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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Morre David Miranda. Morrerá a denominação como a conhecemos hoje?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Morreu na noite desse sábado o missionário David Martins Miranda vítima de um infarto aos 78 anos. Miranda fundou em 1962 na cidade de São Paulo (SP) e dirigiu até a presente data a Igreja Pentecostal Deus é Amor (IPDA).  Desejamos que Deus console a família e a membresia dessa igreja que neste momento está enlutada. A morte de alguém sempre deve contar com a nossa postura reverente. 

Mas quem foi David Miranda? A histografia de Miranda é obscura. Não há grandes detalhes sobre a trajetória evangélica dele antes do surgimento dessa denominação. Isso é fruto da falta de historiadores oficiais e, também, pelo pouco interesse da academia com a formação da IPDA. [Há, pelo meu conhecimento, apenas uma dissertação de mestrado que trabalha a IPDA como objeto de estudo.] O que se sabe é pela breve autobiografia de Miranda onde Deus teria revelado o nome “Deus é Amor” como àquela igreja que ele deveria congregar diante do “mundanismo” das demais denominações protestantes.

A IPDA e a história de David Miranda se confundem. É uma denominação personalista. Nessas cinco décadas o nome de Miranda foi onipresente como referência doutrinária e de liderança na IPDA. Miranda era um líder carismático, no sentido sociológico do termo, e ao mesmo tempo sectário. Ele foi um homem do rádio, onde sempre teve considerável audiência, um grande comunicador de massas e pregava sob a proteção de um vidro à prova de balas.  E, como todo sectário, era uma liderança marcada pelo autoritarismo. E a forma como esse autoritarismo estava presente se deu pelo forte legalismo dos usos e costumes. A IPDA nunca contou com conselhos, concílios ou debates sobre suas doutrinas e diretrizes. É a expressão da imagem e semelhança de David Miranda. Não há qualquer sinal de democracia institucional.

O controle da denominação é familiar. E até hoje a única cisão significativa sofrida veio do berço da própria família Miranda através de uma de suas filhas e um ex-genro.  Hoje a própria esposa de Miranda exerce a função pomposa de “conselheira mundial” da IPDA e Débora Miranda exerce a liderança da igreja de maneira não oficial. E, claro, o filho David Miranda Jr. é outra liderança importante. 

Controvérsias. Em 2000, um contador e presbítero da IPDA acusou David Miranda de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Na época ele chegou a ser indiciado pela Polícia Federal de Foz do Iguaçu (PR).  Em 1985, Miranda, sua filha e mulher foram denunciados à justiça de Porto Alegre por curanderismo, estelionato e exploração de credibilidade. E em 1976, também, ele foi indiciado pela morte de 21 pessoas após a queda de uma laje na inauguração de um templo da IPDA em Neves, São Gonçalo (RJ). Na época os jornais indicavam que Miranda fugiu do local no momento da tragédia. De todos os indiciamentos ele acabou absolvido. 

David Miranda ficou conhecido pelo ministério de cura. É famosa a foto onde ele fazia propaganda de várias muletas e cadeiras de rodas de pessoas supostamente curadas nas reuniões da igreja. Muitas doenças que eram testemunhadas como curadas nos cultos da sede mundial estavam relacionadas aos “pecados do mundanismo”, segundo o David Miranda. Era comum uma pessoa testemunhar que foi curada (ou liberta) porque passou a obedecer o Regulamento Interno e deixou outra denominação “mundana”, especialmente as Assembleias de Deus. Miranda também costumava usar conversas que ele tinha com demônios e até com o próprio diabo para embasar suas proibições e, também, em supostas revelações divinas. Aliás, o artifício do medo era uma constante na sua pregação, pois David Miranda dizia manter revelações constantes do divino e conversas de confronto com o diabo. 

Como será o futuro dessa grande denominação (neo)pentecostal? Como igreja personalista há apenas três caminhos: a decadência, a divisão ou a mudança radical (não importa para qual direção). Tudo indica que não continuará como está no médio e longo prazo. O meu desejo é que a liderança da Igreja Pentecostal Deus é Amor encontre o caminho do Evangelho, deixe para trás o legalismo farisaico, e chegue perto dos conceitos bíblicos a partir de uma leitura atenta das Escrituras. O legalismo, como sempre digo, não é um problema menor ou uma heresia sem importância. Todo legalista nega a cruz de Cristo. Não há pecado mais leviano. Que Deus abençoe a igreja de Deus que está entre a membresia da IPDA.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A propósito de violência e religião: uma aproximação filosófico-teológica ao problema do mal

Por André Gomes Quirino

Basta que eclodam casos sanguinolentos de extremismo religioso para que os cruzadistas antirreligião denunciem o caráter supostamente homicida da fé. Há quem diga que nela está a causa de toda a intolerância que há no mundo. Que as instituições religiosas apontem geralmente para a vocação humana à violência, não se pode negar. A mais antiga delas é o sacrifício, um ato de violência adotado universalmente como meio de se neutralizar a própria violência pulverizada na comunidade. A se desdobrar de instituição tão grave, entranhavelmente implicada das paixões mais instintivas ao ser humano, a religião tem mesmo muito a dizer sobre a violência. Sendo o sacrifício um disfarce para a culpa pessoal, a religião pode, de um lado, engendrar a terceirização da responsabilidade, a caça a inimigos externos que precisem ser exterminados – este é o caso de certa interpretação jihádica do islamismo –, ou, de outro lado, estimular a admissão da culpa, revelar que a violência está em nós – e este é o escândalo característico do cristianismo.

É porque a mensagem cristã traçou o contorno disso a que chamamos civilização ocidental que a nossa sensibilidade não pode admitir algo como uma jihad. Se o que digo é verdadeiro, então os cruzadistas antirreligião erram ao associar inexoravelmente fé e violência. A religião, por sua abrangência, tem obviamente algo a dizer sobre a violência, mas tal mensagem pode ser exatamente a de subordiná-la a um princípio de tolerância – o que foi a cirurgia operada pela pregação cristã (negá-lo não passaria de falsa modéstia) –, e por isso imputar-lhe a culpa pelas tragédias é uma atitude duplamente contraditória: porque se vinga injustificadamente, em nome de um ideal abstrato de tolerância, contra aquilo mesmo que nos permite ser concretamente tolerantes, e porque imita precisamente a atitude da religião que lida mal com a violência, terceirizando a culpa.

Tudo isso está solidamente corroborado pela história. Aqui, para demonstrar a clareza do cristianismo em revelar a vocação humana à violência, quero breve e primeiramente me aproximar do texto bíblico, especialmente de sua porção que norteia também a religião judaica e que funda a antropologia de que partem os primeiros pensadores cristãos – a Bíblia Hebraica –, e em seguida tecer algumas curtas reflexões filosófico-teológicas que possam ilustrar a cosmovisão ancorada por esse texto e a tradição fundada por ele.

O relato de Gênesis expõe sem rodeios: Caim, o primeiro irmão, foi também o primeiro fratricida, assassinando seu irmão Abel. Desde que o pecado entrou na criação, somos em princípio rivais uns dos outros, prontos a eliminar indivíduos que constituam obstáculos à realização de nossos desejos. Nesse sentido, a pergunta feita por Caim a Deus quando questionado sobre o paradeiro de Abel é precisa: “Acaso sou eu guardião de meu irmão?”.

Temos naturalmente a crença firme em que realizar as nossas ambições individuais é a mais urgente das tarefas. Se não pedimos para nascer, tampouco – ou muito menos – pedimos para ter semelhantes, próximos, irmãos. Por acaso tenho alguma responsabilidade sobre meu vizinho? Por acaso devo zelar por uma casualidade, me preocupar com uma contingência?

Se a dúvida de Caim nos alcança, é porque em algum sentido ele venceu. Não é difícil perceber que sentido é esse: Abel não deixou herdeiros; descendemos de Caim, ele é quem tem posteridade. Ainda que reduzíssemos o quadro idealmente até o estágio em que só há um homem, as perspectivas não seriam melhores: havendo apenas Adão, ele peca e seu triunfo é perpetuar o pecado, transmiti-lo à sua prole, que coincide com toda a humanidade. Assim chegamos à doutrina do pecado original por um caminho retroativo.

O pessimismo cínico, à la Brás Cubas, concluiria disso que gerar descendência é contagiar outrem com uma indizível miséria, que, portanto, a existência não faz sentido, viver é uma catástrofe e – à la Camus – o suicídio é o ato humano supremo.

Com efeito, a doutrina do pecado original e o senso de responsabilidade que ela pressupõe implicam não apenas que somos todos pecadores antes mesmo que tenhamos consciência do que é o pecado, mas também que os filhos da prostituição cultual estão equiparados em impureza a quaisquer outros recém-nascidos. Perante tão trágico cenário, a pergunta retórica de Caim se transforma insensivelmente na pergunta retórica dos gnósticos: não será a criação intrinsecamente má, realização de um deus ruim?

O gnosticismo, o caimismo e toda heterodoxia iniciam seu processo de apostasia com uma imprecisão amadora, uma precipitação pueril. A ortodoxia fornece sempre a resposta que, por ser a mais óbvia, é a mais refinada e ultrajante. É um fato cheio de significado que a heresia primeva se defina por um mau juízo da criação, que por sua vez impõe um mau juízo do caráter do Criador. Aquele que concebeu a provavelmente mais profunda e consistente defesa da ortodoxia já escrita, G. K. Chesterton, não poderia deixar de enfrentar essa questão.

Numa passagem (compreensivelmente?) pouco citada de Ortodoxia, o pensador inglês desbrava a questão “obscura e terrível” que “os maiores santos e pensadores com razão recearam abordar”. Referindo-se aos eventos de nascimento e morte de Cristo, ele propõe que, para o cristianismo, surpreendentemente, consta das virtudes do Criador também a coragem, a qual consiste em passar por um ponto de ruptura sem se partir. O ponto crucial da História é aquele do Eli, Eli, lamá sabactâni?, aquele em que “Deus foi abandonado por Deus”.

E agora deixemos que os revolucionários escolham um credo dentre todos os credos e um deus entre todos os deuses do mundo [...]. Eles não encontrarão um outro deus que tenha ele mesmo passado pela revolta. Não (a questão torna-se difícil demais para a fala humana), mas deixemos que os próprios ateus escolham um deus. Eles encontrarão apenas uma divindade que chegou a expressar a desolação deles; apenas uma religião em que Deus por um instante deixou a impressão de ser ateu (Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, pp. 227-8).

Voltemos à criação antes de nos atermos à cristologia chestertoniana. Dum ponto de vista estritamente metafísico, não vejo como se possa declarar a impossibilidade do mal uma vez consumada a criação: se o mundo é contingente, não pode não haver o mal. Aproximando-me da linguagem teológica, mas ainda falando do campo metafísico: ou Deus é tudo o que há, ou há o mal; ou não há nada além de Deus, ou há o mal. Isto é o princípio da criação, numa perspectiva teísta: Deus criar espaço para haver algo que não Ele.

Por isso a criação do mundo por Deus não é como a criação de um prédio por um arquiteto. A criação do mundo vem acompanhada de lágrimas, implica um engajamento pessoal, um envolvimento afetivo, é um ato de doação. Por isso o retrato pintado por Michelangelo da criação de Adão dá já à cena uma áurea melancólica, de um afastamento indesejado que o próprio ato criativo requer. A criação dói.

A Criação de Adão de Michelangelo Buonarotti em 1511

Mas então não será a obra de Deus intrinsecamente má, como reivindicam os gnósticos, não será o ato criativo uma perversidade, como questionou certa vez com muita sinceridade um colega de faculdade, numa dessas conversas sobre metafísica? A pergunta já não é metafísica, mas teológica, e deve ser respondida teologicamente.

Para Paulo, o mundo foi criado para Cristo (Cl 1.16). Vale dizer: o mundo é um presente de Deus-Pai para Deus-Filho. Muito antes que Adão pecasse, a Santíssima Trindade dispusera-se ao sacrifício. O mundo, portanto, manifesta o poder de Deus, que incide até sobre si mesmo: Deus é poderoso até sobre Seu próprio poder – por isso é corajoso, e por isso doa, esvazia-se, encarna-se. A beleza da criação aponta para a beleza da Trindade que a precede, sustenta e supera. O mundo é um palco para a relação profunda, verdadeira e eterna de amor que há na Trindade – e essa relação chega até nós!

Semelhantemente ao Gênesis, a nova criação inaugurada por Cristo, por meio da fé em Seu poder, funda-se em dor e lágrimas. Um dos sinais visíveis, comunitários e recorrentes dessa fé, que a renovam – falo dos sacramentos –, é a Ceia: o partilhar do corpo ferido de Cristo e do cálice de Seu sangue. A Igreja, como Corpo de Cristo, como comunidade das novas criaturas que descendem do segundo Adão, compartilha das lágrimas de Deus, exercita-se em sofrimento. Assim, a resposta ao gnosticismo transforma-se na resposta ao caimismo: sou guardião de meu irmão, responsável por meu vizinho, porque a razão e o modelo da nossa existência não é a pura contingência, mas a Trindade, em que jamais faltará amor e que jamais o negará à Sua criação.

Para retomar o fio que nos trouxe até aqui: nada será mais eficaz para a disseminação da tolerância do que a pregação do Cristo crucificado. E se nós, que nos dignamos chamar cristãos, não o anunciarmos, a mula profetizará, as pedras clamarão: vocês, descendentes de Caim, crucificaram o único Santo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A glossolalia é apenas linguagem humana?


Observações:

  1. Este texto não é uma resposta ao vídeo do programa Dois Dedos de Teologia onde o Yago Martins e o Felipe Cruz defendem que a glossolalia é apenas uma linguagem humana [veja aqui]. Digo isso porque a posição exposta por eles é defendida até por alguns poucos pentecostais. O debate do texto passado já está encerrado. Este texto foi escrito para alguns esclarecimentos.
  2. Este texto também não é uma análise exaustiva das dezenas de textos que falam da glossolalia. É apenas a análise de um versículo (1 Coríntios 13.1), porém esse é um texto importante para o desenvolvimento de uma doutrina sobre a glossolalia.
  3. Uma análise mais ampla de outros versículos ficará para uma próxima oportunidade.
  4. Leia o artigo até o final, por favor, antes de qualquer comentário. Como o texto é longo recomendo a impressão. A versão em PDF pode ser lida neste link.

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos, e não tiver caridade, tenho-me tornado como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. [1 Coríntios 13.1 TB]

A glossolalia bíblica é apenas uma linguagem humana? Exegeticamente essa é uma questão difícil, especialmente diante do texto de 1 Coríntios 13.1 onde Paulo fala de uma  “língua dos anjos”. Ou seja, no fenômeno das línguas haveria algum idioma além do humano? Algum idioma angélico ou celestial? Ao contrário do que muitos pensam não há consenso entre os intérpretes pentecostais sobre esse assunto, embora a tendência da maioria seja aceitar a existência de uma linguagem além da humana no fenômeno da glossolalia. Ou seja, a glossolalia não é apenas xenolalia. Outros, entretanto, interpretam o texto como uma figura de linguagem onde Paulo apenas indicara “a alta consideração dos coríntios para com as línguas” [1]. 

O conceito de “línguas dos anjos” é biblicamente consistente? Por que essa é uma questão complexa? Vejamos alguns motivos: 1) É a uma única referência bíblica direta sobre o assunto. 2) Há diversas referências à “língua dos anjos” na literatura judaica antiga. 3) Entre os judeus daquela época havia um debate sobre qual seria a língua original do céu. Nesse embate um grupo afirmava o hebraico como a língua dos céus enquanto outros rabinos defendiam a ideia de uma “língua indecifrável e inacessível” ao homem.  3) A Igreja coríntia era composta por judeus e gentios. 4) Não é possível saber se a composição gentílica da igreja coríntia tinha acesso a essa tradição. 5) Também não é possível averiguar se a parte judaica da igreja teve acesso a algumas fontes tardias. 6) Gramaticalmente, a frase paulina é uma figura de linguagem chamada hipérbole, não há dúvidas quanto a isso, mas essa hipérbole seria sobre a anggelos glóssa em si, como oposição exagerada ao amor, ou sobre a possibilidade de Paulo em dominar todos os tipos de linguagem- o que também denotaria um exagero? A resposta a essa pergunta muda totalmente o sentido da interpretação.

Objeções gerais 

John MacArthur Jr. é o cessacionista predileto dos pentecostais. Não porque esse pastor batista- reformado-fundamentalista instigue questões complexas aos carismáticos, mas pelo contrário. Sobre essa questão, por exemplo, ele apresenta duas argumentações frágeis. No livro Strange Fire: The Danger of Offending the Holy Spirit with Counterfeit Worship [2], que deriva da conferência Strange Fire (Fogo Estranho), MacArthur indica que o assunto central do capítulo 13 não é o carisma, mas o amor, e por esse motivo a expressão “língua dos anjos” não pode ser tomada como uma prática de Paulo ou daquela igreja. Que argumento (!), hein? É óbvio que o assunto continua a ser sobre os dons espirituais. Paulo está apenas lembrando uma verdade inconveniente aos coríntios: O homem pode exercer os dons de maneira maravilhosa, mas caso não tenha amor isso não vale absolutamente nada. E mesmo que o assunto central não fosse os dons, mas o amor, isso em si não invalidaria a ideia que Paulo ou a igreja coríntia pudesse potencialmente praticar a “língua dos anjos”. 

MacArthur argumenta, também, que uma língua angelical fere o princípio de edificação de outros crentes, pois tornaria o uso do dom egoísta [3]. Com um argumento desses é até possível perguntar se MacArthur leu 1 Coríntios 14 com atenção devida. 1) Em primeiro lugar, a fala angelical, se aceita como literal, seria coparticipante com a xenolalia; e os princípios paulinos para a glossolalia angelical seriam os mesmos da xenolalia. 2) Em segundo lugar, é sempre possível que a língua seja interpretada e a comunidade seja edificada (1 Co 14.12, 13). 3) A língua pode, também, ser uma manifestação espiritual para edificação apenas do indivíduo (1 Co 14.4) e, nesse caso, deve ser usada de maneira moderada, ou seja, sem que a tonalidade da voz atrapalhe a adoração do outro e o culto da comunidade (1 Co 14.28) . E outra: não é porque Paulo combate o mal uso do dom que o dom não exista. Só se combate o mal uso daquilo que pode ser bem usado. 

O melhor argumento de MacArthur é: “Se alguém insiste em considerar literalmente a expressão ‘língua dos anjos’ é útil ter em conta que, cada vez que os anjos falavam na Bíblia, eles usaram a própria língua humana que era compreensível para aqueles que os escutavam” [4]. Essa certamente é uma das melhores objeções, mas tem um problema lógico: os anjos falavam essas línguas porque estavam manifestando relevações ou falavam tais línguas porque essas eram os seus próprios idiomas? Ora, a revelação não é necessariamente a reprodução da comunicação celestial. E outra: se os anjos falam uma linguagem humana então esses só saberiam o hebraico e o aramaico? Entretanto, qualquer que seja a possibilidade aventada implicaria numa alta dose de especulação. Porém, ao diferenciar língua humana de angelical Paulo parece descartar qualquer ideia de que anjos tenham uma língua igual a humana. Ceslas Spicq argumenta que “a construção de 1 Coríntios 13.1 implica numa crença na angeloglosia” [5].

Outra objeção muito usada entre cessacionistas é que a língua cessará (1 Co 13.8) e se essa fosse uma linguagem angelical ou celestial não haveria a indicação de um fim. O teólogo D. A. Carson chama esse argumento de “pedante” [6], e eu concordo com ele, pois o que o apóstolo Paulo indica é o fim do carisma e não da linguagem. Ou por algum motivo o conhecimento pleno não existirá no céu?

A “língua dos anjos” no judaísmo antigo

O conceito de uma língua angelical não é trivial no judaísmo antigo, pelo contrário, está presente em abundância na literatura daquela religião, especialmente em um período próximo à igreja primitiva com a seita judaica de Qumran e em outras literaturas tais como o Testamento de Jó 48-50, o Livro de Enoque Etíope 40, o Apocalipse de Sofonias, a Ascensão de Isaías 7.15-37, o Apocalipse de Abraão, Gênesis Rabbah e do Livro Copta da Ressurreição de Jesus Cristo atribuído a Bartolomeu. O teólogo pentecostal John C. Poirier, especialista em judaísmo, escreveu um livro detalhado apenas sobre essa questão. Na obra The Tongues of Angels: The Concept of Angelic Languages in Classical Jewish [7] ele mostra a abundância do debate entre judeus sobre a linguagem celestial e como esse embate se desenvolveu nos cinco primeiros séculos da Era Cristã. 

A mais significativa dessas referências é certamente o Testamento de Jó onde conta a história que as filhas de Jó falavam idiomas angelicais. A tradição rabínica também menciona o testemunho do rabino Yohanan ben Zakkai , um “homem piedoso que podia compreender a língua dos anjos” [8]. Todavia, a tradição mais abundante sobre essa relação angelical com a liturgia estava no Qumran. Havia naquela comunidade uma verdadeira obsessão pelo assunto. 

Assim, ao que parece, havia na cultura judaica um entendimento sobre línguas celestiais. Por exemplo, o ideal cúltico no Qumran estava numa adoração que contava com a participação celestial na liturgia. “Em um documento do Qumran diferentes anjos aparentemente lideravam a adoração celestial por sábados sucessivos em diferentes idiomas”, como informa Craig Keener [9]. Nos Cânticos do Sacrifício do Sábado “as ‘línguas de conhecimento’ são línguas dos anjos em louvor a Deus que [...] são comparadas com a linguagem humana descrita como ‘nossa língua no pó’”. Se for correto pensar em ‘língua’ aqui como idioma, então teríamos um raro testemunho de glossolalia angelical num texto palestino no primeiro século fora do Novo Testamento” [grifo meu], conforme escreveu  Jonas Machado [10]. 

Craig Kenner, por outro lado, lembra que, excetuando a Qumran, as demais fontes são um tanto tardias para uma influência significativa:

Os exemplos mais claros de falar em línguas angelicais nas fontes judaicas iniciais são Apocalipse de Sofonias e, provavelmente, mais cedo e mais importante no Testemunho de Jó 48-51. [...] Mais problemáticas, em contraste com os textos de Qumran, essas fontes podem ser tardias para uma suficiente influência entre os cristãos. Possivelmente alguns cristãos acreditavam que eles oravam em línguas como expressões angelicais. [11]

E como mostra Gordon D. Fee há evidências na carta indicando que coríntios se consideravam parte de uma espiritualidade angelical mais elevada, causando transtornos e orgulho:

Os coríntios parecem que se consideravam já como os anjos, portanto, verdadeiramente "espirituais", não necessitando de atividade sexual no presente (7. 1-7), nem de um corpo no futuro (15. 1-58). Assim, falando dialetos angelicais pelo Espírito, havia provas suficientes para eles de sua participação na “nova espiritualidade”, por esse motivo, havia um entusiasmo singular por esse dom. [12]

Outro ponto interessante para compreensão dessa linguagem angelical é a passagem de Apocalipse 14. 2,3 onde está escrito: “Ouvi um som do céu como o de muitas águas e de um forte trovão. Era como o de harpistas tocando suas harpas. Eles cantavam um cântico novo diante do trono, dos quatro seres viventes e dos anciãos. Ninguém podia aprender o cântico, a não ser os cento e quarenta e quatro mil que haviam sido comprados da terra” [NVI, grifo meu].  Esse cântico celestial é a expressão da “mais sublime adoração no céu” [13], assim sublinhando ainda mais a ideia de uma comunicação celestial além da humana e incompreensível em um primeiro momento. 

A questão hermenêutica

Qual é a natureza do texto de 1 Coríntios 13? E como isso afeta a interpretação? Como mostra Grant Osborne, esse texto paulino é um exemplo de literatura sapiencial no Novo Testamento [14]. O amor é louvado pelo apóstolo como a sabedoria era louvada em Provérbios. E nesse tipo de abordagem textual é muito comum o uso de figuras de linguagem como a hipérbole. A hipérbole é uma forma de intensificação do discurso que “nos reconduz ao coração da existência” [15], ou seja, o exagero não é para expressar uma irrealidade, mas para chamar a atenção a própria realidade. 

A figura de linguagem é um recurso comparativo. Nesse exemplo, o apóstolo Paulo compara o indivíduo (ele mesmo) que possui a capacidade divina de falar em línguas humanas e angelicais com outro (ele próprio) indivíduo com a capacidade para amar.

1ª Hipótese
2ª Hipótese
O apóstolo como praticante de toda linguagem sobrenatural possível sem o amor.
O apóstolo como praticante do amor, independente do carisma manifestado ou não manifestado.
Indicativo de uma espiritualidade incompleta.
É indicativo de uma verdadeira espiritualidade

Mas qual é o exagero usado como figura de linguagem? Não, não é a língua angelical em si. O exagero é a assertiva de que alguém pode dominar toda a linguagem angelical e humana. Tal glossolalista seria considerado o máximo da espiritualidade entre os coríntios. Paulo, ao usar tal figura, expressa uma verdade central no texto: o homem pode ter a melhor manifestação de eloquência sobrenatural possível, mas se não tiver amor nada é. O apóstolo fala de uma possibilidade não vantajosa, porém possível. E ainda diz mais: o exercício da glossolalia sem o amor é semelhante ao barulho do culto pagão: “uma característica do culto pagão, em especial do culto a Dionísio e Cibele, era o choque e o retinir dos címbalos e o som bronco das trombetas” [16].

É como se eu dissesse a um jovem empregado: “Você pode falar inglês, espanhol e até mandarim, mas sem um bom networking você jamais crescerá nesta empresa”. O recurso do exagero está presente, pois dificilmente o interlocutor daquela conversa domina os três idiomas, mas isso não quer dizer que não exista a possibilidade de dominá-los. É provável que alguém seja agraciado com línguas humanas e angelicais na glossolalia? Não, eis aí o recurso do exagero para exemplicar de maneira chocante, todavia, isso não quer dizer que a potencialidade de falar ambas as línguas inexista. O apóstolo fala por hipótese [17], e a hipótese não é sinônimo de impossibilidade, mas o contrário. Hipótese é possibilidade, chance e opção. 

E o que determina essa interpretação? O contexto. Paulo estava lidando com conceitos equivocados sobre a verdadeira espiritualidade e uma valorização excessiva do dom de línguas. Ora, porque o apóstolo Paulo tomaria de assalto a expressão “língua dos anjos” se essa não fosse considerada pelos primeiros destinatários da carta como uma possibilidade? Ou seja, uma figura de linguagem pode expressar uma ideia proposicional? Ou ainda, uma figura de linguagem pode expressar teologia? Evidente que a resposta é positiva. “O intérprete da Escritura não deve ignorar as figuras de linguagem, supondo que a linguagem figurada, diferentemente da linguagem proposicional, carece de conteúdo teológico”, como escreveram Andreas J. Kösterberger e Richard D. Patterson [18]. E  ainda: é necessário “interpretar literalmente as comparações, a não ser que haja fortes razões para interpretá-las figuradamente” [19]. Ou como escreveu Roy Zuck: “A linguagem figurada não é antítese da interpretação literal; é sua componente” [20]. Então dizer diante desse texto que: “ora, esse versículo é apenas uma figura de linguagem” e, assim, ignorar as implicações do mesmo, é um grande equívoco de interpretação. 

Conclusão

Há inúmeras referências na literatura judaica que atestam uma crença no primeiro século sobre “línguas angelicais”. Portanto, tomando esse contexto histórico não é inconsequente que um pentecostal tome esse texto para defender a ideia de uma glossolalia além da xenolalia. Além disso, a ideia que o texto seja uma hipérbole não justifica que a expressão usada pelo apóstolo Paulo seja mera fantasia retórica. 

Referências Bibliográficas:

[1] HORTON, Stanley M. I e II Coríntios: Os Problemas da Igreja e Suas Soluções. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 124.

[2] MaCARTHUR JR., John. Strange Fire: The Danger of Offending the Holy Spirit with Counterfeit Worship. 1 ed. Nashville: Thomas Nelson, 2013. p 147. 

[3] MaCARTHUR JR., John. Idem.

[4] MaCARTHUR JR., John. Idem. 

[5] SPICQ, Ceslaus. Agape in the New Testament, Vol. 2: Agape in the Epistles of St. Paul, the Acts of the Apostles and the Epistles of St. James, St. Peter, and St. Jude. 1 ed. St. Louis: Herder, 1965. p  135. 

[6] CARSON, Donald A. A Manifestação do Espírito: A contemporaneidade dos dons à luz de 1 Coríntios 12-14. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 60. Esse é um argumento, por exemplo, usado em: BOOR, Werner de. Carta aos Coríntios: Comentário Esperança. 1 ed. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2004. p n/i.

[7] POIRIER, John C. The Tongues of Angels: The Concept of Angelic Languages in Classical Jewish. 1 ed. Tubingen: Mohr Siebeck, 2010. p 47.

[8] PALMA, Anthony D. 1 Coríntios. ARRINGTON, French L. e STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1021. 

[9] KEENER, Craig. Acts: An Exegetical Commentary : Volume 1: Introduction and 1:1-247. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2012. pos. 36884.

[10] MACHADO, Jonas. Paulo, o visionário- Visões e revelações extáticas como paradigmas da religião paulina. Em: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza (org.). Religião de Visionários - Apocalíptica e misticismo no cristianismo primitivo. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p 186, 187. 

[11] KEENER, Craig. Idem.

[12] FEE, Gordon Donald. The First Epistle to the Corinthians. 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 2014. p 690, 691. 

[13] OSBORNE, Grant R. Apocalipse: Comentário Exegético. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 591.

[14] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p324.

[15] RICOEUR, Paul. A Hermenêutica Bíblica. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006. p 197.

[16] BARCLAY, William. Comentário Al Nuevo Testamento: Corintios. 1 ed. Barcelona: Editorial CLIE, 1997. p 147.

[17] MORRIS, Leon. 1 Coríntios: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1981. p 145. Simon Kistemaker reproduz uma paráfrase que indica esse sentido de hipótese: “Suponhamos que eu, como apóstolo do Senhor, tenha o mais alto dom possível de línguas, aquelas que os homens usam, e até mesmo aquelas que os anjos usam. Como vocês, coríntios, me admirariam, até me invejariam e desejariam ter um dom igual” [KISTEMAKER, Simon. 1 Coríntios. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004. p 627]. E a hipótese é confirmada a partir do momento que, como já dito, havia uma cultura judaica que conceituava uma linguagem angelical. 

[18] KÖSTENBERGER, Andreas J. e PATTERSON, Richard. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2015. p 624. 

[19] KÖSTENBERGER, Andreas J. e PATTERSON, Richard. Idem

[20] ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994. p 172.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Erudição e Carisma: uma entrevista com Amos Yong

Amos Yong, teólogo pentecostal
Por Gutierres Fernandes Siqueira


O Blog Teologia Pentecostal entrevista Amos Yong, um dos principais teólogos pentecostais no contexto anglo-saxão. Yong é pastor ordenado pelas Assembleias de Deus norte-americana (AG) e nasceu na Malásia, mas cresceu nos EUA onde segue com uma carreira acadêmica virtuosa. Hoje ele leciona teologia e missiologia no famoso Fuller Theological Seminary. Até o ano passado ocupava a cadeira de J. Rodman Williams como professor de teologia na Regent University. Yong presidiu a Society for Pentecostal Studies (Sociedade de Estudos Pentecostais) entre 2008 e 2009 e editou o jornal Pneuma, o principal periódico acadêmico produzido por pentecostais. É um escritor ativo e entre as principais obras estão: Spirit, Word, Community: Theological Hermeneutics in Trinitarian Perspective (2006), The Bible, Disability, and the Church: A New Vision of the People of God (2011), Pentecostalism and Prosperity: The Socio-Economics of the Global Charismatic Movement (2012) e Science and the Spirit: A Pentecostal Engagement with the Sciences (2010) e muitos outros. Esse último em coautoria com James A. Smith, famoso filósofo de tradição pentecostal. E, também, será a base para a entrevista de hoje.

Infelizmente, Yong é ainda pouco conhecido no Brasil e não possui nenhum livro traduzido em português. Nessa entrevista ele fala sobre a relação da ciência com o pentecostalismo e faz uma defesa enfática da preparação intelectual dos pentecostais. Veja abaixo a entrevista.


Muitos estudos indicam que a glossolalia não é um idioma. Como um pentecostal pode responder a isso com equilíbrio e sem deixar de lado a ciência?

Embora a maior parte das glossolalias não sejam línguas [como indicam os estudos], isso não significa que, pela fé, se possa negar que tal linguagem seja entendida no sentido paulino como “línguas dos anjos” (1 Co 13. 2).


O engajamento dos pentecostais na ciência deve ser motivado para fins apologéticos? Ou isso é um erro?

Certamente que pode haver uma dimensão apologética no compromisso pentecostal com a ciência. Embora a apologética deva ser considerada de maneira generalista, ela não deve necessariamente vir como uma defesa contra qualquer noção científica específica (exemplo: a evolução), mas sim em um pensar (ou dialogar) mais profundo sobre como manter a fé pentecostal, e ao mesmo tempo, levar em conta o avanço da ciência no decorrer da história. Além da apologética, também é importante instar o engajamento com a ciência numa postura de fé- em busca- de entendimento a fim de envolver-se com a realidade contemporânea.

No Brasil ainda há muito anti-intelectualismo entre os pentecostais. Como incentivar a ciência em um ambiente anti-intelectual?


O anti-intelectualismo não é propriedade apenas dos pentecostais; sempre existe aquele pietista cristão para quem o Evangelho é uma questão do coração mais do que da mente. Além disso, os cristãos nas igrejas também fazem parte das classes sociais que, como elas, se desenvolvem ao longo do tempo e nisso buscam mais e mais educação. O pentecostalismo, que começou como um movimento de avivamento vai, a cada nova geração, buscando entender a sua fé, mesmo quando os seus filhos vão buscar o ensino universitário. Os pastores pentecostais, finalmente, precisam ser encorajados a crescer na fé, compreensão e competências; e isso, também, indica a necessidade de mais educação. Os líderes das igrejas pentecostais, portanto, necessitam em trabalhar com outros pastores para oferecer oportunidades educacionais com educadores cheios do Espírito Santo. Assim, também, é necessário emergir aqueles que podem modelar o que isso significa prosseguir com uma vida da mente de uma forma que não negligencie a vida do Espírito.

Como você encara o fato de ser pentecostal e professor de uma grande universidade?

Com naturalidade. Nós veremos mais e mais estudiosos pentecostais como professores em contextos universitários; e eles serão exemplos para as gerações mais jovens sobre como ser pentecostal e acadêmico ao mesmo tempo.


Por que você abraçou a fé pentecostal? O que o atrai no pentecostalismo?

Eu nasci em uma família de pastores das Assembleias de Deus e fui criado na igreja pentecostal. Fui educado em uma escola religiosa carismática e tive professores maravilhosos e exemplares que me ensinaram como é possível a junção do pentecostalismo com a erudição. Continuo pentecostal porque acredito no trabalho contínuo do Espírito Santo no mundo e que esse trabalho precisa e pode ser melhor compreendido e apreciado. E essa é a vocação do professor ou acadêmico pentecostal. Que possamos chegar juntamente com os interlocutores quanto com os críticos de nosso Movimento e das nossas igrejas para que o próximo século do Movimento Pentecostal se desenvolva.