Pesquisar este blog

Carregando...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O mundo fantasioso dos cristãos conservadores!

Uma família tradicional. Perfeição?
Eu sou conservador. Sou cristão e um conservador teologicamente falando. Eu também me identifico com o conservadorismo político da tradição anglo-saxã. Admiro filósofos conservadores como Edmund Burke e Russel Kirk, além da rica tradição ortodoxa na teologia cristã.

O pensamento conservador é muito caricaturado. E, em parte, é culpa do “conservadorismo popular”. Mas não quero neste post escrever sobre as características do conservadorismo que abraço com entusiasmo. Neste texto quero falar do mundo de fantasias que alguns conservadores cristãos vivem. É, antes de tudo, uma crítica. Vejamos:

1. “O casamento é um ideal de felicidade”

Calma lá! A Bíblia em momento algum vende a fantasia que o casamento é um mar de felicidade e que casar virgem e/ou cedo signifique sucesso no matrimônio. Onde os conservadores cristãos estão lendo essa fantasia na Bíblia? O casamento, é claro, deve ser valorizado, mas sem vender a falsa ideia que casar nos moldes conservadores seja garantia de felicidade. Viver na promiscuidade não é opção para o cristão, mas a castidade não o fará mais radiante. Castidade é como matar um leão por dia. Se a “mortificação da carne” (Rm 8) fosse algo romântico não teria esse nome.

Casamento é relacionamento e não existe relacionamento fácil. O relacionamento é renúncia e entrega; dedicação e atenção. Quem disse que tais coisas sejam são básicas? É gratificante, mas não são tão simples como as quatro operações da matemática. O casamento é lindo e maravilhoso, mas não 24 horas por dia. O ideal de felicidade no casamento é um dos erros dos cristãos tradicionais. Seria essa fantasia uma espécie de autoajuda conservadora?

2. O foco demasiado em certos problemas em detrimento de outros

Li recentemente que um partido político (dito cristão) que diz defender os “valores da família” está brigando por mais cargos no governo. É fisiologismo puro. O fisiologismo é a “conduta ou prática de certos representantes e servidores públicos que visa à satisfação de interesses ou vantagens pessoais ou partidários, em detrimento do bem comum” (Dicionário Houaiss). O que adiante dizer que defende os “valores familiares” e agir como bandidos da riqueza nacional? Jesus chamaria isso de hipocrisia.

Não me esqueço de lembrar o “Escândalo dos Sanguessugas”, também conhecido como máfia das ambulâncias, que foi um caso de corrupção noticiado em 2006 devido à descoberta de uma quadrilha que desviava dinheiro da compra de ambulâncias. Vários deputados da Frente Parlamentar Evangélica estavam envolvidos no escândalo. Quem desvia dinheiro de ambulâncias é um assassino!

3. O país está debaixo maldição, pois as crianças não oram mais nas escolas!

O pensamento acima é bem comum entre os evangélicos norte-americanos. A “educação de orações” cabe aos pais e não ao Estado. Graças a Deus vivemos em uma democracia representativa e a democracia demanda que crenças e convicções sejam livres e exercitadas pelas famílias ou indivíduos e não pelas mãos do Estado. Isso não significa que o Estado deve banir a religião e suas manifestações tradicionais, ou seja, que já fazem parte da cultura de um país. Mas é exagero achar que “a não oração” em escolas públicas seja trágico. Trágico é uma igreja que não ora e hoje, infelizmente, é maioria.

PS: Esta é a primeira parte do artigo. Em breve publico a segunda parte.

11 comentários:

João Emiliano Neto disse...

Essa fantasmagoria toda do conservadorismo que você descreveu nesse seu post, caro irmão, são os porcos criando asas e escapando do cercado de qualquer ideologia, como diria Nietzsche. Ainda citando o filósofo, segundo ele, não adianta cercar qualquer idéia, porque o povão sempre cria asas e escapa...

Da barbárie de uma falta de valores conservadores sistemáticamente defendidos no Brasil e em outras partes do mundo à decadência e caricatura fantasmagórica do Conservadorismo serão passos rumo a um abismo de muita alucinação, sofrimento e sobretudo agigantamento estatal...

Que Deus nos perdoe.


ABRAÇOS irmão!

Ciro Sanches Zibordi disse...

Grande Gutierres,

Os conservadores são também CONVERSADORES, de acordo com o seu título. Risos.

Parabéns pelo blog, com todos os seus ótimos artigos, inclusive este.

Um abraço.

Ciro Sanches Zibordi

Gutierres Siqueira disse...

Pr. Ciro,

Obrigado pelo toque. Não tinha percebido, rsrs.

Mario Sérgio disse...

Caro Gutierres,

Você foi muito feliz em abordar esse tema. Realmente observamos certas quimeras, as quais de bíblicas e cristãs só possuem o nome. Ilusões construídas para defender interesses escusos e mesquinhos.

Um grande abraço!

Ricardo Rocha disse...

Bom dia. Admiro muito seu trabalho no blog.

No entanto gostaria de deixar minha visão sobre o assunto, em especial sobre o termo "conservador".

Conservador é um termo que, em si mesmo, não tem e nem pode ter qualquer significado específico. Isso porque ser conservador significa a disposição em conservar um determinado estado de fato em que se alcançou um IDEAL de fato que seja tido como bom. Sendo assim, conservador pressupõe um ideal, uma doutrina que, uma vez alcançada, deve ser protegida, conservada.

A questão é que, nesse sentido, o termo conservador pode ser aplicado a QUALQUER doutrina que, uma vez alcançada, deva ser defendida, seja o comunismo, anarquismo ou nazismo. Trata-se de um termo que só faz sentido quando em comparação com um superlativo qualquer.

O problema é que o hoje esse termo é usado de maneira ideológica, em contraposição com o termo "progressista", que traz em si mesmo uma noção de caminhar para frente, uma noção de melhora. Os conservadores são vendidos como "maus" que são contra o "avanço" enquanto os progressistas, quase sempre de esquerda, vendem a si mesmos como paladinos do progresso, da melhora.

O problema é que o termo "progressista" assim como termo "conservador" também não tem um significado intrínseco, pois também só pode ser aferido com base numa doutrina ou ideal fixo, mas que nesse caso ainda não foi alcançado, portanto se "progride" até ele. Logo também cabe a qualquer doutrina, seja o capitalismo onde ele ainda não seja aplicado, seja ao comunismo, nazismo, fascismo, etc.

Em suma, acredito que os termos conservador e progressista não devam ser usados como expressões doutrinárias mas sim somente em comparação com determinada doutrina. Isso evita o uso ideológico que é feito desses termos nos dias de hoje, que não passa de pura desonestidade.

A paz.

Sapão - André Luís Oliveira disse...

Itens 2 e 3 ok, mas isso também já foi declarado pela linha não tradicional também...

Sobre o item 1, até entendi o que o autor quis dizer, mas o tom do texto desestimula a busca do padrão que Deus deseja para o casamento. Muitas intempéries são evitadas se o padrão de Deus é seguido.

É o mesmo que dizer “mulher tem que ficar em casa pra garantir a educação dos filhos”. Claro que colocar na creche exige outros cuidados no tocante à educação, mas creio que há riscos em cada uma das opções (deixar na creche versus mulher ficar em casa), ainda que a segunda opção garanta os valores da família estabelecidos por Cristo.

Aprendiz disse...

Gutierres

Talvez não tenha sido exatamente essa a discussão sobre orações nas escolas. Houve muita grito por causa disso pelo fato das orações terem sido proibidas, o que foi uma interferência dos poideres federais nas escolas elementares (municipais). Ficou mais estranho ainda quando praticas esotéricas ou de religiões diversas passaram a serem promovidas (e essas sim de forma compulsória) nas escolas.

Aprendiz disse...

Agora vou dar uma opinião sobre o fato de associarem o conservadorismo a uma visão tacanha da realidade.

O que vou dizer me parece extremamente exato no Brasil, mas em outros países é parcialmente verdade.

No Brasil, todo pensamento conservador foi banido totalmente da vida acadêmica e quase banido das livrarias. Imagine um crente que ainda não tem muito estudo e que é conservador (como o povo normalmente é). Ele já foi pré-preparado no ensino básico é médio para aceitar as teses esquerdistas, por meio de um discurso constante e da sistemática mistificação da história e da ciência.

Ao entrar na universidade, fora o aprendizado estritamente técnico, tudo o que ele aprenderá são os ensinos de autores esquerdistas. Ele estará convencido de que é só isso o que existe. Então ele tem duas opções: ou abandona suas convicções conservadoras para se adequar ao que está aprendendo, ou as mantém com base esclusivamente em suas convicções e experiências pessoais e na Bíblia. A maioria adotará uma "solução de compromisso" tornando-se mais esquerdista em termos culturais e bastante esquerdista em termos econômicos.

Se essa pessoa se mantiver convicta de sua visão não esquerdista, mesmo depois de toda essa lavagem cerebral, então ela estará sozinha. Terá como argumentos apenas aquilo que ela conseguir depreender da Bíblia e de suas experiências pessoais. Ela estará isolada de todo pensamento intelectual conservador, ao qual ela normalmente nem tem acesso, e que ela ,muitas vezes, nem sabe que existe. Será o conhecimento pessoal e intuitivo de um homem comum contra uma estrutura intelectual que abarca virtualmente todo o universo acadêmico. Exatamente por isso, quem a observar de fora verá um pensador "tosco". Afinal ela aprendeu muitas coisas, mas não aprendeu nada sobre as bases intelectuais desse seus conservadorismo, o qual ela sustenta sozinha contra todos.

Valter Borges disse...

No Brasil, a maioria esmagadora dos evangélicos são conservadores!
Aliás, a igreja, por essência, é conservadora.
Quando você reage à aspectos do conservadorismo, está na verdade, combatendo o conservadorismo!
Vejo em seu texto tendências que comprovam, na verdade, uma certa inquietação dos equívocos do conservadorismo.
Isso é bom!
Entretanto, quando se afirma conservador e critica o conservadorismo, você passa a não ser conservador, mas, mas liberal.
Veja: quando critica o casamento, você se torna alvo dos conservadores. Percebe?
Portanto, ou busque outro viés, ou, você estará em contradição, pois que conservador, concordará, por exemplo com o divórcio, já que se o casamento não é a solução para tudo, os conservadores o transformaram em mandamento que não0 permite rupturas sob risco de perder salvação.
E, agora???
Boas reflexões

Gutierres Siqueira disse...

Valter,

Criticar os exageros de algo não significa ser conta a essência do objeto de crítica. O que critico são os exageros de conservadores, mas a base ainda é conservadora.

Valter Borges disse...

Gutierrez,

Ocorre que as pessoas fazem esta leitura!