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domingo, 26 de fevereiro de 2012

O esquema de “caixa dois” nas Igrejas Evangélicas

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O caixa dois é um dinheiro não contabilizado, não oficializado. As empresas e os políticos usam para sonegar impostos e para alimentar redes de relações. É interessante observar que o caixa dois é uma prática em diversas igrejas evangélicas. O problema acontece principalmente em denominações como as Assembleias de Deus, onde as congregações normalmente “sustentam” as respectivas sedes. O objetivo é evitar que todo o dinheiro que entra na congregação seja dirigido para uma sede distante.

Não quero comentar o valor moral do caixa dois em igrejas evangélicas. Sendo certo ou errado é uma questão menor neste texto. Fiquei escandalizado ao saber dessa realidade, mas existe a causa. A questão principal é: por que congregações fazem caixa dois para não mandar todo o dinheiro para uma sede? Por que alguns dirigentes tomam essa medida tão extrema? Qual a questão de fundo?

Algumas questões


1. O esquema “congregação sustentando sede” é irracional

As congregações mais pobres mandam dinheiro para sedes ricas. Isso soa irracional e o é. Na maioria das Assembleias de Deus e seus ministérios o esquema é parte essencial das igrejas pequenas com suas centrais. É comum ver templos maravilhosos em sedes pomposas e congregações em salões alugados sem nenhuma estrutura.

2. A congregação não possui autonomia sobre o dinheiro que arrecada

Na teoria a Assembleia de Deus é congregacional. Mas isso é só teoria, infelizmente. As congregações não possuem autonomia administrativa e financeira. As escolhas de investimento e aplicação dos dízimos e ofertas são feitas pelas respectivas sedes. Nada menos congregacional.

3. O dinheiro que vai para a sede não volta em resultados práticos

Durante anos e anos a congregação direciona dinheiro para uma sede, mas não recebe nada de volta. O dinheiro sempre vai, mas nunca volta em forma de investimento. É um dinheiro que fica invisível para quem contribui na base, pois o mesmo continua congregando em um salão alugado sem nenhuma estrutura. Não se vê investimento em missões transculturais, estrutura física da Escola Bíblica Dominical e assistência social.

4. A falta de transparência

O que é feito com o dinheiro? Onde é investido? Quais os planos futuros que envolvem contribuição financeira? Quando é direcionado para assistência social? Difícil responder qualquer uma dessas perguntas, pois nenhum relatório é disponibilizado. O único relatório disponível nas igrejas é aquele onde marca os “contribuintes do mês”.

É interessante ver como o apóstolo Paulo era preocupado em prestar contas às igrejas, mas hoje parece que isso não é necessário. Paulo, inclusive, não queria que o tema fosse empecilho para a proclamação do Evangelho. A sociedade contemporânea cobra coerência e transparência dos governantes, mas a igreja, como instituição, parece que não se deu conta disso. Lamentável.
________

Portanto, falar em dízimos e ofertas em um ambiente onde as pessoas veem o dinheiro que contribuem simplesmente “sumindo”, pois o resultado é invisível, logo fica difícil de ver um aumento da contribuição voluntária.

10 comentários:

Márcio Cruz disse...

Nobre Gutierres, Paz do Senhor!!!

Infelizmente, essa realidade eu sei muito bem como é. Vivi isso!!!
O que falta é cada dirigente munir-se da Lei e bater de frente contra a falta de assistência. Chega de pastorzão de Mercedes, Pajero (isso para não mencionar outras coisas). Pois parece que é para isto que o dinheiro que vai para as centrais servem: MANTER O LUXO DE MARAJÁ!!!
Se igreja é uma associação e os associados tem o direito de saber como está o caixa dela, que seja feita a prestação de contas!!!

Em Cristo,

Ir. Márcio Cruz

Daniel Meurer disse...

irmão Gutierrez,

Triste mas verdade, vejo esse sistema irracional em minha congregação. Nas matriz é dito que as entradas e saídas podem ser vistos por qualquer um. Porém, na prática quem cobra isto e taxado de rebelde, que ousa querer saber o destino do dinheiro é carnal e avarento que ousou desafiar a liderança. Em decorrencia disso para qualquer necessidade especial da congregação é necessário se levantar mais uma oferta especial para cobri-la.

Dayan & Felipe Comunicação disse...

Fico me questionando, qual é a soluçao para tudo isso?

Gutierres Siqueira disse...

Dayan,

Na minha opinião, a solução para este problema específico está na autonomia congregacional.

George Gonsalves disse...

O afastamento do padrão bíblico gera esta aberração eclesiástica. Toda congregação deve ser autônoma, com liberdade para eleger seus líderes e administrar o dinheiro arrecadado. Abaixo os "vaticanos" evangélicos (sedes) e seus "papas" (pastores-presidentes)!

Jonas Ferreira disse...

Muito bom esse comentário, porém, A Assembléia de Deus não é apenas uma congregação... acho que você deveria conhecer melhor todos os projetos da Assembléia, digo por experiência própria, não quero apenas defender, claro que como em todos os lugares inclusive na imprensa tem suas laranjas podres, mas não posso generalizar como um todo, conheça um pouco mais da Ad Belem Setor 52 Congregação Vargem Grande 1 eu te convido

Gutierres Siqueira disse...

Jonas,

Creio que você não entendeu o post. Não falei da denominação como "congregação", mas sim sobre o regime congregacional que foi abandonado no decorrer dos anos.

Abraços

carlos disse...

Um tema por demais relevante.
Uns meses atrás estava conversando com um adventista e ele testemunhou o que acontece em sua denominação,lá os pastores,na maioria deles ganham salário igual, que os mantem bem,além de ter escola paga para os filhos.Bem, se isso for verdade seria um exemplo a ser seguido.

Jônatas O. D. disse...

Engraçado irmão Gutierres, parece que a Assembleia de Deus só não consegue manter unidade nas doutrinas realmente bíblicas e inegociáveis; mas quando se trata de problemas institucionais, "eternizados pela tradição", é tudo a sempre a mesma coisa. Sou do interior do Rio de Janeiro e a realidade é bem semelhante à descrita pelo senhor. Temos até congregações bem cuidadas aparentemente, não praticamos o tal caixa dois, mas as crises do sistema "pobre sustenta o rico" logo surgem:

. A falta de autonomia administrativa só permite que se faça aquilo que o Pastor Presidente "QUER FAZER" e não aquilo que interessa aos congregados.

. Quando a sede está investida em um gasto maior, já não se pode comprar mais nada para a congregação, pois não se pode gastar o dinheiro "da sede", "ops", ou seria da Igreja? Contudo, na prática, é administrado como se fosse do próprio pastor mesmo, afinal de contas é ele quem decide o que faz ou não com o mesmo!

Outra consequência deste sistema é que as congregações permanecem "eternamente congregações"! Nunca adquirem autonomia, sempre contam com meia dúzia de "gatos-pingados", e isto por que? Porque colocam qualquer dirigente, qualquer ministro, sem preparo algum, e quando a congregação começa a crescer um pouquinho, mudam o dirigente, as pessoas ficam insatisfeitas, e trocam de ministério.
E assim vai a Assembleia de Deus... dando tiro no seu próprio pé!!!!!??
Cabe à nós reagirmos à tal sistema que na verdade não prioriza os valores do Reino de Deus, mas sim o do reinado de alguns que se dizem pastores.

A Paz do Senhor Jesus à todos!

Jônatas O. Duarte

Evangelista Anderson Ferreira Fontes disse...

A paz amado Jônatas.
Na verdade, eles não estão dando um "tiro no próprio pé (como disseste)". Isso é intencional.

Eles fazem isso por causa do povo. É o povo que aceita tudo, se esquecendo que o que manda na organização religiosa é a maioria simples de voto.