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segunda-feira, 20 de junho de 2016

É realmente necessário congregar?

Esta é uma pergunta que eu não posso responder. Minha própria experiência é que logo que eu me tornei um cristão, cerca de quatorze anos atrás, eu pensava que poderia me virar sozinho, me retirando a meu quarto e lendo teologia, e não frequentava igrejas ou estudos bíblicos; e então mais tarde eu descobri que era o único modo de você agitar sua bandeira; e, naturalmente, eu descobri que isso significava ser um alvo. É extraordinário o quão inconveniente para sua família é você ter que acordar cedo para ir à Igreja. Não importa tanto se você tem que acordar cedo para qualquer outra coisa, mas se você acorda cedo para ir à igreja é algo egoísta de sua parte e você irrita todos na casa. Se há qualquer coisa no ensinamento do Novo Testamento que é na natureza de mandamento, é que você é obrigado a participar do Sacramento e você não pode fazer isso sem ir à igreja. Eu não gostava muito dos seus hinos, os quais eu considerava poemas de quinta categoria com música de sexta categoria. Mas à medida em que eu ia eu vi o grande mérito disso. Eu me vi diante de pessoas diferentes de aparência e educação diferentes, e meu conceito gradualmente começou a se desfazer. Eu percebi que os hinos (os quais eram apenas música de sexta categoria) eram, no entanto, cantados com tamanha devoção e entrega por um velho santo calçando botas de borracha no banco ao lado, e então você percebe que você não está apto sequer para limpar aquelas botas. Isso o liberta de seu conceito solitário. [C. S. Lewis]

fonte: LEWIS, Clive S. God in the Dock: Essays on Theology and Ethics. 1 ed Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 2014. p 52-53. Tradução: Sandro Baggio.

domingo, 19 de junho de 2016

Jesus Cristo foi um revolucionário político?

Muitos substituíram o liberalismo, o conservadorismo ou algum outro “ismo” por Cristo e cooptam Cristo para a causa deles. Cristo não pode ser cooptado por nenhuma causa; todas as causas têm de ser cooptadas por ele. Todos os “ismos” são abstrações. Até mesmo o “ismo” perfeito, se houver algum, não pode nos salvar nem nos amar. [Peter Kreeft][1]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não há dúvida que Jesus trouxe um tsunami para o judaísmo de sua época e, consequentemente, para a história de todo o mundo antigo e moderno. A forma como o homem entende a religião e a própria vida mudou com o nazareno. O mundo é outro depois do nascimento do Messias. Isso é reconhecível mesmo para um homem sem fé. Porém, historicamente Jesus tinha pretensões políticas na Palestina do primeiro século? Jesus, como líder humano e carismático, teve qualquer vontade de provocar uma revolução política? Jesus tinha algum projeto de poder temporário? Queria Ele assumir o lugar de César para libertar os oprimidos da Judeia contra o imperialismo romano?

De vez em quando vejo a turma teológica-ideológica-progressista postulando a ideia que Jesus era uma espécie de revolucionário político. Esse pensamento é tão estranho, exótico e absurdo que o erudito Joachim Jeremias (1900 – 1979), um dos maiores especialistas em Novo Testamento e um intelectual ponderado, dizia que quem faz essa interpretação "não entendeu Jesus”[2]. É a velha tentativa da teologia de cunho racionalista em produzir um Cristo segundo a própria imagem e semelhança do homem moderno. O estudioso judeu Géza Vermès (1924-2013), que não foi propriamente um cristão tradicional, escreveu: “Não que pareça ter havido algum desacordo fundamental entre Jesus e os fariseus no tocante a temas essenciais... Não há na minha leitura dos evangelhos indícios que apontem para qualquer envolvimento de Jesus nas questões revolucionárias dos zelotes”[3].  Essa leitura ideológica de Jesus partiu de teólogos com bases marxistas como Fernando Belo, Michel Clévénot e George Casalis. É óbvio que tais nomes influenciaram ideólogos da Teologia da Libertação e, também, do próprio renascer adocicado do liberalismo teológico.  

Vejamos os motivos para rejeitar como ficção de quinta categoria qualquer alegação de revolução política em Jesus:

1.      Relação amistosa com os samaritanos. O tratamento dado aos samaritanos afastava o Mestre de qualquer postura ultranacionalista, traço tão comum aos zelotes de sua época. Bem, quem eram os zelotes? Era um grupo ultranacionalista de judeus que enxergava na aceitação da dominação estrangeira e no pagamento de impostos a Roma um ato blasfemo contra o próprio Yahweh. Os zelotes eram extremistas, usavam táticas de ataques repentinos (terrorismo) contra os inimigos e eram minoritários entre os judeus, mas foram essenciais no levante contra Roma na década de 60 do primeiro século. O historiador judeu Flávio Josefo (37 d.C.- 100 d.C.) atribui aos zelotes “a primeira causa da ruína de Jerusalém”[4]. Os zelotes, inclusive, matavam judeus que, na visão deles, colaboravam com Roma. Pelas táticas de ataque os zelotes eram conhecidos como sicários (apunhaladores) pelos romanos porque tinham o costume de esconder um punhal embaixo das vestes para atacar em meio a uma multidão sem serem pegos facilmente. 

2.  A purificação do templo (João 2.12-22). Os discípulos ao lembrar o Antigo Testamento, especialmente do Salmo 69.9, mostraram que a motivação de Jesus não era subversiva, mas de purificação ritualística, profética e escatológica. Jesus, ao purificar o templo, é imediatamente remetido ao servo sofredor do Salmo 69.  A escatologia do judaísmo pregava o estabelecimento de um novo templo na era messiânica (Ez 40-44; 1 En 90.28-36; Sl. Sal. 17.30; 4QFlor 1.1-13). Ora, é importante observar que a ação purificadora de Jesus se deu “no pátio do templo” (v. 14), uma área destinada aos gentios. Portanto, para Jesus, na era messiânica o espaço dos gentios deveria ser igualmente livre para adoração.  O significado teológico da ação de Jesus foge de qualquer escopo nacionalista, pois, ao contrário, tal “revolta” mostrou como Jesus valorizava a figura do não-judeu na adoração estabelecida.

3.    Nenhum discípulo preso. Como lembra Gerd Theissen: “Nenhum dos discípulos de Jesus foi preso com ele, o que certamente seria de esperar na hipótese de um movimento de rebelião”[5].

4.    A espada em Lucas 22.38. Jesus mostra aos discípulos que não esperassem mais hospitalidade e generosidade no trabalho missionário. Agora, ao contrário, iniciaria um tempo sombrio e hostil. Não é nenhum convite a qualquer revolta, pelo contrário, mas apenas a preparação comum de um viajante nas estradas perigosas do mundo antigo.  O historiador Flávio Josefo mostra que até mesmo os essênios, conhecidos pela vida pacata e asceta, usavam armas em suas viagens[6].

5.    Simão, o zelote. A adjetivação de Simão como zelote (Lc 6.15) mostra que os demais discípulos, excetuando Judas, e o próprio Jesus estavam excluídos desse grupo revolucionário. Se eu falo que congrego numa igreja onde o Karl, o alemão, também congrega, logo estou mostrando que esse estrangeiro é uma exceção entre os meus.

Sobre essa leitura míope de um “Cristo revolucionário”, o teólogo e exegeta Francis Pierre Grelot (1917-2009) escreveu e sintetizou bem o assunto:

Trata-se de fantasias sem valor histórico: a ótica de leitura adotada falseia constantemente os textos, projetando neles a ideologia (dos autores). (...) Ficamos surpresos ao constatar entre esses (teólogos) uma adoção ingênua dos postulados marxistas, classificados como ‘científicos’, sem distância nem espírito críticos. Se é verdade que a análise sociológica do judaísmo antigo e do cristianismo primitivo seria fecunda para renovar a leitura dos textos (bíblicos), é verdade também que a “redução” à qual conduz este espírito de sistema introduz neles verdadeiros preconceitos que falseiam sua compreensão.[7]

Portanto, reduzir Cristo a uma espécie de Che Guevara primitivo não é só pobreza exegética, é acima de tudo uma forma de idolatria idiota.




[1] KREEFT, Peter. Jesus: o maior filósofo que já existiu. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009. p 145.
[2] JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2008. p 334.
[3] VERMES, Geze. Jesus e o Mundo do Judaísmo. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p 20.
[4] JOSEFO, Flávio. História dos Judeus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. pos 25160.
[5] MERZ, Annette e THEISSEN, Gerd. Jesus Histórico: um Manual. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p 486.
[6] JOSEFO, Flávio. História dos Judeus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. pos 21689.
[7] GRELOT, Pierre. Esperança Judaica no Tempo de Jesus. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p 126.

sábado, 18 de junho de 2016

O massacre de Orlando iniciou uma guerra contra os cristãos

Por David A. French
Tradução: Charles Souza

De alguma maneira, o massacre realizado por Omar Mateen colocou os cristãos americanos na defensiva

Nós estamos olhando completamente através de um espelho[1]. Um muçulmano entrou em uma boate gay e matou a tiros 49 homens e mulheres, sendo a maioria de gays e lésbicas. Ele parou no meio do massacre para ligar para a polícia e para uma emissora de TV local, deixando claro que ele queria que o mundo todo tomasse conhecimento de sua promessa de lealdade ao ISIS. Não há nada a esconder aqui. Isso é um evidente caso de jihadismo na prática- claro e simples.

Mas de alguma forma, o caso de Omar Mateen colocou os cristãos americanos na defensiva.

No último dia 14, Anderson Cooper, apresentador da CNN, questionou a advogada geral da Flórida, Palm Bondi, acusando-a de hipocrisia por expressar apoio aos mortos da Flórida. Por que ela seria hipócrita? Por causa de sua oposição ao casamento homossexual.

No último dia 15, o jornal The New York Times fez um editorial sobre as ameaças nos EUA contra a sua comunidade LGBT e declarou que eles eram vítimas de uma sociedade onde o ódio tem raízes profundas. A "sociedade" que o jornal The New York Times condenou não era o Estado Islâmico - era a América, e especificamente os estados do Texas e da Carolina do Norte, que estão lutando contra um decreto federal que exige que homens devam ter acesso ao banheiro feminino. O The New York Times não consegue condenar Abu Bakr al-Baghdadi, mas ataca com facilidade o governador da Carolina do Norte, Pat McCrory, e o governador do Texas, Greg Abbot.


Até mesmo cristãos bem-intencionados estão adotando uma linha progressista e secular. Em uma publicação de Facebook que se tornou viral, a escritora popular e palestrante, Jen Hatmaker, declarou: "Nós não podemos, com alguma integridade, honrar na morte aqueles que falhamos em honrar na vida." Ela então continua propondo uma típica abordagem de esquerda, argumentando que o sentimento anti-LGBT dos cristãos pavimentou uma longa estrada para crimes de ódio.

Os princípios, tais como eles existem, parecem ser assim: Se você é contra o casamento homossexual ou o uso de banheiros de acordo com a identidade de gênero, então você não só é capaz de lamentar legitimamente a perda de vidas de gays, como é também parcialmente responsável pelo massacre em Orlando. Os esforços por parte dos conservadores para proteger a liberdade religiosa e a liberdade de associação a qualquer grupo de infrações externas irão matar pessoas. Esqueça que todas as atuais evidências do caso apontam para motivações tiradas de uma conhecida e largamente compartilhada interpretação da lei Shariah, mas alguma forma esses malditos batistas são os culpados.

Isto significa que Barack Obama teria sido cúmplice no massacre caso tivesse acontecido quatro anos atrás, antes de ele alterar publicamente seu posicionamento sobre o casamento homossexual? E quanto a Hillary Clinton? Ela era contra o casamento gay até 2013. Seu marido assinou a lei de defesa do casamento tradicional. O atirador de Orlando morou por vários anos sob administrações democratas que se opunham ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu acho que Bill Clinton também tem um pouco de culpa.

Eu não tenho palavras para expressar meu desdém por essa visão. Algum ser humano sensato acredita que se um cristão tivesse começado este ataque, esses mesmos progressistas não culpariam suas crenças religiosas? A suposta comunidade baseada na realidade ignora a atual evidência do ataque - o próprio Mateen declara em alto e bom senso suas crenças jihadistas - em uma tentativa de envergonhar um grupo cujo principal pecado é se opor à revolução sexual.

Mas há algo ainda mais sinistro acontecendo do que as diversas variedades de intolerância anticristã, com a ajuda de crentes ingênuos como Hatmaker: Os americanos estão sendo, propositalmente e intencionalmente, distraídos dos nossos verdadeiros inimigos. De novo, a ameaça jihadista está sendo minimizada.

Alguns à esquerda simplesmente recusam a acreditar que terroristas dizem sobre eles mesmos e sobre suas intenções. Osama Bin Landen não poderia ter atacado o World Trade Center a parte de um desejo de se vingar contra os cristãos do século XV pela conquista da Espanha muçulmana. Líderes iranianos não querem realmente dizer "morte aos Estados Unidos”. As nações muçulmanas que aplicam pena de morte ou outras punições criminais extremamente rigorosas e severas para a homossexualidade não expressam verdadeiramente a vontade do seu povo.

O resultado é a intolerância ocorrendo de duas maneiras - um irracional ódio a cristãos americanos e uma compreensiva negação da agência moral muçulmana. Os cristãos americanos são responsáveis por coisas que eles não creem. Muçulmanos que seguem a Shariah, entretanto, não são responsáveis pelas coisas que eles acreditam.

E não cometa erros, dizem os muçulmanos que não se importam nem um pouco com o que o The New York Times, Anderson Cooper, Jen Hatmaker ou qualquer outro apologista contrário ao cristianismo tem a dizer. Para eles, tirar uma vida americana é tão bom quanto tirar qualquer outra. Eles atacarão novamente, talvez em alguma outra boate gay, ou em uma confraternização na empresa durante o Natal, ou em uma cafeteria, ou em um evento esportivo, ou uma igreja. E quando eles atacarem, certamente haverá alguns americanos que justificarão essas ações com a intenção de culpar outros americanos no lugar.

David A. French é advogado formado pela Harvard University, major aposentado do exército americano e membro da Igreja Presbiteriana, além de colunista da National Review. Atualmente é presidente da Foundation for Individual Rights in Education. Ainda em 2014 escreveu um livro sobre a ascensão do Estado Islâmico: The Rise of ISIS: A Threat We Can’t Ignore. Artigo publicado originalmente na National Review. (leia neste link).




[1] Referência ao último filme da saga Alice Through the Looking Glass. No Brasil o título do filme é Alice Através do Espelho.