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domingo, 13 de abril de 2014

O batismo no Espírito Santo é condição necessária para o recebimento dos dons espirituais?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não há nenhuma evidência bíblica que indique o Batismo no Espírito Santo como uma condição necessária (conditio sine qua non) para o recebimento dos dons espirituais. Essa “doutrina” não é nem bíblica-teológica e nem oficial na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, como alguns erroneamente pensam, porém é mais uma “ensino” popular e fruto da oralidade que ganha um contorno de autoridade e oficialidade. O Antigo Testamento é cheio de exemplos de dons espirituais em ação, ainda que o Batismo no Espírito como revestimento de poder não havia sido concedido, logo porque não existia a Igreja com a missão gentílica.

O respeitado teólogo assembleiano Anthony D. Palma escreveu:

“O Batismo no Espírito Santo é um pré-requisito para receber os dons espirituais”. Mas onde encontramos isso nas Escrituras? O povo de Deus experimentou todos os dons nos séculos anteriores ao Dia de Pentecostes. É mais correto dizer que o batismo no Espírito Santo intensifica a sensibilidade e a receptividade espirituais, fazendo da pessoa um candidato mais propenso aos dons espirituais. Isso é amplamente demostrado pelo fato de que há maior incidência dos dons entre aqueles que foram batizados no Espírito Santo do que entre os que não foram. [1]

Outros teólogos assembleianos que trabalham essa questão são William e Robert Menzies. Eles lembram que associar o Batismo no Espírito Santo (isto é, o dom do revestimento) no texto lucano com os dons espirituais ensinados pelo apóstolo Paulo é não respeitar os respectivos contextos [2]. O batismo no Espírito Santo, nunca custa lembrar, não mantém uma ligação direta com os dons. Sim, é possível falar que o Batismo ajuda na recepção de experiências, mas não é condição nata. Isso porque o batismo é um revestimento de poder para testemunho do Evangelho entre aqueles que ainda não abraçaram Cristo como Salvador (cf. Atos 1.8). Enquanto isso, os dons visam a edificação da Igreja (cf. 1 Co 14.12). O batismo capacita a Igreja para a evangelização, enquanto os dons edificam a Igreja entre os já convertidos e, assim, é parte do discipulado. E, também, é necessário lembrar que o próprio Batismo no Espírito Santo é um dom.

E as línguas? Bom, é possível falar em línguas sem o batismo no Espírito Santo? Essa é uma questão controversa e para resolver o empasse a teologia assembleiana [3] costuma diferenciar a língua estranha como sinal e/ou dom. Enquanto sinal, todos os batizados recebem como evidência física inicial no momento do revestimento de poder. Agora, como dom alguns recebem em forma de variedade. O sinal é normalmente um louvor, ou seja, uma proclamação para Deus, enquanto o dom de variedade de línguas é normalmente equivalente a uma profecia, portanto, uma mensagem para homens (cf. Atos 2.11 comp. 1 Coríntios 14.2, 5). Essa diferenciação é bem carente da base escriturística sólida, pois a variedade de línguas pode- muito bem-  ser um louvor ampliado e, mesmo interpretado para edificação coletiva, seria um cântico ou oração de engradecimento (e não uma mensagem profética) em idioma local. Por exemplo, não somos edificados com os Salmos? A língua interpretada pareceria mais um salmo do que uma profecia, logo porque as referências bíblicas indicam que a língua tem uma direção vertical e não, necessariamente, horizontal (cf. Atos 2.11; Romanos 8.26; 1 Coríntios 14,2, 14, 15; Efésios 6.18; Judas 20).  

Agora, é sim possível dizer que o dom de línguas tem uma relação especial com a natureza do próprio Batismo no Espírito Santo, diferente dos outros dons que em nada dependem dessa experiência. O apóstolo Paulo indica que a língua é um “sinal para os infiéis” (cf. 1 Coríntios 14. 21,22) e o Batismo no Espírito Santo é um revestimento de poder para testemunhar àqueles que não se converteram (Atos 1.8, 2. 1-47). Não é à toa que a língua sempre está presente no Batismo do Espírito Santo (cf. Atos 2.1-13; 8.4-25; 9.24-48; 19.1-6). Portanto, é possível concluir que, excetuando o falar em línguas, os demais dons em nada dependem do Batismo no Espírito Santo.


Referências Bibliográficas:

[1] PALMA, Anthony D. Os dons e o fruto do Espírito. Em: Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 77, n. 1465, Julho de 2007, p. 18.


[2] MENZIES, William W. e MENZIES, Robert P. No Poder do Espírito: Fundamentos da Experiência Pentecostal: um chamado ao diálogo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 237- 249. 

[3] Essa diferenciação entre línguas como sinal e dom é mais uma doutrina assembleiana do que pentecostal. Muitos pentecostais, incluindo o reverendo William Seymour, não colocavam (ou atualmente colocam) as línguas como o sinal definitivo do Batismo no Espírito Santo. Logo, não fazem diferenciação entre sinal ou dom.

sábado, 12 de abril de 2014

O Propósito dos Dons Espirituais

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Os dons espirituais possuem propósito, embora não seja apenas um. O primário objetivo dos dons é a glorificação de Cristo por meio da edificação do Corpo- a Igreja do Nosso Senhor. A palavra chave é o verbo edificar e o substantivo edificação. E isso é evidente a partir da leitura de 1 Coríntios 14, onde o verbo grego ocorre três vezes (cf. 14.4,17) e o substantivo quatro vezes (cf. 14.3,5,12, 26). O principal poder dos dons está no fortalecimento, amadurecimento e edificação da Igreja. Assim, os dons tornam a Igreja “mais capaz” de cumprir a missão como agente do Reino de Deus nesta terra (cf. At 9.31). Logo, se os dons cessaram a igreja contemporânea não precisa de edificação? Se os dons não cessaram e sabemos desse objetivo construtor, logo por que desprezamos os dons com medo da espiritualidade líquida e exótica de muitos carismáticos?

Sempre reclamamos da apatia que cobre a igreja moderna, mas ao mesmo tempo estamos esquecendo a ferramenta da graça dada por Deus para a edificação da mesma. Ela está disponível para nós hoje. Infelizmente, poucos estão orando a Deus pedindo dons. O apóstolo Paulo, mesmo diante de uma assembleia cheia de dons, continuava a exortar que eles buscassem mais dons (cf. 1 Co 14.12). O problema dos coríntios não era a abundância de dons, mas o conformismo em usar alguns dons, especialmente o falar em línguas, com o mesquinhez e egoísmo. Repito: o problema não era a posse dos dons, mas o propósito por trás do uso. Não podemos rejeitar os dons porque eles são manifestações do próprio Deus entre o seu povo. “Os dons espirituais são revelações concentradas da atividade divina, e apenas secundariamente da atividade humana. Os dons espirituais são a presença do próprio Espírito se expressando de maneira relativamente clara, e até dramática, na forma como exercemos o ministérios. Os dons são a manifestação pública de Deus entre o seu povo”, como escreveu Sam Storms [1]. Não é uma relação deística, ou seja, Ele lá no céu derramando graça para homens solitários na terra. Não, Ele se faz literalmente presente entre o seu povo por meio dessa graça. Assim, o mal uso dos dons não pode levar a igreja contemporânea ao terrível erro de rejeitar essas bênçãos do Senhor.

Só solidez doutrinária não basta. Muitas vezes, nós que lidados com o ensino, pensamos que uma igreja formada por doutos senhores e senhoras na ciência teológica seria a solução perfeita para todos os nossos problemas eclesiásticos. Tal pensamento é de uma infantilidade que faz do entusiasta da educação teológica um ignorante igual aos piores militantes do anti-intelectualismo. A formação doutrinária, como uma ponta solta, nunca será suficiente para manter uma comunidade viva, embora seja importantíssima! A igreja de Éfeso é um exemplo, pois a fortaleza doutrinária daquela comunidade não foi suficiente para deter a falta do primeiro amor (cf. Ap 3.4). Na epístola aos efésios o apóstolo Paulo não os repreende por erros doutrinários e, escrevendo igualmente uma carta, o apóstolo João elogia o esforço apologético dela, mas houve o abandono do primeiro amor.  O entusiasmo, a paixão e a celebração do início foi embora para longe, literalmente jogada fora, e agora, o que resta, é apenas o vazio de uma ortodoxia inflamada pelo embate. Hoje, assim como no passado, na severidade do zelo doutrinário muitos perderam a paixão por buscar a Deus e os seus dons. “Se estar certo tornar-se mais importante para nós do que adorar a Deus, então nossa teologia já não diz mais respeito a Deus. Diz respeito a nós”, escreveram Joshua Harris e Eric Stanford [2]. Nada é bom em excesso, nem o zelo pela verdade.

Agora, há o outro lado da moeda. Inúmeros usam o dom como promoção pessoal, sinal de santidade e até mesmo como expressão de curandeirismo. Como acima visto, o propósito bem usado dos dons acaba com esses pecados. Veja esse quadro.

O propósito dos dons
Como devem ser vistos

O que combatem
Edificação da Igreja (coletividade)
Combatem o egoísmo, a megalomania, a elitização da igreja e de seus membros e a visão de “eu sou ungido e você não é”.
Edificação da sociedade (Expressão profética)
Combatem o enclausuramento da Igreja
Edificação pessoal
Combatem a apatia espiritual

Portanto, o dom não tem como propósito a promoção do portador desse dom, nem como santo e nem como milagreiro. A edificação mútua inibe muitos abusos, logo porque o melhor regulador dos dons espirituais é o amor. Não é à toa que o poema do amor em 1 Coríntios 13 está entre o capítulo 12 e 14. Os temas são completamente relacionados. Portanto, se alguém abusa do dom “porque se sente bem”, esse esqueceu do mandamento para edificação mútua. Falar em línguas, por exemplo, é muito bom para edificação pessoal, mas falar o tempo todo no microfone ajudará alguém? Pense nisso, o culto não é seu ou para você. O culto é da igreja, para edificação dessa comunidade, e para a glória dEle.

Referências Bibliográficas:

[1] STORMS, Sam. Dons Espirituais: uma introdução bíblica, teológica e pastoral. 1 ed. Rio de Janeiro: Anno Domini, 2014. p 15.

[2] HARRIS, Joshua e STANFORD, Eric. Ortodoxia Humilde. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 45.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Lição 1- Deu Dons aos Homens


Por Gutierres Fernandes Siqueira


Subsídio para a Lição 1 intitulada  Deu Dons aos Homens publicada nas Lições Bíblicas da CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). A ideia é praticar esse subsídio semanalmente. 

INTRODUÇÃO

A Doutrina dos Dons Espirituais é importante para a Igreja contemporânea porque essas dádivas divinas visam a edificação do Corpo de Cristo. A Igreja é uma organização espiritual, portanto, feita de indivíduos para indivíduos. Alguns podem pensar que os dons provocam mais problemas do que soluções nas congregações, mas é necessário concluir que nada é simples no relacionamento comunitário. Nós, como homens decaídos, sempre tendemos a abraçar o vício e o pecado, mesmo nas manifestações de espiritualidade. O pecado da falsa modéstia, por exemplo, começa com a virtude da modéstia. O zelo pela obra de Deus, um ponto positivo na vida do homem cristão, pode ocorrer em legalismo, intolerância e, no fim, até mesmo na perda da fé. Ou seja, temos uma tendência maligna de corromper o que é bom. E com os dons espirituais não é diferente. Portanto, estejamos atentos aos abusos, mas também sem desprezar o presente do Senhor.

I- OS DONS NA BÍBLIA

1. No Antigo Testamento
Não esqueça que havia manifestações dos dons espirituais no Antigo Testamento. Essa não é uma doutrina paulina, mas está permeada em toda a Escritura. Mesmo os ditos dons revelacionais estavam presentes na Antiga Aliança [cf. Joel 2.28]. Ainda que as “línguas estranhas” não sejam mencionadas entre a Lei e os Profetas, porém o caráter de revelacional estava nos sonhos, visões e, é claro, nas profecias. Os “vários dons que Paulo menciona já eram associados ao Espírito (ou identificados pela expressão ‘um espírito de...’) no Antigo Testamento e no pensamento judaico, inclusive os dons de sabedoria e conhecimento ou entendimento (Êx 31.3; 35.31; Is 11.2; Dn 1.4; 5.11,12; 1QS IV 3-4, 20-22; 4QS161 8-8 III, 11-12), cura (Is 61.1; 1QS IV, 6) e profecia (e.g. Nm 11.29; Jl 2.28; 1Sm 10. 6,10; 19.20,23; 2Sm 23.2)”, escrevem Roy E. Ciampa e Brian S. Rosner [1]. 

Outro dado interessante no Antigo Testamento é a diversidade dons do Espirito Santo. Bezalel foi cheio do Espírito para capacitação arquitetônica, artística e de engenharia na construção do Tabernáculo. Nada no Novo Testamento indica um dom para capacitação artística e de engenharia. Portanto, esse é um indicativo da diversidade na unidade do Espírito. O Espírito Santo não apenas capacita, mas capacita conforme necessidades da Igreja e vontade do próprio Deus. Em Êxodo 31-1-5 lemos: 

Disse então o Senhor a Moisés: "Eu escolhi a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhes destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal. [2]
Essa é a primeira vez nas Sagradas Escrituras onde uma pessoa é indicada como cheia do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, capacitada pelo próprio Deus com um dom. Essa menção não veio em Abraão, Isaque ou Jacó e nem em Moisés, mas sim a esse artesão. Alguns acham que Gênesis 41.38 mencionaria o primeiro homem cheio do Espírito como José do Egito, mas é uma interpretação equivocada, pois a pergunta é feita por Faraó e o conceito dele não era monoteísta e trinitário, mas sim da mística religião egípcia. O fato é que Bezalel recebeu o dom do Espírito e isso o aperfeiçoou em seu trabalho na construção do Tabernáculo juntamente com Aoliabe. E em Êxodo 35.33, Moisés proclama que Deus “concedeu tanto a ele (Bezabel) como a Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã, a habilidade de ensinar os outros”. Ou seja, o dom do Espírito sempre tem o propósito de edificação e crescimento no aprendizado da comunidade. Não é algo próprio e para interesses individuais. 

2. No Novo Testamento
O assunto é especialmente tratado pelo apóstolo Paulo (Romanos 12; 1 Coríntios 12-14 e Efésios 4). As listas dos dons são heterogêneas e, por que não dizer, até complicadas de entender. Nisso nasce várias questões e debates. Por exemplo: Todos os dons são espirituais? Ou seja, todos são uma manifestação visível do Espírito como uma teofania moderna, ou, por outro lado, a capacitação humana já existe, mas o Espírito conduz essa habilidade conforme a glorificação de Cristo? É necessário dividir os dons entre “espirituais” e “ministeriais” ou essa é apenas uma questão didática? O texto suporta essa divisão? Ao mesmo tempo, o adjetivo grego pneumatikon em 1 Coríntios 12.1 e 14.1 parece realçar os noves dons com alguma diferenciação em relação aos demais dons, pois esse mesmo termo não é mencionado nas outras listagens. Outro exemplo, ministério parece indicar o conjunto de dons em um texto (cf. 1 Co 12.5), mas noutro mostra como um dom específico ( Rm 12.7), ou talvez “ministrar” no plural indique as várias formas de aplicação desse dom particular e, assim, o texto se complementa. Enquanto em Coríntios, especialmente na primeira parte do capítulo 12, indica dons com caráter espetacular, em Romanos a diversidade é o real espetáculo. Gordon D. Fee, comentado Romanos 12, escreveu: “Essa lista é tão heterogênea e abrange uma série tão ampla de atividades, que é mais provável a ênfase estar na ‘graça de Deus’, aqui sendo realidade entre os fiéis romanos de forma concreta” [3]. Não faltam dificuldades exegéticas e hermenêuticas para o entendimento dessas listas. 

II- OS DONS DE SERVIÇO, ESPIRITUAIS e MINISTERIAIS

1. Dons relacionados ao serviço cristão
Independente se você foi chamado e capacitado para o ensino, a administração ou qualquer outro dom de serviço, esse dom é uma capacitação do próprio Deus. Uma igreja que fosse coerentemente cessacionista negaria, inclusive, a diaconia. Mas, alguns dons ditos de serviço, se confundem com os dons da classificação “espiritual” como é o caso da “exortação” (encorajamento, no grego). A profecia é, também, um dom de exortação. Ou seja, quando a exortação vem da parte de Deus talvez apareça como um conselho ou como uma profecia mais clara e visível. 

2. Conhecendo os dons espirituais
A ignorância quando aos dons espirituais é gritante, mesmo em ambientes pentecostais. Há quem acredite, por exemplo, que qualquer limitação ao uso dos dons é um erro porque “ninguém pode limitar o Espírito Santo”! Santa ignorância, é óbvio que ninguém pode impedir o agir de Deus, mas é o próprio Deus em sua Palavra que limita o uso dos dons para o contexto de edificação no culto. Bastar ler 1 Coríntios 14. É necessário conhecer os dons, mas pelas Escrituras e não por meio de conferências “avivalistas” que nada ensinam e só tornam os ouvintes ainda mais ignorantes. 

3. Acerca dos dons ministeriais
Ser um ministro é responder pela edificação e educação espiritual da comunidade cristã, especialmente por meio da Igreja constituída. O ministério vem por meio do apostolado, profetas, evangelistas e pastores-doutores (no grego é uma expressão única). Mas, cabe uma observação, como dito pelo teólogo Antonio Gilberto: 

A igreja ordena o obreiro como ministro do Evangelho e não como apóstolo, profeta, evangelista, pastor ou mestre. Esses são ministérios dados por Deus. A igreja convencionou por si mesma chamar todos os ministros ora como pastores, ora como evangelistas, mas precisamentos encarar o assunto dos dons ministeriais apresentados em Efésios 4.11 à luz da doutrina bíblica do ministério [4]. 

O ministério não é para todos, assim como o corpo não pode ser constituído somente de pernas. O Senhor, em sua infinita sabedoria, colocou à frente pessoas capazes de responder ao chamado do santo ministério. A Igreja é formada por indivíduos bem diferentes e com problemas nada iguais, portanto, uma liderança saudável faz toda a diferença. É necessário cuidado para não criar “ministros” que não existem nas Escrituras, como os “ministros de louvor”. Ora, quem canta adora, não é um ministrar para homens, mas um adorador para Deus. 

III- CORINTO: UMA IGREJA PROBLEMÁTICA NA ADMINISTRAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS (1 Co 12-1-11)

1. Os dons são importantes
É inegável a importância edificadora dos dons, mas igualmente imprescindível é uma Igreja que cultive o fruto do Espírito Santo. Erros comuns nos usos dos dons é o orgulho de uma suposta espiritualidade superior, é confundir o ser usado por Deus como ser aprovado por Deus (são duas coisas bem diferentes), é confundir alguém usado em dons como autoridade de ensino e doutrina e, ainda, é confundir dom espiritual com espiritualidade saudável (santidade). É possível ser carnal e ao mesmo tempo profetizar, falar em línguas e até mesmo curar. A igreja era Corinto era carnal, divisionista, havia bêbados na Ceia e até se tolerava escândalos sexuais, mas ali na faltava nenhum dom (cf. 1 Co 1.7). 

2. Diversidade dos dons
Uma lição importante sobre os dons é sua a ampla diversidade. Isso porque cada ser humano é singular. Imagine que um profeta normalmente não é um bom consolador. E uma pessoa generosa nas ofertas talvez não seja uma boa administradora. E administradores não costumam ser generosos. Quem ensina tem um raciocínio rápido, mas pode ser devagar na hora da diaconia. Portanto, é necessário várias pessoas com dons diferentes. É um conjunto de dons que se complementam, pois não há ninguém que seja tão versátil [5]. 

3. Autossuficiência e humildade
Dom é uma graça. Quem se julga mais espiritual porque porta um dom simplesmente despreza o doador. Se dom é uma graça nós recebemos não por mérito próprio, mas pela infinita misericórdia de Cristo.

CONCLUSÃO
A conclusão é simples: devemos abraçar com entusiamo a doutrina dos dons e pedir a Deus para nos conceder essa graça a fim de edificar a Sua Santa Igreja. Faz parte da maturidade cristã, inclusive, se perceber como usado por Deus mesmo em meio às inúmeras limitações morais e espirituais em nossas vidas. É claro, por essa misericórdia, devemos ter um coração agradecido.

Referências Bibliográficas:

[1] CIAMPA, Roy E. e ROSNER, Brian S. 1 Coríntios. Em: BEALE, G. K. e CARSON, D. A. Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento.  1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 917.
[2] Para detalhamento exegético desse texto leia: HAMILTON, Victor P. Exodus: An Exegetical Commentary. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2011. pos. 14536. HILDEBRANDT, Wilf. Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Academia Cristã e Edições Loyola, 2008. p 126. 
[3] FEE, Gordon. Dons do Espírito. Em: HARWTHORNE, Gerald F.; MARTIN P. Ralph e REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas Cartas. 2 ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola e Edições Vida Nova, 2008. p 411.
[4] SILVA, Antonio Gilberto da. Os Dons Ministeriais. Em: BENTHO, Esdras Costa (ed.) Bíblia do Obreiro Aprovado. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 1411.
[5] Para um devocional sobre esse assunto leia: Manual da Bíblia de Aplicação Pessoal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. p 269.

LEIA MAIS:

quinta-feira, 3 de abril de 2014

E lá fui eu assistir “Noé”...

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Cheguei a pouco do cinema. Fui com minha mãe assistir o polêmico e controvertido filme Noé (EUA, 2014, 139 min). Ela voltou decepcionada, mas não eu. Quais as razões? A minha mãe, como muitos evangélicos, foi assistir a esse filme esperando um relato condizente com as Sagradas Escrituras. Eu não fui com essa expectativa, pois já tinha lido matérias onde o diretor e a produtora indicavam que o longa era apenas inspirado no relato da vida de Noé, mas não um retrato fiel à história. Ainda que o ator Russell Crowe falasse o contrário. Eu, de propósito, não contei a ela sobre minhas leituras, pois queria ver a reação final. Se você, como ela, realmente espera um filme bíblico, então, nem saia de casa para pagar um ingresso no cinema mais próximo.



Noé é uma razoável peça de ficção. É uma fantasia de inspiração bíblica. Repito: não é nem minimamente parecido com o Noé das Escrituras. Brinquei com minha mãe que a única referência bíblica no filme era a água. Há algumas reflexões interessantes, especialmente ao observar que o juízo de Noé, como um zeloso cumpridor das ordens divinas, era ainda mais severo do que o juízo de Deus. No zelo Noé abraça a injustiça. É, no meu entender, uma reflexão interessante. Mas, é claro, esse é o Noé da fantasia do diretor Darren Aronofsky e do roteirista Ari Handel. Além disso, esse Noé é meio chato, pois é um ambientalista com grande antropofobia (algo normal nos ambientalistas modernos!). 

Bom, dito isso, acho uma tremenda bobagem toda a polêmica que o filme gerou. Eis as razões:

1. Todo filme deve ser julgado pelo propósito exposto pelo diretor. Essa é uma regra básica na análise de um filme. O filme é ecofantástico e não bíblico, como bem definiu um crítico da agência Reuters. É bom lembrar que o diretor não é cristão, mas de origem judaica. Ele, inclusive, se inspirou em relatos da tradição rabínica para construir esse fantasioso Noé. E, como não é um teólogo cristão-evangélico, o método de interpretação do Aronofsky certamente não foi o histórico-gramatical, não é pessoal? A própria Paramount Pictures deixou claro, no meio das polêmicas, que o filme é apenas “inspirado”. Assim, na hermenêutica particular do diretor o Noé foi o “primeiro ambientalista”. Isso, realmente, é trágico, mas não podemos exigir muito de alguém sem vivência religiosa. Bem que o ambientalismo é uma religião moderna...

2. Hollywood não tem obrigações exegéticas. Você espera aprender exegese com Hollywood? Bom, aí você quer muita coisa da indústria do entretenimento. Alguns cristãos também acham que os donos dos shoppings devem resgatar o sentido do Natal e da Páscoa... Bom, pessoal, vamos acordar! Se a igreja que é a igreja não faz exegese, agora imagine as produtoras que pensam em como ganhar dinheiro com uma história qualquer.

3. É possível que uma história seja cristã, mas sem literalidade bíblica. Sim, isso mesmo, é possível. Não é o caso do filme Noé, mas podemos pensar em filmes que usem alguns aspectos bíblicos, mas ao mesmo tempo permitam grandes licenças poéticas de forte cunho teológico-cristão. 

Dito isto, recomendo o filme para quem gosta de fantasia. Se você quer saber mais sobre Noé abra a sua Bíblia em Gênesis 6 a 10.

domingo, 30 de março de 2014

Por que não existe Ministério de Louvor?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


O leitor Gilmar Valverde pergunta: “Se ‘ministério de louvor’ não existe, como afirmado no post sobre pastores itinerantes [leia aqui], como fica, então, os muitos cantores que se dedicam exclusivamente ao louvor? Por acaso, seria um trabalho sem muito sentido no Reino de Deus?” [1].


A resposta: Primeiro, é necessário definir o conceito neotestamentário de “ministério”. Todo trabalho na igreja local pode ser definido como ministério? A resposta é um sonoro não. Quando alguém diz ser um “ministro de louvor” esse está apenas reproduzindo uma tradição carismática sem sustentação bíblica. Ministério é o que a Bíblia chama de ministério. Simples assim? Nem tanto. O teólogo C. G. Kruse assim define “ministério” no pensamento paulino:


Para o apóstolo Paulo, o ministério incluía tudo que o Cristo exaltado fez e faz por intermédio de seu povo para edificar sua Igreja. Isso incluía o exercício apropriado dos dons para o ministério, que Cristo concedeu a todo o seu povo, e também o ministério dos que, como Paulo, foram divinamente designados para estabelecer e educar as Igrejas. Também incluía os designados por ação humana para exercer papéis de liderança nas Igrejas. [2]

A base para definir exatamente quais são os ministérios do Novo Testamento é a Sagrada Escritura, especialmente em Romanos 12, 1 Coríntios 12 e Efésios 4. O apóstolo diz: “E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo” [1 Coríntios 12.5 AA]. A palavra traduzida como “ministério” é διακονιῶν [diakoniōn]. Segundo Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, o termo indica aqueles dotados por Deus para o serviço zeloso e laborioso na promoção da causa de Cristo entre os homens. O contexto sempre envolve o serviço no exercício do apostolado, do evangelismo, da proclamação profética, do ensino e e do pastorado (cf. 1 Co 12.5; Ef 4.12; 2 Tm 4.5).  Em nenhum desses textos há uma indicação que o responsável pelo louvor seja “ministro” no sentido neotestamentário do termo. Quem louva não ministra ofícios, mas simplesmente (e grandemente) adora.

Alguém pode dizer que essa discussão é apenas semântica. Não, não é. O conceito de ministro é importante para entender o papel daquele a quem Deus chama para edificação da Igreja. Em nenhum momento o Novo Testamento coloca o louvor como parte da edificação (ou seja, da construção e alicerce doutrinário da congregação). O louvor é colocado em poema e sobre um poema sempre é necessário cautela na construção de sistemas doutrinários. Aja vista certas dificuldades hermenêuticas na interpretação dos Salmos. Embora o louvor na primitiva igreja (exemplo: Romanos 11.33-36) seja recheado de doutrina bíblica, aquele que canta não é necessariamente um doutrinador.

Ah, mas e os cantores e bandas evangélicas? Bom, hoje são apenas artistas. Mas a igreja local não precisa de cantores? É claro que sim, mas somente como alguém que impulsiona o louvor congregacional. Não é para apresentação. Infelizmente, nas igrejas pentecostais clássicas a maior parte dos ditos cantores produzem apresentações (ou shows) e não louvor para e com a congregação. É bom lembrar que essa lavra de cantores do mundo “gospel” é uma invenção recente do século XX. Até o século XIX as composições eram feitas por pastores, teólogos e pessoas vocacionadas para a música, mas que normalmente tinham envolvimento com algum ministério (missionários, evangelistas, pastores, professores de Bíblia etc.). O reformador Martinho Lutero (1483-1546), por exemplo, escreveu o hino Castelo Forte. Naquela época não havia alguém que- fora do ambiente eclesiástico- se dedicasse apenas a cantar de igreja em igreja com suas composições. Charles Wesley (1707-1788), por exemplo, é conhecido como grande compositor, mas era principalmente um ministro ordenado pela Igreja Anglicana. A grande musicista inglesa Sarah Kalley (1825-1907) era professora de Bíblia e foi missionária no Brasil. A assembleiana Frida Vingren (1891-1940) também produziu belos hinos, mas o seu ministério era a missão evangelizadora e o ensinamento bíblico. 

Observe que Martinho Lutero, Charles Wesley, Sarah Kalley e Frida Vingren não se colocaram como “cantores de igreja”. Eles eram, antes de tudo, ministros do Evangelho. O talento musical era complemento e não uma função ministerial. Logo porque o louvor é responsabilidade de toda a congregação e não só de um indivíduo. A igreja local precisa de apenas um pastor ou um mestre, mas todos os membros devem louvar ao Senhor com cânticos (cf. Efésios 5.19; Colossenses 3.16). 

Referências Bibliográficas:

[1] A pergunta foi adaptada para melhor entendimento do questionamento.

[2] KRUSE, C. G. Ministério. Em: HARWTHORNE, Gerald F.; MARTIN P. Ralph e REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas Cartas. 2 ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola e Edições Vida Nova, 2008. p 818.