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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Não é de hoje!

Gostaria que os nossos hinos fossem mais de adoração. Setenta e cinco por cento de nossos cânticos hoje falam mais sobre nós mesmos, sobre nossos sentimentos e experiências. É tempo de chegarmos à igreja para cantarmos ao Senhor. Seria uma boa coisa realizar uma ou duas reuniões onde chegássemos para ministrar ao Senhor, onde chegássemos para trazer-lhe algo. Donald Gee [1]

Donald Gee escreveu essa observação na década de 1930. A situação dos cânticos pentecostais já era crítica. Hoje, continua da mesma forma ou pior. O que acontece com a musicalidade pentecostal?

Estou neste momento com o hinário usado pelas senhoras do Círculo de Oração da igreja onde congrego. Veja os títulos dos hinos cantados constantemente:

“É Só Vitória”, “Profetizo Promessas”, “Há uma Saída”, “Chora que a Vitória Vem”, “Creia na Vitória”, “Deus abre o Mar”, “Explosão no Abismo”, “Quem te Viu, Verá”, “Cântico da Vitória”, “Deus Determinou”, “Você é Abençoado”, “Homem dos Milagres”, “Deus Resolve o Teu Problema”, “Milagres e Maravilhas”, “Anjo do Egito”, “Valeu a Pena”, “Recuar Jamais”, “Menina dos Olhos de Deus”, “Ninguém Pode Impedir”, “Eu Acalmo o Mar”, “Deus Te Fará um Vencedor”, “Nunca Pare de Lutar”, “A Batalha do Arcanjo”, “Vivendo pela Fé”, “Seu Nome é Já”, “Milagres do Caminho”, “O Agir de Deus” etc.

Deus em momento algum é adorado com essas letras. O destaque está nas vitórias que Deus pode proporcionar para o crente. O foco é o homem e Deus é um mero serviçal. Há muita mensagem de autoajuda, de psicologia barata. Veja o coro da música “Soldado Fiel”:

Vou vencer, conquistar

Vou vencer, vou chegar

Vou vencer, vou lutar

Vou vencer, vou ganhar


Se alguém quiser ouvir isso em casa para se “sentir bem”, então tudo bem, mas trazer isso para o culto é demais. Não se cultua a Deus com autoajuda. É como ao homem. É autoajuda de quinta categoria. Essa mesma mensagem pode ser escutada no curso motivacional que a empresa contrata para enrolar os funcionários ou em uma seita japonesa motivacional. É lamentável dizer que a maior parte dessas letras é composta por pentecostais, e não pelos neopentecostais, muito menos pelos tradicionais.

Karl Barth escreveu uma observação que muitos que dizem ler a Bíblia ignoram: “No Novo Testamento ninguém vinha à Igreja simplesmente para ser salvo e feliz, mas para ter o privilégio de servir ao Senhor. E nós deveríamos ter diante de nós o benefício que recebemos em servir e trabalhar na Igreja” [2]. Servir, e não ser servido, é a tônica do cristianismo.

É um exagero afirmar que a música evangélica como um todo é ruim. Não, há muita produção contemporânea boa e muita produção antiga ruim e vice-versa. A questão aqui não é “passado” versus “presente”, como os saudosistas gostam de enfatizar. A questão é boa letra ou letra ruim, em qualquer tempo.


Bons Exemplos

Quer um exemplo de um hino de adoração bem antigo e muito bom, com ótima letra e tocante? É o Mais Perto Quero Estar dos hinários oficiais, como Salmos e Hinos, Cantor Cristão e Harpa Cristã.

Mais perto quero estar Meu Deus, de Ti! Inda que seja a dor Que me uma a Ti, Sempre hei de suplicar Mais perto quero estar Mais perto quero estar Meu Deus, de Ti!

Nossa! Quanta diferença da música triunfalista, da autoajuda de quinta categoria! É uma música que não engana com a falsa promessa de ausência de sofrimento nesta vida!

E uma mais contemporânea, como composta pelo Adhemar de Campos, a música Ele é Exaltado:

Ele é exaltado. O Rei é exaltado nos céus; eu o louvarei. Ele é o Senhor, Sua verdade vai sempre reinar. Terra e céus glorificam Seu santo nome, Ele é exaltado, o Rei é exaltado nos céus.

Quando você canta uma letra dessas com toda a sua vontade não há como sair do culto da mesma forma, pois a adorar a Deus é simplesmente uma experiência única.

Como professor de Escola Dominical, eu já falei por diversas vezes sobre esse assunto, mas infelizmente essa “cultura musical” parece ser mais forte!

Assistir um culto onde o “louvor” é a tragédia descrita acima e uma pregação cujo foco é a solução de problemas financeiros, de saúde e amorosos... Você simplesmente foi em uma reunião, mas não cultuou a Deus! Sim, Deus opera milagres e maravilhas, mas o foco do culto é em primeiro lugar a adoração a Deus e em segundo lugar a edificação da igreja por meio da exposição bíblica e em terceiro lugar poderíamos colocar as demais coisas, como os milagres.

Referências Bibliográficas:

[1] GEE, Donald. Como Receber o Batismo no Espírito Santo: Vivendo e Testemunhando com Poder. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 71. O título original é Pentecost (Pentecostes, em português). A partir do ano 2000 a editora trocou o título pelo descrito acima. O título é muito infeliz, somente para efeitos mercadológicos, já que o próprio autor condena a ideia de uma “fórmula” para receber o “revestimento de poder”.

[2] BARTH, Karl. The Faith of The Church: A Commentary on the Apostle`s Creed According to Calvin`s Catechism. d ed. London: Fontana Books, 1960. p 116. In: REGA, Lourenço Stelio (org). Paulo e Sua Teologia. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 211.


PS: Importante! Nestes dias estou com problemas de acesso à internet. Portanto, o seu comentário talvez demore a ser moderado. Agradeço a compreensão e participação!

12 comentários:

Pr. Carlos Roberto disse...

Caro Gutierrez,

Paz!

Sem comentários. Falamos, falamos, mas parece que estamos falando em grego para esse povo. Misericórdia! rsrs

Parabéns pelo post. Prossigamos.

Pr. Carlos Roberto

Gutierres Siqueira disse...

Pr. Carlos,

O pior é quando falamos alguma coisa na manhã da EDB e somos desmentidos pela pregador da noite! Aí é dose!

Matias H. disse...

"mais perto quero estar, 'inda que seja a dor que me una a ti..."
já é o oposto da teologia triunfalista: masoquismo.
vamos parar de dar uma de "espiritual": quem quer sofrer? Ninguem! Prefiro cantar algo mais "positivo", o sofrimento está ou virá de qualquer forma, já que vivemos em um mundo pecador. Agora "curtir" sofrimento não dá... e conheço um monte de gente que defende este tipo de teologia do sofrimento, que na hora de sofrer um pouco fica amarga...
Muitos hinos, que vc chama de triufnalistas, nasceram no meio pentecostal, onde pessoas humildes sofrem a opressão de uma sociedade brutal e política injusta. Respondem com fé triunfalista a este sofrimento...São como os antigos "negro spirituals" falando da expectativa de vitória e triunfo no sofrimento. E não são curtição de sofrimento.
O que falta nos canticos é teologia, falar de Deus e de Jesus. Isto precisamos, de fato, resgatar.
Abraço,
Matias

L. H. Dessart disse...

Também leciono na escola dominical da minha igreja. Várias vezes já falei algo sobre este assunto. Mas, assim como você disse, parece-me que esta cultura musical ainda prevalece, apesar de que temos sentido e buscado uma diferença dentro do ministério de louvor, do qual também faço parte.

Deus nos auxilie nesta "batalha"...

Abraço!!!

Adm. Ronaldo Guedes disse...

Caro Gutierre,

Parabéns pelo texto equilibrado em suas ponderações, que Deus seja exaltado acima de todas as coisas em nosso louvor através da música.

Cordialmente,
Ronaldo

vagner ribeiro disse...

Prezado, G S
Nada acrescentar, este perfeito esse texto, assino em baixo
Fique na Paz

Anônimo disse...

Esse pessoal devia ler Feuerbach para ver como esses hinos triunfalistas nada mais são que uma projeção dos desejos do homem num ser transcendente, i.e., Deus.

abraços,

Rodrigo

Edinei Siqueira disse...

LITURGIA EM CRISE, seria o título que eu daria a este post. Parabéns pela brilhante exposição da bancarrota nos "cultos" pentecostais.
Congrego na AD, há 20 anos e confesso que de uns 5 anos pra cá participar de um culto na AD tornou-se uma tortura pra mim. Pois não consigo entender como uma igreja pode ser tão desorganizada assim.
O louvor não é mais congregacional (cada conjunto tem seu próprio repertório); é uma igreja departamentalizada (são tantos departamentos e conjuntos que o culto vira um tédio); a Palavra não tem mais espaço (descobrí que os assembleianos não suportam ficar 30 minutos ouvindo um sermão expositivo, pois logo acham uma desculpa para se levantar e ir ao banheiro ou ficar conversando no pátio da igreja); o pregador está pregando e os crentes lanchando na cantina (pra que cantina na igreja,1ª Co. 11:34?); é uma igreja movida a emocionalismo e campanhas intermináveis e para finalizar é uma igreja sem identidade própria pois abarca muitos elementos liturgicos de várias comunidades ditas cristãs sem nenhum critério de avaliação. A balbúrdia tomou conta afinal.

Pb. Edinei, Th.B

José Nilton disse...

Graça e Paz!
Parabéns pela postagens. Essa é uma realidade sentida em nosso meio evangélico, e até mesmo na ala tradicional. Tenho falado sobre isso na igreja que pastoreio, e infelizmente, parece que esse modismo, estar cada vez mais, fixado na mente e no coração das pessoas. temos hoje o culto antropocentrico, quando deveria ser teocentrico, e bibliocentrico. Que Deus o abençoe, e vamos juntos batalhar pela defesa da sã doutrina.

Fonte da Ressurreição disse...

A Paz do Senhor Jesus.
Bom dia!
Gostei muito, concordo plenamente com você na questão do hinos cantados nas igrejas, realmente o que vemos é Deus como simples serviçal a disposição na hora que as pessoas querem. A adoração a Deus, até mesmo nas pregações estão ficando distantes, o que vemos são pastores deixando formulas para as pessoas seguirem para alcançar o desejado.

Gente Fina com Toque de Sabedoria disse...

Podemos afirmar que a igreja atual vêm perdendo a visão da adoração.

A preocupação maior é o emocionalismo e movimentos. Não vejo em momento algum, a adoração devida ao Senhor em muitos hinos da atualidade.

Mas, os cristãos de hoje já não são como os de antigamente. Havia culto de oração - era necessário chegar cedo se não quizesse ficar sem lugar pra sentar. Até as crianças oravam e testemunhavam.

Que saudades!!!!!!!!!!!

Um grande abraço.

Matias Heidmann disse...

"mais perto quero estar, 'inda que seja a dor que me una a ti..."
já é o oposto da teologia triunfalista: masoquismo.
vamos parar de dar uma de "espiritual": quem quer sofrer? Ninguem! Prefiro cantar algo mais "positivo", o sofrimento está ou virá de qualquer forma, já que vivemos em um mundo pecador. Agora "curtir" sofrimento não dá... e conheço um monte de gente que defende este tipo de teologia do sofrimento, que na hora de sofrer um pouco fica amarga...
Muitos hinos, que vc chama de triufnalistas, nasceram no meio pentecostal, onde pessoas humildes sofrem a opressão de uma sociedade brutal e política injusta. Respondem com fé triunfalista a este sofrimento...São como os antigos "negro spirituals" falando da expectativa de vitória e triunfo no sofrimento. E não são curtição de sofrimento.

O que falta nos canticos é teologia, falar de Deus e de Jesus. Isto precisamos, de fato, resgatar.

Abraço,
Matias