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domingo, 19 de abril de 2015

Por que a qualidade do nosso púlpito só piora?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

É crescente o número de pentecostais em busca de cursos teológicos. Esse fenômeno explodiu especialmente nas duas últimas décadas e, é claro, temos muito que comemorar. Há, no entanto, um déficit entre o número de estudantes de teologia e a qualidade do púlpito. Explico melhor: o número de estudantes de teologia aumentou absurdamente, mas não a qualidade da pregação pentecostal.

O que explica esse paradoxo? Vejamos:

1.    Muitos estão matriculados em cursos teológicos, mas não são estudantes de fato. Ou seja, não há dedicação de muitos aprendizes. Alguns entram em um curso teológico sem nunca ter lido nem mesmo o Novo Testamento. E quando saem dos cursos não mantém uma rotina de leitura e de constante busca de conhecimento técnico. Assim, facilmente se tornam obreiros relaxados e negligentes.
2.   Há muito analfabetismo funcional. O funcional sabe ler e escrever, mas é incapaz de interpretar um texto. E quando escreve não respeita a gramática e, naturalmente, apresenta expressões e ideias confusas. Infelizmente, basta abrir o seu Facebook e verá que a maior parte dos membros dessa rede social é incapaz de escrever pequenas frases sem erros graves de português. Portanto, a qualidade da educação no Brasil, que é em maior parte estatal, prejudica e muito cursos superiores, entre eles a própria teologia acadêmica.
3.   Muitos estudantes buscam apenas um diploma. O diploma é tomado por muitos como mais importante do que o próprio conhecimento. E, tal fato, é uma tragédia entre estudantes de teologia.
4.   A síndrome da fama. O espelho de muitos jovens pregadores são os famosos pastores que atraem multidões com muita heresia e mensagem de autoajuda. E, como buscam proeminência, logo imitam esse tipo de pregador, ou melhor dizendo, esse tipo de falso profeta. Querem, a todo custo, subir nos púlpitos sujos de pecado dos grandes congressos triunfalistas. O modelo de pregador não são nomes cujo ministério era pautado pelo cristocentrismo, mas sim aqueles que ganham fama pelas bobagens que pregam.

É tempo de buscar ao Senhor. Não há como aceitar essa piora do púlpito com estudantes superficiais. Se você estuda a Palavra porque a ama, logo deve protestar junto aos seus pares que “estudam” como motivações erradas. E os pastores, é claro, deveriam vigiar quanto a tal fenômeno. A boa teologia é uma bênção e uma necessidade da Igreja. A teologia superficial é mais destrutiva do que a ausência completa de teologia. É melhor ser um completo ignorante do que um estudante superficial. No entanto, o ideal é um estudante piedoso e dedicado.

domingo, 12 de abril de 2015

Uma breve análise da canção “Nunca Pare de Lutar”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não sei por qual motivo a canção “Nunca Pare de Lutar” está tocando freneticamente nos cultos pentecostais neste ano de 2015. Não sei se esse fenômeno é geral, mas nas igrejas que conheço essa música é tocada quase todo culto dominical. Acho curioso, logo porque a composição foi gravada há dez anos pela cantora e pastora Ludmila Múrias Ferber Lino e, de repente, o sucesso da canção voltou.

Bom, de qualquer forma a letra dela representa o pior da teologia evangélica. Além da óbvia e minguada autoajuda, a composição tem um forte conteúdo doutrinário, mas é a doutrina do Movimento da Fé. Vejamos um trecho:

Em tempos de guerra, nunca pare de lutar
Não baixe a guarda, nunca pare de lutar
Em tempos de guerra, nunca pare de adorar
Libera a Palavra, profetiza sem parar

A última frase parece inocente, mas é o centro nervoso da confissão positiva, uma heresia com forte influência da seita Ciência Cristã.

O Movimento da Fé, também conhecido como Confissão Positiva e Teologia da Prosperidade, ensina que o cristão tem acesso à Palavra de Deus por duas fórmulas: a palavra rhema e a palavra logos. Segundo esse pensamento rhema é uma palavra de autoridade sobre o mal derivada da palavra de Deus escrita, que seria o logos. Assim, ao ler a Bíblia (o logos) o cristão é cheio de fé e libera uma palavra para derrotar qualquer mal, o rhema, seja esse mal uma doença ou desemprego.

Essa exegese do Movimento da Fé é pífia. Todo especialista em grego bíblico coloca os termos como sinônimos. Não há qualquer diferença no significado quando os autores bíblicos usavam alternadamente logos ou rhema. Então, quando Ludmila Feber canta “libera a Palavra” ela está ensinando esse conceito deturpado.
“Profetiza sem parar”

Além disso, nenhum homem tem autoridade de mandar outro profetizar. Essa mania que nasceu em pregações e enche “louvores” é totalmente antibíblica. A profecia é um dom (charisma) do Espírito Santo. Esse dom não é propriedade de alguém para ser usado ao bel-prazer. O texto de Ezequiel 37 é muito usado quando alguém no púlpito manda a congregação profetizar, mas eles não prestam a devida atenção que quem manda o profeta profetizar é o próprio Deus e não outro homem (veja v. 4).

Certamente os fãs da cantora não vão gostar dessa breve análise, mas fato é fato. Fã é apenas a abreviação da palavra fanático e para um fanático não há argumentos bons diante do seu ídolo. E deixo uma dica: por favor, cantem bons hinos, hinos que exaltem Cristo e não a proliferação da própria exaltação do eu.

domingo, 5 de abril de 2015

Qual a diferença entre laicismo e laicidade?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. [Jesus Cristo segundo o Evangelho de Mateus 22.21]


Todos nós, protestantes, desejamos um Estado laico.  Rejeitamos qualquer tipo de Estado teocrático, mesmo que esse seja cristão, e igualmente temos ojeriza por qualquer teologia teonomista que confunde o atual modelo estatal com o antigo Israel. O Estado não deve abraçar ou privilegiar uma religião em detrimento de outra. Sim, o ideal democrático demanda a pluralidade no Estado: abrigados nele devem estar os religiosos e os não-religiosos, os crentes e os ateus, os crédulos e os agnósticos, os homens místicos e os homens da ciência (e até místicos científicos), a religião milenar e a seita pós-moderna etc. O Estado não deve militar por uma religião e nem pelo esmagamento do sagrado.  Portanto, somos laicos, ou melhor, abraçamos a laicidade.

O laicismo, diferente da laicidade, como muito bem definiu Karol Wojtyla, é "uma ideologia que leva gradualmente, de forma mais ou menos consciente, à restrição da liberdade religiosa, até promover o desprezo ou a ignorância de tudo o que seja religioso, relegando a fé à esfera do privado e opondo-se à sua expressão pública”. O laicismo é a ideologia vigente na esquerda brasileira, em parte considerável da imprensa e, infelizmente, até mesmo no poder judiciário. Eles supostamente levantam a bandeira do Estado laico, mas na verdade estão apenas levantando o mastro de um Estado antirreligioso.

Vejamos as diferenças entre o laicismo e a laicidade nesse quadro:

Laicismo
Laicidade
Espaço Público
O homem religioso deve ser excluído do espaço público.
O homem religioso tem o mesmo direito ao espaço público que um homem não-religioso.
Espaço Privado
O homem religioso só pode manifestar sua cosmovisão no espaço privado e com o devido cuidado para que tal visão de mundo não ultrapasse as portas da sua casa ou igreja.
O homem religioso pode viver no espaço público a mesma crença que vive no espaço privado. Da mesma forma o homem não religioso pode ser no espaço privado o que é no espaço público. O homem é um ser integral.
Tolerância
Tolerância é entendida como o abraçar a opinião politicamente correta dominante.
Tolerância é entendida como o direito de discordar veementemente do outro o respeitando e com harmonia.
Diálogo Interreligioso
Unificação das religiões como uma grande mensagem moralista.
Diálogo para estabelecer pontos em comum na defesa dos direitos humanos e da liberdade religiosa, mas respeitando o direito de cada um ao seu credo e ao exercício da evangelização.
Evangelização
A evangelização é tida como proselitismo e, portanto, deve ser coibida. É, na visão estrita do laicismo, uma afronta à fé alheia.
A evangelização é vista como meio legítimo de comunicação de crença onde cada um tem o direito de abraçar outra fé. É o direito à apostasia.
Estado
O Estado tem um papel regulador fortíssimo.
O Estado evita ao máximo as intervenções na vida religiosa dos seus cidadãos.
Não há como confundir. No fundo o laicismo é uma espécie de autoritarismo, o autoritarismo do secularismo.  

domingo, 29 de março de 2015

Repensando o louvor evangélico

Por André Gomes Quirino

Caminha já para se tornar novamente senso comum, por graça divina, que os cânticos litúrgicos, para fazerem jus ao título, devem constituir louvores a Deus, e não mensagens motivacionais. Ponto absolutamente essencial. Entretanto, isso não é tudo. A verticalidade do louvor cristão não é arbitrária, meramente convencional ou fruto da observação legalista dum código de etiqueta espiritual. A comunidade cristã reunida louva a Deus porque não consegue se imaginar fazendo outra coisa, porque não concebe outro merecedor de atenção que não Deus e porque não sabe – nem poderia saber – como se dirigir a Deus senão louvando-O. Tendo esse fundamento em mente, poderemos repensar algumas formas contemporâneas de louvor que, ainda que verticais e bem intencionadas, não refletem até o fim o espírito do louvor cristão.

O fato é que a prática do louvor – mais ainda, do louvor comunitário – tornou-se escandalosa para o mundo moderno. Toca as raias da blasfêmia, desde um ponto de vista secular, despender atenção, pronunciar elogios, elevar ofertas que não nos tenham, em última ou primeira instância, como objeto ou parte dele. As histórias românticas, forma literária moderna por excelência, dão prova desse dogmatismo. Nelas, o amor e o ódio são sempre puros, emanados direta e completamente do sujeito, que tem o poder mágico de gerá-los (“poder mágico”: às vezes, o sentimento é gerado da flecha atirada por um cupido, sim; mas, de um lado, é preciso apelar a um ser extramundano, caricatural, irreal, que no fundo é um alter ego hiperbólico do próprio sujeito, para preservar a espontaneidade do desejo, e, de outro lado, mesmo o cupido está fadado a respeitar a autonomia do sujeito, submetendo-se ao trabalho meticuloso de mirar o seu coração); uma obra de arte é tanto mais bela quanto mais “inspirado” estava seu autor ao criá-la; o amor é tanto mais legítimo quanto mais rapidamente se manifesta, sendo o “amor à primeira vista” a expressão máxima desse sentimento.[1]

Ora, não portarão resquícios desse egocentrismo aquelas canções evangélicas que, conquanto dirijam-se a Deus, o fazem partindo dos próprios sentimentos? Versos que narram o que se passa “no meu coração” quando penso em Deus e as minhas reações ao concentrar-me nEle, que descrevem – ou fingem descrever – o meu estado de espírito no momento do louvor, não serão maneiras de louvar a Deus sem deixar de louvar lateralmente também a mim mesmo, sem deixar de levar em conta o meu pretenso mérito em me dispor a adorá-Lo? Não serão maneiras de afirmar a crença em Deus sem renunciar à crença na minha autonomia, no meu poder mágico de gerar sentimentos, na minha virtude de desejar a Deus? Parece que sim, e ocorre que estas são crenças pagãs, pré-cristãs, de quem ainda não passou pela conversão epistemológica primordial, que é o entendimento epifânico de que não sabemos do que precisamos, de que não somos capazes de cumprir a finalidade de nossa existência e que até para adorar a Deus dependemos dEle.


Num primeiro momento, nossa postura diante de Deus, seres caídos que somos, não é de amor, mas de medo, vergonha e, portanto, aversão. Nós só podemos e só queremos amá-Lo porque Ele nos amou primeiro. Não há nada semelhante a uma inspiração interior que nos leve a adorá-Lo. Nosso único talento natural é para o pecado. Esse é o desencantamento primeiro, cuja negação coincide com o misticismo, e cujo reconhecimento fará com que o nosso louvor afaste-se inteiramente de nós mesmos e dirija-se a Deus como o Criador.

Mas há um segundo desvio importuno em que mesmo louvores verticais e bem-intencionados podem incidir. Ele talvez constitua um último e moribundo suspiro do egocentrismo, da tentação de se fazer sorrateiramente objeto do louvor. Ao passo que o primeiro desvio consiste em utilizar o louvor para descrever o que ocorre dentro de si – e assim, em última análise, louvar também a si mesmo –, o segundo consiste em fazer do louvor uma pretensiosa descrição sistemática da natureza e da operação divinas, transformando-o num manifesto teológico – que, assim, enaltece o próprio conhecimento portado pelo indivíduo.

Mesmo aquele que passou pela conversão primeira, que se deu conta da própria contingência e reconheceu em Deus a origem de tudo, pode carecer ainda de empreender o passo último da conversão, a saber, reconhecer em Deus o fim de tudo. Canções que se comprometem com posições teológicas secundárias e por demais controversas, que condicionam o louvor a Deus à veracidade da experiência particular do batismo no Espírito Santo (como é comum entre pentecostais), à veracidade da eleição incondicional (como é comum entre calvinistas) ou à veracidade do criacionismo de terra jovem (como é comum entre fundamentalistas), são certamente dispensáveis. Mencionar tais crenças por meio de canções, em contextos restritos, é certamente legítimo, mas, no culto público, transformar os objetos dessas crenças em objetos do louvor, louvar a Deus porque Ele proporciona a experiência particular do batismo no Espírito Santo (assim se crê), porque Ele elegeu incondicionalmente aqueles que haveriam de ser salvos (assim se crê) ou porque há seis mil anos Ele criou a Terra e o que nela existe, tais como os conhecemos hoje, em seis dias (assim se crê) é, no fundo, louvar o próprio conhecimento, louvar o privilégio de conhecer esses mistérios. Certamente não é esse o louvor de que “tudo o que tem fôlego” é capaz e a que “todos os povos e línguas” são impelidos.

Não é a nossa confissão de fé, o nosso corpus doutrinário, que deve ser louvado, muito menos o fato de podemos assimilá-los. A revelação de Deus como o fim de tudo é levada a cabo em Jesus Cristo. Ele, portanto, deve ser, direta ou indiretamente (mas, de preferência, diretamente), o único objeto de adoração. Cristo é fonte inesgotável de enaltecimento. Se a contemplação de Deus como o Criador confere ao louvor certo distanciamento, certo temor – que extirpa o autoelogio –, é a contemplação de Deus como o Redentor[2] – e não a afirmação arrogante do conhecimento teológico – que nos permitirá a entrega, o desarme, o derramamento.

A contemplação de Deus como o Criador leva a um louvor primordialmente instrumental. A contemplação de Deus em Cristo como o Redentor é que nos permite um louvor com cânticos, um louvor interativo – é no ato sacrificial de Cristo que o véu do Templo se rasga. A adoração cristã genuína será uma síntese dessas duas atitudes: contemplando a Deus como o Criador inescrutável ao mesmo tempo em que tocando-O como o Redentor encarnado. Mais do que rechaçar as canções que só falam de bênçãos e vitórias, é preciso atentar para esse duplo fundamento da adoração. Como em todos os aspectos da vida cristã, é o cristocentrismo mais radical que poderá resolver a prática comunitária do louvor.




[1] Ver GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. São Paulo: É Realizações Editora, 2009.
[2] Ver RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Edições Loyola, 2013

quinta-feira, 26 de março de 2015

ONGs evangélicas “progressistas” usam o nome do Senhor em vão!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

(Texto publicado originalmente no site Gospel Prime.)

O debate sobre a redução da maioridade penal está no ar. A discussão voltou para a Câmara dos Deputadores e hoje, felizmente, são grandes as chances de finalmente o parlamento aprovar o aumento de pena para menores assassinos, estupradores e até psicopatas. Segundo pesquisa CNT/MDA, 90% dos brasileiros são a favor da redução da maioridade penal, porém esses outros 10% fazem barulho e possuem um lobby poderoso que tem atrasado em anos e anos a alteração da lei.

Algumas ONGs evangélicas, especialmente ligadas aos chamados “protestantes progressistas”, estão enchendo as redes sociais com mensagens contra a redução da maioridade penal. Bom, isso seria normal, já que vivemos numa sociedade democrática, e todos tem o direito de concordar ou não com a alteração da lei.

Todavia, eis o espanto com um fato: essas ONGs insinuam que quem é a favor da redução da maioridade penal está contra os valores de Jesus Cristo. Parece brincadeira, mas não é. O pastor Ariovaldo Ramos, por exemplo, defendeu a manutenção da lei como está e escreveu no Facebook que “essa luta é de Cristo”. Entenda bem: se você é a favor da redução como 90% da população, logo está contra o próprio Cristo. Ora, ora, essas ONGs e seus ogueiros parecem aqueles fundamentalistas teonomistas-reconstrucionistas, ou seja, que confundem sua ideologia política com a causa do Reino de Deus.  É um absurdo usar o nome do Senhor em vão para defender a manutenção de uma lei que é claramente injusta. Por que eles não usem logo que a causa é de Jean-Jacques Rousseau e não de Cristo?

Eu, por exemplo, defendo a redução da maioridade penal não porque vejo nessa medida um meio de combate à violência. A redução vem com um melhor policiamento, rapidez e eficiência jurídica e uma alta taxa de investigações concluídas. A redução visa outra coisa: a correção justa. Ora, será normal um adolescente de 17 anos estuprar, torturar e matar outra adolescente e pegar no máximo 30 meses de reclusão num “centro educativo”? Você realmente acredita que o Estado tem o poder para recuperar um psicopata? Você também acredita em Papai Noel? Como disso o filósofo Thomas Hobbes: o "homem é o lobo do homem”.


Eu sou evangélico e a favor da redução da maioridade penal. Essa causa é minha e não coloco Jesus no meio para justificá-la.

terça-feira, 24 de março de 2015

As campanhas de boicote revelam uma igreja evangélica infantil

Por Gutierres Fernandes Siqueira

(Este texto foi publicado originalmente no site Gospel Prime)

Li hoje que o pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) propõe um boicote à Natura, empresa de cosméticos, e, como vocês sabem, isso se deve ao patrocínio da empresa ao folhetim “Babilônia”.  Essa ação visa, mais uma vez, protestar contra a promoção da homossexualidade na novela global. Essa ação é temerária. Vejamos os motivos:

Os crentes andam tão noveleiros que as igrejas precisam aderir aos boicotes? Ora, um crente realmente saudável precisa ser alertado para as porcarias das novelas brasileiras? Diferente de muitos filmes e séries que retratam o pior do ser humano para alimentar um roteiro rico, as novelas nacionais visam certa militância. A militância nunca funciona como boa arte, pois é apenas uma espécie de proselitismo secularista. Todavia repito: numa igreja saudável e madura não haveria a necessidade dessas campanhas de boicote. Ora, se existe boicote isso só mostra uma igreja evangélica infantil, incapaz de discernir entre a mão direita e a mão esquerda e, também, onde os crentes precisam ser conduzidos como crianças.

Marco Feliciano e outros deputados não deveriam promover boicotes. Os parlamentares são figuras públicas eleitas para o bem comum da sociedade. Ao promover essas campanhas os deputados alimentam o medo de alguns na sociedade sobre a mistura no papel de líderes religiosos e políticos eleitos para crentes e não-crentes. Os parlamentares evangélicos não foram eleitos como a polícia moral da sociedade. Se essas campanhas nas igrejas já transparecem a falência do consumo evangélico de arte, agora imagine o que isso não representa dos próprios parlamentares. Ou daqui a pouco esses vão promover algum tipo de “regulação da mídia”? Ora, esse seria o pior dos mundos, muito pior do que um beijo lésbico. A nossa melhor maneira de evitar aquilo que não gostamos na TV não é mandando na programação pela força coercitiva do Estado, mas apenas usando um instrumento simples: o controle remoto.

Combate-se cultura ruim com boa cultura. E não com censura, campanhas e outros tipos de histerias coletivistas. Por que não estamos envolvidos na produção de boa arte? Arte capaz de ser simplesmente arte e, assim, indiretamente influenciar positivamente a sociedade? Hoje um dos maiores cineastas do cinema independente é o norte-americano Terrence Frederick Malick. Ele é cristão, escreve roteiros segundo uma ótica cristã, mas a sua arte é bem feita e não transparece proselitismo. Ainda que a mensagem seja sutil, porém é clara e igualmente bela. Ora, precisamos de mais Malicks, ou seja, pessoas capazes de produzir arte sem militância, mas ao mesmo tempo representando uma boa cosmovisão cristã.


E para encerrar sempre precisamos recordar as palavras de Jesus: “sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas”. [Mateus 10.16].