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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A resposta pentecostal à condição pós-moderna

Por André Gomes Quirino

Que a chamada pós-modernidade seja, na maioria de seus aspectos, uma radicalização das crenças e costumes modernos, boa parte dos analistas culturais tem sido propensa a concordar. Mas há, sim, e em decorrência mesmo dessa radicalização, rupturas significativas entre a autoimagem sustentada pelo homem moderno e a imagem que o homem pós- ou hiper-moderno forma de si. Grosso modo, talvez possamos traçar que na modernidade o homem se enxergava como um observador científico, habilitado a detectar objetivamente as deficiências do mundo e propor invenções que as solucionariam. Já o homem hiper-moderno carrega consigo uma melancolia pelos morticínios do século XX e uma descrença no poder esclarecedor da ciência.

Se, por um lado, a Igreja deve cuidar para que a desilusão hiper-moderna não desague num antirracionalismo pagão (daí o clamor do papa João Paulo II, na encíclica Fides et ratio, de 1998, por que a Revelação seja anunciada como o "ponto de enlace e confronto" entre a filosofia e a fé, a esperança de que o ser humano possa conhecer a Verdade), por outro lado, me parece que tal disposição de espírito está sendo resultada pelo próprio ceticismo moderno, que carrega em si a semente de sua superação. É como na máxima de Chesterton: "Para responder ao cético arrogante, não adianta insistir que deixe de duvidar. É melhor estimulá-lo a continuar a duvidar, para duvidar um pouco mais, para duvidar cada dia mais das coisas novas e loucas do universo, até que, enfim, por alguma estranha iluminação, ele venha a duvidar de si próprio". O século XX propiciou-nos muitas estranhas iluminações, trazendo-nos a este estágio em que começamos a duvidar de nós mesmos.

Mas a descrença em si não pode ser o estágio definitivo. Como demonstra o psicólogo judeu, aluno de Freud, Viktor Frankl, com sua Logoterapia (em grande parte desenvolvida durante sua passagem num campo de concentração), o homem está sempre em busca de sentido. E, se há algo que, de um modo geral, confere sentido à vida do homem hiper-moderno, isto é a narrativa. Queremos sempre nos ver envolvidos numa história que nos transcenda. Já que a verdade última não está nem no objeto externo analisado friamente, nem no eu pensante solitário, buscamo-la na relação. Prezamos pela interação (ainda que virtual), o cinema e a teledramaturgia são as formas de arte que mais conquistam admiradores, utilizamos as redes sociais da internet para exibir ao mundo a nossa própria narrativa, personalizada como a bem queremos.

Neste cenário, o materialismo, que fora até então o grande inimigo da fé, vai perdendo sua força. Ao analisar objetos brutos isolados para explicar seu funcionamento, ele abstrai da condição humana seu caráter temporal, histórico, dramático. Exige das doutrinas religiosas um naturalismo que nem o próprio mundo nos autoriza a sustentar. Torna-se evidente que as religiões podem e devem oferecer respostas absurdas porque a própria condição humana é absurda. Para os padrões de quem de repente se vê lançado num mundo, caminhando entre seres semelhantes, relacionando-se com eles, participando de uma história, construindo uma narrativa, ser criado e redimido por um Deus todo-poderoso é totalmente coerente. Não pode dogmaticamente chamar mito a tal narrativa cósmica quem irremediavelmente vive no sonho da existência e da ação. A vida é um caminho sem volta que, se pode ser desfrutado em vão de algum modo, certamente não o será por quem concebê-la na plenitude de sua absurdidade.

A teologia pentecostal pode emergir, neste contexto, como uma abordagem cristã particularmente atraente, por dois motivos.

Em primeiro lugar, o pentecostalismo sadio tende a ressaltar a importância da comunidade. Em Atos 1, Cristo pede que os discípulos estejam reunidos até que o Espírito desça sobre eles e, em Atos 2, Lucas realça o impacto coletivo daquele batismo. Em 1 Coríntios 12-14, Paulo esclarece que a finalidade última dos dons espirituais é a edificação da igreja. A experiência pentecostal se dá, portanto, em comunidade, e, na medida em que o teólogo pentecostal é aquele que desenvolve a doutrina do Espírito a partir da atualidade de uma experiência palpável, ele pensará e fará seu anúncio a partir de uma vivência comunitária concreta. Mais do que isso: a comunhão e o carisma que devem ser evidentes numa igreja pentecostal serão, se biblicamente orientados, um reflexo - ainda que defeituoso - da pericorese trinitária, isto é, da dança, da harmonia perfeita e bela que há na Trindade Santa. A experiência pentecostal numa igreja insere seus membros numa relação de profunda intimidade, faze-os reconhecer a si próprios como participantes de uma mesma narrativa.

Em segundo lugar, a experiência da manifestação dos dons espirituais leva cada crente individualmente a se perceber em comunhão com o Deus triúno que, mais do que personagem de uma história, é a condição de possibilidade para qualquer narrativa. A experiência pentecostal, ao mesmo tempo em que cumpre uma promessa proferida por Cristo e repete um padrão estabelecido pela Escritura, é sempre atual e única. Assim, ela ratifica a verdade da Revelação cristã (Paulo estabeleceu o dom de línguas como um sinal para os descrentes) numa relação interpessoal, a partir dum batismo naquEle que Cristo, que se declarou a Verdade, predisse que viria para testificar Sua pregação. O testemunho do Espírito remeterá o cristão à verdade das Escrituras e do Logos divino, sendo o ponto de enlace entre a narrativa e a Revelação eterna, o ponto de encontro com aquEle que criou o Universo, determinou seu funcionamento e hoje nos dá a ciência para perscrutá-lo.

Pensando em Línguas!
O revestimento do Espírito capacita a Igreja, desde a Era Apostólica, a testemunhar o evangelho de Cristo ao mundo com poder e autoridade. A marca de uma teologia e de uma igreja pentecostais, destarte, deve ser a de quem não desacreditou totalmente da capacidade de conhecimento por parte do homem, mas se relaciona pessoalmente com aquilo que confere razoabilidade ao mundo: o Deus triúno.

Essas são considerações introdutórias sobre um assunto amplo e instigante. Multiplicam-se os livros e teses acadêmicas que o têm por objeto. Espero voltar a ele em breve numa resenha de "Thinking in Tongues: Pentecostal Contributions to Christian Philosophy" ("Pensando em Línguas: Contribuições Pentecostais para a Filosofia Cristã", em tradução livre), de James K. A. Smith (livro de 2010). Que me consta, esse debate ainda não encontrou solo no Brasil. É desejoso que encontre. Que este texto sirva de incentivo a que os cristãos de confissão pentecostal se prontifiquem ao labor teológico-filosófico e a que os crentes de outras confissões considerem o que estes irmãos, a partir de sua experiência comunitária e de sua rica tradição teológica, têm a acrescentar ao pensamento cristão.

domingo, 12 de outubro de 2014

A confissão pública de pecados: mais uma influência do catolicismo sobre a prática assembleiana!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Antigamente na Igreja Evangélica Assembleia de Deus havia o costume de estimular a confissão do pecado individual diante da congregação, especialmente antes da Ceia do Senhor. Outros faziam o confissão diante do pastor que informava à igreja local sobre a contrição do “pecador arrependido”. Essa prática tem a influência direta da doutrina da Confissão Auricular, uma das práticas tradicionais da Igreja Católica que violam a doutrina bíblica do sacerdócio universal de todos os crentes. Alguns leitores informam que, infelizmente, essa prática ainda existe em algumas congregações das Assembleias de Deus. O leitor Célio Castro, por exemplo, relata que em alguns casos a confissão do pecado diante de um corpo de obreiros e a consequente disciplina era matéria de ata formalizada diante da congregação.

Bom, essa tradição é terrivelmente antibíblica. A confissão pública nunca é estimulada nas Escrituras. Quando Tiago [5.16] fala em “confessem os seus pecados uns aos outros” é subtendido que não há hierarquização, ou seja, não é a confissão de um “pecador” para com o “santo sacerdote” ou a uma “santa congregação”. Quando o pecado envolve ofensa ao outro é óbvio que o ofensor deve pedir perdão ao ofendido, mas tal fato não precisa ser feito de espetáculo para o público da congregação. É certo que a congregação também pode ser vítima de um escândalo público de um membro e, igualmente, esse membro deve perdão à congregação. Como escreveu Curtis Vaughan: “A confissão é o vômito da alma e pode, quando realizada de modo muito geral ou indiscriminado, fazer mais mal do que bem”. A discrição é recomendada pelo próprio Cristo e somente em casos de resistência e teimosia a decisão deve ser submetida à igreja para disciplina pública (Mateus 18. 15-17). Esse era o caso em Corinto, onde um jovem estava envolvido sexualmente com a própria madrasta e a congregação tolerava essa comportamento sem aplicada a devida disciplina (cf. 1 Coríntios 5.3 ss; 2 Coríntios 2.6 ss).

Portanto, o arrependimento diante de Deus redime o nosso pecado (Salmo 32.3-6; 1 João 1.9). O perdão não é dependente do sacerdote ou da congregação. A disciplina é necessária, mas a excomunhão só se aplica a quem se desligou da própria Igreja pela permanência teimosa no pecado. A confissão está para nós como um desabafo diante de Deus das nossas próprias misérias. “Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado” (Salmo 32.5).

sábado, 4 de outubro de 2014

Eleições e o cristão evangélico

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Amanhã é um dia importante. Ore pelo Brasil. Nós, como Igreja do Senhor, devemos votar com sabedoria.

  1. O voto de cajado deve ser repudiado e repreendido. Não vote em alguém só porque o seu pastor indicou como o “escolhido da igreja”. Aliás, se esse pastor indicou algum candidato durante um culto logo cometeu crime.
  2. Não aceite a ideia que "irmão vota em irmão". Irmão vota em gente competente, mesmo sendo não-cristã.
  3. Os deputados, senadores, governadores e presidentes são servidores do Estado.  Não encare esses homens e mulheres como monarcas a quem devemos reverência e obediência. Os governantes são servidores da nação e não o contrário.
  4. Não vote em alguém “para ajudá-lo”. Política não deve ser vista como “meio de vida”.
  5. Não vote em alguém acreditando que o mesmo “salvará” o Brasil. A nossa confiança, como Igreja, é unicamente em Nosso Senhor Jesus Cristo. O cristão é necessariamente antiutópico. Não existe solução mágica e nem salvadores da pátria.
  6. E, também, precisamos evitar a sustentação de legendas e políticos que sonham com uma sociedade sem religião. Há diversos partidos, especialmente de extrema-esquerda, que levantam bandeiras anticristãs sob a desculpa do Estado laico. Não vote em políticos que confundem laicidade com laicismo. Qual a diferença? "De modo bastante sucinto, a laicidade é característica dos Estados não confessionais que assumem uma posição de neutralidade perante a religião, a qual se traduz em respeito por todos os credos e inclusive pela ausência deles (agnosticismo, ateísmo). Já o laicismo, igualmente não confessional, refere-se aos Estados que assumem uma postura de [...] intolerância religiosa, ou seja, a religião é vista de forma negativa, ao contrário do que se passa com a laicidade", como escreveu o jurista Paulo Henrique Hachich De Cesare.
  7. O cristão não aceita a ideia de “pai dos pobres”. Não devemos ver nenhum governante como “pai” ou “mãe”. Eles não são a base de nossa sustentação, mas são apenas servidores públicos a quem devemos cobrar eficiência e competência.

Reflita sobre isso. A minha oração é que o Brasil encontre o caminho da paz, da prosperidade e do desenvolvimento sustentado. Acima de tudo a nossa confiança e esperança está no Senhor e não nas urnas e campanhas políticas. A política é importante, mas o sentimento de esperança reservamos para algo mais sublime.

domingo, 28 de setembro de 2014

Conferência Graphe 2014

Caros amigos de Belém (PA) e região.

A Conferência Graphe 2014 está próxima. É agora entre os dias 16 a 18 de outubro. Eu, Gutierres Fernandes Siqueira, darei duas palestras. A primeira será sobre "Donald Gee e o equilíbrio bíblico" e a segunda "Liturgia Pentecostal- A pregação e os dons de um culto pentecostal".


Endereço: Rua Antônio Barreto n° 1016, entre as ruas Alcindo Cacela e 14 de Março. Bairro Reduto, Belém (PA). É na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, congregação Antônio Barreto II.


A organização do evento é feita por uma equipe de jovens em Belém, entre eles o nosso colunista Victor Leonardo. É uma ótima iniciativa para promover um pentecostalismo sadio.


Participe. E que Deus seja glorificado!


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domingo, 21 de setembro de 2014

Por que historicamente a Assembleia de Deus abraçou o legalismo?

AD em Recife. Ainda um pedaço de resistência legalista.
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Graças a Deus, hoje a Igreja Evangélica Assembleia de Deus não é mais um exemplo negativo de legalismo nos usos e costumes. Especialmente na última década houve mudanças significativas nos costumes assembleianos. É verdade que ainda há alguns bolsões, especialmente em cidades pequenas, onde o “pecado” é identificado com o “grave erro” de tomar banho na praia (!) ou assistir o Jornal Nacional. Todavia, hoje de maneira geral o assembleiano não teme o teatro e o cinema, a maquiagem e o jeans, o rock e o jazz, a teologia e a filosofia etc.

Mas, então, como nasceu essa maldição legalista no seio assembleiano? A explicação é dupla: o pietismo e a pobreza.

O pietismo. Os missionários fundadores das Assembleias de Deus, assim como outros nomes que reforçaram o evangelismo e ensino nessa denominação, tinham formação batista pietista.  Historicamente,  o pietismo foi importante para reagir ao exagerado escolasticismo luterano ainda no final do século XVII. O escolasticismo pecava pelo cunho excessivamente racionalista e pouco preocupado com a espiritualidade. Porém, o antídoto pietista logo abraçou o seu próprio exagero espiritualista. O pietismo é uma visão de mundo, aliás, uma visão sem mundo, pois o mundanismo é confundido com o próprio mundo. Entenderam? Bom, no fundo o pietismo é acético, antipolítico e algumas vezes um tanto gnóstico, pois o mistério assume um papel tão revelante quando a verdade revelada. Além, é claro, do forte legalismo.

A pobreza. A pobreza favorece o legalismo. Ora, é fácil condenar os costumes e os valores da classe média quando você não faz parte dela. Isso não vem de hoje. Na obra monumental de Edward Gibbon A História do Declínio e Queda do Império Romano, o historiador britânico comenta que no início do cristianismo a censura do luxo era uma constante entre os Pais da Igreja, mas esse discurso foi sendo esvaziado a medida que a classe rica romana aderiu ao cristianismo nascente. Gibbson comenta[1]:

Em suas censuras ao luxo, os pais da Igreja eram extremamente minuciosos e circunstanciais; entre os diversos artigos que lhes excitavam a piedosa indignação podemos enumerar as perucas, os trajes de outra cor que não a branca, os instrumentos de música, os vasos de ouro ou prata, as almofadas macias (visto que Jacó pousava a cabeça numa pedra), o pão branco, os vinhos estrangeiros, os cumprimentos públicos, o uso de banhos quentes e o hábito de barbear-se, o qual, segundo a expressão de Tertuliano, é uma mentira contra nossos próprios rostos e uma tentativa ímpia de melhorar a obra do Criador. Quando o cristianismo se introduziu entre os ricos e os elegantes, a observância desses singulares preceitos foi deixada, como o seria hoje, aos poucos que aspirassem à superior santidade. Mas é sempre fácil, tanto quanto agradável, para as classes inferiores da humanidade, alegar como mérito o desprezo daquela pompa e daqueles prazeres que a fortuna lhes pôs fora do alcance. A virtude dos cristãos primitivos, tal como a dos primeiros romanos, tinha a guardá-la, com muita frequência, a pobreza e a ignorância.

Veja como o discurso é um tanto parecido com décadas anteriores das Assembleias de Deus. Hoje, porém, muitos assembleianos são de classe média e suas derivações. A classe média sempre frequentou cinemas, teatros, estádios e shows. Além disso, o final de semana na praia ou em algum clube esportivo também é parte dessa paisagem. A classe média é, também, ávida por produtos de beleza. Portanto, a forte pobreza extrema do norte e nordeste do país favoreceu a condenação “do mundo” pelas três primeiras gerações de assembleianos no Brasil. Veja que nos Estados Unidos, por exemplo, o problema do legalismo nunca foi central, logo porque os pentecostais assembleianos de lá já nasceram na classe média.

É uma boa notícia saber que o legalismo hoje é um problema menor, mas é igualmente preocupante saber que essa melhoria no conceito dos costumes não veio acompanhada do esforço no ensinamento bíblico, mas apenas por questões sociais e históricas.

Referência Bibliográfica:

[1] GIBBSON, Edward. Os cristãos e a queda de Roma. 1 ed. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2012. pos 535.

domingo, 14 de setembro de 2014

O dom de línguas é uma manifestação de êxtase?


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Para responder a essa pergunta é necessário definir o que vem a ser êxtase na atualidade. Quase todas as palavras sofrem no decorrer do tempo alguma alteração referente ao sentido original. Este é mais um exemplo. O conceito contemporâneo de êxtase pode ser expresso como o "estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente etc.”, como definido pelo Dicionário Houaiss. Embora, especialmente no grego bíblico, êxtase seja sinônimo de uma visão espiritual, mas sem a privação da racionalidade (At 10.10; 11.5; 22.17; Ap 1.10).

Em nenhum texto bíblico os dons espirituais são associados a ficar “fora de si”. Não há suspensão das faculdades mentais. Os dons, incluindo o falar em línguas, sempre é manifestado com plena consciência dos atos. Ficamos cheios do Espírito, mas não embriagados (Ef 5.18). A plenitude do Espírito não é a opressão da mente. “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14.32) não é um texto solto, mas um princípio básico: nenhuma manifestação espiritual é feita à revelia da liberdade humana.