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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O lava-pés


Abaixo faço uma reflexão baseada em João 13.12-17.

(v. 12) Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito?

As funções ligadas à limpeza nunca foram valorizadas em nenhuma cultura ou sociedade. Só recentemente, nas últimas décadas, houve um esforço no combate ao preconceito contra aqueles que vivem de acabar com o lixo produzido pelos outros. Limpar os pés é um exemplo de uma atividade desagradável e ainda levando em conta que eram pés impregnados de poeira das ruas desérticas de Israel. É, sim, um símbolo de grande humilhação e submissão.

Mas também era sinal de cortesia. Nas casas da época de Jesus Cristo sempre havia uma bacia com água para que os visitantes pudessem lavar os seus pés ou mesmo um escravo para desempenhar tal função (I Sm 2.9; Sl 66.9 e Lc 1.79). As sandálias abertas deixavam os pés empoeirados.

Depois de lavar os pés de cada discípulo, Jesus então pergunta: “Entendeis o que vos tenho feito?”. Não era fácil de entender. Todos estavam seguindo Jesus e vendo nele o Messias que os profetas a tanto anunciavam. Como a grande esperança de Israel, como o grande Rei, como a “torre em tempos de guerra” poderia simplesmente lavar pés?

O aspecto teológico-sacramental

O lava-pés era o prenúncio de uma humilhação muito maior: a crucificação. O Messias crucificado como um bandido? Não é à toa que Paulo escreveu: “Nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos” (I Co 1. 23). Esse prenúncio da morte de cruz é o aspecto teológico, como escreveu F. F. Bruce: “O lava-pés simboliza a auto-humilhação de Jesus em suportar a morte na cruz e o poder de purificação que sua morte é para o crente” [1].

O teólogo reformado D. A. Carson aponta para a similaridade do lava-pés e a crucificação:

O episódio do lava-pés foi atordoante para os discípulos de Jesus, mas nada comparada à ideia de um Messias que sofreria a morte odiosa e vergonhosa na cruz, a morte do amaldiçoado. No entanto, os dois eventos- o lava-pés e a crucificação- são, na verdade, da mesma qualidade. O reverenciado e exaltado Messias assume a função do servo desprezado para o bem dos outros. [2]

Como ato teológico, de anúncio, Jesus preocupa-se com o entendimento dos discípulos sobre o seu ato. Nenhum ato sacrificial de Cristo deveria ser encarado com leviandade pelos cristãos. Exemplo disso é a ceia. É trágico que a ceia seja tomada sem o devido reconhecido do seu fim (cf. I Co 11. 26-27). Matthew Henry escreveu:

Observe que é vontade de Cristo que os símbolos sagrados sejam explicados, e que o seu povo esteja familiarizado com o significado deles. Por outro lado, embora extremamente importantes, eles são sem importância para aqueles que não conhecem o significado das coisas. Portanto, eles são levados a perguntar: “Que culto é este vosso?” (Ex 12. 26). [3]

Portanto, os discípulos são expostos a explicação de Jesus sobre um ato tão humilde, que aponta diretamente para o Calvário. Como escreveu o apóstolo Paulo: “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre, para que, pela sua pobreza, enriquecêsseis” (II Co 8.9).

(v. 13) Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu sou.

Jesus não deixou sua divindade porque praticou atos de humildade, mas justamente o contrário, pois são seus atos de amor que reforçam a sua divindade, pois “Deus é amor” (I Jo 4.8). No contexto dos discípulos a palavra “mestre” (gr. didaskalos) era uma forma respeitosa de tratar um rabino, um professor.
Mas Jesus também era chamado de “senhor” (gr. kyrios). No contexto dos discípulos era um título de respeito, ou seja, um título de honroso tratamento. Como falamos referente aos mais velhos ou um cliente especial ou como os judeus falavam de seus mestres e um filho se dirige aos pais. Mas nas epístolas paulinas o título Christos Kyrios traz em si a ideia de divindade, ou seja, de supremo em autoridade (por exemplo, Rm 4.24; 10.9; I Co 5.5; Fp 2.19; Hb 13.20).

Jesus lembra que Ele é Senhor e Mestre e ainda assim lavou os pés dos discípulos. Em Jesus Cristo, o conceito de senhor e servo não é de um relacionamento hierárquico, mas sim um relacionamento de compromisso. Assim como Cristo se humilhou, a humildade deve ser parte da vida cristã. Cristo, mesmo sendo Senhor, deu o exemplo. Então o lava-pés, além de teológico-sacramental, é moral.

O aspecto moral

O lava-pés é um exemplo de Cristo, o Senhor, para as nossas vidas. Isso é um fato. Mas é um exemplo literal ou figurado? Devemos lavar os pés dos irmãos em uma cerimônia cúltica como fazemos a Ceia e o batismo nas águas? Essa é certamente uma questão menor. O importante é a prática da humildade e a humildade não precisa ser ritualizada para que a sua prática seja real.

(v. 14, 15) Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque, eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.

O lava-pés parecia ser praticado literalmente pela igreja do primeiro século. Textos como I Tm 5.10 dão essa ideia. O lava-pés literal é conhecido como pedilavium. O lava-pés é uma tradição da semana santa na Igreja Católica e em alguns ramos protestantes. O teólogo Homer A. Kent lembra:

A prática do Pedilavium pode ser vista na igreja primitiva em 1 Timóteo 5.10 e a partir dos escritos de patriarcas como Tertuliano (De Corona, Cap, 8), Atanásio (Canon 66) e Agostinho (Carta a Januário). O sínodo de Toledo (694 d.C) especificou que o rito deveria ser observado na quinta-feira santa. Ela ainda é praticada por alguns grupos protestantes, incluindo os menonitas, os waldensianos, os winebrenarianos e alguns poucos batistas. [4]

O cerimonial também foi praticado literalmente por pentecostais no chamado “milagre de Memphis”. Em 1994, na cidade de Memphis, Tennessee, mais de quatro mil participantes de uma conferência testemunharam a reconciliação dos pentecostais brancos (Assembleias de Deus e Comunhão Pentecostal da América do Norte) com os pentecostais negros (Igreja de Deus em Cristo). Os dois grupos sempre foram separados por questões raciais desde o início do pentecostalismo moderno. Na ocasião foi criada a organização multirracial Igrejas Pentecostais e Carismáticas da América do Norte (PCCNA, sigla em inglês) [5].

João Calvino, por exemplo, criticou aqueles que se orgulhavam por praticarem o cerimonial do lava-pés, já que tal sentimento retirava todo o sentido do ato de Jesus. Calvino observou:

Todo ano eles mantêm um lava-pés teatral, e quando concluem esta cerimônia vazia e sem sentido, acham que realizaram perfeitamente o seu trabalho e então estão livres para desprezar os seus irmãos. Mas, quando terminam de lavar os pés de doze homens, eles torturam cruelmente todos os membros de Cristo e, desta forma, cospem no rosto do próprio Cristo. Esta comédia cerimonial não é nada além de uma zombaria vergonhosa de Cristo. De qualquer forma, Cristo aqui não prescreve uma cerimônia atual, mas manda que estejamos dispostos a lavar os pés de nossos irmãos durante toda a nossa vida. [6]

Calvino está certíssimo na interpretação, pois o importante é a nossa predisposição no serviço pelo outro. O ritual sempre traz em si o risco da religiosidade vazia. Não há sustentação bíblica para tornar o lava-pés um cerimonial, uma ordenança, um sacramento, como já fazemos com a Ceia do Senhor e o Batismo. Mesmo ordenanças como o Batismo e a Ceia devem tomar o cuidado de não serem mecanizados pela rotina.

O “façais vós também” está no presente do subjuntivo, ou seja, deve ser uma ação contínua. Quando Jesus diz que dá o exemplo (do grego hypodeigma) ele traz a ideia de padrão. Jesus assim mostra que a despeito de sua divindade, Ele deu o exemplo de como o cristão deve agir em humildade. “E qualquer que, dentre vós, quiser ser o primeiro será servo de todos. Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10. 44-45), lembra o Senhor.

A presente megalomania, ou seja, a mania de grandeza no meio evangélico deveria ser encarada com mais espanto pelos cristãos. Algumas igrejas tratam pastores e líderes importantes com honras excessivas. Quando a imagem de um líder é onipresente, como do Grande Irmão da ficção 1984, a igreja mostra sinais de grande distância das palavras de Jesus. Há templos com grandes fotos de pastores coladas no púlpito. E os aniversários oficiais? Comemorar uma vez ou outra, tudo bem, mas tornar a festa de aniversário de pastores uma “data oficial” é quase cômico.

(v. 16-17) Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se o fizerdes.

Da teoria para a prática, assim é como Jesus vê o aspecto do exemplo moral dado por ele. O enviado (apóstolo, do grego) não é maior do que aquele que o enviou. É triste como na Igreja Evangélica Brasileira a palavra “apóstolo” perdeu o seu sentido de submissão e serviço para descrever malucos pela grandeza e bêbados na vaidade.

O ponto central do lava-pés: sacramento antes do moralismo

A grande lição do lava-pés é que o sacramento vem antes do exemplo. Não pense aqui “sacramento” como ordenança, mas como descrição da vida e morte de Jesus, ou seja, a própria salvação que advém do Senhor Jesus pelo sacrifício vicário. Antes de ter Jesus como exemplo moral é preciso tê-lo como Salvador. Qualquer movimento ao contrário é trágico. Como lembra perfeitamente o teólogo reformado Michael Horton: “Muitos comemoram esta ênfase no Cristo-como-exemplo em vez de no Cristo-Redentor como o prenúncio de um novo tipo de cristão, mas é isto realmente um antigo tipo de moralista?” [7]

Um moralismo que em nada ajuda, já que abraçar Cristo-como-exemplo sem regeneração é simplesmente trágico. O homem imperfeito sempre será esmagado pelo exemplo moral do Cristo perfeito. Antes do exemplo deve vir a salvação, pois somente no coração regenerado é possível exigir a vida de Cristo.
O moralismo do lava-pés sem o lado sacramental é uma abordagem tipicamente liberal. O teólogo liberal Rudolf Bultmann, por exemplo, rejeitava qualquer sacramentalismo nos evangelhos e definia o lava-pés somente como exemplo moral. A interpretação de Bultmann é parte dos pressupostos do modernismo teológico que vê Jesus não como o cordeiro pascal, mas somente como mestre da moral.

O mais irônico é que pregações em igrejas conservadores seguem rigorosamente o pensamento de Bultmann e de outros teólogos modernos. A nova onda de resgate da espiritualidade mística da Idade Média, por exemplo, é novamente uma ênfase no Cristo-exemplo do que no Cristo-Salvador. Além disso, há todo um movimento político-secular dos evangélicos na tentativa de moralizar a sociedade ocidental, sendo outro ponto de moralismo antes de sacramentalismo.

Joseph Ratzinger escreve sobre o lava-pés:

Os Padres (refere-se aos Pais da Igreja, teólogos dos primeiros séculos como Atanásio e Agostinho) resumiram a diferença entre os dois aspectos e sua recíproca relação nas categorias de sacramentum e exemplum: por sacramentum não entendem aqui um dos sete sacramentos (da doutrina católica), mas todo o mistério de Cristo- da vida e da sua morte- em que Ele vem ao encontro de nós, seres humanos, por meio do seu Espírito entra em nós e nos transforma. Mas, precisamente porque esse sacramentum “purifica” verdadeiramente o homem e renova-o a partir de dentro, torna-se também a dinâmica de uma existência nova. A solicitação para fazermos o que fez Jesus não é um apêndice moral do mistério ou mesmo algo em contraste com ele; tal solicitação deriva da dinâmica intrínseca do dom, com o qual o Senhor nos torna homens novos e nos acolhe dentro do que é Seu […] Essa dinâmica essencial do dom, pela qual agora Ele mesmo age em nós e a nossa ação se identifica com a dEle, manifesta-se de forma particularmente clara nesta afirmação de Jesus: “Quem crê em Mim fará obras que faço e fará até maiores do que elas, porque eu vou para o Pai” (Jo 14.12). Aqui está expresso precisamente aquilo que a frase “Dei-vos o exemplo” no lava-pés quer dizer: o modo de agir de Jesus torna-se nosso, porque é Ele mesmo que age em nós. [8] (destaque meu)

Mesmo sendo um teólogo católico, Ratzinger descreve perfeitamente a essência desse texto: É Jesus que age em nós para viver esse exemplo. E o agir de Jesus é por meio do Espírito Santo. E só se recebe o Espírito Santo pelo novo nascimento baseado na fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador despertados pela graça divina.

É como amar. O mandamento do amor não pode desprezar Romanos 5.5, quando Paulo escreveu: “O amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Vejam só. É difícil amar? É impossível com um coração não-regenerado. Só é possível amar depois de receber o amor. É um presente do Espírito Santo para os nossos corações. E o próprio Espírito Santo é também “nos dado”. Ensinar o amor se receber o Espírito Santo é trágico. O mandamento do amor é muito nobre para o esforço humano. É necessário, sempre, a ajuda divina. A graça não é somente para a salvação, mas também para a santificação. Antes do exemplo sempre deve existir o recebimento do sacramento.

Referências Bibliográficas:

[1] BRUCE, F. F. João: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1987. p 241-242.
[2] CARSON, Donald A. O Comentário de João. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p 467.
[3] HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry Novo Testamento- Mateus a João. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 963.
[4] PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F. e REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 1135.
[5] Leia mais: ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 623.
[6] Citado em: RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 229-230.
[7] HORTON, Michael. Cristianismo Sem Cristo. 1 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p 21.
[8] RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. 1 ed. São Paulo: Editora Planeta, 2011. p 66-67.   

Um comentário:

Donizete disse...

Olá Gutierrez. O ato de lavar os pés era um costume judaico ligado ao ritual da purificação. essencialmente o que jesus quis passar era a lição da humildade no serviço. O catolicismo por sua vez, incorporou o ato ao seu sistema ritualístico como pressuposto de pelo menos uma vez ao ano promover a chamada inversão de status.ou seja, aquele que ocupasse uma posição mais elevada na cadeia hierárquica deveria lavar os pés do seu subordinado próximo. há indicações que era uma prática comum também no período patrístico. Contudo na minha humilde opinião no cristianismo não há lugar para cerimonialismo ou ritualismo com valor místico. Neste aspecto concordo com Bultmam: nem a ceia ou o batismo podem conferir dádivas espirituais ao participante e/ou como sendo algo determinante para a salvação do indivíduo, por isso não possui caráter sacramentista. A mensagem central do texto de João sem dúvida é a humildade. Penso que a humildade se enquadra na categoria daquelas virtudes que erroneamente associamos a área dos sentimentos, como o amor e o perdão.Quando na verdade é uma questão de atitude, de decisão: "Porque eu vos dei o exemplo, para que, assim como eu vos fiz, vós façais também".