Pesquisar este blog

Carregando...

sábado, 17 de janeiro de 2015

Não existe meia liberdade, caro Francisco!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Leonardo Boff, teólogo adjetivado como "progressista", defendeu em recente artigo a censura para expressões que firam "a sensibilidade religiosa". Sim, ele abertamente fala em censura. Ora, não há nada mais retrógrado, é necessário logo apontar. O papa Francisco, outro senhor que nos faz refletir sobre a decadência da teologia latino-americana, também expressou que não deve existir "insulto contra a religião alheia". E,  curiosamente ou não, essa é a mesma opinião dos líderes do Talibã no Afeganistão, dos assassinos do Boko Haram na Nigéria e dos terroristas do Estado Islâmico no norte da Síria. Ainda que a preocupação desses últimos seja apenas com o profeta Maomé.  

É muito perigoso para o Cristianismo uma onda da censura sobre discursos que "atinjam sensibilidades". A sensibilidade no indivíduo é o ponto máximo do relativo, e um mundo que absolutiza na coletividade os valores relativos ao indivíduo cria uma tirania ao avesso. Você quer viver em um mundo onde cada ser humano sensível proíba uma expressão? Esse mundo seria terrível. Ou talvez o mundo caminha para a distopia do livro “O Doador” de Lois Lowry onde não existe a liberdade e, no fim, nem mesmo os sentimentos. Um mundo dominado pelo medo de ferir sensibilidades acabará por matar os próprios sentimentos.

Eu quero a minha liberdade para afirmar e reafirmar o que eu creio, mesmo que isso deixe alguém ou um grupo chateado. Assim como devo aceitar uma sociedade onde eu também seja objeto de um discurso ofensivo a minha própria sensibilidade. A liberdade é uma via de mão dupla. Quando ouço um ateísta de linha marxista dizendo que a fé é alienação das classes subdesenvolvidas, logo fico extremamente chateado. Acho esse discurso fortemente preconceituoso e simplista. Todavia, espero em Deus nunca defender a censura de quem pensa assim na grande arena do discurso público. Espero, apenas, convencê-lo pela apologia.

Então serei uma ameba diante das ofensas? De certa forma sim, pois a constituição de uma civilização é o conjunto de renúncias dos indivíduos no exercício da força e da violência. A barbárie é onde cada um impõe o seu próprio princípio.

Os cristãos que diante das charges satíricas dizem "a liberdade de expressão tem limites" estão cometendo suicídio intelectual. Eu sei, algumas charges são ofensivas contra aquilo que cremos? Podemos reclamar, boicotar (medida quase sempre ineficaz) e até processar, mas nunca e em hipótese alguma deveríamos levantar a bandeira da limitação da liberdade de expressão. Paulo, o apóstolo, escreveu aos coríntios que "nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos" [1.23]. Vamos lembrar que a nossa pregação evangelical é ofensiva para muitos e loucura para outros... Se defendemos a limitação da liberdade para "mensagens ofensivas" isso um dia se voltará contra nós. Aliás, isso já começou em alguma medida. O cristão sábio é o primeiro a levantar a bandeira da liberdade de expressão sem restrições de qualquer natureza.

Portanto, caro Francisco, ao comparar a ofensa às religiões com um xingamento à mãe você acabou por ajudar a lógica jihadista. Não se compara as relações e a cortesia pessoal com a liberdade de expressão, da liberdade das ideologias e da própria liberdade religiosa. É, como dito acima, tomar valores relativos com valores absolutos. Não existe meia verdade, caro Francisco, quando falamos da liberdade para expressar ideias.

domingo, 4 de janeiro de 2015

A panpneuma dos liberais: uma pneumatologia do ego!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


O cristianismo não é uma doutrina filosófica, não é um programa de vida para sobreviver, para ser educados, para fazer a paz. Estas são consequências. O cristianismo é uma pessoa, uma pessoa erguida, na Cruz, uma pessoa que se aniquilou a sí própria para nos salvar; fez-se pecado. E assim como no deserto foi erguido o pecado, aqui foi erguido Deus, feito homem e feito pecado por nós. E todos os nossos pecados estavam ali. Não se percebe o cristianismo sem se perceber esta humilhação profunda do Filho de Deus, que humilhou-se a si próprio fazendo-se servo até à morte de Cruz, para servir. [Jorge Mario Bergoglio]

O liberalismo teológico é uma cosmovisão muito, digamos, estranha. Sob o signo do livre pensamento cria-se as mais absurdas, criativas e vazias doutrinas.  E nem a pessoa do Espírito Santo escapa. Numa linha mais de neo-ortodoxa radical à liberal o Espírito Santo é exaustivamente tratado nas teologias sistemáticas, ao contrário das sistemáticas conservadoras, mas ao mesmo tempo perde pessoalidade e personalidade.  O Espírito Santo, quando muito é tratado com “e” minúsculo [1], é visto como a essência da comunidade e da vida cristã. Teólogos liberais, por exemplo, defendem uma “pneumatologia cósmica”, onde todo o universo está no Espírito Santo. É uma espécie de panteísmo do Espírito ou panpneuma (tudo é o Espírito e o Espírito é tudo). A pneumatologia cósmica é uma consequência lógica da doutrina do Cristo Cósmico [2]. O teólogo católico Luz Carlos Susin, por exemplo, expressa de forma resumida a abrangência da cosmologia do Espírito, assim segundo sua própria crença: 

Hoje, a consciência religiosa cristã reclama naturalmente, ao lado de uma cristologia cósmica das sementes do Verbo, também uma pneumatologia cósmica [...] A Ecologia, a nova física, a revalorização da corporeidade, o novo encantamento do universo habitado pelo mistério, reclamam uma teologia do Espírito Santo como Espírito de Deus em todo o universo. Ou, também, todo o universo no Espírito Santo. [3]
Portanto, essa postura moderna e ou pós-moderna de identificar o Espírito Santo como a essência do ser, a comunidade na individualidade, em nada resgata a figura bíblica da pessoa divina, mas, ao contrário, distorce segundo critérios esotéricos e de autoajuda numa linguagem avançada e erudita, mas recheada do antropocentrismo típico da “busca interior”. É apenas uma nova roupagem para o velho discurso New Age

Peço desculpas aos liberais, pois eles possuem um conceito elevado sobre si, mas não consigo diferenciar esse discurso “cósmico” da autoajuda pós-moderna na busca do “ser interior”. Aliás, nada mais sem graça do que o liberalismo, pois ele pode ser encontrado em qualquer prateleira esotérica da livraria mais próxima com outras roupagens. No fundo é o peso de fazer da teologia uma ciência da religião, uma sociologia mal feita, onde há um limite para o criar e a vacuidade toma conta do pensamento humanista. 

Que venha o Espírito Santo sobre nós! Assim não sejamos tragados pelo vácuo do espírito cósmico que é nada mais do que o nosso ego espiritualizado sob uma linguagem coletivista e potencialmente totalizante. “Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” [2 Coríntios 3.17]. No espírito cósmico há a prisão do coletivismo e a palavra final é do próprio eu- um horror! 

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 1 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p 567. A publicação original desta obra é de 1951. 

[2] Como lembra Carson o apelo dessa crença é vago porque esse Jesus transmite o conteúdo que o próprio indivíduo quer. O mesmo vale para o panteísmo da pneumatologia cósmica. Veja: CARSON, D. A. O Deus Amordaçado. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2013. p 44. Leia também: O Cristianismo e a Nova Era. 1 ed. Campinas: Ecclesiae, 2013. p 66-72. 

[3] SUSIN, Luiz Carlos. Espírito Santo: Seio maternal de Deus. HACKMANN, Geraldo L. B. (org.) Sub umbris fideliter. 1 ed. 1 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. p 228. Para livros que trabalham a partir de uma pespectiva da pneumatologia cósmica veja, por exemplo: ROCHA, Alessandro. Espírito Santo: Aspectos de uma Pneumatologia Solidária à Condição Humana. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008; BOFF, Leonardo. O Espírito Santo: Fogo interior, doador de vida e Pai dos pobres. 1 ed. Petrópolis, Vozes, 2013. No fundo Boff usa elementos da piedade cristã com a crença num Estado total. Não seria exagero afirmar que a consequência lógica dessa mistura nefasta é o fascismo. Veja: DOOYEWWERD, Herman. Estado e Soberania. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, p 41.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Exodus: Gods and Kings! Eu esperava mais, muito mais!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O filme Exodus: Gods and Kings (EUA, Reino Unido, Espanha; 2014) do aclamado diretor Ridley Scott é um pouco decepcionante. Atenção: eu não esperava um filme bíblico, logo porque Scott não nos prometeu isso. E, não é de hoje, eu não espero exegese e hermenêutica de Hollywood e acho uma bobagem essa gritaria de muitos cristãos-evangélicos- ponto final. O diretor há dias já vinha falando que a produção seria um filme de ação. E como ação é um bom filme de efeitos especiais. Então você pode perguntar: por que a decepção? Ora, o roteiro e adaptação são fracos. É claro que a licença poética para complementar e até adaptar a história bíblica poderia ser bem melhor. É nesse ponto que Scott estraga a história.

A narrativa sobre a vida de Moisés é uma das mais completas e ricas do Antigo Testamento. Sendo assim a produção tinha o desafio de montar um roteiro que fosse mais interessante do que a já complexa história do profeta. E isso não aconteceu. Ridley Scott é um grande diretor e, na minha visão, Gladiador (EUA, Reino Unido; 2000) é um glorioso exemplo. Agora, alguns de seus filmes como Exodus e Robin Hood (EUA, Reino Unido; 2010) deixam - ou deixaram- essa sensação de “poderia ter sido bem melhor”.

Ridley Scott é ateu. O filme é uma homenagem ao irmão e também diretor Tony Scott (1944- 2012) que cometeu suicídio ao pular da Ponte Vincent Thomas em Los Angeles, Estados Unidos. Tony era religioso e Ridley queria prestar uma homenagem. Bom, se eu fosse o irmão religioso dele não ficaria tão feliz com a descrição de Deus, que mais parece o demiurgo, feita pelo diretor não-religioso. E é bom lembrar: o mesmo já tinha sido feito no filme Kingdom of Heaven (EUA , Reino Unido , Espanha , Alemanha; 2005) do Ridley Scott.  
Há dois filmes de ação inteligentes do falecido Tony Scott que gosto muito: Enemy of the State (EUA, 1998) e Spy Game (EUA, Reino Unido; 2001), mas aí é outro assunto... 

Voltando ao Exodus vejamos os pontos positivos e negativos desse longa. E se você ainda não assistiu ao filme, cuidado, o meu comentário está cheio de spoilers.

Pontos fracos

a) O retrato de Deus. Marcião ficaria feliz com esse filme,  pois seria a prova cabal de sua tese: o deus do Antigo Testamento é mau e nada tem com Cristo Jesus. No longa Deus parece mais um ídolo pagão: sempre intempestivo, inconsequente e caprichoso. Usar uma criança para retratar tamanha falta de graça e misericórdia parece ser um recurso proposital para chocar. Aliás, essa criança lembra um dos nomes do Demiurgo: Yaldabaoth, que é "a criança do caos". Não esqueço o comentário da minha irmã ao final do filme: aquele deus-garoto parecia mais com os demônios que atormentavam a Judas Iscariotes no filme The Passion of The Christ (EUA, 2004). No ateísmo de Scott Deus sempre é um sujeito amargo e isso já estava claro no filme Kingdom of Heaven, como dito acima.

b) O duelo de egos.  Resumir a libertação do Egito a um duelo de egos entre o irmão adotivo competente e o irmão legítimo fraco?! Bom, é um Shakespeare com Freud meio água com açúcar. Esse ponto talvez seja o pior do filme.


c) A gritaria contra esse “Deus, o matador de crianças”. Essa cena é simplesmente ridícula. Na hora pensei que os egípcios de 4 mil anos atrás já tinham passado pela modernidade. Seriam leitores de Jean-Jacques Rousseau? Ora, ora, nenhum povo naquele período xingaria uma divindade como “matadora de crianças”, logo porque esse tipo de sensibilidade não fazia parte do discurso religioso e político da época. Aliás, esses povos nem conheciam o conceito de criança como nós conhecemos hoje. Só na Idade Moderna é que a criança ganhou o status de um ser social. Antes era apenas um adulto em miniatura.

Pontos fortes

a) A lei é dada como uma instituição para base do povo israelita. A frase de Deus dizendo que “daria a lei porque líderes vacilam enquanto as pedras permanecem” é simplesmente fantástica. Scott captou muito bem a essência do Decálogo nessa simples cena.

b) A cena do luto noturno no Egito com a morte dos primogênitos. É uma cena forte e ao mesmo tempo que retrata bem o que o texto bíblico quis dizer: “E houve grande pranto no Egito, pois não havia casa que não houvesse um morto” [Êxodo 12.30].

c) A cena onde Faraó exalta sua grandeza entre cadáveres do seu exército. É uma cena bonita, forte e com a velha e boa advertência contra a vacuidade.

É isso. No geral é um filme que merece nota 6. É medíocre não porque não seja bíblico, mas porque substituiu uma história forte por um roteiro mais fraco e até clichê.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Recomendações de livros teológicos lançados em 2014

Caros, 

Vejam abaixo dois vídeos onde recomendo três obras teológicas lançadas em 2014.


Primeira recomendação





Segunda recomendação

domingo, 21 de dezembro de 2014

O desenvolvimento da teologia pentecostal

Por Gutierres Fernandes Siqueira

[Observação: este texto faz parte de um artigo acadêmico maior com o título “O pentecostalismo contribuiu teologicamente com o cristianismo?” que será publicado na próxima edição da “Azusa Revista de Estudos Pentecostais” da Faculdade Refidim de Joinville – SC.]

A teologia pentecostal não é propriamente uma teologia, ou seja, não pretende construir uma nova cosmovisão sobre e da cristandade. Ela é, na sua modesta contribuição, apenas e tão somente pneumatologia. E isso não é pouco, especialmente levando em conta a ignorância sobre a pessoa e obra do Espírito Santo no ser humano como indivíduo e como comunidade constituída a partir da Igreja. A teologia pentecostal é, portanto, uma leitura de como, por exemplo, a pneumatologia influencia a forma como a eclesiologia pode ser formada. Não é uma nova eclesiologia, uma nova missiologia ou uma nova hermenêutica, mas apenas como entender as implicações de ter o Espírito Santo presente no mundo como o verdadeiro e único vicário (substituto) de Cristo. O fato de Cristo viver entre os discípulos como homem trouxe sérias implicações para eles e para a Igreja primitiva e o mesmo acontece na Era Cristã com a presença constante (e discreta) do Santo Espírito. A teologia pentecostal, portanto, pretende responder a isso: como a presença constante, iluminadora e renovadora do Espírito Santo como substituto de Cristo na terra influencia diretamente a maneira cristã de viver, pensar e agir.

A fonte primeira, decisiva e essencial de qualquer teologia é a Revelação Escrita. “Fazer teologia é ver finalmente tudo à ‘luz da Palavra’”, como escreve Clodovis Boff [1]. E como não poderia ser diferente para uma teologia baseada nas Escrituras, a pneumatologia da teologia pentecostal depende fortemente de uma complexa estrutura hermenêutica onde o papel de Lucas, o médico historiador, é essencial como teólogo do Espírito Santo. A teologia lucana no duplo livro do Evangelho de Lucas e nos Atos dos Apóstolos aponta, segunda a interpretação da pneumatologia pentecostal, para um desenvolvimento teológico sobre o papel do Espírito Santo na comunidade cristã primitiva que não serve apenas como narrativa, mas sim e também como normativa para a Igreja Cristã no decorrer dos séculos. Como  será visto mais adiante, essa é a estrutura e o método usado pelos pentecostais para introduzir a sua contribuição no universo de estudos do Novo Testamento, da eclesiologia, da missiologia e da própria pneumatologia.

Dito isto, onde ficou a produção pneumatológica dos pentecostais? Essa não é pequena e nem trivial, mas é o coração da própria produção carismática. E, como movimento, começou relativamente cedo. Os próprios pentecostais, e até alguns não pentecostais, consideram que a primeira obra relacionada ao pentecostalismo é Religious Affections de Jonathan Edwards escrita em 1746. Outras obras antes do Avivamento de Topeka em 1901 podem ser mencionadas como Tongue of Fire do wesleyano William Arthur (1856); Spiritual Gifts and Graces do evangelista metodista William Baxter Godbey e Pentecostal Papers: Or, The Gift of the Holy Ghost do episcopal Samuel Keen (1895). O que caracteriza essas obras é o destaque para a experiência espiritual, a “segunda bênção” e para com os dons, ou seja, como a obra do Espírito e não necessariamente com sua Pessoa.

Dr. Anthony D. Palma, pastor assembleiano
e responsável pela "perspectiva lucana" como
justificação da pneumatologia pentecostal. Roger
Stronstad, todavia, foi responsável pelo popularização
da tese e a complementou. 
Depois de Topeka e Azuza vários livros foram escritos, inclusive pelos pioneiros do pentecostalismo moderno como o controverso Charles Fox Parham (1873-1929), que produziu uma obra de escatologia onde destacava o papel central de Israel no fim dos tempos e das línguas como processo avivalístico de testemunho e evangelização mundial; William J. Seymour (1870-1922), que escreveu uma obra sobre doutrinas da Azusa Street Apostolic Faith Mission pela qual é possível ver forte influência do wesleyanismo; F. F. Bosworth (1877-1958), que já naquela época (1918) levantava questionamentos sobre o papel das línguas no Batismo no Espírito Santo como evidência física inicial, sendo talvez a primeira controvérsia teológica dentro do próprio Movimento Pentecostal [2].

No Brasil, o primeiro livro escrito por um pentecostal nativo foi Pentecostes para Todos (1931) pelo jornalista Emílio Conde. Nele Conde já inicia o livro defendendo a personalidade do Espírito Santo e depois parte para temas mais caros aos pentecostais como o Batismo no Espírito Santo. Um pouco antes, mas na mesma época, o teólogo Donald Gee, das Assembleias de Deus da Inglaterra, publicava sua principal obra Concerning Spiritual Gifts (1928) [traduzido como Acerca dos Dons Espirituais pela Editora Vida em 1987] sobre os dons espirituais e que marca o pentecostalismo até os nossos dias. Outra obra importante de Gee é Pentecost (1932) [traduzido em 2000 pela CPAD com o título infeliz de Como Receber o Batismo no Espírito Santo] onde ele trabalha especialmente a questão litúrgica da ordem do culto no contexto carismático.

Contribuições pneumatológicas

Mas, e sobre especificamente o Espírito Santo? E a pneumatologia de maneira geral? Nesse quesito os pentecostais escreveram igualmente. Os livros What Meaneth This? (1947) de Carl Brumback [tradução: Que Quer Isso Dizer? pela Editora Vida em 1960] e The Spirit Himself  (1949) de Ralph M. Riggs são exemplos entre tantos. Riggs, de maneira bem enfática, destaca logo no prefácio que o pentecostalismo está dentro de uma tradição ortodoxa da Igreja Cristã e como tal defende com vontade a divindade e personalidade do Espírito Santo. E esse destaque do Riggs é interessante porque a questão trinitária foi cara aos primeiros pentecostais. A partir da controvérsia com os unicistas houve a primeira divisão física entre os grupos dos pentecostais. Os apologistas de tradição pentecostal sempre se destacaram como defensores ferrenhos da doutrina trinitária e, no contexto brasileiro, assumiram a proeminência da apologia contra unicistas e modalistas [3].

Nas últimas décadas algumas obras eruditas de pneumatologia se destacam na produção pentecostal como o trabalho acadêmico, infelizmente não publicado [4], do pastor assembleiano e doutor em teologia pela Nova York University Anthony D. Palma na sua tese de doutorado escrita no final da década de 1960 e começo da década de 1970. Palma, através de estudos hermenêuticos, defendeu a distinção complementar entre as pneumatologias lucana e paulina. Em Paulo teríamos, segundo Palma, uma ênfase no Espírito como “transformador do íntimo” e em Lucas como Aquele que “reveste de poder”. Mas quem popularizou essa tese não foi Palma, mas o seu discípulo canadense Roger J. Stronstad, autor do livro The Charismatic Theology of St. Luke em 1984. O livro fez barulho na academia protestante norte-americana onde recebeu análises e críticas de teólogos como D. A. Carson e Anthony Hoekema.

William Menzies, que foi outro importante teólogo pentecostal, escreveu sobre a obra de seu colega Stronstad:

A tese de Stronstad representa um desafio direto aos pontos de vista evangélicos tradicionais sobre o Espírito. Se Stronstad está certo, o aspecto carismático do Espírito, do qual Lucas dá testemunho, deve ser posto ao lado do aspecto soteriológico, tão preeminente nos escritos de Paulo. Pois uma teologia do Espírito verdadeiramente bíblica deve fazer justiça à pneumatologia de cada autor bíblico. [5]

Em Strontad aprendemos que a pneumatologia lucana é diferente da pneumatologia paulina. Mas atenção: é diferente, mas não contraditória. É diferente, mas ao mesmo tempo complementar.  Enquanto Lucas fala do Espírito e sua capacitação serviçal, o apóstolo Paulo destaca o papel do Espírito como agente salvador. A teologia do Espírito Santo em Lucas é carismática, enquanto em Paulo é soteriológica. Como já afirmado.

Qual a base de Stronstad? Podemos dizer que o pentecostal canadense traz uma “nova perspetiva sobre Lucas”. Na hermenêutica de Stronstad vemos o destaque para a importância de uma teologia narrativa. A ideia hermenêutica central é que Lucas escrevia como historiador e teólogo, ou seja, temos a formação de um teologia a partir da narrativa lucana. Stronstad faz um resumo de sua abordagem: “A fim de interpretar corretamente o registro lucano do Espírito Santo devemos resolver três problemas metodológicos fundamentais: 1) a homogeneidade literária e teológica de Lucas. 2) O caráter teológico da historiografia de Lucas, e 3) a independência teológica de Lucas” [6].

Portanto, longe de ser uma mera provocação litúrgica, o pentecostalismo e sua formação teológica é uma provocação hermenêutica. A contribuição para os estudos do Novo Testamento não é pequena e, assim, podemos analisar as propostas dos teólogos pentecostais da América do Norte com uma quebra de paradigma na leitura pneumatológica lucana e paulina. É certo que essa leitura acadêmica dos pentecostais está em um contexto de debates sobre a leitura do Novo Testamento. Não é um desenvolvimento isolado e, muito menos, está restrito ao ambiente pentecostal.

Outros livros acadêmicos podem ser citados como produção pentecostal: What the Bible Says about the Holy Spirit (1976) de Stanley Horton [publicada no Brasil pela CPAD como A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento]; Abundant Living (1984), interessante obra do teólogo brasileiro Antonio Gilberto sobre o papel do Espírito Santo na formação do caráter cristão [publicado em português apenas no ano 2004 pela CPAD com o título O Fruto do Espírito]; The First Epistle to the Corinthians (1987) de Gordon Fee, uma obra de referência inclusive para teólogos não-pentecostais como comentário da epístola paulina; Renewal Theology (1988) de J. Roman Williams [traduzido como Teologia Sistemática: Uma Pespectiva Pentecostal pela Editora Vida em 2011], uma abordagem simples, mas ampla sobre a pessoa e obra do Espírito; Paul, the Spirit and the People o f God (1994) novamente de Gordon Fee [traduzido pela United Press em 1997 como Paulo, o Espírito e o Povo de Deus] onde ele trabalha a pneumatologia na teologia paulina, assunto até então sem tratamento conhecido ou publicado em língua inglesa, mesmo tendo sido este o tema de doutorado do famoso teólogo Clark Pinnock em The Concept of Spirit in the Epistles of Paul 1963); An Old Testament Theology of the Spirit of God (1995) de Wilf Hildebrandt [traduzido pela editora Academia Cristã e Edições Loyola em 2008 como Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento]; Spirity and Power (2000) escrito pelos teólogos William e Robert Menzies [traduzido em 2002 como No Poder do Espírito e publicado pela Editora Vida], onde nessa obra tratam em metade dela sobre questões controversas hermenêuticas da tese da distinção pneumatológica entre a teologia de Paulo e de Lucas; Gift and Giver: The Holy Spirit for Today (2001) de Craig S. Keener; Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts (2011) de Craig S. Keener que é uma resposta à filosofia cética de David Hume, esta mesma adotada consciente ou não por diversos evangélicos conservadores cessacionistas ou pelos liberais de cunho iluminista e/ou pós-moderno. Todas essas obras mostram como é progressivo e cada vez mais estruturado o estudo do Espírito Santo entre os pentecostais. Esses continuam a avivar essa teologia do Pneuma.

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico. 1 ed. Petrópolis: Editora Vozes, p 28.

[2] Para uma breve explicação sobre as três controvérsias iniciais na teologia pentecostal veja: McGEE, Gary B. Panorama Histórico em: HORTON, Stanley M. (ed). Teologia Sistemática: uma Pespectiva Pentecostal. 10 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. pp 19-21.

[3] Como exemplo os pentecostais Paulo Romeiro, Esequias Soares e Natanael Rinaldi, todos pentecostais, por muitos anos foram os principais apologistas como movimentos não-trinitários. Eles usaram especialmente a estrutura do Instituto Cristão de Pesquisas (ICT) para esse fim.

[4] Embora uma versão resumida possa ser lida em: PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. Em inglês o título é apenas Baptism in the Holy Spirit (1999).

[5] MENZIES, William W. e MENZIES, Robert P. No Poder do Espírito: Fundamentos da Experiência Pentecostal, Uma Chamado ao Diálogo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 60.

[6] STRONSTAD, Roger. The Charismatic Theology of St. Luke. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 1984. p 3.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Leu o Êxodo e esqueceu dos Gálatas? Você está fazendo isso errado!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet. [Agostinho de Hipona]

O Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado no Novo Testamento, assim escreveu Agostinho de Hipona.  Essa é uma chave hermenêutica, ou seja, um meio precioso para entender melhor o Antigo Testamento. Nas nossas igrejas pentecostais a maior parte das pregações são feitas a partir de textos veterotestamentários. É raro alguém pregar em Tito ou em Judas. É mais fácil ouvir uma pregação baseada no Livro dos Reis ou nas Crônicas. Não é que seja ruim esse tipo de pregação, o problema, aliás, o grande problema é esquecer de Cristo enquanto se fala de Abraão, José ou Davi. Toda pregação, independente do texto e contexto, precisa começar e acabar em Cristo Jesus. Jesus é o assunto principal das Escrituras, é o contexto maior. E a leitura do Novo Testamento onde Cristo está claramente revelado deve nortear a interpretação do pregador que gosta das histórias do Antigo Testamento.


Portanto, use essa chave do bispo Agostinho. O Antigo Testamento só é inteiramente desvendado no Novo. Ou você não percebeu que os pregadores da prosperidade usam tanto Deuteronômio, Crônicas e Reis e esquecem de Timóteo?  E pior: esquecem até mesmo de e da sabedoria do Eclesiastes! Ou seja, desprezam o conhecimento e a revelação progressiva das Sagradas Escrituras. Você também não percebeu que os “teólogos da desgraça” usam e abusam dos profetas menores e do “devorador” de Malaquias enquanto esquecem de Lucas? E ainda: e os legalistas, judaizantes e sabatistas que usam e abusam do Êxodo, mas parecem que nunca leram Gálatas?

Ou seja, o pregador fiel às Escrituras precisa entender que a interpretação bíblica só é eficaz quando observa o devido contexto. E o contexto mais amplo de qualquer texto bíblico é a Escritura como um todo.