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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A decadência do cessacionismo

Nada em Paulo sugere que os chamados “dons espirituais” cessariam até o tempo em que “conheceremos como somos conhecidos”. O Espírito continua a soprar à vontade e qualquer um que disser “eu sei donde Ele vem” ou “eu sei para onde Ele vai” é melhor encarar João 3.8 e, assim, pensar novamente. [N.T. Wright]

O cessacionismo é a crença segundo a qual os dons extraordinários, especialmente a profecia e glossolalia, ficaram restritos ao primeiro século da Era Cristã. Paradoxalmente o cessacionismo no Brasil faz barulho, e muito barulho! Talvez porque vivemos na maior nação carismática do mundo e é naturalmente que a reação seja igualmente grande. Neste texto quero apontar sobre o porquê da decadência do cessacionismo e como isso explica a virulência das suas manifestações.

Não faz muito tempo o famoso pastor batista fundamentalista John MacArthur Jr. lançou uma conferência para combater o pentecostalismo, como se esse fosse um câncer perigoso ao cristianismo. Nas palestras não havia distinção entre as loucuras do Benny Hinn com o gracioso ministério de David Wilkerson, por exemplo. Para John MacArthur e os demais conferencistas, se alguém fala em línguas a hipótese mais benevolente é que essa pessoa seja uma desequilibrada ou, em alguns casos, até mesmo endemoninhada.

No Brasil não é diferente. O pastor batista fundamentalista Marcos Granconato, uma espécie de cópia de MacArthur, dedica boa parte do seu ministério a demover pentecostais ou continuístas de sua própria crença. E aqui falo em cópia no sentido positivo e negativo do termo, logo porque o autor em nada manifesta pensamento próprio senão na repetição de argumentos do pastor californiano. Ele se comporta como uma espécie de evangelista cuja missão é arrancar jovens das “trevas carismáticas”. Como um Dom Quixote, esses teólogos se aventuram a combater inimigos imaginários com toda a força e vontade. Ou seja, um verdadeiro desperdício para a causa do Reino de Deus. Além disso, esse debate parecia até superado na década de 1980, mas há sempre certo espírito reacionário que insiste em velharias e disputas mesquinhas.

Esse comportamento histérico é explicado pela degradação da teologia cessacionista. Essa teologia foi dominante nos círculos protestantes no final do século XIX e na primeira metade do século XX, mas especialmente a partir da década de 1960 a aceitação vem sendo de uma fração cada vez mais diminuta de cristãos, sejam eles protestantes ou católicos. E isso não somente entre a teologia popular e seus expoentes nos púlpitos periféricos, mas o carisma do Espírito também chegou à academia com toda a força de um vento que assopra onde quer.

O continuísmo, ou seja, a crença que todos os dons neotestamentários são válidos para a contemporaneidade é hoje exposta por teólogos de primeira linha. Nomes como J. Lee Grady, Wayne Grudem, Jack Deere, Craig Keener, Jon Ruthven, Sam Storms, Doug Oss, Mel Robeck, Paul Elbert, Randy Clark, Robert Menzies, J. P. Moreland, Gary Greig, Mark Rutland, Michael Brown, Gary Shogren, William De Arteaga, William K. Kay, Melvin Hodges, N. T. Wright, D. A. Carson, John Piper, Mark J. Cartledge, Roger Olson, Gordon D. Fee, Krister Stendahl, Grant. R. Osborne, Jon Mark Ruthven, James K. A. Smith, Amos Yong, Wilf Hildebrandt  etc.

O interessante nessa lista é enxergar expoentes das mais diversas correntes concordando em um ponto: o dom do Espírito é também para hoje. Outro ponto alto é ver grandes especialistas em hermenêutica e exegese, Novo Testamento e teologia paulina como continuístas. Há, também, diversas confissões representadas: luteranos, anglicanos, batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos.

O debate, em termos bem mais civilizados, também chegou ao seio católico. O teólogo francês Yves Congar (1904-1995), considerado um dos maiores especialistas em pneumatologia, era um continuísta entusiasmado. Congar, enquanto vivia, era muito amigo do maior teólogo católico do último século: Joseph Ratzinger. Poucos sabem, mas Ratzinger, considerado um clérigo bem conservador, tem uma perspectiva aberta sobre o exercício contemporâneo da profecia para além do magistério ou dos sacramentos. Veja a concepção de profecia do teólogo alemão em: RATZINGER, Joseph. Ser Cristão na Era Neopagã. Vol. 3. 1 ed. Campinas: Ecclesiae, 2016. pp 131- 150.

O que mais irrita nos cessacionistas brasileiros é esse tom de superioridade, a arrogância de quem pensa ser o suprassumo da teologia. Quanta tolice de quem está a perder o bonde da história, logo porque o século XXI tem como marca a expansão do cristianismo com face carismática. Além disso, esses sempre estão prontos a gracejos e piadas de mau gosto, especialmente envolvendo a manifestação da glossolalia. Alguns, que nem sabem usar minimamente a gramática da língua pátria, querem insinuar que os outros não conseguem discernir o delírio da linguagem.

Que o Espírito Santo venha sobre nós com graça, serviço e sabedoria!
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Se você quer aprofundamento sobre o assunto não deixe de ler essas obras em português:

- O Dom de Profecia - Do Novo Testamento aos Dias Atuais (Editora Vida) de Wayne Grudem.
- Surpreendido pelo Poder do Espírito (CPAD) de Jack Deere.
- Surpreendido com a Voz de Deus (Editora Vida) de Jack Deere.
- A Manifestação do Espírito. A contemporaneidade dos dons à luz de I Coríntios 12-14 (Edições Vida Nova) de D. A. Carson.
- Paulo, o Espírito e o Povo de Deus (Edições Vida Nova) de Gordon D. Fee.
- O Batismo no Espírito Santo e com Fogo (CPAD) de Anthony D. Palma.
- Rastros de Fogo (CPAD) de José Gonçalves.
- No Poder do Espírito (Editora Vida) de Robert e William Menzies.
- Revelação e Experiência do Espírito Santo - n. 1  (Edições Paulinas) de Yves Congar.
- Quando o Espírito Vem com Poder (ABU Editora) de John White.
- Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento (Editora Academia Cristã e Edições Loyola) de Wilf Hildebrandt.
- A Doutrina do Espírito Santo (CPAD) de Stanley M. Horton.

Artigos:
- Dons Espirituais em: Dicionário de Paulo e suas Cartas (Edições Vida Nova, Edições Loyola e Editora Paulus) de Gordon D. Fee.
- 1 Coríntios em: Comentário Bíblico Pentecostal (CPAD) de Anthony D. Palma.

- Pneumatologia em: Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD) de Antonio Gilberto. 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Uma breve resposta a Marcos Granconato

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O teólogo Marcos Granconato, conhecido expoente do cessacionismo no Brasil, escreveu em sua página no Facebook uma breve explicação sobre o porquê ele acredita na cessação do dom de línguas. Leia o texto abaixo e em seguida veja a minha resposta.

Antes, por favor, peço o equilíbrio nos comentários, logo porque não estamos em um jogo de futebol, mas em um debate importante, porém sobre um tópico secundário da fé cristã. O cessacionismo é um equívoco, mas não uma heresia ou algo do tipo. O cessacionista merece respeito, especialmente porque continua sob a graça de Cristo como nosso irmão na fé.

Marcos Granconato escreveu:

O dom de línguas era a capacidade dada pelo Espírito Santo a alguns crentes de falar sobre as grandezas de Deus em um idioma humano jamais aprendido por quem falava (At 2.7-11). [...] Algo muito importante a ser levado em conta para entender porque esse dom acabou é que, ao definir o dom de línguas, Paulo citou Isaías 28.11-12, um texto em que as línguas figuram como sinal de juízo contra Israel. Com base nesse texto, Paulo afirmou que as línguas são um "sinal", ou seja, um sinal de juízo contra judeus incrédulos que rejeitavam a mensagem de Deus (1Co 14.21-22). [...] De fato, Deuteronômio 28.46,49 diz que ouvir uma língua desconhecida seria um sinal do juízo de Deus contra Israel sempre que esse povo rejeitasse sua mensagem (Jr 5.11-15). Ora, Israel rejeitou o Filho (At 7.51-53). Por isso, Deus usou a igreja para fazer com que os judeus daquela geração ouvissem línguas que não entendiam como sinal do juízo que estava por vir. [...] Esse juízo foi predito por Jesus (Mt 23.37-39) e chegou no ano 70 AD por mãos do general romano Tito. Tanto era verdade que línguas sinalizavam o juízo contra os que haviam rejeitado o Filho que, por razões não muito claras, os crentes de Jerusalém deixaram a cidade pouco tempo antes dos romanos chegarem e fugiram para uma cidade chamada Pelah, de modo que nenhum crente morreu durante o cerco e invasão de Tito. As línguas sinalizavam juízo contra os incrédulos e, de fato, somente os incrédulos foram alcançados por aquele juízo! [...] Uma vez que o castigo contra Israel sinalizado pelas línguas ocorreu, esse dom deixou de ser necessário e desapareceu. Obviamente, o fim do dom de línguas trouxe também o fim do dom de interpretação.

No capítulo 14 de 1 Coríntios o apóstolo Paulo disciplina a congregação sobre o exercício dos dons espirituais, especialmente o falar em línguas e a profecia. O capítulo é dividido normalmente em seis parágrafos que estruturam o desenvolvimento do argumento central, que é o princípio da edificação do corpo por meio dos carismas bem aplicados e disciplinados. É consenso entre os exegetas que o discurso paulino inserido entre versículos 20-25 é de difícil interpretação[1]. É curioso como a tese do Granconato está sustentada apenas em um trecho exegeticamente complexo. Como todos sabem, um bom princípio hermenêutico é sustentar uma proposta teórica em textos claros e objetivos, portanto uma doutrina que nasce baseada apenas em um trecho obscuro da Bíblia já é natimorto.  

Não sei qual é a posição escatológica do teólogo Granconato, mas a interpretação que é feita por ele dos versículos 20 a 25 encaixa-se perfeitamente entre alguns intérpretes dispensacionalistas que enxergam o dom de línguas apenas como um sinal de juízo para os judeus. A tese dele é a mesma de Zane C. Hodges (1932-2008)[2] e John MacArthur Jr[3]. A argumentação exposta por esses autores, inclusive o próprio Granconato, é muito reducionista. Ainda que essa interpretação fosse a mais adequada, o que certamente não o é, esse texto paulino não é um único a fazer menção sobre o propósito das línguas. Por exemplo, como as línguas como devoção pessoal, mencionadas pelo apóstolo nos versículos anteriores (vv. 13-19) podem ser encaixadas apenas em um esquema escatológico já realizado? Outro lapso no argumento do Granconato é transpor o judeu rebelde de Isaías 28 para o texto paulino. Como lembra Carson, “o descrente em 1 Coríntios 14 é um gentio”[4].

Então, o que Paulo realmente quis dizer? Ora, o contexto ainda é a ordem do culto e não uma perspectiva escatológica. Nesse trecho o apóstolo mostra a necessidade de uma comunicação legível para os descrentes. O uso público das línguas estava expelindo o incrédulo da comunidade cristã por privá-los da revelação[5]. Ou como disse Horton: “as línguas transmitem ao incrédulo um sinal, apenas, e não uma mensagem”[6]. Ou seja, um descrente que entra na igreja e só ouve línguas sem interpretação será um completo alienado. O ímpio estará apenas diante de um sinal, no sentido negativo do termo, e assim como os antigos israelitas rebeldes, esse mesmo descrente só se fechará ainda mais em sua incredulidade. Anthony D. Palma escreveu: “as línguas que ouvem confirmam sua incredulidade, porque são um sinal da presença e da atividade de Deus, que continuam a rejeitar” sem entender[7].

Não há fruto de conversão em um culto sem ordem e decência onde a glossolalia toma as rédeas. Diz o pentecostal R. L. Brandt: “o uso coletivo e simultâneo deste dom não atenderia a este propósito (a edificação do ouvinte)[8]”. Hoje, infelizmente, a edificação não é um princípio observado por muitos carismáticos que tornam o culto, dentro de uma perspectiva externa, um verdadeiro ruído de comunicação, já que confunde a igreja com um hospício. Quantos descrentes vocês conhecem que possuem resistência à igreja justificando-se no barulho? Embora não ajam desculpas para não buscar a Deus, devemos evitar a alienação do incrédulo no nosso culto, logo porque “consequentemente, a fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” [Romanos 10.17 NVI].




[1] CARSON, Donald Arthur. A Manifestação do Espírito: A Contemporaneidade dos Dons À Luz de 1 Coríntios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 110. Veja também: CIAMPA, Roy E. e ROSNER, Brian S. 1 Coríntios. em: BEALE, G. K. e CARSON, D. A. Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 922.
[2] HODGES, Zane. The Purpose of Tongues em: Bibliotheca Sacra, Vol. 120. Julho- Setembro de 1963. p 226-233.
[3] MaCARTHUR JR., John. Fogo Estranho. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2013. p 164. Veja especialmente a nota de rodapé do trecho em apreço na Bíblia de Estudo MacArthur (1 ed. Barueri: SBB, 2010).
[4] CARSON, D. A. Op. Cit. p 113.
[5] FEE, Gordon Donald. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Eedmans Publishing, 1987. p 682.
[6] HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 248.
[7] PALMA, Anthony D. 1 Coríntios. em:  ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1029. Palma concorda com F. F. Bruce que escreveu: “uma comunicação divina em línguas estranhas, dirigida àqueles que são deliberadamento desobedientes, não fará nada mais do que confirmá-los em sua desobediência: permancendo ainda mais incrédulos”.
[8] BRANDT, R. L. Falar em Línguas: O Maior Dom? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 79. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Os pioneiros e o reteté

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Sempre que tenho a oportunidade de dialogar com pastores veteranos das Assembleias de Deus, especialmente aqueles que tiveram a experiência da conversão antes da década de 1970, é quase unânime a classificação do chamado "reteté" como "meninice".

Na década passada conversei bastante com o pastor Miguel Saraiva, ordenado ao ministério nos anos de 1960 no interior do Maranhão, e falecido aos 97 anos a poucos meses atrás. O reverendo dizia pra mim que a pregação não demandava gritaria. Várias vezes pude escutá-lo pregar, mas sempre sereno. A única vez que o ouvi falar em línguas ao microfone não durou mais do que alguns segundos. Ele levava 1 Coríntios 14 muito a sério. Miguel teve como professor outro pioneiro: Estevam Ângelo de Souza.

Hoje os histéricos querem transformar o culto em um hospício e dizem ainda que seguem os passos dos pioneiros. Na verdade, esses meninos na fé e no entendimento são frutos de dois congressos modistas: os GMUH e a ADHONEP. Ambos os eventos dessas entidades em muito jogaram laranjas podres na cesta do pentecostalismo brasileiro. Se tivessem aprendido com Gunnar Vingren, Estevam Ângelo de Souza, Alcebíades Pereira de Vasconcelos, Donald Gee, Orlando Boyer etc. jamais agiriam com palhaçada, indecência e desordem.

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NEM SEMPRE É POSSÍVEL DISTINGUIR O VERDADEIRO E O FALSO MINISTÉRIO

João Calvino escreveu:
Os genuínos servos de Deus nem sempre se distinguem devidamente dos falsos obreiros, porque os pontos bons e maus são encobertos pelo manto da noite; todavia, essa noite não durará para sempre. Porque a ambição é cega, a generosidade humana é cega, o aplauso do mundo é cego, porém Deus um dia dissipará essas trevas, a seu próprio tempo.

Como não concordar com o reformador francês? Nem sempre é possível discernir o verdadeiro do falso, o joio do trigo, o homem de Deus do homem orgulhoso. Muita coisa hoje é oculta, nublada, escondida, mas o Dia do Senhor virá e toda obra passará pelo teste do fogo. Vamos pensar sempre: O meu edifício sobreviverá como sólida edificação ou virará pó? Estou construindo uma obra para reflexo na eternidade ou para mera satisfação da minha vaidade? Estou vivendo para a glória de Deus ou para o louvor dos homens?

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O QUE SIGNIFICA SER "CHEIO DO ESPÍRITO"?

Biblicamente, especialmente nas epístolas paulinas, ser cheio do Espírito é ter o coração transformado e moldado ao caráter de Cristo. Billy Graham dizia que ser cheio do Espírito Santo não é "uma questão de haver mais dEle, como se a sua obra em nós fosse quantitativa. Não se trata de quanto do Espírito nós temos, mas quanto o Espírito tem de nós... À medida que entendemos cada vez mais a liderança de Cristo, nós nos entregamos e cedemos cada vez mais a Ele. Assim, ao buscar a plenitude do Espírito, recebemos e desfrutamos do seu preenchimento e da sua plenitude, cada vez mais."

Agora, a plenitude do Espírito também envolve a capacitação sobrenatural para testemunhar de Cristo neste mundo, como vemos nos escritos de Lucas. É uma capacitação que não vem do nosso próprio esforço, mas é recebido como um carisma do Espírito. Não é só a salvação e a santificação que recebemos pela graça, mas a própria capacidade de realizar grandes obras para o Reino. Deus nos dá dons, sejam visíveis ou não, mas o Senhor sempre capacita a Sua Igreja.

Portanto, ser cheio do Espírito é o caráter moldado e o poder do alto para testemunho eficaz. Uma coisa não anda saudavelmente sem a outra. Não se mede o enchimento do Espírito, especialmente pelo barulho ou movimentos corporais, pois quem assim pensa está reduzindo terrivelmente a obra do Espírito.

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HOUVE AVIVAMENTO EM AZUSA?

Recentemente eu estava numa livraria evangélica quando me deparei com mais um novo livro estrangeiro sobre a história dos avivamentos. Pensei em comprá-lo, mas antes conferi o índice. O autor contaria história de diversos avivamentos em todo o mundo, mas simplesmente ignorou o Avivamento da Rua Azusa. Seja ignorância ou preconceito antipentecostal, aquele teólogo falhou ao jogar fora um dos maiores avivamentos da Igreja moderna. Em Azusa tivemos todos os elementos de um verdadeiro avivamento: arrependimento de pecados, inúmeras conversões, impulso missionário, paixão pelas Escrituras e transformação social, pois naquela casa de Los Angeles não havia distinção de homens em raça ou classe social. E também houve exageros emocionais, algo igualmente comum em todos os grandes avivamentos. Ainda que Azusa seja esquecida pelos historiadores cristãos, vejam vocês, a sua influência continua e continuará a marcar a Igreja Cristã contemporânea.

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A ORAÇÃO MOVE O BRAÇO DE DEUS?

Deus é soberano, portanto não manipulável. Em Isaías 38 lemos como a oração do rei Ezequias transformou o monarca em um homem mais quebrantado. A oração não guia a Deus. É Ele quem nos guia por meio da oração. A oração não transforma o coração de Deus. É Deus quem transforma nosso coração por meio da oração. Ou como disse Søren Kierkegaard (1813 —1855): "A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora."

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Leia essas e outras mensagens na página do blog: https://www.facebook.com/teologiapentecostal


sábado, 30 de janeiro de 2016

O individualismo e a leitura superficial das Escrituras: duas marcas da espiritualidade evangélica contemporânea

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O famoso crítico literário norte-americano Harold Bloom escreveu no livro The American Religion[1] uma ferrenha crítica aos evangélicos mais conservadores (ou fundamentalistas) encarnados na Convenção Batista do Sul. Embora sejamos evangélicos conservadores, objetos da crítica de Bloom, não é possível ignorar algumas observações pertinentes do autor. A crítica é feita à igreja americana, todavia é totalmente aplicável ao Brasil, talvez o país mais parecido com a composição religiosa do protestantismo norte-americano, especialmente em seus defeitos. Vejamos alguns pontos da análise de Bloom.

O evangélico é radicalmente individualista

A experiência pessoal de um Deus que intervém de fora para construir uma ordem adequada ao meu próprio eu é fortemente enraizada na crença evangélica. Literalmente o evangélico se enxerga como o centro do mundo físico e até do cósmico. Não é à toa que a promessa de Deus a Abraão em Gênesis 12 é lida por muitos como uma realidade para a sua própria vida. No lugar de olhar para Cristo como o cumprimento da promessa, o evangélico vê em si a concretização do sonho de Abraão e tenta transportar até mesmo a prosperidade material do antigo patriarca para os dias de hoje. Outras promessas específicas para Israel como nação, também, são individualizadas e abraçadas como próprias.

O psiquiatra cristão Dan Blazer, refletindo sobre esse ponto levantado por Bloom, escreve como o individualismo evangélico despreza o senso de comunidade tão presente nas Escrituras. Vale a pena ler essa extensa citação:

A religião americana não incentiva a vida em comunidade ou a confissão, porque o individualismo da sociedade americana direciona sua religião para a solidão interior. Os evangélicos enfatizam o Jesus ressurreto em vez do Jesus crucificado e, portanto, anteveem um eu revitalizado em vez do eu sofredor. Assim como os gnósticos dos dois primeiros séculos da era cristã buscavam conhecer seu espírito interior e uni-lo à luz divina, a salvação para o evangélico não vem através da comunidade ou da confissão congregacional, mas através de um relacionamento pessoal e íntimo com Jesus. [...] Muitos dos pacientes de quem tratei, vindos de tradições de fé evangélicas, tendem a flutuar de uma congregação a outra. Se surgem problemas no companheirismo dos membros da igreja (e eles são muito prováveis de surgir se a pessoa está sofrendo emocionalmente), a solução mais fácil é mudar-se para outra igreja, talvez até mesmo se comprometendo com um diferente (mesmo que em detalhes) conjunto de crenças. [...] Dentro de uma comunidade evangélica, alguém pode flutuar através de um mar de sutis variações na doutrina e por uma variedade de congregações cristãs. Esse fenômeno é incompreensível para meus amigos judeus quando o descrevo para eles. A fé para um judeu significa ligação à comunidade, a Israel, através de uma longa e sofrida história. A fé não pode ser separada da comunidade ou da história. Contudo, para os evangélicos problemáticos, isolar-se de alguma tradição religiosa ou da comunidade é uma experiência muito comum.[2]

O forte individualismo evangélico proporciona cenas comuns como o culto substituído pelo show, a comunhão de pequenos grupos pela multidão em grandes auditórios, o canto congregacional pela música de espetáculo e, como diz Blazer, o trânsito religioso. A falta de senso de comunidade na espiritualidade evangélica é um problema tão sério que já é objetivo de extensos estudos na academia[3].

Em parte, tal crença individual que parece honrar Jesus, na verdade o despreza porque joga fora a própria ideia de Igreja. Um dos princípios da igreja é a sua catolicidade, ou seja, sua universalidade. A Igreja não é sectária, nunca toma a parte pelo todo. Nem torna o individualismo o centro do seu relacionamento. A Igreja é corpo, um conjunto de partes, sem nenhum desprezo e esmagamento das individualidades, mas também sem nenhuma pretensão de reinado de egos. A Igreja quando despreza a sua catolicidade se torna um conjunto de brigas infinitas de egos.

A crença na inerrância bíblica não reflete na qualidade de leitura do evangélico

Bloom diz que a “maior verdade podemos descobrir sobre o grito de guerra fundamentalista sobre a ‘inerrância bíblica’ é que não tem quase nada a ver com a experiência real de ler a Bíblia”[4]. Ou seja, nem mesmo a crença tão firme que a Bíblia é a própria Palavra de Deus, sem erros, faz do evangélico um leitor atento da Bíblia. O que sobra é a superficialidade bem manifesta nos sermões de cada domingo. O livro sagrado que era símbolo de liberdade dos batistas nas guerras civis da história americana no século XVII, hoje é apenas um monumento estático para reafirmação das próprias ideias. A contradição nasce justamente em como a Bíblia é mal tratada no grupo que jura ter nela a sacralidade isenta de erros.

O crítico literário ainda cita a boa observação de Ellen M. Rosenberg. A autora diz que o mundo evangélico estrutura suas crenças com generalidades e ambiguidades. E a Bíblia, assim, torna-se um quebra galhos de autoafirmações baseadas em crenças sociais e tradicionais. No púlpito evangélico a Bíblia é muito pregada, mas pouco interpretada, é muito brandeada, mas pouco lida.  O livro é lido no culto apenas como um pontapé para a mensagem que vem a partir do próprio pregador, e não do texto referido. Ou, como diz Rosenberg, a Bíblia é apenas um talismã.

O neofundamentalismo, cita Bloom, quer uma infalibilidade densamente substancial, diferente de John Gresham Machen, a quem ele chama de “mente extraordinária”, que era um homem de “fundamentos” sem desprezar as complexidades e ambiguidades da própria história e da linguagem religiosa. Bloom brinca que hoje inerrância significa “texto não lido”, ou seja, como se a Bíblia fechada falasse por si. Não há leitura, preocupação exegética, tratamento sério com o texto. O que resta é o analfabetismo funcional.  

A crítica ao individualismo não quer dizer nenhum apoio a coletivismos. Assim como o homem não é um ser isolado, o mesmo não pode ser diluído numa multidão uniforme. A fé cristã respeita a individualidade. A comunhão demanda indivíduos diferentes e complementares. Comunhão não é coletividade. 
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Ler tal crítica de pessoas que não pertencem à fé cristã evangélica, aliás, nem mesmo da fé cristã, mostra com as pedras ainda clamam. É possível ignorar tais observações? É claro que não. É urgente a superação do individualismo e da superficialidade na leitura e explanação da Palavra. 



[1] BLOOM, Harold. The American Religion: The Emergence of the Post-Christian Nation. 1 ed. New York: Simon & Schster, 1992. pp. 203-258.
[2] BLAZER, Dan. Freud versus Deus: Como a Psiquiatria Perdeu a Alma e o Cristianismo Perdeu a Cabeça. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2002. p 171-172.
[3] “Existe hoje no Brasil um contingente significativo de evangélicos, principalmente nos grandes centros urbanos, que estão sempre circulando de igreja em igreja. Não criam raízes, não conseguem cultivar relacionamentos e são avessos aos compromissos que normalmente surgem do relacionamento entre o fiel e a igreja: frequentar os cultos, contribuir sistematicamente com a igreja local e participar de suas atividades”. [ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p 159.]
[4] BLOOM. Op. Cit.  p 219. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Uma experiência com a tradição!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor... [1 Coríntios 13.13]

Ontem na igreja tive uma maravilhosa experiência com a tradição. Isso mesmo: uma experiência especial com a tradição! No encerramento do culto o coral e a orquestra da igreja apresentaram o hino 535 da Harpa Cristã cujo título é “Tu és Fiel, Senhor”. Naquela hora lembrei que muitos irmãos já mortos cantaram aquela canção com alegria, enquanto outros estavam naquele momento cantando comigo. E, como uma poesia e música já consagradas, as futuras gerações também cantarão essa canção com o mesmo entusiasmo. Não tive como deixar a emoção de lado quando me toquei sobre a perenidade do louvor a Deus, ou seja, sobre a beleza da tradição: a fé que permanece viva dos homens que já morreram.


O louvor clássico está além do tempo. Ele une gerações que nunca tiveram contato direto entre si. Não é uma música descartável, feita na velocidade da moda, que logo perece diante das mudanças de humor. O louvor clássico é o mesmo que revitalizou seus avós, pais e que provavelmente emocionarão seus filhos e netos. O poder desses louvores não está apenas no talento dos seus compositores, mas acima de tudo na mensagem firmada e estável. É uma letra que nunca envelhece, logo porque sempre é urgente e necessária: é a mensagem sobre a nossa necessidade dEle.

A letra Great Is Thy Faithfulness escrita pelo pastor metodista Thomas Obadiah Chisholm (1866-1960) com a música do também ministro metodista William M. Runyan (1870–1957) foi populariza nas campanhas evangelísticas do reverendo Billy Graham e até hoje emociona a todos nós por proclamar a fidelidade de Deus diante das ruínas da vida. O hino é inspirado na poesia dramática de Lamentações de Jeremias. A letra é bíblica e transmite a nossa gratidão pela fidelidade do Senhor. 

A vida na tradição

Desde os profetas do Antigo Testamento até os apóstolos, passando pela pessoa de Cristo Jesus, a Bíblia condena fortemente o tradicionalismo. O tradicionalismo que é a fé morta de homens vivos. Todavia, diferente do tradicionalismo hermético, a tradição respira vida. A tradição não é a mera observação de coisas boas do passado idílico daqueles cristãos consagrados que ficaram para trás, mas é o pulsar constante do Espírito Santo que sopra como quer, onde quer e na hora que quer. Ou como escreveu Joseph Ratzinger:

A grande tradição cultural da fé possui uma força extraordinária que vale exatamente para o presente: aquilo que nos museus pode ser apenas testemunho do passado, admirado com nostalgia, na liturgia continua a tornar-se presente vivo. Mas o mesmo presente não está condenado à ausência de palavras na fé.[1]

Portanto, não conhecemos a nostalgia, mesmo com canções clássicas e a liturgia antiga, mas experimentamos a vivacidade do Espírito Santo nas coisas comuns e corriqueiras da liturgia. Ao ponto que a inspiração também não ficou apenas no passado distante, mas está no presente sempre.  


[1] RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2013. p 130.