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domingo, 29 de março de 2015

Repensando o louvor evangélico

Por André Gomes Quirino

Caminha já para se tornar novamente senso comum, por graça divina, que os cânticos litúrgicos, para fazerem jus ao título, devem constituir louvores a Deus, e não mensagens motivacionais. Ponto absolutamente essencial. Entretanto, isso não é tudo. A verticalidade do louvor cristão não é arbitrária, meramente convencional ou fruto da observação legalista dum código de etiqueta espiritual. A comunidade cristã reunida louva a Deus porque não consegue se imaginar fazendo outra coisa, porque não concebe outro merecedor de atenção que não Deus e porque não sabe – nem poderia saber – como se dirigir a Deus senão louvando-O. Tendo esse fundamento em mente, poderemos repensar algumas formas contemporâneas de louvor que, ainda que verticais e bem intencionadas, não refletem até o fim o espírito do louvor cristão.

O fato é que a prática do louvor – mais ainda, do louvor comunitário – tornou-se escandalosa para o mundo moderno. Toca as raias da blasfêmia, desde um ponto de vista secular, despender atenção, pronunciar elogios, elevar ofertas que não nos tenham, em última ou primeira instância, como objeto ou parte dele. As histórias românticas, forma literária moderna por excelência, dão prova desse dogmatismo. Nelas, o amor e o ódio são sempre puros, emanados direta e completamente do sujeito, que tem o poder mágico de gerá-los (“poder mágico”: às vezes, o sentimento é gerado da flecha atirada por um cupido, sim; mas, de um lado, é preciso apelar a um ser extramundano, caricatural, irreal, que no fundo é um alter ego hiperbólico do próprio sujeito, para preservar a espontaneidade do desejo, e, de outro lado, mesmo o cupido está fadado a respeitar a autonomia do sujeito, submetendo-se ao trabalho meticuloso de mirar o seu coração); uma obra de arte é tanto mais bela quanto mais “inspirado” estava seu autor ao criá-la; o amor é tanto mais legítimo quanto mais rapidamente se manifesta, sendo o “amor à primeira vista” a expressão máxima desse sentimento.[1]

Ora, não portarão resquícios desse egocentrismo aquelas canções evangélicas que, conquanto dirijam-se a Deus, o fazem partindo dos próprios sentimentos? Versos que narram o que se passa “no meu coração” quando penso em Deus e as minhas reações ao concentrar-me nEle, que descrevem – ou fingem descrever – o meu estado de espírito no momento do louvor, não serão maneiras de louvar a Deus sem deixar de louvar lateralmente também a mim mesmo, sem deixar de levar em conta o meu pretenso mérito em me dispor a adorá-Lo? Não serão maneiras de afirmar a crença em Deus sem renunciar à crença na minha autonomia, no meu poder mágico de gerar sentimentos, na minha virtude de desejar a Deus? Parece que sim, e ocorre que estas são crenças pagãs, pré-cristãs, de quem ainda não passou pela conversão epistemológica primordial, que é o entendimento epifânico de que não sabemos do que precisamos, de que não somos capazes de cumprir a finalidade de nossa existência e que até para adorar a Deus dependemos dEle.


Num primeiro momento, nossa postura diante de Deus, seres caídos que somos, não é de amor, mas de medo, vergonha e, portanto, aversão. Nós só podemos e só queremos amá-Lo porque Ele nos amou primeiro. Não há nada semelhante a uma inspiração interior que nos leve a adorá-Lo. Nosso único talento natural é para o pecado. Esse é o desencantamento primeiro, cuja negação coincide com o misticismo, e cujo reconhecimento fará com que o nosso louvor afaste-se inteiramente de nós mesmos e dirija-se a Deus como o Criador.

Mas há um segundo desvio importuno em que mesmo louvores verticais e bem-intencionados podem incidir. Ele talvez constitua um último e moribundo suspiro do egocentrismo, da tentação de se fazer sorrateiramente objeto do louvor. Ao passo que o primeiro desvio consiste em utilizar o louvor para descrever o que ocorre dentro de si – e assim, em última análise, louvar também a si mesmo –, o segundo consiste em fazer do louvor uma pretensiosa descrição sistemática da natureza e da operação divinas, transformando-o num manifesto teológico – que, assim, enaltece o próprio conhecimento portado pelo indivíduo.

Mesmo aquele que passou pela conversão primeira, que se deu conta da própria contingência e reconheceu em Deus a origem de tudo, pode carecer ainda de empreender o passo último da conversão, a saber, reconhecer em Deus o fim de tudo. Canções que se comprometem com posições teológicas secundárias e por demais controversas, que condicionam o louvor a Deus à veracidade da experiência particular do batismo no Espírito Santo (como é comum entre pentecostais), à veracidade da eleição incondicional (como é comum entre calvinistas) ou à veracidade do criacionismo de terra jovem (como é comum entre fundamentalistas), são certamente dispensáveis. Mencionar tais crenças por meio de canções, em contextos restritos, é certamente legítimo, mas, no culto público, transformar os objetos dessas crenças em objetos do louvor, louvar a Deus porque Ele proporciona a experiência particular do batismo no Espírito Santo (assim se crê), porque Ele elegeu incondicionalmente aqueles que haveriam de ser salvos (assim se crê) ou porque há seis mil anos Ele criou a Terra e o que nela existe, tais como os conhecemos hoje, em seis dias (assim se crê) é, no fundo, louvar o próprio conhecimento, louvar o privilégio de conhecer esses mistérios. Certamente não é esse o louvor de que “tudo o que tem fôlego” é capaz e a que “todos os povos e línguas” são impelidos.

Não é a nossa confissão de fé, o nosso corpus doutrinário, que deve ser louvado, muito menos o fato de podemos assimilá-los. A revelação de Deus como o fim de tudo é levada a cabo em Jesus Cristo. Ele, portanto, deve ser, direta ou indiretamente (mas, de preferência, diretamente), o único objeto de adoração. Cristo é fonte inesgotável de enaltecimento. Se a contemplação de Deus como o Criador confere ao louvor certo distanciamento, certo temor – que extirpa o autoelogio –, é a contemplação de Deus como o Redentor[2] – e não a afirmação arrogante do conhecimento teológico – que nos permitirá a entrega, o desarme, o derramamento.

A contemplação de Deus como o Criador leva a um louvor primordialmente instrumental. A contemplação de Deus em Cristo como o Redentor é que nos permite um louvor com cânticos, um louvor interativo – é no ato sacrificial de Cristo que o véu do Templo se rasga. A adoração cristã genuína será uma síntese dessas duas atitudes: contemplando a Deus como o Criador inescrutável ao mesmo tempo em que tocando-O como o Redentor encarnado. Mais do que rechaçar as canções que só falam de bênçãos e vitórias, é preciso atentar para esse duplo fundamento da adoração. Como em todos os aspectos da vida cristã, é o cristocentrismo mais radical que poderá resolver a prática comunitária do louvor.




[1] Ver GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. São Paulo: É Realizações Editora, 2009.
[2] Ver RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Edições Loyola, 2013

quinta-feira, 26 de março de 2015

ONGs evangélicas “progressistas” usam o nome do Senhor em vão!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

(Texto publicado originalmente no site Gospel Prime.)

O debate sobre a redução da maioridade penal está no ar. A discussão voltou para a Câmara dos Deputadores e hoje, felizmente, são grandes as chances de finalmente o parlamento aprovar o aumento de pena para menores assassinos, estupradores e até psicopatas. Segundo pesquisa CNT/MDA, 90% dos brasileiros são a favor da redução da maioridade penal, porém esses outros 10% fazem barulho e possuem um lobby poderoso que tem atrasado em anos e anos a alteração da lei.

Algumas ONGs evangélicas, especialmente ligadas aos chamados “protestantes progressistas”, estão enchendo as redes sociais com mensagens contra a redução da maioridade penal. Bom, isso seria normal, já que vivemos numa sociedade democrática, e todos tem o direito de concordar ou não com a alteração da lei.

Todavia, eis o espanto com um fato: essas ONGs insinuam que quem é a favor da redução da maioridade penal está contra os valores de Jesus Cristo. Parece brincadeira, mas não é. O pastor Ariovaldo Ramos, por exemplo, defendeu a manutenção da lei como está e escreveu no Facebook que “essa luta é de Cristo”. Entenda bem: se você é a favor da redução como 90% da população, logo está contra o próprio Cristo. Ora, ora, essas ONGs e seus ogueiros parecem aqueles fundamentalistas teonomistas-reconstrucionistas, ou seja, que confundem sua ideologia política com a causa do Reino de Deus.  É um absurdo usar o nome do Senhor em vão para defender a manutenção de uma lei que é claramente injusta. Por que eles não usem logo que a causa é de Jean-Jacques Rousseau e não de Cristo?

Eu, por exemplo, defendo a redução da maioridade penal não porque vejo nessa medida um meio de combate à violência. A redução vem com um melhor policiamento, rapidez e eficiência jurídica e uma alta taxa de investigações concluídas. A redução visa outra coisa: a correção justa. Ora, será normal um adolescente de 17 anos estuprar, torturar e matar outra adolescente e pegar no máximo 30 meses de reclusão num “centro educativo”? Você realmente acredita que o Estado tem o poder para recuperar um psicopata? Você também acredita em Papai Noel? Como disso o filósofo Thomas Hobbes: o "homem é o lobo do homem”.


Eu sou evangélico e a favor da redução da maioridade penal. Essa causa é minha e não coloco Jesus no meio para justificá-la.

terça-feira, 24 de março de 2015

As campanhas de boicote revelam uma igreja evangélica infantil

Por Gutierres Fernandes Siqueira

(Este texto foi publicado originalmente no site Gospel Prime)

Li hoje que o pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) propõe um boicote à Natura, empresa de cosméticos, e, como vocês sabem, isso se deve ao patrocínio da empresa ao folhetim “Babilônia”.  Essa ação visa, mais uma vez, protestar contra a promoção da homossexualidade na novela global. Essa ação é temerária. Vejamos os motivos:

Os crentes andam tão noveleiros que as igrejas precisam aderir aos boicotes? Ora, um crente realmente saudável precisa ser alertado para as porcarias das novelas brasileiras? Diferente de muitos filmes e séries que retratam o pior do ser humano para alimentar um roteiro rico, as novelas nacionais visam certa militância. A militância nunca funciona como boa arte, pois é apenas uma espécie de proselitismo secularista. Todavia repito: numa igreja saudável e madura não haveria a necessidade dessas campanhas de boicote. Ora, se existe boicote isso só mostra uma igreja evangélica infantil, incapaz de discernir entre a mão direita e a mão esquerda e, também, onde os crentes precisam ser conduzidos como crianças.

Marco Feliciano e outros deputados não deveriam promover boicotes. Os parlamentares são figuras públicas eleitas para o bem comum da sociedade. Ao promover essas campanhas os deputados alimentam o medo de alguns na sociedade sobre a mistura no papel de líderes religiosos e políticos eleitos para crentes e não-crentes. Os parlamentares evangélicos não foram eleitos como a polícia moral da sociedade. Se essas campanhas nas igrejas já transparecem a falência do consumo evangélico de arte, agora imagine o que isso não representa dos próprios parlamentares. Ou daqui a pouco esses vão promover algum tipo de “regulação da mídia”? Ora, esse seria o pior dos mundos, muito pior do que um beijo lésbico. A nossa melhor maneira de evitar aquilo que não gostamos na TV não é mandando na programação pela força coercitiva do Estado, mas apenas usando um instrumento simples: o controle remoto.

Combate-se cultura ruim com boa cultura. E não com censura, campanhas e outros tipos de histerias coletivistas. Por que não estamos envolvidos na produção de boa arte? Arte capaz de ser simplesmente arte e, assim, indiretamente influenciar positivamente a sociedade? Hoje um dos maiores cineastas do cinema independente é o norte-americano Terrence Frederick Malick. Ele é cristão, escreve roteiros segundo uma ótica cristã, mas a sua arte é bem feita e não transparece proselitismo. Ainda que a mensagem seja sutil, porém é clara e igualmente bela. Ora, precisamos de mais Malicks, ou seja, pessoas capazes de produzir arte sem militância, mas ao mesmo tempo representando uma boa cosmovisão cristã.


E para encerrar sempre precisamos recordar as palavras de Jesus: “sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas”. [Mateus 10.16].

segunda-feira, 23 de março de 2015

Pequenas notas sobre assuntos recentes

Por Gutierres Fernandes Siqueira


MAIORIDADE PENAL. Algumas páginas evangélicas no Facebook estão compartilhando uma mensagem contra a redução da maioridade penal- uma demanda recorrente da sociedade brasileira e ignorada pela classe política. Na minha opinião isso é influência apenas de uma cosmovisão ideologizada e não do Evangelho. Uma das doutrinas centrais da fé cristã é o pecado original, ou seja, a ideia que a culpa do erro é individual e não, necessariamente, fruto de um meio. Por isso, é estranho alguém não ser punido a partir do momento que tem consciência dos seus atos. Eu sou evangélico e A FAVOR DA REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL. Essa não é uma medida que visa diminuir a criminalidade - isso não é a questão principal. Uma mudança na lei visa a correção adequada do criminoso. Não é possível que em nosso país um adolescente de 17 anos estupre, mate e permaneça apenas 36 meses na cadeia. Se você é também a favor da redução da maioridade penal compartilhe essa imagem nas redes sociais.

Salve no seu computador e compartilhe nas redes sociais
Para ler mais sobre esse assunto (especialmente argumentos técnicos) recomendo alguns artigos do psiquiatra ítalo-brasileiro Contardo Calligaris. Você pode ler aqui, aqui e aqui.


FALTA DO QUE FAZER. A bancada evangélica da Câmara lançou uma campanha contra determinada novela cujo o nome remete a um antigo império e uma vereadora evangélica de uma cidade em Minas Gerais criou um projeto de lei para instituir o "dia da esposa do pastor". É muita falta do que fazer. O parlamentar evangélico deveria trabalhar na sua função: que é o desenvolvimento do país.

A CRISE MAQUIADA. Eu participei do podcast GraçaCast que é produzido pelo pessoal do site evangélico Achando Graça. O assunto é a atual crise político-econômica que o nosso país atravessa. Ouça neste link.

terça-feira, 17 de março de 2015

Erudição e piedade: uma entrevista com o pastor Antonio Gilberto

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O Blog Teologia Pentecostal teve o privilégio de entrevistar o pastor e teólogo Antonio Gilberto da Silva. É consensual entre os assembleianos que o pastor Gilberto é a maior referência teológica da denominação. Neste ano Antonio Gilberto completa 86 anos. Ele é mestre em teologia, bacharel em psicologia, pedagogia e letras. É também mestre em educação pela Biola University, nos Estados Unidos. É membro da diretoria da Global University (GU), um complexo universitário das Assembleias de Deus norte-americana (AG). É também consultor doutrinário e teológico da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) desde 1997. Ainda atua como membro da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Foi membro do Conselho Mundial de Evangelismo do Congresso Mundial de Lausanne (Suíça). Ele também trabalhou na edição da Bíblia de Estudo Pentecostal (BEP), que foi publicada em dezenas de idiomas e está publicada em inglês como The Full Life Study Bible pela editora Zondervan. É autor de diversos livros como: Manual da Escola Dominical (também publicado em espanhol), Crescimento em Cristo, A Prática do Evangelismo Pessoal, A Bíblia Através dos Séculos, O Fruto do Espírito (derivado de um trabalho maior em inglês), Verdades Pentecostais e editou a Teologia Sistemática Pentecostal. Todas as obras foram publicadas pela CPAD. É autor de diversas Lições Bíblicas e é também membro da Academia Evangélica de Letras (AEL). Formou o CAPED, um curso de aperfeiçoamento de professor de Escola Dominical e atuou como professor de escolas teológicas das Assembleias de Deus no Brasil, Estados Unidos e Europa.

Apesar do vasto currículo acadêmico o que mais chama atenção no pastor Gilberto é a forma simples e piedosa de falar. Um exemplo para a atual geração. Vejamos essa entrevista agora.

01) Vários professores de teologia, especialmente conservadores, manifestam preocupação com o avanço do liberalismo teológico na sua versão pós-moderna entre os pentecostais. Há, inclusive, pentecostais levantando bandeiras da Teologia da Liberação, uma teologia que parecia até morta na década de 1990. O senhor enxerga tal fenômeno como relevante, ou seja, como motivo real de preocupação? Se sim, quais são as causas desse crescimento e como podemos responder ao fenômeno?

Sim, há um crescimento. E uma das causa é: a multiplicação do conhecimento secular. Eu não estou criticando, mas vemos apenas uma multiplicação do conhecimento secular sem o conhecimento divino, espiritual. Ficam acadêmicos maravilhosos- e eu não estou criticando, pois seria um absurdo criticar a academia-, porém o conhecimento secular sem conhecimento espiritual é uma falta. O conhecimento bíblico (ou espiritual) vem através do Espírito Santo.

E hoje não existe sabedoria secular. E ainda há sabedoria bíblica pelo Espírito Santo. O conhecimento bíblico sem sabedoria bíblica gera fanatismos e exageros. E sabedoria espiritual sem conhecimento bíblico gera estagnação, pois a matéria prima da sabedoria é o conhecimento. É só pegar Romanos 11 e 1 Coríntios 12 e veremos a diferença e a complementaridade entre conhecimento e sabedoria.

Então, a razão dessa distorção na teologia contemporânea é a multiplicação do conhecimento sem sabedoria. Como ilustração vamos lembrar Daniel 12.4 onde está escrito: “e a ciência se multiplicará”. E aí Daniel para. Ele não diz: “e a sabedoria se multiplicará”. E é isso que está acontecendo, pois há um avanço do conhecimento sem o avanço da sabedoria. Eu não estou criticando, volto a dizer. E nesse texto, cabe explicar, a palavra ciência pode ser traduzida em português como “conhecimento”. O sentido aqui não é avanço tecnológico, mas conhecimento como teoria.

Hoje vivemos um tempo onde nem mesmo o Batismo no Espírito Santo está sendo cultivando. Deus quer nos encher da plenitude do Espírito, mas Ele não viola nossa liberdade. Portanto, cabe a nos voltarmos a buscar essa sabedoria do alto a fim de não causarmos distorções advindas do conhecimento isolado.

E falando sobre Teologia da Libertação deixe-me recordar uma história, uma experiência pessoal. Fui professor do Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) por 22 anos. E naquele período eu ministrava aulas de heresiologia. Na ocasião eu escrevi um texto criticando o marxismo-leninismo. Isso ainda era a década de 1960. Anos depois, no final da década de 1980, fui convidado por uma universidade europeia a escrever o material didático daquela escola. E numa das semanas eu estava de folga e aproveitei para passear. Na ocasião eu estava em Bruxelas (Bélgica) e vi uma agência de viagens da União Soviética (URSS). Eu ali entrei e disse: “Boa tarde. Sou brasileiro e quero fazer uma pergunta: como faço para ir a Moscou e quanto tempo é de viagem?”. O funcionário solicitou minha identidade e pediu para eu aguardar um tempo. Na volta o rapaz, que era muito educado, me disse: “sua entrada em Moscou está proibida”. E eu perguntei o motivo, até um tanto surpreso e espantado. E ele me disse: no ano X o senhor escreveu um artigo contra o marxismo-leninismo. E eu perguntei: “e se eu fosse mesmo assim”. E ele me respondeu: “o senhor iria preso”. E eu novamente perguntei: “e iria ser mandado para embaixada do Brasil?”. E ele: “Não, o senhor seria mandado para a Sibéria”. Como é que um artigo meu era conhecido por uma agência da União Soviética na Bélgica? E olha, nem existia a internet naquela época como conhecemos hoje. Eu nunca me esqueci dessa experiência com o estado policial.

02) A igreja Assembleia de Deus norte-americana (AG) tem produzido acadêmicos que influenciaram e, ainda, influenciam o evangelicalismo como um todo. Ou seja, são teólogos que não falam apenas para pentecostais. Nomes como Gordon D. Fee e Craig S. Keener são tidos como exegetas de referência mesmo para aqueles que nunca pisaram numa igreja pentecostal. O senhor é também um nome muito respeitado no Brasil como teólogo profissional, mas comparado com o tamanho da Assembleia de Deus brasileira, ainda são poucos os nomes pentecostais de influência nos demais círculos protestantes. Qual o motivo? Falta apoio da própria denominação? Ou será uma visão mais preconceituosa dos evangélicos tradicionais para com os acadêmicos pentecostais no Brasil?

Eu conheço o Dr. Gordon Fee pessoalmente e isso que você fala é uma verdade. Agora, eu diria que o nosso problema no Brasil é falta de patrocínio. Eu viajo bastante e vejo isso em toda parte: a falta da disposição em apoiar os ensinadores. As igrejas não apoiam, as convenções não apoiam, os empresários cristãos não patrocinam. E quem vai pagar a conta? Estudar custa caro, muito caro. Resultado disso: temos talentos maravilhosos por aí que são desperdiçados. Eu mesmo recebo um volume enorme de escritos, pela misericórdia de Deus, na Casa Publicadora onde atuo como consultor doutrinário e teológico, e até do exterior, mas não há patrocínio da igreja pentecostal no Brasil a esses talentos.

E outra causa: o desestímulo. Muitos jovens e até velhos recebem o chamado divino para o ensino e a gente nota a falta de estímulo. Muitos nas igrejas dizem aos ensinadores que larguem tal tarefa. E dizem: - vamos buscar a Deus e deixemos isso pra lá, etc. Eu já vi casos até de pessoas chamadas ao ensino totalmente reclusas em suas igrejas. E aí vemos como a nossa igreja sofre nessa área.

03) Nos últimos meses cresceu entre os assembleianos a velha (e boa) disputa soteriológica do protestantismo. De um lado, um grupo defende o revigoramento do arminianismo. Do outro lado, um grupo menor, mas não menos relevante, tem defendido o calvinismo. Ambos, e com muita razão, têm combatido o semipelagianismo que contamina muitos dos nossos púlpitos nas Assembleias de Deus. Como o senhor se posiciona nessa polêmica?

Ótima pergunta. Essa questão é problema de equilíbrio. Sabemos que a Bíblia do princípio ao fim diz: “não vos desvieis, nem para a direita, nem para a esquerda”. A Bíblia nunca diz o contrário: “não vos desvieis, nem para a esquerda, nem para a direita”. E essa ordem não é por acaso. Por que digo isso? Eu já estudei na Europa e pesquisei bastante na Inglaterra, Escandinávia e na Alemanha e vi de perto a influência do calvinismo e, na minha visão, Calvino exagerou.  Coitado, ele não está aqui para se defender, mas Calvino exagerou, especialmente na questão da predestinação. E irmão Gilberto, a predestinação não está na Bíblia? Claro que está. Eu mesmo já escrevi um trabalho (paper) da predestinação à luz da Bíblia. A predestinação do calvinismo é um erro de interpretação, pois a predestinação bíblica é para quem já é salvo e eleição bíblica está em Cristo. Ora, o ensinamento de que uma “vez salvo para sempre” é antibíblico. A Bíblia trabalha com a ideia de apostasia. Mas, é claro, eles trabalham com tantos argumentos que nos cativa. Eu convivo muito bem com os irmãos presbiterianos, mas não posso concordar com esse desvio do equilíbrio bíblico.

O arminianismo está na Bíblia. Mas há também um desequilíbrio à direita, ou seja, um desequilíbrio para o lado certo. Há muitas coisas boas, mas existe também uma tendência ao exagero. Irmão Gilberto, qual é o exagero? Ora, o excesso de autonomia do indivíduo. E o neopentecostalismo nasce nesse contexto. O humano é tão autônomo que dá até ordens em Deus. Onde está na Bíblia essa ideia de “nova unção”, “movimento da fé”, “bênção de Toronto” etc.? Ou seja, são seres excessivamente livres ao ponto de determinar o modo de operar de Deus.

Eu já ouvi coisas que fiquei até gelado. Certa vez em um evento eu ouvi um pregador de origem pentecostal dizer: “Irmãos, precisamos desenvolver a nossa fé. A fé inata. A fé que temos desde bebês. Ponha a sua fé em ação, pois sua fé é inata. Ordene, pois inclusive você pode dar ordens para Deus. Ordenar a Deus é colocar a fé que está em você para fora”. Ora, isso é um erro grave. Um erro que me deixou gelado. A Bíblia não ensina esse conceito de fé inata. A fé sempre vem de fora, de Deus. A fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10.17) e pelo papel do Espírito Santo que produz fé. Isso é um arminianismo exagerado.

Evitemos os exageros. Fiquemos no centro. E para ilustrar lembro a passagem de Lucas 6. 6-11.  Jesus estava ensinando, e não pregando, e o auditório estava lá preso com as palavras de Cristo. E um homem estava presente com a mão ressequida igual a um palito. E o homem levantou-se após a ordem de Jesus. E Jesus deu uma segunda ordem: “fique em pé”, disse Jesus. Ou seja, uma coisa é se levantar diante do desânimo de viver uma vida sem poder trabalhar, pois na época de Jesus o que mais contava era o trabalho braçal, e outra é continuar em pé, que é justamente o mostrar ânimo e firmeza. E houve uma terceira ordem: para ele ficar no meio. Ora, quem sabe esse homem era um desequilibrado à direita ou à esquerda. Jesus manda o jovem voltar ao meio. E a última ordem foi para ele estender a mão. Essa história como metáfora ilustra a necessidade de ficarmos no centro. Ou seja, desviar à direita é exagerar do lado certo. E desviar à esquerda é o desvio do revoltado. O equilíbrio é o ponto para evitar o erro.

04) Quando se fala de pentecostalismo qual (is) é (são) o (s) livro (s), além da Bíblia, que o senhor considera como essencial para entender esse Movimento? E aí pergunto tanto em língua inglesa como em português.

Eu recomendo os livros do Dr. Stanley M. Horton. Outro livro que recomendo é o “Pastor Pentecostal: Teologia e Práticas Pastorais” (CPAD) editado pelo Rev. Thomas E. Trask. É muito bom.  Eu também sugiro o livro “Verdades Pentecostais” (CPAD), de minha autoria. Eu estou, inclusive, ampliando essa obra. Ela já era um resumo de uma obra maior sobre o assunto e, agora, continuo a ampliar o restante não publicado. E essa obra nasceu até como uma resposta às distorções do Movimento da Fé. E estou com três livros no forno que talvez sejam publicados neste ano. Uma das obras será sobre a família cristã e um outro sobre os paradoxos da Bíblia.

05) O seu livro “O Fruto do Espírito” (CPAD) foi primeiramente publicado em inglês em 1984. O livro até hoje é referência sobre o assunto. Como foi o processo de escrita dessa obra? E por que esse assunto é relevante para o cristão pentecostal?

Na verdade não é a tradução de um livro, mas apenas parte de um trabalho didático de mais de 800 páginas que escrevi para uma universidade assembleiana dos Estados Unidos. O original é um comentário de Gálatas 5.22. O que temos aqui é apenas um resumo, uma parte.

O fruto do Espírito é um assunto essencial para o cristão. Por exemplo, entre os gomos do fruto temos a bondade e a benignidade. E alguém pode perguntar: qual é a diferença? Vamos ao grego. A benignidade no grego é a disposição eterna de fazer o bem. Deus sempre está sempre disposto a fazer o bem e nunca o mal. Assim é o cristão benigno. É um impulso, uma disposição para o bem. Já a bondade é a prática do bem.

06) Como foi trabalhar com Donald Stamps na edição da Bíblia de Estudo Pentecostal (BEP)? E como era sua relação de amizade com Stanley M. Horton que faleceu recentemente?

Na metade da década de 1970 chegou ao Brasil um missionário chamado Donald Stamps. Ele foi morar em Campinas (SP). E na época eu estava morando em Campinas para trabalhar na EETAD (Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus). E ficamos amigos. Eu orientava Stamps no aprendizado do português e, também, o ajudei a conhecer pelo país a liderança pentecostal. Todo missionário, segundo as normas do Concílio norte-americano, precisava tomar essa atitudes. E certa vez, durante essas viagens, o irmão Stamps me falou: “Irmão Gilberto, estou percebendo que no Brasil há uma deficiência da liderança pentecostal com o conhecimento básico das nossas crenças”. E ele me disse que já tinha conseguido patrocínio com os norte-americanos para compor uma Bíblia de Estudo. E ele me pediu ajuda, especialmente com a tradução das notas, mas na ocasião não pude aceitar esse desafio.

Stamps levou a ideia do projeto ao seu chefe no setor de missões da Assembleia de Deus norte-americana. E ele disse: “Stamps, esse projeto não pode ficar restrito ao Brasil”. A ideia do projeto era justamente trabalhar uma Bíblia onde o assunto central era o trabalho do Espírito Santo com notas simples e práticas. E foi uma Bíblia feita com muita preocupação com o original grego e hebraico. Eu falava a Stamps sobre as regras da Sociedade Bíblica para que as notas não soassem infantis ao destoar com os originais. Quem ajudou Stamps com a tradução foi o Rev. Gordon Chown.

Quando Stamps acabou de escrever as notas do Novo Testamento ele começou as notas do Antigo Testamento. O projeto durou anos. No final, após sete dias da última nota escrita para o livro de Malaquias, Stamps morreu vítima de um câncer. Na ocasião eu estava nos Estados Unidos. Tive, após essa perda inestimável, a missão de continuar o projeto da Bíblia de Estudo. Pedi autorização do pastor José Wellington e ele me deu apoio para continuar o projeto. No total, o projeto durou 10 anos. E hoje a BEP está em 28 idiomas e é uma bíblia de estudo mundial que nasceu no Brasil.

O nome “pentecostal” não é por causa da Igreja Assembleia de Deus, mas sim porque o tema das notas gira em torno da pessoa e obra do Espírito Santo. No inglês é full life, mas não ficaria bem em português uma tradução literal para “vida plena”. Foi fruto de muitas horas de estudo e pela visão do irmão Stamps.

E sobre Stanley M. Horton eu felizmente o conhecia bem. Era um irmão querido. Alguns meses antes da morte dele consegui visita-lo em sua casa em Missouri (EUA). A Assembleia de Deus norte-americana mantém uma vila para pastores aposentadores e fui até lá. Ele ficou muito alegre com minha visita.


07) Muitos pentecostais, inclusive pastores, continuam a propagar movimentos estranhos como “unção do riso”, “cair no Espírito”, “nova unção”, “atos proféticos” etc. No sentido de aconselhamento, se o leitor dessa entrevista congrega numa igreja assim qual deve ser a atitude dele?

Em primeiro lugar, eu só aconselharia se eu conhecesse a pessoa ou se eu fosse solicitado a fazê-lo. É necessário cuidado para não ferir sensibilidades. Mas esses movimentos são frutos de falta de erudição e é difícil combatê-los, pois as pessoas acreditam nisso como uma verdade. Ora, “nova unção” não existe na Bíblia, o “cair no espírito” não está na Bíblia. O termo até existe, mas não no sentido de cair em massa no culto. O caminho correto nesses casos é fazer o que Jesus mandou, ou seja, discipular. Mas sabemos que discipular dá trabalho. Uma das maiores dificuldades das Assembleias de Deus no Brasil é o discipulado, mas falo do discipulado bíblico. Muitas vezes as pessoas estão até em salas de discipulado, mas não estão aprendendo a “seguir a Cristo”, ou seja, a serem pessoas que perseveram até o fim. O termo no original é muito forte, pois o verbo “seguir” está como em 1 João 2.6, ou seja, é alguém que anda “também” como Jesus andou. Muitas aulas de discipulado não passam até de entretenimento, música e alguma oração, mas nada de ensinamento. É necessário um despertamento na área de discipulado. Além disso, é preciso passar pelo batismo nas águas conhecendo bem a doutrina do batismo para que esse ato não seja mero mergulho. Outro passo importante no discipulado é buscar a plenitude do Espírito, é buscar sempre o conhecimento das Escrituras e, também, é necessário um apego no congregar. O nosso discipulado precisa urgentemente de despertamento.

08) O senhor foi um dos primeiros pastores assembleianos a ter a coragem de diferenciar “doutrina” de “usos e costumes”. Infelizmente, ainda há igrejas assembleianas que ensinam que determinado costume santifica o crente, como se a santificação fosse um processo de fora para dentro. Com equilíbrio que lhe é característico, como o senhor aconselharia um crente que congrega numa igreja legalista?

Eu tenho uma obra não publicada sobre isso. É uma obra sobre doutrina bíblica e costumes humanos. É necessário voltarmos para Tito 2.10, pois ali vemos bem o termo “doutrina” muito bem definido. Porém, doutrina é teoria. A doutrina precisa transparecer em um bom costume. Todavia, é necessário todo cuidado para não transmitir a ideia que o costume seja salvífico. Costume não salva ninguém. A salvação está em Cristo. O costume deve apenas refletir a boa doutrina.

9) Na sua opinião, qual é o maior desafio do pentecostalismo no século XXI?

O maior desafio é centrar-se na Palavra de Deus sem pender para os extremos da direita ou da esquerda. A esquerda é o lado do erro. A direita o é lado do acerto extremado. Devemos evitar ambos. Em Joel 2.28 está escrito: “Derramarei o meu Espírito”. Aqui o artigo é enfático e diferente de Atos, pois lá está escrito “do meu Espírito” (2.17). E o que isso significa? O artigo enfático no hebraico significa algo permanente, em profusão, e é real. Em Atos o “do” não enfático já denota uma profusão parcial. Portanto, o que temos em Atos é apenas em parte. Entendo nisso que haverá no final dos tempos um grande avivamento complementando a promessa de Deus para o profeta Joel. É um avivamento soberano, não produzido pelos homens, mas onde todos serão tomados por essa maravilha de Deus. Eu sou defensor dessa ideia a partir de uma leitura original.  Um avivamento maior virá e, eu até entendo, que influenciará a Igreja Católica positivamente. Será como um rio que toma tudo e destrói o que está na frente como quem varre com violência, mas no sentido positivo. A minha mensagem é positiva.



sexta-feira, 6 de março de 2015

Teologia da Missão Integral: uma breve entrevista

"La caridad del Samaritano" de José Tapiro y Baro (1836-1913)
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O portal Fast News Gospel mandou algumas perguntas para a mim a fim de compor uma matéria sobre a Teologia de Missão Integral (TMI). Como as matérias costumam aproveitar apenas parte das entrevistas eu aproveito para publicar a íntegra aqui. Segue as perguntas do portal e as minhas respostas.



A TMI (Teologia da Missão Integral) tem crescido muito. A que você acha que se deve esse fato?                                                  
         
A Teologia da Missão Integral (TMI) tem crescido porque na sociedade contemporânea há uma sede pelo conceito de “justiça social”. E isso é uma boa notícia, ainda que tal busca possa ser mal direcionada. Além disso, várias vertentes da teologia têm crescido no Brasil, logo porque o nível teológico deste país ainda é muito baixo.

Por que muitos conectam a TMI com o sistema marxista?

Muitos conectam marxismo com TMI por desconhecimento sobre a própria natureza do marxismo. O marxismo é uma proposta econômica e, em segundo lugar, todavia como eixo essencial, é política. A TMI é uma proposta de teologia que valoriza a política demasiadamente como modo humano de soluções coletivas, mas não é necessariamente marxista. O René Padilha, principal nome da TMI, é depende teórico do marxista Eduardo Galeano (isso está bem claro no livro “Missão Integral”, da Editora Ultimato), mas isso não torna a TMI necessariamente marxista, logo porque Padilha é apenas um dos expoentes.

Qual a grande diferença da TMI para a teologia da libertação? E a semelhança?

A Teologia da Libertação tem como método o marxismo. E a TMI não tem método, ou seja, não trouxe à teologia nenhuma novidade paradigmática. O conceito de “missão integral” é no fundo uma velha proposta da missiologia evangélica. A Teologia da Libertação, também, depende fortemente da Teologia Liberal, porém a TMI tem alguns nomes do conservadorismo evangelical.

 Muito tem se combatido esse pensamento teológico.  Por quê?

Há muitas motivações no combate à TMI. Alguns combatem porque não gostam de “novidades”, outros por desconhecimento e ainda outros porque conhecem e não gostaram do que viram. Eu, particularmente, não gosto como a TMI valoriza excessivamente a política e a coletividade como “meios de solução”. Nem tudo é política e nem tudo pode ser politizado. E aí não entenda política como programa partidário, mas como “administração pública”. Ou seja, nem tudo é coletivo. O indivíduo é a menor minoria que existe e essa não pode ser sufocada por excessos de coletivismo.

Se a mensagem da TMI é a do “Evangelho todo para o homem todo” qual é o grande problema?

O problema na TMI não é a proposta de universalidade e integralidade. Esse é o ponto alto dessa teologia. O problema, em minha opinião, é a dependência de conceitos como “progresso”, “utopia” e a politização do indivíduo pela coletividade. O Evangelho é necessariamente antiutópico. Não há espaço no Evangelho em soluções instantâneas para o mundo e nem de progresso continuado. O Evangelho tem um caráter cético sobre a política, mas não cínico e nem apolítico. 

Em Tiago 2.17 está escrito que a fé sem obras é morta. Não é a mesma mensagem levada pelos pastores adeptos da TMI?

A mensagem de Tiago é a mesma do Evangelho. A salvação é pela fé e as obras são frutos dessa fé. Tal bandeira não é exclusividade da TMI. É a mensagem cristã por excelência.

Um dos grandes nomes da TMI é o pastor Ed René Kivitz.  O que você acha da ligação dele com o universalismo e no que isso pode influenciar a mensagem levada através da TMI?

Sobre o referido pastor eu prefiro não emitir nenhuma opinião. Alguns o tomam como universalista baseados em pregações obscuras. Seria mais fácil analisá-lo baseado em algum texto, artigo acadêmico ou livro, mas até onde eu sei, ele não escreveu nada sobre o assunto.