Leia a primeira parte do texto logo abaixo.
A esquerda está ligada também com o catolicismo, mas principalmente por meio de uma teologia desenvolvida na América Latina, sob o viés da pobreza e miséria. A Teologia da Libertação ganhou também uma nova roupagem em seguimentos protestantes, conforme analisado abaixo.
O esquerdismo e a Teologia da Libertação
A mais esquerdista das teologias nasceu de renomados protestantes e católicos, como Rubens Alves, ex-pastor presbiteriano e o padre peruano Gustavo Gutiérrez. Parcela significativa a Igreja Católica na América Latina segue essa linha doutrinária, mas não encontra o apoio do Vaticano nas gestões conservadoras de João Paulo II e Bento 16. Os nomes mais famosos dessa corrente são os religiosos Leonardo Boff e Frei Betto.
O Partido dos Trabalhadores (PT) existe hoje graça a dezenas de católicos (ligados a teologia da libertação) que estiveram empenhados na fundação desse partido. O PT, como partido de linha comunista não seguiu uma agenda atéia, como na extinta URSS, mas sim do catolicismo dito progressista. Alguns nomes famosos do meio evangélico já foram filiados ao PT, como Ricardo Gondim [1], Robinson Cavalcanti e Jorge Pinheiro.
A Teologia da Libertação não está restrita somente nos círculos católicos, mas muitos protestantes são entusiastas, principalmente aqueles ligados a movimentos ecumênicos. A "teologia pós-moderna" simpatiza com o discurso dos teólogos "libertadores". A pós-modernidade é sinônimo de desconstrutivismo, assim como a Teologia da Libertação. Apesar da Teologia da Libertação ser parte do projeto da modernidade, vinculada aos sonhos de progresso por meio do estado marxista, a mesma casou bem com a pós-modernidade e as suas propostas de desconstrução da ortodoxia cristã.
Hoje, o presidente do Paraguai é o ex-bispo Fernando Lugo, militante de esquerda e adepto da Teologia da Libertação. Frei Betto já foi assessor especial da presidência da República, além de sua relação estreita com o regime castrista em Cuba. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão máximo do catolicismo brasileiro, aderiu em grande parte para essa teologia [2].
Igreja Universal do Reino de Deus e o petismo
Nas eleições presidenciais de 1989, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) propagava por meio do jornal Folha Universal, que o então Luiz Inácio Lula da Silva era uma espécie de demônio, assim como todos os comunistas do PT. Esse discurso foi incorporado por outros grupos evangélicos naquela época. Olhando para hoje parece que isso nunca existiu. Hoje, a IURD controla o Partido Republicano Brasileiro (PRB), sendo uma base importante do governo, tendo o vice-presidente José Alencar e o ministro Mangabeira Unger como membros.
Na inauguração da Record News em 2007, Edir Macedo e o presidente Lula pareciam bem ligados, numa sintonia política que era inimaginável nos anos de 1980. Hoje, a Rede Record claramente apresenta uma agenda pró-governo. É claro que Macedo não se converteu ao esquerdismo após uma leitura atenta dos livros de Karl Marx, longe disso, pois essas ligações são puro pragmatismo e falta de linha ideológica presente na sociedade brasileira e conseqüentemente na IURD. Macedo abraçou tanto o esquerdismo, que até em questões morais o mesmo vem defendendo o “direito” do aborto para as mulheres.
Ora, enquanto no início nos anos 1990, o petismo foi rejeitado massivamente pelos evangélicos, em 2002 e 2006, o lulismo caiu nos braços pentecostais e neopentecostais, com amplo apóio conforme mostrado na primeira parte desse texto. Macedo e o bispo Manoel Ferreira fundaram o Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB) no ano de 1993. Em 1994, no Rio de Janeiro, o CNPB reuniu milhares de pessoas para “clamarem pelo Brasil”, sendo uma campanha aberta contra Lula[3]. Hoje, tanto Macedo quanto Ferreira são peças importantes no quadro de apóio de Lula, sendo então mais uma prova que o “mundo dá voltas”, e muitas vezes essas “voltas” são bem estranhas!
Uma “esquerda teológica” casada com a agenda da “esquerda política”?
No Brasil esse fenômeno não é observável, mas os cristãos norte-americanos ligados a esquerda (Partido Democrata) normalmente defendem bandeiras libertinas, como o casamento gay e o aborto e uma interpretação completamente alegórica das Sagradas Escrituras. Repetindo que o mesmo não acontece no Brasil, pelo menos em grande escala.
Nos Estados Unidos essa associação entre esquerda política e esquerda religiosa ganhou força com a vitória de Barack Obama. O novo presidente dos EUA representa uma “nova esquerda”, não mais ligada ao secularismo ateu, anti-religioso, que vivia desligado de questões transcendentais, como a maioria dos democratas se comportaram nos últimos anos. Obama se colocou na campanha como representante de uma “esquerda religiosa”, que, porém em nada muda com a “esquerda não-religiosa”. Um dos discursos de Obama mostra bem essa mistura sem nexo da suposta “esquerda religiosa”:
Nós temos fé. Aqueles de nós, à esquerda, que acreditam no direito de a mulher fazer um aborto, que defendem os direitos de nossos amigos gays, que se preocupam como os pobres e que confiam que o governo pode ser um instrumento de retidão- nós também amamos a Deus. Nós também temos paixão espiritual e acreditamos que os Estados Unidos que queremos surgem, da mesma maneira, a partir da fé. Nunca mais seremos descritos como descrentes. A direita religiosa não tem mais algo que nós temos. [4]
Observe que a agenda libertina da esquerda secular é a mesma da esquerda religiosa defendida e representada por Obama. É claro que esse exemplo se aplica aos Estados Unidos, pois no Brasil não existe um paralelo desse mesmo discurso. No Brasil muitos conservadores teológicos são de esquerda, mas a “esquerda teológica inevitavelmente segue a esquerda política no Brasil” [5]. Na atualidade, a esquerda teológica pode ser caracterizada por novas correntes pós-modernas, que são relativistas, agnósticas e não crêem na Escrituras como Palavra de Deus. A esquerda teológica nasce com David Friedrich Strauss e Ludwig Andreas Feuerbach, alemães que ensinaram suas teses materialistas no Século 19 e foram influenciadores do também alemão Karl Marx. Ambos era hegelianos e reduziam a fé cristã à pura mitologia
Conclusão:
No decorrer dos dois textos não houve juízo de valor sobre a relação da cristandade com o esquerdismo, pois esse não é o propósito primário do texto, mas sim mostrar como no Brasil os cristãos estão ligados a essa ideologia de modo inconsciente, em sua maioria. Essa só é mais uma faceta de como o evangelicalismo brasileiro pensa pouco sobre suas posições, abraçando sempre acriticamente os primeiros modismos, clichês e chavões que ouvem por aí, inclusive políticos!
Notas:
[1] Ricardo Gondim afirmou na sua última entrevista, concedida para Sérgio Pavarini na Revista Cristianismo Hoje: “Sou um pensador independente, de esquerda. Não acredito no neoliberalismo capitalista. Ele produz os excluídos. O Evangelho defende os pobres e os marginalizados”.
[2] O post não permite uma análise profunda dessa teologia, mas que poderá ser discutida em um texto futuro.
[3] MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p 94.
[4] MANSFIELD, Stephen. O Deus de Barack Obama. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008. p 15. Discurso proferido na Convenção do Partido Democrata, em Boston, na data de julho de 2004.
[5] NICODEMUS, Augustus. O Que Estão Fazendo com a Igreja. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p 14.