Pesquisar este blog

Carregando...

terça-feira, 22 de março de 2011

Pregar moral não é pregar o Evangelho!

Recentemente escrevi um post criticando os cristãos conservadores que confundem a militância moralista com Evangelho. Gastam tempo e esforço com esse tipo de militância e acham que são evangelistas por isso. Pois bem, acabei de ler um ótimo artigo do teólogo batista reformado R. Albert Mohler Jr. que faz exatamente a mesma crítica. Só que ele argumenta bem melhor do que eu [rsrsrs]. Incentivo que você leia todo o artigo neste link.

Na conferência do Mackenzie houve um momento de perguntas, onde qualquer um poderia levantar questões para o palestrante, então indaguei Wayne Grudem se adianta construir leis morais para corações não regenerados. Eu gostei da resposta. Grudem respondeu que sim. A lei garante uma ordem que é boa para todos. É uma dádiva divina que torna o mundo mais equilibrado e fora isso teríamos somente anarquia. Mas Grudem lembrou que não podemos nunca esquecer que essas leis morais não salvam.

As leis são realmente importantes. Recentemente a revista Veja entrevistou o professor norte-americano Walter Williams que destacou um ponto interessante sobre a realidade americana que não é diferente da nossa:

Quando uma adolescente pobre fica grávida, ela ganha direito a se inscrever em programas habitacionais para morar de graça, recebe vale-alimentação, vale-transporte e uma série de outros benefícios. Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Muitas eram mandadas para o Sul, para viver com parentes. Hoje, o estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que nos anos da minha adolescência entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%.

A questão moral serve de exemplo. Hoje, por exemplo, as escolas públicas são a antesala do inferno, mas nem sempre foi assim. O ensino público já teve qualidade do Brasil. Nas escolas de hoje sobra indisciplina e professores que têm até medo dos alunos. Por que? Há várias explicações, mas também é consequência da falta de autoridade na sala de aula. Não precisamos de escolas opressoras do imaginário de Foucault, mas esse modelo sem respeito do discente pelo docente mostra a sua falência. O respeito não existe pela falta do exemplo e da correção. A lei é importante inibidor do mal.

Agora, ser bom aluno, bom cidadão, moralista e cheio de bons costumes não garante salvação. Aliás, pode até afastar uma pessoa da graça. Salvação é somente pela graça de Deus, somente. Há muito moralista no inferno. Se a igreja mistura as bolas e passa a ser um militante do moralismo ela simplesmente nega o Evangelho. Igreja é pregadora das boas novas e não dos bons costumes. Tudo o resto é consequência, inclusive boas maneiras.

O cristão conservador destaca sempre o pecado individual (mentira, adultério, bebedice etc.) e o cristão progressista sempre destaca o pecado social (pobreza, opressão, injustiça etc.). Ambos, na sua militância, tentam acabar com esses pecados esquecendo de pregar o Evangelho que realmente transforma o homem e a sociedade. É um esforço que distorce.

Isso não quer dizer que não devamos incentivar as boas maneiras, a moral e a defesa da justiça, mas antes de tudo, como igreja, não esqueçamos de pregar o Evangelho. Quando a igreja segue o caminho distorcido os perdidos acham que salvação é deixar de beber pinga ou militar pela justiça social. Nem um nem outro. Salvação é graça. É fé em Cristo.

Michael Horton, outro respeitado teólogo reformado, diferenciou muito bem o moralismo do Evangelho. Veja o quadro:

Lei leveO Evangelho
Deus como treinador de vidaDeus como Juiz e Justificador
Bom conselho (fazendo)Boas-novas (feito)
Cristo como exemploCristo como Salvador
A Bíblia como manual de instruçãoA Bíblia como mistério de Cristo sendo revelado
Sacramentos como meios de compromissoSacramentos como meios da graça
A igreja como recurso de autoajuda (foco no nosso serviço/ministério)A igreja como embaixada da graça (foco no serviço/ ministério de Deus)
Nós subimos até DeusDeus desce até nós
Nós enviamos a nós mesmosDeus nos envia
(HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo: O Evangelho Alternativo da Igreja Atual. 1 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010. p. 158.)

É interessante observar que alguns cristãos conservadores e progressistas se aproximam no mesmo erro: a tentativa de transformar a realidade sem o milagre do Evangelho. Ambos lidam mal com a liberdade das democracias, mas esse é assunto para outro post.

10 comentários:

Valter Borges disse...

A questão é simples, mas alguns a tornam complicadas ou para julgar os excessos ou para fazer lorota!!
Tenho tentado provar que precisamos qualificar a graça. Não podemos simplesmente permitir que a graça seja barata, conforme critica Bonhoeffer. Mas, precisamos dar conta do termo. E falta teologia para isto!
Tiago tenta demonstrar a fé pelas obras, e não a fé sem obras.
Isto é: a fé demonstrada através de um comportamento santo, que é originário do fruto do Espírito que comunica as atitudes de Cristo nas pessoas que o receberam.
Agora, é preciso considerar a sociedade, pois o Evangelho não fere a cultura! E Muitas confundem essa questão!

Aprendiz disse...

Gutierres

Vou discordar mais uma vez de você. O grande ativismo conservador que conheço é a internet (mesmo porque, depois que os esquerdistas e anti-cristãos dominaram quase toda a vida acadêmica e quase todos os meios de comunicação, só sobrou a internet).

Pois bem, procurei lembrar de todos os blogueiros e ativistas evangélicos conservadores que já lí. Não consegui lembrar de nenhum que advogue salvação pelas obras. Nem um único.

Também lembrei de um fato importante. As iguejas que pregam a salvação através de Cristo nunca são sempre igrejas mais ligadas à teologia conservadora. Desde o início do século XX, a negação de salvação por meio de Cristo veio da "teologia liberal", da qual a "teologia da libertação" é uma vertente.

É estranho ligar o conservadorismo à alguma falha na doutrina da salvação através de Cristo. Sistematicamente, vejo os pastores mais conservadores pregando a salvação por meio de Cristo, e os mais "esquerdistas" tendendo ao universalismo, embora alguns não tenham chegado a isso.

Talvez você conheça exemplos de pregadores evangélicos conservadores que creem na salvação pelas obras, e gostaria que você indicasse quem são. Eu não consigo lembrar de nem um.

Gutierres Siqueira disse...

Aprendiz,

Não é que esses conservadores preguem a salvação por obras diretamente. Essa pregação é indireta. Como assim? A forma como anunciam a fé cristã faz com que os não convertidos associem conversão com obras. Isso é fato. Basta olhar ou conversar com alguns descrentes e logo você perceberá essa impressão.

Luciano disse...

Frequentemente, ao falar do Senhor para alguém, ouço a seguinte argumentação: “Eu até gostaria de ser crente, mas eu gosto muito de... sair à noite para dançar... tomar umas cervejinhas... fumar um cigarrinho... ir a um forró...” e por aí vai, que a lista é interminável.
Nessas ocasiões, a minha resposta é uma só: “eu não lhe digo que isso que você gosta de fazer é certo ou é errado, mas, se você entendeu a salvação do Senhor e a deseja, proponha-se a vivê-la, e aquilo na sua vida que desagradar o Senhor, Ele mesmo irá tirar de você, e não será algo de você dizer que queria fazer mas não pode, e sim algo de você se lembrar de como era importante para você e agora não é mais.”
Sim, o anúncio é um só: boas-novas, boas notícias, Jesus morreu na cruz e nós fomos justificados na sua morte, e Ele ressuscitou, e nós temos vida nEle.
Como você bem colocou, alguns querem anunciar outras “boas”-novas: você, mulher, não pode mais usar calças, não pode usar brincos de argola, ou brinco nenhum, nem batom vermelho, ou batom nenhum; você, homem, só pode andar de calça comprida e camisa de manga comprida; entre outras coisas.
Conversávamos sobre isso em um post anterior, quando alguém se referiu à preservação dos “bons costumes” e disse que isso não tinha nada a ver com salvação, ao que retruquei com a realidade de pessoas sendo excluídas da igreja, do convívio com os irmãos, da congregação no corpo de Cristo pela inobservância a tais “bons costumes”.
Realmente, a salvação é pela fé somente. Por isso Lutero enfrentou o que enfrentou, e na esteira dele lá se vão cinco séculos de crentes. Mas como tem gente que gostaria de poder deixar tilintar as moedas no fundo do pote para ir para o céu! Como disse o Rev. Augustus Nicodemus no seu livro “O que estão fazendo com a igreja?”, é a alma católica do crente brasileiro.
Mas veja só, não é realmente tão mais fácil acreditar que – e viver assim – eu vou para o céu porque ando o dia todo de calça e camisa de manga comprida, seja na igreja, seja na padaria, seja virando massa na rua para fazer uma laje? Não é muito melhor do que se deixar transformar pelo Espírito Santo, de dentro para fora, abandonando pensamentos e sentimentos indignos de um servo do Senhor? Vamos lá! É sim, é muito melhor! Mas é falso, é anti-bíblico. Parece que as pessoas que defendem isso nunca leram em Mateus aquela sequência de “ouvistes que foi dito... eu, porém, vos digo” (uso a versão ARA) em 5:21-48. Ora Jesus ali, entre outras coisas, está dizendo nos vv. 27-28, “olha, eu não quero saber se você deixou de chegar ao ato carnal em si, o que eu quero saber é se o sentimento que move a ele está dentro de você ou não”. Quer dizer, o abster-se do ato é importante, mas muito mais o libertar-se do sentimento que leva a ele.
E toda essa sequência vai culminar com o desafiador “sede perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste”. Como diria um primo meu, “caraça, maluco”, e agora? Como eu faço isso? Não faz. Deixa de ficar se preocupando com o diâmetro da argola da irmã e vai aos pés do Senhor se deixar transformar por Ele.

Aprendiz disse...

Quando penso em legalistas, nunca os associo ao pessoal conservador das igrejas históricas, que são os unicos que fazem militancia cultural conservadora. Legalismo, com enormes listas de proibições arbitrarias, no Brasil, esteve sempre associado a ígrejas pentecostais.

Não consigo imaginar nossos amigos dos blogs conservadores (na maioria calvinistas) fazendo listas de não pode se vestir assim, não pode assistir tal filme, não pode beber isso, não pode ler tais coisas, não pode ouvir tal música. Isso é coisa bem típica das denominações pentecostais. É estranho ver tais coisas associadas aos conservadores ativistas que conheço pela internet.

Existem sim crentes que fazem listas de preceitos de homens para jogar sobre os outros, mas nenhum deles faz militância cultural. É dificil imaginar dois grupos mais distintos.

Gutierres Siqueira disse...

Aprendiz,

Mas eu não falei em legalismo.

Aprendiz disse...

Gutierres

Percebo que não entendi a respeito do que é o post. Cada pessoa tem sua vivência. Creio que aquilo que você escreveu reflete algo sobre pessoas que você conhece. Quanto a mim, não percebo quem seriam essas pessoas.

Gutierres Siqueira disse...

Repito caro Aprendiz,

A questão não é a crença do pregador moralista, mas sim a mensagem que ele passa aos descrentes.

Aprendiz disse...

Gutierres

Para que nós, os leitores do blog, possamos entender isso, seria interessante trazer exemplos do que você quer dizer, isto é, pessoas transmitindo mensagens que levam os descrentes ao engano sobre a natureza da salvação, analisando o que há de errado na mensagem, e qual seria a mensagem correta.

Fica a sugestão para um próximo post.

J. disse...

Caí nesse blog por acaso, e achei um assunto interessante e que requer cuidado.
É perceptível que as pessoas associem o Evangelho a uma vida moral exemplar e às práticas dos bons costumes. Mas deveria ter uma forma de deixar mais claro aos cristãos que a mensagem não se resume a isso. Conheço calvinistas e pentecostais que fazem essa associação que ao meu ver também é errônea. Se bem que entre os pentecostais é bem mais comum. Mas o que fazer? Parece que as pessoas preferem viver assim... Não sei se me fiz entender...