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segunda-feira, 25 de julho de 2016

domingo, 24 de julho de 2016

A prosperidade de Jó

"Escárnio contra Jó".
Pintura de Gioacchino Assereto. 1645-1650.


Não sei, e duvido que os eruditos o saibam, se o livro de Jó teve grande repercussão, se é que teve alguma, no desenvolvimento posterior do mundo judaico. Contudo, se teve algum efeito, pode haver salvado os judeus de terrível fracasso e decadência. Neste livro se formula realmente a pergunta para saber se Deus invariavelmente castiga o vício com penas terrenas e recompensa a virtude com bens e riquezas deste mundo. Se os judeus tivessem respondido erradamente a esta pergunta, poderiam haver perdido toda a sua influência posterior na história da humanidade. Poderiam ter descido ao nível da sociedade culta moderna. Pois, quando as pessoas começam a crer que a prosperidade é consequência da virtude, sua calamidade próxima fica evidente. Se se vê a prosperidade como a recompensa da virtude, ela será vista como sintoma da virtude. (...) Jó é atormentado não por ser o pior dos homens, mas por ser o melhor. A lição de toda a obra é a de que o homem encontra no paradoxo o seu máximo consolo. [G. K. Chesterton]

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Escatologia e Utopia

Por Gutierres Fernandes Siqueira 

É inegável o aspecto escatológico da salvação nas Escrituras. Todavia, a vassala das ciências humanas - mais conhecida como “teologia moderna” - tem horror a esse fato porque parece expressar a alienação mais baixa ou o escapismo mais rasteiro. Ironicamente ou não, os ideólogos, ou melhor, os teólogos modernos preferem a ilusão da utopia - que é o ópio da elite cultural. E existiria alienação maior do que a ilusão utópica?

Não há como negar que o Evangelho nos apresenta uma mensagem para além desta vida diante de um mundo que é visto ora como efêmero (1 João 2.17) ora como vazio (Eclesiastes 1.2). Mas vejam, ao descrever a condição humana como vanitas vanitatum- vaidade das vaidades- a sabedoria bíblica não nos convida à conformidade. A mensagem evangélica é grandiosa, bela e harmônica e, diante de tantas qualidades absolutas, não é possível viver na obstinação humana com tranquilidade. O Evangelho não produz indiferença, mas transformação constante, mesmo no homem que o ignora. O Evangelho e sua esperança escatológica – expressa na frase “ora vem, Senhor Jesus” – dá real impulso ao homem porque o alimenta não apenas com um sonho, mas com a fé. O irlandês C. S. Lewis certa vez escreveu: “os cristãos que mais fizeram pelo mundo presente foram exatamente aqueles que mais pensavam no que há de porvir”.

E a utopia? Ela não se sustenta diante dos medos reais. Nem diante do medo de perder uma grana. A utopia vende sonhos mediante determinada circunstância. Nada que dependa de um quadro específico pode proporcionar esperança duradoura. Portanto, o cristão que troca a esperança da escatologia cristã pela utopia política e ideológica é mais infeliz que Esaú, filho do patriarca Isaque, que vendeu sua primogenitura diante de um prato de lentilhas.

terça-feira, 19 de julho de 2016

A questão principal é uma só: o precedente do sectarismo!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cancelamento lamentável da palestra do Augustus Nicodemus na CPAD MegaStore não é um evento qualquer, mas, infelizmente, abre um precedente muito perigoso para as Assembleias de Deus. A nossa denominação nunca agiu institucionalmente como “carrasco teológico” e, felizmente, não é raro ver assembleianos consumindo material produzido fora dos arraiais da instituição – e isso desde há muito tempo. É claro que sempre houve embates nas Assembleias de Deus, mas parte importante dessas disputadas giravam em torno de questões eclesiásticas ou administrativas, e, vejam bem, raramente doutrinárias.

Discutir a doutrina natal e a própria identidade da denominação é sempre necessário, mas caminhar com intolerância diante de teologias antagônicas não só nos sufoca como despreza o Espírito Santo, isso mesmo, Aquele que “sopra onde quer”. Todo crente que trata questões secundárias como verdades de vida e morte acaba, infelizmente, desprezando uma das maiores belezas da fé cristã: a unidade em Cristo Jesus na diversidade da multiforme graça de Deus.

Nas décadas passadas a CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus) publicou livros de dois presbiterianos brasileiros famosos: Boanerges Ribeiro (1919-2003) e Caio Fábio. O primeiro foi presidente do Supremo Concílio e o segundo, na época, era um pastor calvinista popular entre os evangélicos. Não se tem notícia que a publicação de dois ícones (daquele período) da Igreja Presbiteriana tenha causado qualquer celeuma na liderança assembleiana. No Mensageiro da Paz, em edições antigas, é possível achar até artigos do Guilhermino Cunha, que foi, também, presidente do Supremo Concílio. Vale lembrar que o jornal Mensageiro da Paz é a voz oficial da denominação.

Eu sempre apreciei esse intercâmbio assembleiano por meio da Casa Publicadora. Eu nunca achei ruim ler um artigo do Russell Shedd na revista Obreiro, por exemplo, e nem me espantava com os textos do Ronaldo Lidório na extinta revista Resposta Fiel. E, assim, poderia citar inúmeros outros exemplos. Todos esses textos me edificaram e nem por isso virei adepto da TULIP. Nenhum desses autores tratavam de questões soteriológicas, por exemplo. Ao contrário, o meu contato com esses autores em revistas oficiais da minha denominação me afastou do sectarismo que atingia alguns dos meus pares na congregação que eu frequentava.

“Ah, mas os calvinistas não dão espaço nos púlpitos aos pentecostais e nem chamam teólogos das Assembleias de Deus a escrever em seus periódicos”, reclamam nas redes sociais (ou antissociais) os apoiadores do boicote. É verdade que há muito sectarismo no meio reformado brasileiro, mas devemos pagar um erro com uma dose dupla? Creio que não. Alguém tem que ter a humildade de quebrar o ciclo que sectarismo. “Ah, mas eles devem ceder”, retrucam os novos sectaristas pentecostais. E eu respondo com uma paráfrase de Jesus: “Se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil”. E não pense que inexistem calvinistas preocupados com o sectarismo, ora, bastar ler o maravilhoso livro “Carta a um Jovem Calvinista” (Editora Monergismo) do James K. A. Smith e constatar.

Em Cristo, vamos lutar pelo Reino de Deus e não pelos reinos humanos.




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PS: O meu amigo Alcino Júnior, reconhecidamente um arminiano, escreveu um texto interessante que levanta outras questões práticas sobre o boicote. Veja aqui.
PS: Para ler mais sobre o episódio de hoje visite o meu perfil no Facebook aqui: