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domingo, 28 de junho de 2015

Teologia Romântica: uma brevíssima introdução

Por Gutierres Fernandes Siqueira

“Quem não sente aqui e ali com a convicção viva que um espírito divino o movimenta, e que ele fala e age de acordo com a inspiração sagrada; quem pelo menos não tem consciência de que os sentimentos resultam das ações diretas do universo não tem religião alguma”. (Friedrich Schleiermacher [1])

Na Parada do Orgulho Gay deste ano, em São Paulo, um grupo de evangélicos levantou cartazes com dizeres “Jesus cura a homofobia”.  Naquela mesma semana um pastor carioca, numa cerimônia de lava-pés, limpou umbandistas, travestis e outros que “sofrem com o preconceito dos evangélicos”. Neste último fim de semana outros evangélicos, da chamada linha progressista, celebraram a aprovação do casamento gay pela Suprema Corte norte-americana e colocaram hashtags com a expressão “o amor vence”. Aliás, esse é o mesmo título de um livro teológico cuja mensagem evasiva insinua a defesa do universalismo, ou seja, a crença que no final das contas todos serão salvos [2]. E, para completar, nessa última semana um famoso pastor deu uma entrevista onde era claro o esforço daquele líder evangélico por rezar na cartilha da correção política.


Ora, o que une todas essas pessoas? O fundamentalista protestante logo dirá: “é o liberalismo teológico que os une.” Todavia, a pressa típica do fundamentalismo em jogar tudo no colo do chamado liberalismo teológico torna a visão do cenário enevoada.  Não, não se trata de liberalismo teológico. É algo bem mais profundo. Há uma linha que, na verdade, une muitos evangélicos ortodoxos, neo-ortodoxos e liberais, além, é claro, dos próprios secularistas: é o que chamo de Teologia Romântica.

Antes de tudo, esqueça o termo romântico do senso comum. Quando uso a qualificação “romântica” quero dizer:

O movimento intelectual e artístico ocidental que, a partir do final do século XVIII, fez prevalecerem, como princípios estéticos, o sentimento sobre a razão, a imaginação sobre o espírito crítico, a originalidade subjetiva sobre as regras estabelecidas pelo Classicismo, as tradições históricas e nacionais sobre os modelos da Antiguidade e a imaginação sobre o racional, na literatura, na música, nas belas-artes e em outras manifestações intelectuais. [Dicionário Houaiss]

Conheço muitos românticos teológicos que crêem no Credo Apostólico e outros que desprezam até a crença na divindade de Cristo. Portanto, o Romantismo teológico transcende a barreira entre ortodoxia e heterodoxia. Na verdade, em último grau, o Romantismo é uma escala heterodoxa que possui inúmeras camadas (da mesma aberta à fechada) com um único eixo: o endeusamento do sentimento. No Romantismo literário e filosófico o sentimento é o valor preponderante e o mesmo se dá na proposta teológica. Estudar e entender a influência do Romantismo é mais importante, pelos motivos listados acima, do que resistir automaticamente ao liberalismo teológico, logo porque a teologia moderna é apenas uma das filhas do Romantismo.
Como lembra Isaiah Berlin o Romantismo é o grande movimento ocidental dos últimos séculos:

A importância do Romantismo é ter sido o maior movimento recente que transformou a vida e o pensamento do mundo ocidental. Creio ser ele a maior mudança já ocorrida na consciência do Ocidente, e todas as outras mudanças que aconteceram ao longo dos séculos XIX e XX me parecem, em comparação, menos importantes e, de todo modo, profundamente influenciadas por ele. [3]

E quando falamos de Romantismo na teologia é impossível não se lembrar de Friedrich Schleiermacher. Schleiermacher não é só o pai da teologia liberal, mas talvez seja o maior expoente da teologia Romântica. E a influência desse alemão vai além dos liberais do século XIX. Há muitos evangélicos românticos em graus variados ao de Schleiermacher.

E, é isso que veremos numa série de artigos sobre o assunto. Acompanhe e entenda melhor esse tempo conturbado que atravessamos.

Referências Bibliográficas:

[1] SAFRANSKI, Rüdiger. Romantismo: uma Questão Alemã. 1 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2010. p 135.

[2] BELL, Rob. O Amor Vence. 1 ed. São Paulo: Sextante, 2012. p 168.

[3] BERLIN, Isaiah. As Raízes do Romantismo. 1 ed. São Paulo: Editora Três, 2015. p 24.

domingo, 21 de junho de 2015

Latinidade e Pentecostalismo: uma entrevista com Bernardo Campos

Por Gutierres Fernandes Siqueira
O blog Teologia Pentecostal entrevista hoje o Dr. Bernardo Campos, um dos maiores especialistas em pentecostalismo na América hispânica. Peruano, é pastor ordenado pelas Assembleias de Deus daquele país e teólogo desde 1979. Graduou-se em teologia pelo Seminario Evangélico de Lima (SEL). Licenciado em teologia pelo Instituto Superior Evangélico de Estudios Teológicos (ISEDET) da Argentina (1989). Mestre em Ciências da Religião pela Universidad Nacional de San Marcos (1998) e doutor em teologia pela Rhema University dos EUA (2008). É atualmente professor do Seminario Evangélico Peruano (Presbiteriano), El Seminario Wesleyano del Perú (Metodista), El Seminario Bíblico Alianza del Perú e, mas recetimente, na Facultad Davar de la Iglesia El Tabernáculo de Dios. E, também, pastor da Iglesia Catedral del Espíritu Santo em Lima, capital do Peru. É autor de diversos livros, entre eles a Reforma Protestante a Pentecostalidade da Igreja (Editora Sinodal) e Hermenêutica Pentecostal (Fonte Editorial) a ser lançado em breve. Vejamos essa entrevista: 

01. Quais são as semelhanças e diferenças entre o pentecostalismo brasileiro e o pentecostalismo nos países hispânicos?

Não é fácil responder sem dados concretos. Pelo que tenho visto e lido nos últimos anos poderia corajosamente apontar algumas coisas, com o risco óbvio de caricaturizar. A primeira observação é que em muitos países as Assembleias de Deus são as mais antigas e, em alguns aspectos, hegemônicas na comunidade pentecostal. Há, com escreveu meu amigo ilustre Gedeon Alencar, uma "matriz assembleiana" não só no Brasil, como ele diz, mas no resto da América Latina (Alencar 2010). Por si só, essa linha é condizente com um pentecostalismo conservador, fundamentalista e evangélico (com exceções, é claro). No entanto, apesar disso, é um pentecostalismo aculturado (encarnado) porque ele criou raízes na cultura hispano-lusitana. Com mais de 100 anos, esse pentecostalismo é o pai de uma nova geração de crianças nascidas na fé carismática que está assumindo a sociedade e a cultura de uma maneira diferente de como se vivia no passado em gerações de seus pais. Na experiência histórica havia distanciamento do mundo, agora essa geração se comporta por uma proximidade refrigerada. Há razões sociológicas para essa mudança.

No que diz respeito às diferenças, noto que pentecostalismo hispânico na América Latina é mais susceptível a influências culturais americanas, especialmente a ideologia de mercado neoliberal e a teologia pragmática. Provavelmente no Brasil, o ethos cultural afro-brasileiro é maior em influência, assim como a abertura para a Europa e África. Tudo isso significa a configuração da sua identidade social.

Por outro lado, eu acho que há entre os vários pentecostalismos uma série de diferenças e semelhanças que somente comparações socioculturais com outras religiões podem trazer à luz. Posso mencionar aquele que é o mais marcante: a busca contínua da presença de Deus e do sobrenatural em todos os atos da vida diária.

02. O crescimento do pentecostalismo é grande em toda a América Latina. Por que essa região foi (e ainda é) tão promissora para o pentecostalismo? Há alguma característica particular dessa região que facilitou (e ainda facilita) essa expansão do pentecostalismo?

Sim. O antropólogo Elmer Miller (1979), explicando as razões para a aceitação do pentecostalismo pelos tobas argentinos (índios do Cone Sul), apontou alguns possíveis motivos, entre outros: a cultura receptora existiu na evangelização pelos elementos culturais dos tobas que fizeram harmonia com o discurso pentecostal. Em outras palavras, entre o universo simbólico cristão desenvolvido pelo pentecostalismo e o universo simbólico dos tobas havia elementos culturais semelhantes que permitiram a fácil recepção e harmonia. Antes da chegada dos pentecostais outras tradições confessionais protestantes tinham evangelizado os tobas, mas eram dissonantes em relação a sua cultura (Campos 1992, 2007). À luz dessa teoria, eu acho que no geral, podemos dizer que há condições culturas dos latino-americanos que favorecem o pentecostalismo, ao contrário de outras tradições religiosas mais antigas. Os pentecostalismos têm uma resposta concreta para as grandes massas e as respostas necessárias para ajudá-las a mitigar suas sentenças. A cosmovisão mítica pentecostal é profundamente sintonizada com universo cosmovisional dos tobas.

Nós somos e pertencemos a culturas antigas com religiões indígenas altamente desenvolvidas. Era natural que essas facilitassem a recepção ou o encontro com a fé cristã, na sua versão pentecostal, pelo menos na busca tradicional pela saúde (cura) e em aspectos da explicação mítico-simbólica sobre o sentido da vida.

03. Em seu país, o Peru, assim como no Brasil, o pentecostalismo é a maior força entre os evangélicos. Qual a importância social desse movimento na América Latina?

Por um lado, representa a possibilidade de um protesto simbólico com uma forma religiosa contra os problemas sociais do continente. Muitos sociólogos da religião mudaram sua atitude em relação ao papel das seitas e, inclusive, sobre o pentecostalismo. De uma avaliação sombria das seitas religiosas eles passaram a sua valorização como um protesto simbólico, mesmo que seja apenas a ponta de lança de uma grande mudança social. Os pentecostais são tidos como uma potencial força social que deve ser explorada para o bem. Nessa perspectiva, a questão é: por que não passar de um protesto simbólico para um protesto real? A resposta não está, em minha opinião, no pentecostalismo em si, mas nas condições sociais que permitem ou o impedem. Tanto Chrisian Lalive D'Epinay no Chile e na Argentina (1975) como Jean-Pierre Bastian na América Central (Bastian 1986) descobriram mutações de práticas pentecostais em tempos de crise ou de guerra. São necessárias condições drásticas que favoreçam uma mudança no sistema de crenças e ética dos movimentos religiosos para que aja mudança nas práticas (Campos, 1995). Aqui onde eu também me pergunto: por que os neopentecostais agora se voltam para a esfera pública enquanto favorecem uma teologia da prosperidade? Eu acho que existem condições históricas da luta pela distribuição da riqueza que poderia explicar essas mudanças de atitudes e de práticas pentecostais e, também, da adaptação sincrética do pentecostalismo na cultura no nosso continente (Alencar, 2005).

Por outro lado. Na medida em que falamos de um setor importante e majoritário da população protestante, nós também discutimos a possibilidade de uma força organizada que incorpore mudanças na sociedade a partir de práticas políticas. Nos últimos anos, estamos vendo uma maior participação dos pentecostais na vida pública, tanto nas esferas nacionais e locais de governo, e em termos de integração da sociedade civil. Isso significa, por um lado, o crescimento de uma consciência política social dos pentecostais, mas por sua vez, uma mudança na mentalidade dos crentes. Eles estão assumindo a realidade social como nunca antes. Não se fala mais de uma postura apolítica dos pentecostais. Pelo contrário, eu acredito que nós temos uma materialidade preocupada com a salvação, quando os resultados não são observados, para não passar os campos de especialidade entre religião e política, ou vice-versa.

04. A Fonte Editorial está lançando o seu livro “Hermenêutica Pentecostal”. O que vem a ser a hermenêutica pentecostal?

Essa é uma maneira pentecostal de ler a Bíblia (exegese) e, simultaneamente ou concomitantemente interpretar (hermenêutica) os eventos históricos à luz da profecia bíblica (teologia da história). Ou seja, os pentecostais interpretam a Bíblia não apenas pela própria Bíblia, mas a Bíblia à luz de suas próprias experiências religiosas. É uma apropriação do sentido bíblico na práxis pentecostal. Esse é um ato hermenêutico perfeitamente natural em toda a religião. A diferença é que o pentecostal, de uma simpatia com texto, procura atualizar ao mesmo tempo o sentido bíblico com sua experiência na vida cotidiana, como na sinagoga quando Jesus viveu o texto de Isaías 61 e disse: "Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir" (Lucas 4.21).

A hermenêutica pentecostal é semelhante ao do apóstolo Pedro no dia do Pentecostes. Ele interpretou o evento do Pentecostes à luz da profecia de Joel. O pentecostalismo é, da mesma forma, identificado pelos carismáticos com a experiência primária do Pentecostes para atualizar em cada culto e em cada momento de sua vida o evento original. É uma experiência com o Ressuscitado por meio do Espírito Santo, que o espera em todos os momentos cumprir a promessa do Pai. Essa virtude é também um evento escatológico que aponta para o último dia na história. O pentecostalismo é, em si, um sinal de sentido profético que anuncia semiologicamente a segunda vinda de Cristo cada vez que se prolonga em sua religiosidade.

05. Você é o criador da tese sobre a “historização” das igrejas pentecostais e a “pentecostalização” das igrejas históricas. Podemos falar que tal fenômeno já está consolidado?

Bem, cada vez mais as experiências são transversais. E é quase um fenômeno inerente à fé cristã. Por essa razão o crescimento do pentecostalismo deve ser interpretado como uma mutação do protestantismo e do catolicismo em favor de uma carismatização de toda a Igreja. Se isso continuar, o que vai acontecer, pela primeira vez, é o desaparecimento do pentecostalismo como uma identidade particular. O que se perde em particular identidade se tornará em identidade mais global. Teremos igrejas avivadas pelo Espírito e, assim, o esforço ecumênico não será mais necessário porque todos nós identificaremos como cristãos fervorosos e como igrejas vivas com uma liturgia e um desafio missionário comum. Ontologicamente iremos, nesse período, à Igreja de Cristo, sem mais adjetivos. É como se nós voltássemos para a igreja primitiva, embora não devemos olhar para isso, porque a igreja nasceu no primeiro século, mas avançou para o século XXI. Se algum dia alcançarmos essa unidade, a pergunta óbvia é: para que isso servirá? O que responderá a isso, como uma unidade espiritual, é para dar um testemunho global ao mundo.

06. Fazendo um exercício de futurologia: o crescimento do pentecostalismo na América Latina ainda é consistente ou corremos o risco de uma breve estagnação? O sociólogo da religião Paul Freston, por exemplo, já escreveu artigos defendendo a ideia que os evangélicos no Brasil não serão maioria nas próximas décadas como sempre se afirma.

Estou de acordo com Paul Freston. Eu acho que nós batemos um teto no que diz respeito ao crescimento numérico. Também é verdade que em 2030 a curva de crescimento protestante irá juntar-se a curva de declínio a Igreja Católica Romana e estará em uma paridade de adesão. Isso diz respeito a nós e não deve nos levar ao triunfalismo, porque o mundo vai continuar a exigir cristãos concretos para além das respostas de filiação religiosa. Na verdade, gostaria de colocar em questão a "conversão" de muito evangélicos, porque dentro da mesma religião o que ocorre não são conversões, mas a migração interna, e no máximo, um crescimento na consciência e prática da fé dos crentes. É a partir deste ponto de vista que devemos interpretar o crescimento do pentecostalismo como um fortalecimento espiritual da fé cristã como um todo e não como uma diminuição de fé católica ou protestante. 

07. Na sua visão, qual é a importância de eventos como o Fórum Pentecostal Latino-Americano e Caribenho?

O Fórum Pentecostal da América Latina e do Caribe é uma instância no âmbito do Fórum Cristão Global que busca encontrar novos modelos de unidade dentro da fé cristã. Em particular, o capítulo da América Latina e do Caribe, desde que se formou em Lima, Peru, em 2011, serviu para reuniões que discutem o sentido do pentecostalismo com suas práticas religiosas no continente. Estamos agrupados por região e, até agora, nos reunimos na região andina (Lima 2011), no Cone Sul (Chile 2012), na Colômbia (2013), na América Central e Caribe (Pachuca, México 2014) e no Brasil (2015) separadamente . Na maioria das reuniões vimos a abertura de outros setores da fé pentecostal cristã e temos apresentado propostas de unidade contidas nos relatórios regionais publicados como livros (Campos-Orellana 2012, 2014: Mesquiati 2015). No entanto, ao invés de uma experiência ecumênica, nós gostamos de nos ver como um esforço sincero de cristãos pentecostais para contribuir livremente com “a unidade da fé para que o mundo creia”. Pela primeira vez, sentimos que podemos falar no âmbito de uma verdadeira abertura, sem pressões institucionais ou ideológicas, como era, no passado, o diálogo ecumênico latino-americano.


Referência elencadas pelo entrevistado:
ALENCAR, Gedeon (2005) Protestantismo Tupiniquim. Hipóteses sobre a (Não) Contribuição Evangélica a Cultura Brasileira. São Paulo, Brasil: Arte Editorial.
ALENCAR, Gedeon (2010) Assembleias de Deus. Origem, implantação e Militância (1911-1946). São Paulo, Brasil: Arte Editorial.
BASTIÁN, J. Pierre (1986) “Religión Popular Protestante y comportamiento político en América Central, clientela religiosa y estado patrón en Guatemala y Nicaragua”, Cristianismo y Sociedad, Segunda Entrega, Año XXIV, Tercera Época, (1986) Nro. 88: 41 56
CAMPOS, Bernardo (1992) “El Influjo de las Huacas: La Espiritualidad Pentecostal en el Perú” en: Tomás Gutiérrez (compilador) Protestantismo y Cultura en América Latina. Aportes y Proyecciones. Ecuador: CLAI.
CAMPOS, Bernardo (1995) «En la fuerza del Espíritu: Pentecostalismo, Teología y Ética Social» Asociación de Iglesias Presbiterianas y Reformadas de América Latina (AIPRAL)
CAMPOS, Bernardo (1996) «Pentecostalism: A Latin American View» en Huibert van Beek (ed), Consultation with Pentecostals in the Americas. San José Costa Rica 4 8 June.  Geneva.
CAMPOS, Bernardo (1997) De la Reforma Protestante a la Pentecostalidad de la Iglesia. Quito, Ecuador: CLAI
CAMPOS, Bernardo (2002) Experiencia del Espíritu. Claves para una interpretación del Pentecostalismo. Quito, Ecuador: Ediciones CLAI
CAMPOS, Bernardo-Orellana, Luis (editores) (2012) Ecumenismo del Espíritu. Pentecostalismo, Unidad y Misión. Lima-Perú: Foro Pentecostal Latinoamericano y Caribeño.
CAMPOS, Bernardo-Orellana, Luis (editores) (2014), Fuego que Une. Pentecostalismo y Unidad de la Iglesia. Documentos del Foro Pentecostal Latinoamericano y Caribeño, Santiago 2012 y Bogotá 2013. Lima-Perú: Foro Pentecostal Latinoamericano y Caribeño.
LALIVE d´Epinay, Christian (1975a) «Sociedad Dependiente, clases populares y milenarismo: posibilidades de mutación de una formación religiosa en una sociedad en transición. El Pentecostalismos en Chile», Varios, Dependencia y Estructura de Clases en América Latina (Trad. del francés). Argentina: Megápolis.
LALIVE d´Epinay, Christian (1975b) Religion, dynamique sociale et dépendance, les mouvementes protestants en Argentine et au Chili, Paris: Mouton
MESQUIATI DE OLIVEIRA, David (Organizador) (2015) Pentecostalismos e Unidade. Brasil: Fonte Editorial.
MILLER, Elmer (1979), Los tobas argentinos: armonía y disonancia en una sociedad, Siglo XXI, México.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Não, Folha de S. Paulo, não vivemos sob uma ameaça fundamentalista!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Recentemente foi lançado no Brasil o livro “Submissão” [1] do escritor francês Michel Houellebecq. Nessa ficção, a França passa a ser governada por um fundamentalista islâmico populista no ano de 2022 e, consequentemente, passa a sofrer uma tirania de inspiração religiosa. O livro causou polêmica na Europa e, como sempre, foi acusado de islamofóbico e de incitar “discurso de ódio”. Todavia, como lembra a escritora africana Ayaan Hirsi Ali, a expressão “discurso de ódio” é “o termo moderno para heresia. E no clima atual, qualquer coisa que faça os muçulmanos se sentirem incomodados é rotulada de ‘ódio’” [2]. É uma ótima ficção que busca provocar um debate sobre a compatibilidade das crenças do Islã com a cultura e os valores liberais do Ocidente.

Bom, esse é o livro que o jornal Folha de S. Paulo escolheu para retratar o momento político do Brasil em um longo editorial neste domingo. Segundo o jornal paulista, nós estamos vivendo na iminência de uma Irmandade Evangélica, ou seja, um jogo de palavras para comparar os evangélicos aos radicais da Irmandade Muçulmana, um grupo político forte no norte da África de inspiração fundamentalista. O Brasil está sob uma perigosa ameaça conservadora que coloca em xeque os valores da liberdade, segundo o jornal. Será?

O editorial é ofensivo aos evangélicos. Em primeiro lugar, o fundamentalismo evangelical em nada pode ser comparado com o fundamentalismo islâmico. O evangélico, por mais conservador que ele seja, não tem espírito combativo e conquistador. O fundamentalismo cristão é de natureza teológica e não impulsiona nenhum movimento político importante. O Brasil já conta com uma população de 40 milhões de evangélicos e cada vez é maior a garantia de liberdades aos diversos grupos de minorias. Além disso, o crescimento evangélico em nada impede a constante secularização da população, mas pelo contrário: o crescimento evangélico fortalece a secularização, isso porque põe fim ao hegemonismo centenário da Igreja Católica Romana. Diferente do islamismo, o cristianismo já provou mais de uma vez sua compatibilidade com a liberdade e valores ocidentais.

Há sim alguns evangélicos que acreditam em um Estado dirigido pelas leis divinas, mas eles são tão poucos que não se pode levar a sério qualquer tipo de ameaça ao Estado liberal. Na teologia chamamos esse grupo de “teonômicos”. Ora, é mais fácil achar um evangélico viciado em heavy metal do que um crente na teonomia, A maioria absoluta dos evangélicos sabe distinguir o papel do Estado e da Igreja, mesmo sem uma cultura política avançada. O evangélico, também, vota mais ou menos parecido com a média da população. E a população de maneira geral é conservadora. Ou a Folha acredita naquele elitismo idiota onde ela sabe o que a população deveria votar? 

O editorial também acha um absurdo citar a Bíblia para justificar alguma lei. Bom, normalmente tais citações carecem de uma boa exegese, mas a Bíblia não pode ser resumida a misticismos e mitos. A Bíblia em seus dois testamentos é o livro mais importante do mundo, logo por que é crime contra a inteligência e a liberdade citá-lo? Por que posso citar um paper de uma militante feminista e não posso citar a Escritura? Os dez mandamentos, que está no segundo livro do Pentateuco, é base importante da jurisdição judaico-cristã, logo não só do Direito Romano vive a nossa lei. Não digo que deva ser a única e definitiva base, mas inegável é a sua influência para o Ocidente. É com Cristo, e não com César, que aprendemos que não podemos confundir o mandatário romano com o Senhor do universo. O cristianismo é, por natureza, conflituoso com o Estado. E, toda vez que na história o cristianismo casou com César, a própria mensagem cristã sofreu prejuízos irreparáveis. 

Portanto, caro jornal Folha de S. Paulo, nós não vivemos sob uma ameaça fundamentalista. O Brasil, pelo contrário, dá mostra de vigor democrático e avanço institucional ao eleger um governo de esquerda e um congresso contido. E, nesse caso, os evangélicos ajudaram a eleger tanto os “progressistas” como os “conservadores” . Viva a liberdade, a liberdade de ser inclusive conservador!

Referência Bibliográfica:

[1] HOUELLEBECQ, Michel. Submissão. 1 ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. (254 p).

[2] ALI, Ayaan Hirsi. Herege: por que o Islã precisa de uma reforma imediata. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p 11.

terça-feira, 9 de junho de 2015

A guerra cultural: onde o bom senso descansa em perturbação!

Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz. (Ec 3. 1,8)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Abaixo segue algumas questões importantes sobre a bagunça desses últimos dias. Primeiro começou com a reação tresloucada de alguns evangélicos diante do comercial da empresa O Boticário e, depois, veio a reação tresloucada do movimento gay ao usar uma imagem religiosa como protesto.

1. O cristão, seja evangélico ou católico, não é um cidadão de segunda classe, ou seja, ele pode e tem todo o direito à indignação. Eu li uma quantidade absurda de textos insinuando que os cristãos deveriam permanecer calados diante de qualquer manifestação de sacrilégio. Outros textos, sempre generalizantes, diziam que os religiosos deveriam se indignar com “outras questões”. Bobagem, pois a indignação é fruto de um momento histórico e todos nós, ateus ou crentes, somos seletivos nas nossas revoltas. Em Atos 17.16 diz que, em Atenas, o apóstolo Paulo “ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos”. É até estranho alguém que em nada fica indignado: é a famosa ausência de “fogo e paixão” e, quando não, de glória. A indignação é natural, legítima e desejável, mas ela só precisa ser bem direcionada, inteligível e igualmente equilibrada.

2. O problema hermenêutico: há um abuso no uso excessivo do Sermão do Monte como regulador das relações políticas e culturais. Ora, o Sermão do Monte é uma mensagem para indivíduos regenerados e guiados pela graça divina. É uma prédica pós-graça e não para obtenção de graça. Os princípios éticos da mensagem de Cristo não servem como impulso moralizante da sociedade e nem seu modelo. Isso mesmo: a mensagem de Cristo nunca foi moralista, ou seja, nunca ensinou que o homem fosse capaz de construir uma ética para si ou mesmo a partir dEle como um exemplo de “boa gente”.  Não estou dizendo que a mensagem ética do Reino seja imperfeita ou ineficaz, mas sim que o homem e a sociedade não-regenerada pelo sopro do Espírito são, pelas suas próprias limitações, totalmente incapazes para tal mensagem e o seu forte peso. Querer empurrar uma moral do Reino para relações políticas é uma bobagem tremenda. A sociedade como coletividade nunca será capaz de experimentar uma regeneração espiritual, pois tal graça é infundida apenas a indivíduos. A única coletividade próxima de tal padrão- todavia não igual- é a igreja que, como comunidade constituída pelo próprio Cristo, ainda assim perece perenemente com a precariedade da moral humana. A graça e a misericórdia de Deus tornam possível viver tão elevado padrão de ética e moral. E é tão somente na Igreja com “I” maiúsculo que tal prédica serve como parâmetro de moralidade, pois só se entra nas portas dessa comunidade após a experiência da graça conversora. Portanto, exortar um crente a não se indignar com uma ofensa pública porque “precisamos dar a outra face” é uma leitura romantizada em demasia. Jesus Cristo, Ele próprio, foi “consumido pelo zelo” da casa do Senhor (João 2.17)- nada mais tradicional- e não fez, como diz o ditado, cara de Amélia diante dos vendilhões do templo. Jesus não é meramente o parâmetro do Sermão do Monte, mas sim: Ele é a única garantia de sua realização. Exigir esse elevado padrão sem a graça é um discurso vazio e diluído na covardia daqueles que não querem assumir uma posição em tempos de crise.

3. O evangélico não pode aderir à guerra cultural. O evangélico não pode viver em função do movimento LGBT, ou seja, viver de observá-lo e criticá-lo. A Bíblia nos exorta a tomar “todo o conselho de Deus” e certamente que a mensagem evangélica não é simplesmente o antagonismo à homossexualidade. O evangélico não pode confundir o homossexual com o movimento LGBT, ou seja, nunca se deve confundir o indivíduo com a coletividade de uma ideologia. O homossexual precisa do Evangelho da mesma forma que você e eu. O homossexual não é mais necessitado ou menos necessitado: ele é igualmente necessitado da graça divina. O problema do homossexual é a sexualidade, mas talvez o seu o meu problema também seja. A homossexualidade não é, biblicamente falando, a única distorção da sexualidade sadia. O adultério, a fornicação, o incesto também o são. Além disso, o pecado não se resume ao sexo distorcido. O pecado é o “desvio do alvo”. Até uma oração pode se tornar um pecado quando se desvia da glória devida a Cristo somente.

4. Diante de um sacrilégio se pede misericórdia e não “fogo do céu”. Deus construiu durante um século o Novo Testamento, mas ainda há quem tenha uma mentalidade da pré-aliança. Há um sentimento difuso de salmos imprecatórios misturado com a vingança de sabor divino. É muita fúria e pouca misericórdia. Além disso, não se deve pedir leis mais duras. A lei de proteção à religião já é muito boa no Brasil. Pedir leis e mais leis é um tiro no pé. Já li que um deputado está propondo que a ofensa à religião seja crime hediondo: grande idiotice. Devemos preservar a todo custo a liberdade de expressão, pois essa também nos beneficia. E sim, a liberdade só é liberdade quando o outro tem espaço para manifestar suas bobagens.

E, para encerrar, vamos deixar que a nossa mente seja moldada pela Palavra. A ideologia, seja conservadora ou progressista, é míope. Só o Evangelho nos faz enxergar além.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

É possível ser pentecostal e calvinista?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

É possível ser pentecostal e calvinista? Veja o vídeo no link abaixo onde respondo essa pergunta e recomendo uma obra importante para o arminianismo.

sábado, 6 de junho de 2015

A mulher e o cristianismo: o resgate da dignidade feminina na fé cristã

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cristianismo bíblico é o maior responsável pelo resgate da dignidade feminina [1]. É fato que a trajetória cristã é marcada, como os demais grupos sociais de longa história, pelo machismo e a violência contra a mulher, todavia nenhum grupo foi mais marcante na construção da feminilidade como igualmente digno à masculinidade como a religião cristã. O cristianismo e, especialmente a pessoa de Jesus Cristo, foram marcantes na emancipação feminina.

Não é isso que você aprende nas universidades. É inegável a misoginia na história cristã, mas o tom exagerado do proselitismo feminista parece entender que o próprio cristianismo é o responsável por todos os males contra a mulher. A história é sempre mais complexa do que esse maniqueísmo “opressor versus oprimido”. A análise de muitos acadêmicos padece de um historicismo neurônico onde tudo é resumido à “causa e efeito”. É uma história sem nuances onde só há escalas de preto e branco.   

  1. A mulher na teologia hebraica

É preciso começar este texto pela parte mais difícil: o papel da mulher na cultura e teologia hebraica. É sempre necessário lembrar que a cultura hebraica é fruto do seu tempo. Ainda que a revelação divina seja atemporal, absoluta e factual, a mesma precisa lidar com um mundo fluído, relativo e cheio de nuances. E, também, a revelação nas Escrituras tem um caráter progressivo, logo porque uma civilização de 3500 anos atrás não teria capacidade e o acúmulo de informações para lidar com uma série de verdades que foram desnudadas no decorrer de séculos e mais séculos.

A palavra hebraica para mulher ('ishshah) significa “ser macia, delicada” e é um contraste com a palavra homem ('ish) que significa, pela variante da raiz, “ser forte”. Longe de indicar um rebaixamento, esse contraste mostra como a “psicologia” hebraica já entendia a natureza mais sensível da mulher. De fato, a teologia hebraica ensina que o homem é a cabeça da mulher, mas isso se dá pela sequência da criação e não indica, como uma leitura apressada pode concluir, que a mulher seja inferior ao homem. Como ilustração temos a doutrina da Trindade, pois o Filho não é menor ou “menos igual e digno” que o Pai, porém, o Filho apresenta uma imagem de submissão ao Pai (cf. I Timóteo 2. 12,13). A mulher nasceu com a missão de ser uma “adjutora” do homem (cf. Gênesis 2. 18,20) e não sua escrava. Como ajudadora o termo hebraico significa literalmente “correspondente a ele”, ou seja, o ensinamento é que homem e mulher são “mutuamente interdependentes”.  A relação homem e mulher precisa ser lida numa perspectiva trinitária.

A mulher, como o homem, é “imagem e semelhança de Deus” conforme Gênesis 1. 26,27.  Vale destacar: esse status de dignidade da humanidade não era uma exclusividade do homem. Todavia, na prática a mulher desfrutava de uma igualdade entre os hebreus? Não, absolutamente não.  E na própria Bíblia Hebraica “a inferioridade da mulher [...] é apresentada como uma degradação do estado primitivo e original da humanidade” [2], ou seja, como fruto da maldição do pecado original. O “rebaixamento” da mulher na cultura familiar não é visto como algo natural, mas como consequência da Queda.

“A sociedade israelita do Antigo Testamento era estritamente patriarcal. [...] Alguns rabinos chegavam ao extremo de considerar que a mulher não possuía alma e que era preferível queimar a Lei do que ensiná-la a uma mulher”, como lembra Esdras Costa Bentho [3]. A mulher hebreia chamava o esposo de “senhor” ou “amo” (Gênesis 18.12; Juízes 19.26; Amós 4.1), ou seja, elas davam ao marido um título que vassalos davam aos reis e escravos ao seus donos. A mulher, também, era contada como propriedade do marido assim como um escravo, ou um boi ou ainda um asno. Essa visão da mulher como propriedade está expressa até mesmo no decálogo (Êxodo 20.17; Deuteronômio 5.21). Em compensação, a Bíblia Hebraica registra inúmeras heroínas. Elas são destacadas pela inteligência, devoção e coragem: Raabe (Js 2), Mical (1 Sm 19.11 ss), Abigail (1 Sm 25.14 ss), Rizpa (2 Sm 21. 7 ss) etc.. Ainda há as mulheres fortes dos patriarcas- Sara, Agar, Rebeca, Raquel, Lia- e outras igualmente impactantes, mas perversas: Jezabel, Dalila e Atalia. E como esquecer a liderança e carisma de Débora, Rute e Ester?

2. Jesus e as mulheres

Jesus tinha “discípulas” da alta sociedade que o sustentavam com seus bens (Lucas 8. 1-3). Naquela época alguns rabinos recebiam ajuda de mulheres abastadas, mas essas jamais eram colocadas na categoria de “discípulos”. Os rabinos não confiavam no discernimento das mulheres e, além disso, viajar com mulheres não condizia com a imagem de santidade que eles queriam preservar. De alguma forma podemos falar que essas mulheres agiam como os primeiros diáconos- diaconia (diēkonoun/διηκόνουν). Maria Madalena foi a primeira testemunha da ressurreição numa sociedade onde o testemunho de uma mulher não valia absolutamente nada (João 20.1; 11-18).  Jesus, ao mesmo tempo que tinha essas mulheres respeitadas, entre elas a esposa do procurador de Herodes, também deixou ser tocado por uma prostituta (Lucas 7. 36-50), logo em uma cultura religiosa onde tal ato era condenado com ultrajante. Outro fato incomum era conversar com mulheres não parentais na rua e, ainda mais, sendo essa uma senhora samaritana (João 4. 1-27). Ao mesmo tempo a mulher samaritana foi a primeira pessoa a fazer missões em terras estrangeiras com as Boas Novas de Cristo (João 4. 28-29).  Alguns, de maneira exagerada, afirmam que as mulheres da época de Jesus nunca adotaram posição contrária a Ele. Certamente que essa afirmação é apenas especulativa, mas uma leitura do Novo Testamento mostra como as mulheres foram bem mais compassivas com o Mestre do que os homens. Todos os discípulos fugiram quando Jesus foi preso e, excetuando João, nenhum deles acompanhou a morte de Cristo ao lado da cruz. Mas os Evangelhos registram que as discípulas com Maria, sua mãe, não saíram perto de Jesus no seu momento mais difícil.

Outras três mulheres são destacadas antes mesmo do nascimento de Jesus: Ana, a orante do templo; Isabel, sua tia e Maria, sua mãe. Maria tem um papel importantíssimo como genitora do Messias. Genitora essa que já é destaca na promessa de Gênesis 3.15, o texto conhecido como protoevangelium. É verdade que após as narrações da infância de Jesus o papel de Maria é um tanto tímido, mas isso condiz com a missão do messias: ele veio para salvar e não para depender de outros auxiliadores. Não existem corredentores. Na história das controvérsias cristãs Maria foi afirmada como Theotokos (portadora de Deus) e não como Christokos (portadora de Cristo), como queria o monge Nestório (386 d.C- 451 d. C.), pois esse tinha interesse no segundo título como uma negativa da divindade de Cristo. Cirilo de Alexandria (378 d.C- 444 d.C.) liderou o movimento que reafirmou Maria não apenas como geradora do Messias, mas sim genitora do Deus-Homem, logo porque a encarnação é inseparável à concepção do Senhor. Portanto, o título Theotokos teve no seu princípio uma justificativa cristocêntrica e não, como é comum na teologia católica popular atual, uma tomada idólatra da figura de Maria na tradução não-literal de “mãe de Deus”. [5]

3. O apóstolo Paulo e as mulheres

As mulheres profetizavam nos cultos (1 Coríntios 11.5) e quatro filhas do diácono Felipe manifestavam esse carisma ativamente (Atos 21.9), ou seja, mulheres falavam na assembleia (algo incomum num ambiente com homens) e, pior para o contexto cúltico judaico, ainda “impulsionadas” pelo próprio Deus na pessoa do Espirito Santo. Priscila, esposa de Áquila, é mencionada antes do esposo no Novo Testamento, outro fato incomum até nos documentos de nossos dias (Atos, 18.18; Romanos 16.3), e, também, era tida como “colaboradora” do apóstolo Paulo igualmente ao seu esposo. O apóstolo dos gentios direciona uma carta pastoral à Afia (Filemon 2), mostrando a importância e posição de destaque dessa mulher na eclésia primitiva. Além disso, é claro, outras mulheres são mencionadas nas cartas pastorais como forma de agradecimento pelo trabalho desenvolvido (exemplos: Romanos 16.6, 12, 15) enquanto a outras duas o apóstolo faz um apelo à concórdia (Filipenses 4.2). Em Cristo todos somos iguais, não existe “homem ou mulher”, afirmou o “conservador” Paulo de Tarso (Gálatas 3.28).

No capítulo 7 de 1 Coríntios, o apóstolo deixa bem claro que o prazer sexual deve ser mútuo entre o casal, não sendo nada forçado e, ao mesmo tempo, um cedendo ao prazer do outro. Portanto, o marido não pode obrigar sua esposa a fazer uma relação que ela não quer e vice-versa e ao mesmo tempo a esposa e o marido devem buscar a satisfação sexual do companheiro/a. Veja que a igualdade impera até mesmo na cama no texto paulino. O incrível é que 1 Coríntios tem quase dois séculos de existência.


4. O papel da mulher nos primórdios do cristianismo

Nesse tópico cabe uma longa citação do teólogo Timothy Keller:

Esta declaração pode surpreender muitos leitores que ouviram dizer que religiões mais antigas e o paganismo tinham uma visão mais positiva quanto às mulheres do que o Cristianismo. Era extremamente comum no mundo greco-romano livrar-se de bebês do sexo feminino deixando-os morrer por exposição às intempéries, devido ao status inferior das mulheres na sociedade. A Igreja proibiu seus membros de praticar tal ação. A sociedade greco-romana não valorizava as mulheres sem marido, e era ilegal uma viúva levar mais de dois anos para casar-se novamente. O Cristianismo, porém, foi a primeira religião a não obrigar as viúvas a se casarem. Elas eram sustentadas e respeitadas dentro da comunidade para que não sofressem uma pressão exagerada para arranjar outro marido. As viúvas pagãs perdiam todo o controle sobre o patrimônio dos maridos falecidos quando voltavam a se casar, mas a Igreja permitia que as viúvas mantivessem o patrimônio do marido falecido. Finalmente, os cristãos não acreditavam em coabitação. Se os homens quisessem viver com uma mulher, eram obrigados a casar-se com ela, o que provia muito mais segurança a estas. Igualmente, o duplo padrão pagão de permitir aos homens casados praticarem sexo extraconjugal e ter amantes era proibido pela Igreja. Como todas essas diferenças, as mulheres cristãs gozavam de segurança e igualdade muito maiores do que aquelas pertencentes à cultura ao redor [5].

Conclusão

Sem dúvida a mulher sofreu e ainda sofre com a misoginia. É absurdo os abusos que milhares (ou milhões) de mulheres ainda sofrem em inúmeros países onde o machismo é uma instituição. O cristianismo não é o vilão das mulheres, mas é a cabeça de ideias para a libertação feminina. “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”, como disse o apóstolo Paulo aos gálatas há quase dois mil anos.

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Referências Bibliográficas:

[1] As feministas diriam que essa afirmação é absurda porque o autor do texto é homem e, logo, não poderia fazer tais afirmações sobre a emancipação feminina. Cabe lembrar a advertência do respeitado historiador David Hackett Fischer: “Pode haver confusão entre o modo que se obtém o conhecimento e a validade desse conhecimento. Um historiador americano pode afirmar de forma chauvinista que os Estados Unidos declararam sua independência da Inglaterra em 1776. Essa afirmação é verdadeira, independentemente das motivações de quem a fez.” [cit. em: McDOWELL, Josh. Novas Evidencias que Demandam um Veredito. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos 2013. p 1174]. Ora, como lembra Fischer: os fatos são importantes e não o sujeito da afirmação. Ainda sobre o assunto podemos lembrar essa observação pertinente de Theodore Dalrymple: “É comum que se pense que ter uma opinião sobre um assunto, algo que é ativo, é mais importante do que ter qualquer informação sobre aquele assunto, que é passivo; e que a veemência (sentimento) com que se sustenta uma opinião é mais importante do que os fatos (conhecimento que ela se baseia. [...] Uma mente vazia de todos os fatos não está exatamente capacitada para enxergar qualquer questão em perspectiva.” [DALRYMPLE, Theodore. Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico. 1 ed. São Paulo: É Realizações, 2015. p 32.].

[2] McKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. 1 ed. São Paulo: Editora Paulus, 1984. p 580.

[3] BENTHO, Esdras Costa. A Família no Antigo Testamento: História e Sociologia. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 213.

[4] Maria, curiosamente, é a única mulher citada nominalmente no Corão. Esse fato mostra como a trajetória do islamismo é totalmente oposta à tradição judaico-cristã. O islã é uma religião que não produziu a sua própria modernidade.

[5] KELLER, Timothy. A Fé na Era do Ceticismo: Como a Razão Explica as Crenças Divinas. 1 ed. Rio de Janeiro: Campus-Elsevier, 2008. p. 210.