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quinta-feira, 30 de junho de 2011

A intercessão dos santos: um diálogo com meu amigo católico

Um grande amigo católico pediu que eu comentasse um vídeo do padre Paulo Ricardo sobre intercessão dos santos. Eu assisti o vídeo e os atentei-me aos argumentos do padre. Escrevi as observações abaixo:
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O padre Paulo Ricardo começa o vídeo comentando um versículo da Carta de Paulo a Timóteo, onde está escrito: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem" (I Tm 2.5). Ele está correto quanto afirma que a Igreja e os seus membros são sacerdotais, portanto, intercessores. Nós, como cristãos, devemos interceder pelos demais. O próprio contexto da carta paulina fala da intercessão (I Tm 2.1-3). Isso nunca foi problema para o protestantismo, pois a intercessão é bíblica. Ninguém nega que possamos mediar pelo outro. Quando Paulo diz que Jesus Cristo é o único mediador está falando em um contexto soteriológico, ou seja, da salvação pelo sacrifício do sumo sacerdote perfeito e imaculado, o sumo sacerdote que é o próprio cordeiro do holocaust o. Essa mediação salvífica se dá por meio da encarnação ("Jesus Cristo homem"). A palavra "homem" no grego bíblico refere-se a "alguém que possui a natureza humana e, em seu trabalho, manifesta os atributos da humanidade". Jesus se tornou o nosso mediador pela encarnação.

Na primeira parte da resposta não tenho nenhuma discordância importante. O padre Paulo Ricardo enfatiza muito que o corpo de Cristo, a Igreja (com I maiúsculo, não institucional) é intercessora. Isso é verdade (I Pe 2.9), mas não é exatamente o que Paulo fala em I Tm 2.5. Paulo não fala da Igreja, mas da encarnação de Cristo. Não que seja errado falar em Igreja como mediadora, mas não é exatamente isso que o texto escolhido diz. Na epístola a Timóteo o assunto é o Cristo encarnado, o Cristo como homem. Há outros textos que podem sustentar a argumentação da Igreja como intercessora (I Tm 2.1, Hb 13.18, Tg 5.16 etc.).

Sim, os vivos podem e devem interceder.

Os mortos podem interceder por nós?

O padre Paulo Ricardo cita a Carta de Paulo aos Romanos para justificar a intercessão dos mortos. A exegese é criativa, mas somente isso, não passa de criação de mente fértil. Mas falta ciência hermenêutica. O apóstolo Paulo escreveu:

Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro". Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Rm 8. 36- 39).

Onde que um texto retórico sobre a comunhão eterna do cristão com/em Cristo pode justificar funções sacerdotais no céu? É mera criatividade. O texto somente fala dessa comunhão entre o homem e Deus. É o amor tão forte que nem a morte separa. Onde insinua intercessão nesse texto? É uma interpretação muito subjetiva. Nem é possível especular com essa parte da epístola paulina, pois ela é clara e objetiva.

O padre Paulo Ricardo, então, cita duas passagens do Apocalipse (6. 9-10 e 7. 14-15). Ora, as passagens mostram atos de adoração no céu e clamor por justiça. Há alguma intercessão de um homem morto no céu por um homem vivo na terra? Não, é claro que não. O padre jamais seria capaz de mostrar uma passagem bíblica onde alguém pede ajuda a um cristão morto e enterrado. As passagens dos textos enigmáticos do Apocalipse não mostram intercessões e nem conversas de vivos com mortos, mas sim atos de adoração e culto, logo porque o céu é um lugar de culto.

Polemizar sobre a intercessão é responder uma questão que não foi colocada na mesa. A grande indagação é, sim, sobre a intercessão dos mortos. Ora, não há nenhuma sustentação bíblica para essa ideia. A idolatria, que não é um pecado exclusivo dos católicos, sustentada intelectualmente no paganismo pode, e somente pode, conceder a ideia que devamos orar e pedir algo para alguém que já está morto.


3 comentários:

Aprendiz disse...

Padre Paulo Ricardo é super 10, aprendi coisas excelentes com ele. Mas há certas crenças das pessoas que vem de seus respectivos grupos. Nesses casos, infelismente, não é pela força dos argumentos que a pessoa mantém aquela determinada interpretação, mesmo que ela se esforce por crer que é. Conheço padres ótimos, mas sempre mantém certas interpretações mal fundamentadas. O meio é uma influência muito forte, e só uma mente brilhante consegue se desvencilhar de todo preconceito.

De qualquer forma, apesar das falhas, parabéns ao Padre Paulo Ricardo, pelas coisas excelentes que ele ensina, coisas que a maioria dos pastores não percebe. Retenho o que é bom, e creio que são coisas importantes.

Daladier Lima disse...

Prezado Gutierres, uma consideração importante a fazer é que os santos, ouvindo a oração de alguém, deveriam fazê-lo a qualquer instante e em qualquer lugar ao mesmo tempo. Nem são onipresentes, nem onipotentes, nem oniscientes. Então é só teoria humana, desprovida de senso bíblico.

Abraços!

Rodrigo disse...

Gutierres,

Mas se a Igreja tem um papel intercessório, pq não teriam os santos mortos por aqueles que estão vivos, já que todos fazem parte da mesma Igreja invisível?

Negar a intercessão dos santos pela Igreja em geral (não do crente aos santos, note bem) não seria negar a comunhão entre a Igreja visível e a invisível?

Esta parece ter sido a razão pela qual os luteranos (cf. a Defesa da Confissão de Augsburgo, art. XXI) mantém essa crença, apoiados ainda nos textos de Apocalipse citados.

Abraços,

Rodrigo