separar o joio do trigo. Sempre estimulei o exercício dos dons espirituais, havendo situações de gastar quinze semanas ensinando sobre o Espírito Santo e seus dons. Todavia quando observo algum excesso ou modismo procuro orientar de forma bíblica o entusiasta. O que não se pode fazer é acabar com as manifestações verdadeiras por temermos as falsas.

TP. A Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB) está preparando uma Declaração de Fé. Hoje a Assembleia de Deus possui um documento doutrinário oficial chamado Cremos e esse novo documento procura detalhar melhor a consistência doutrinária da denominação. Qual é a importância de uma nova Declaração de Fé?

JG.  Uma Declaração de Fé, além do fato de nos ajudar a entender as raízes históricas de nossa fé também coloca de forma sistematizada os fundamentos da mesma. Como observa o teólogo reformado Heber Carlos Campos: “Se a nossa fé não possui raízes históricas, ela perde o seu fundamento”. Por outro lado, frente à explosão de vários movimentos heterodoxos dentro do universo pentecostal, uma Declaração de Fé servirá para separar o joio do trigo. Em outras palavras, a Declaração de Fé mostrará de forma bem documentada no que creem os pentecostais.

Com o objetivo de produzir esse documento foi formada uma comissão de pastores, da qual sou membro, presidida pelo douto pastor Esequias Soares. Há muito a liderança assembleiana brasileira ansiava pela produção de um projeto doutrinário dessa envergadura. Foi com esse propósito que a presidência da CGADB solicitou fosse formada essa comissão.

O nosso atual “Cremos”, que consiste de quatorze pontos, na verdade é uma adaptação das “Verdades Fundamentais” produzida em 1916 pelas Assembleias de Deus norte-americana. Essa adaptação foi realizada em 1968 pelo pastor Alcebíades P. Vasconcelos, que com essa iniciativa procurava dar uma maior firmeza doutrinária às Assembleias de Deus de então. Os tempos mudaram e a realidade cultural hoje é outra. Houve, portanto, a necessidade da produção de um código doutrinário pentecostal mais abrangente, semelhante aqueles produzidos pelas igrejas históricas.

TP. Cresceu, especialmente nos últimos dois anos, o debate entre calvinistas e arminianos. O debate chegou até mesmo nas Assembleias de Deus, que já conta em seus quadros com inúmeros calvinistas. Como o senhor se posiciona nesse debate soteriológico?

JG. Eu acho que aqui não é o espaço adequado para controvérsias teológicas, mas vou procurar responder a sua pergunta. Primeiramente é importante observar que o debate entre essas duas escolas de pensamento é um fato. A propósito, todo debate é saudável se ele contribui para o crescimento na fé e não arranhe a comunhão cristã. Devemos, portanto, fugir de uma Jihad Evangélica!

Devemos, portanto, evitar a polarização. Mas não há como negar que o recente despertar do hiper-calvinismo tenha gerado uma hostilidade ao arminianismo. O arminianismo, que no passado foi combatido em credos e confissões de fé, novamente está sendo hostilizado por aqueles que acreditam que o calvinismo seja a única corrente teológica possível. Eu estou convencido que não é e nunca foi. Por exemplo, como observa o teólogo arminiano Roger Olson, alguns calvinistas acreditam que somente eles podem explicar passagens bíblicas como Romanos 9. Para esses calvinistas essa passagem ensina que Deus escolhe arbitrariamente algumas pessoas e da mesma forma pretere outras. O problema com essa interpretação, como observa Roger Olson, é que ela “jamais foi ouvida antes de Agostinho, e isso no século V. Toda a patrística grega interpretava Romano 9 de maneira diferente”. Cinco séculos de tradição cristã, incluindo a patrística, deve ser ignorada? Acredito que não. Olson observa que “uma interpretação alternativa perfeitamente sensata diz que a passagem de Romanos 9 não está se referindo a indivíduos ou à salvação pessoal, mas à grupos e ao serviço. Deus é soberano em escolher Israel e então a Igreja gentia para que cumpram seus respectivos papéis em seu plano de redenção”.

Voltando a última parte de sua pergunta. Para dizer a verdade eu nunca sofri crise alguma com minha identidade evangélica. Portanto, o calvinismo nunca foi problema para mim como cristão arminiano. Quando me converti há mais de trinta anos nas Assembleias de Deus fui estimulado a ler a Bíblia e frequentar a Escola Dominical. Aprendi desde cedo que Deus é Soberano e que o homem é um ser moralmente livre. Nunca consegui enxergar aporia alguma nessa forma de crer. A minha formação teológica em um seminário batista me ensinou que Deus, embora sendo um ser soberano respeita nosso livre-arbítrio. Por outro lado, a minha formação filosófica em uma Universidade Federal me ensinou que sem capacidade de escolha não há responsabilidade moral.   

TP. O senhor acha que nessa nova Declaração de Fé da Assembleia de Deus deveria haver uma posição clara sobre a soteriologia?

Sim e vai ter. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Pentecostalismo Relevante

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Uma breve palavra sobre o pentecostalismo relevante. O bom pentecostalismo existe e há uma igreja de Nova York como ilustração desse fato. Vejamos no vídeo abaixo.



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

São os pentecostais contra a suficiência das Escrituras?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A acusação mais comum e desonesta contra os pentecostais é apontar que esse movimento não sustenta a suficiência das Escrituras. Ao defender profecias e línguas contemporâneas, dizem os críticos, o pentecostalismo nivela a Palavra de Deus às experiências emocionais. Será verdade? Com a palavra os próprios pentecostais...
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“Estamos medindo tudo pela Palavra, toda experiência deve medir-se pela Bíblia. Alguns dizem que isso é exagero, mas se vivemos mui apegados à Palavra, essas contas as ajustaremos com o Senhor quando o encontrarmos nos ares”.  William Joseph Seymour (1870-1922), evangelista e pioneiro do pentecostalismo norte-americano.
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“Se temos o Espírito Santo, podemos provar os espíritos, porque tudo o que o Espírito Santo faz é confirmado pela Palavra. Não queremos nos fiar em línguas e interpretações. Precisamos avaliar as línguas e demonstrações à luz da Palavra. E, se elas não concordarem com a Palavra, não devemos aceitá-las. Tudo precisa ser avaliado segundo o padrão da Palavra”. Maria Woodworth Etter (1844-1924), evangelista e pioneira do pentecostalismo norte-americano.
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“Existem graves problemas sendo levantados pelo hábito de dar e receber ‘mensagens’ pessoais de orientação por meio dos dons do Espírito [...] A Bíblia dá lugar para tal direção vinda do Espírito Santo [...] Tudo isso, porém, deve ser mantido na devida proporção. O exame das Escrituras mostrará que, de fato, os primeiros cristãos não recebiam continuamente tais vozes do céu. Na maioria dos casos, eles tomavam suas decisões pelo uso do que normalmente chamamos ‘senso comum santificado’ e viviam normalmente. Muitos de nossos erros na área dos dons espirituais surgem quando queremos que o extraordinário e o excepcional sejam transformados no frequente e no habitual. Que todos os que desenvolvem desejo excessivo pelas 'mensagens' possam aprender com os enormes desastres de gerações passadas e com nossos contemporâneos [...] As Sagradas Escrituras é que são a lâmpada dos nossos passos e a luz que clareia o nosso caminho.” Donald Gee (1891 - 1966), teólogo e pioneiro do pentecostalismo na Inglaterra.
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“Se o espírito de qualquer profecia prejudica o esquema geral da revelação bíblica e os propósitos de Deus no Evangelho, e não se relaciona de forma alguma a eles, então não devemos levar tal palavra a sério. Essa ‘profecia’ pode ser alguma coisa diabólica ou, mais provavelmente, pode ser fruto da imaginação humana.” Reinhard Bonnke (1940-), evangelista alemão.
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“A autoridade máxima em matéria de fé, a norma infalível da vida espiritual, a temos completa e perfeita no Antigo e no Novo Testamento. Nem podemos crer que possuam realmente o dom de profecia aqueles que pretendem serem profetas, sem se submeterem às normas estabelecidas pela Palavra de Deus e ensinadas por aqueles a quem Ele chamou, ungiu e confirmou como seus ministros, para o bem de sua Igreja. [...] O dom de profecia no Novo Testamento não tem a finalidade de estabelecer normas para a vida cristã, para o governo da Igreja e para a maneira de agir dos ministros, especialmente se tais ‘normas’ são contrárias às doutrinas neotestamentárias.” Estevam Ângelo de Souza (1922 - 1996), escritor e pastor da Assembleia de Deus em São Luís (MA).
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“O avivamento de que necessitamos deve ser de busca e de ensino da Palavra de Deus. [...] Nunca devemos interpretar a Bíblia à luz das nossas experiências espirituais, mas interpretar as nossas experiências espirituais à luz da Palavra de Deus. Do contrário, cairemos no experiencialismo extremado e antibíblico, como estamos vendo acontecer nos dias de hoje.” Antonio Gilberto da Silva (1929-), teólogo assembleiano e consultor doutrinário da CPAD.
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“Em nenhum incidente registrado no NT o dom de profecia foi usado para dirigir pessoas em casos que pudessem ser resolvidos pelos princípios bíblicos. As decisões no tocante à moralidade, compra e venda, ao casamento , ao lar e à família devem ser tomadas mediante a aplicação e obediência aos princípios bíblicos da Palavra de Deus e não meramente à base de uma ‘profecia’”. Donald Stamps (1938-1991), editor da Bíblia de Estudo Pentecostal.
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“O Movimento Pentecostal, embora acredite na atualidade do batismo no Espírito Santo e nos dons espirituais, jamais aceitou outra fonte de autoridade que contrarie a Bíblia Sagrada nem que se considere igual ou superior a esta. É claro que tem havido desvios doutrinários isolados. Estes, porém, são de imediato rechaçados e postos na marginalidade.”  Claudionor Corrêa de Andrade (1955-), teólogo assembleiano e consultor doutrinário.
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E aqui eu poderia passar horas copilando as palavras de outros líderes pentecostais, mas esses exemplos são suficientes para expor a ignorância daqueles que afirmar ser o pentecostalismo contra a suficiência das Escrituras. Não é porque algum desavisado fez ou fala bobagens que todo pentecostalismo deva sofrer generalizações. Um pouco de respeito e conhecimento faz bem a todos. 

domingo, 2 de agosto de 2015

É o pentecostalismo um mal ao protestantismo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Por um motivo não muito claro, especialmente nos últimos dias, vários blogs começaram campanhas contra o pentecostalismo. O que mais impressiona nesses ataques é a ignorância sobre o caráter carismático da cristandade. Esses tratam o pentecostalismo, mesmo na sua vertente clássica, como um câncer para a igreja protestante moderna. Os pentecostais merecem essa ojeriza pelos demais protestantes? Evidente que não. Aliás, desde sempre o pentecostalismo sofreu com ataques preconceituosos do fundamentalismo tipicamente americano de segunda geração.  E o que impera nesse grupo normalmente é a má vontade como o outro.


A multiformidade da Igreja Cristã é rejeitada pelos fundamentalistas contemporâneos, mas é apreciada por teólogos protestantes de uma linha mais, digamos, inteligente e elevada. Alister McGrath, um dos maiores eruditos do evangelicalismo e professor da Universidade de Oxford, escreveu resumidamente e propriamente sobre o pentecostalismo:

O pentecostalismo deve ser entendido como parte de um processo protestante de reflexão, reconsideração e regeneração. Ele não é consequência de uma “nova Reforma”, mas o resultado legítimo do programa contínuo que caracteriza e define o protestantismo desde seu início. O pentecostalismo, como a maioria dos outros movimentos do protestantismo, fundamenta-se no que aconteceu antes. Seu igualitarismo espiritual é claramente a redescoberta e a reafirmação da doutrina protestante clássica do “sacerdócio de todos os crentes”. Sua ênfase na importância da experiência e na necessidade de transformação remonta ao pietismo anterior, em especial, como desenvolvido na tradição de santidade. Contudo, o pentecostalismo uniu e casou essas percepções em sua própria percepção distintiva da vida cristã e de como Deus é encontrado e anunciado. Ele oferece um novo paradigma de autoexpressão para o protestantismo, antes, considerado marginal e levemente excêntrico pelos crentes da corrente principal; cem anos depois, o pentecostalismo, cada vez mais, passa, ele mesmo, a definir e a determinar essa mesma corrente principal. [1]

Como discordar de McGrath? O pentecostalismo é apenas uma consequência lógica do aspecto reformacional da Igreja pós-Lutero. Não é e nunca pretendeu ser uma Nova Reforma, mas é o resgate e a junção dos elementos esquecidos ou adormecidos.

É evidente que há inúmeros pentecostais problemáticos, heréticos e até moralmente duvidosos. Agora é necessário lembrar que o pentecostalismo cresceu muito e em pouco tempo e é até natural que surjam problemas de ordem doutrinária, litúrgica e até ética. O Movimento Pentecostal ainda é uma criança histórica dentro da cristandade. O primeiro centenário aconteceu apenas agora em 2001. Não se espera maturidade de uma criança, mas se sabe que é uma questão de tempo. E, ainda que a criança dê trabalho, ninguém em sã consciência a chama de um câncer indesejável.

Um cristão tradicional, seja ele episcopal ou presbiteriano, deveria celebrar a expressão carismática do cristianismo moderno. É essa vertente que tem apresentado Jesus Cristo, o Salvador, em países como a Nigéria e a Coreia do Sul. É essa vertente que chega às favelas de Luanda e nos subúrbios de Buenos Aires. Sim, esses pentecostais não apresentam outro fundamento, senão o Cristo, o filho do Deus vivo. Eles não apresentam Cristo como o Desmitolizado, mas como o Ressuscitado. Quantos de vocês conheceram Jesus Cristo através da pregação de um pentecostal desajeitado, mas cheio de fervor evangelístico?

Referências Bibliográficas:


[1] McGRATH, Alister. A Revolução Protestante. 1 ed. Brasília: Editora Palavra, 2012. p 428.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A apologética sob a ação profética do Espírito Santo

Ágabo, o profeta
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O texto de 1 Timóteo 4 fala de apostaria e heresia, porém começa com uma observação curiosa: “mas o Espírito expressamente diz”. O que é possível aprender dessa expressão? Ora, o ministério do Espírito Santo envolve o exercício da correção e da apologia através, inclusive, do dom de profecia, do ministério profético e do dom de discernimento de espírito. O Espírito Santo quase nunca é associado ao labor apologético e aí está um erro comum entre cristãos diante dos males deste mundo: a falta de dependência da igreja contemporânea da ação de divina. Enfrentar o mal apenas com ferramentas humanas não é só limitador, mas igualmente arrogante em desprezo a ideia central no cristianismo da graça divina.

A apologética não pode ser vista apenas como um exercício de polemistas. É fato que a apologética é um trabalho intelectual, mas tal fato não apaga o caráter espiritual do combate à apostasia e à heresia. Nesse texto, o apóstolo depende do ministério do Espírito para o discernimento sobre o tempo presente. “Essa é a única referência na carta a Timóteo ao ministério e a presença do Espírito na igreja. A função do Espírito aqui é transmitir (como fonte e capacitador divino) uma palavra profética”, como observa Philip H. Towner [1]. Isso mesmo: o Espírito Santo capacita o homem numa palavra profética para discernir o erro.

O ministério profético, diferente do que afirma equivocadamente o cessacionismo, não acabou na era apostólica. O profeta neotestamentário não tinha uma função de formulador doutrinário, logo porque quem exercia esse papel era o colegiado apostólico. A igreja estava baseada na “doutrina dos apóstolos” e não na “doutrina dos profetas”. O profeta neotestamentário, que sempre deve ser diferenciado do veterotestamentário, exercia outros papéis, entre eles o resguardo da doutrina dos apóstolos através do discernimento de espíritos, pois há uma estreita ligação entre os dons.