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quinta-feira, 29 de março de 2012

O que o Apocalipse não é?

Não confunda o profeta João com o lunático Nostradamus!
Por Gutierres Fernandes Siqueira


Neste segundo trimestre de 2012 estudaremos, nas escolas dominicais de confissão assembleiana, o último livro da Bíblia: o Apocalipse de João.

Estudar o livro das revelações será uma rica oportunidade para apresentar o que o Apocalipse não é. Infelizmente, a Igreja Evangélica Brasileira está contaminada por uma escatologia de matriz popular e espetacular sem a devida reflexão bíblica e desprovida de uma exegese bem trabalhada.

O que o Apocalipse não é?

1. O Apocalipse não é Cabala. O livro não pode ser interpretado como um manual de códigos misteriosos que precisam de uma intuição apurada para abraçar verdades ocultas. O Apocalipse não é “uma tabela de enigmas matemáticos ou um almanaque astrológico divinamente inspirado” [1]. A simbologia do Apocalipse não é de fácil interpretação, mas como lembrava o teólogo F. F. Bruce: “mesmo que em alguns aspectos tenhamos perdido totalmente a chave para a compreensão do texto, as linhas gerais da mensagem são suficientemente claras” [2]. A dificuldade em analisar símbolos, imagens e figuras não justifica nenhuma interpretação exótica e rica em criatividade ficcional.

2. O Apocalipse não é numerologia. As análises dos números no Apocalipse certamente são parte importante da interpretação dos símbolos e figuras. Mas é certamente temoroso qualquer espiritualização dos números classificando-os como divinos. A tendência supersticiosa é forte na numerologia.

3. O Apocalipse não é um livro aterrorizante. A revelação bíblica não é baixa literatura de terror. Quantos dizem ter medo de ler o último livro da Bíblia? Já ouvi de uma professora de literatura a confissão desse temor. Quem assim pensa esquece que o Apocalipse foi escrito para o conforto dos cristãos que eram duramente perseguidos pelos governadores tiranos de Roma.

4. O Apocalipse é profético, mas não frenético e detalhista. Há quem veja a União Soviética (que nem existe mais), a União Europeia, o papa João Paulo II (que já morreu), a queda das Torres Gêmeas, a China (seria o dragão?) e outros fatos históricos, geopolíticos e religiosos nas páginas do Apocalipse. É quem quer ler o jornal do dia nas profecias de João. É o desejo estranho ao cristianismo de adivinhar detalhes do futuro. Infelizmente, para muitos evangélicos o Apocalipse é uma espécie de Nostradamus.

5. O Apocalipse tem Cristo como tema principal. Como Sagradas Escrituras o livro não poderia de deixar a ênfase na supremacia de Cristo. O foco do livro não são tribulações, mas sim a pessoa de Jesus Cristo.

Referências Bibliográficas:

[1] BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 2214.
[2] BRUCE. Idem. pp 2212 e 2213.

9 comentários:

Luciano disse...

Olá, Gutierres!
É curioso como o nome do livro em grego - Apocalipse - tendo se suplantado à tradução - Revelação - é usado a partir desse imaginário que você classificou como de matriz popular e espetacular!
O nome de um conhecido filme sobre a Guerra do Vietnã - Apocalipse Now - é um exemplo. Não faz o menor sentido se nos referirmos ao nome em português.
Um parente meu, crente (!), quando as coisas estão desandando de uma forma meio bizarra, exclama, entre surpreso e temeroso: "É o apocalipse!"
Mas você ressaltou de forma muito feliz no seu post que o livro foi escrito para o conforto dos cristãos - é, então, uma promessa!
Mas imagina o camarada remexendo lá na caixinha de promessas que comprou numa lojinha gospel e retirando um papelzinho escrito "Apocalipse"! No mínimo ia achar que ia morrer naquele dia, além de não entender como aquilo foi parar numa caixinha de promessas (rsrsrsrs).
É o povo ainda sofrendo por falta de entendimento... então, instrução neles, meu amigo!
Forte abraço!

Oseias B. Ferreira disse...

Gutierrez,

A história sempre teve os seus apocalipses. Todas as gerações teveram o seu apocalipse. E nem é preciso dizer que cada um de nós tem o seu próprio apocalipse, amigo.

Oseias

Oseias B. Ferreira disse...

Gutierrez,

A história sempre teve os seus apocalipses. Todas as gerações teveram o seu apocalipse. E nem é preciso dizer que cada um de nós tem o seu próprio apocalipse, amigo.

Oseias

Fellyp Cranudo disse...

GUITIERRES,

Sensacional as tuas colocações - desde já informo que estarei reproduzindo em meu blog;

Nas oportunidades que tive de ministrar à EBD de minha congregação sempre coloquei que:
"...o Apocalipse foi escrito para o conforto dos cristãos..."
Que ele é como um testamento em que nos diz o que receberemos.

Abraços,
na fé e oração por uma vida sadia e fora da caixinha,

MAC disse...

Graça e paz Gutierres.

Pertinente as suas colocação. Seu post veio bem a calhar.
Dias atrás um irmão da AD compartilhou comigo a dificuldade que teria em expor o livro do Apocalipse na EBD.
Diferenças escatológicas à parte, extirpar conceitos equivocados sobre esse livro abençoado não é tarefa fácil.

Em Cristo,

Mac (do bibotalk.com.br e do amilenismo.com)

Aprendiz disse...

Gutierres

Se você tiver tempo, gostaria que comentasse este artigo:


http://www.midiasemmascara.org/artigos/globalismo/12928-o-advento-da-ditadura-secreta.html

Aprendiz disse...

Quanto ao Apocalipse, ele não é exceção. Os cristãos tem grande dificuldade em interpretar os livros proféticos (que são uma grande parte da Bíblia). Creio que isso se deve ao fato da maioria dos pastores e mestres terem pouco entendimento do pensamento judaico.

Há muitos textos do NT em que se interpretam os textos do AT, e eu ficava espantado, pensando "de onde saiu essa interpretação, não consigo ver isso nesse testo". Pois bem, muito depois eu fiquei sanbendo de interpretações rabínicas que iam no mesmo sentido. Até mesmo as interpretações que Jesus fez, quase todas tem precedente nas interpretações dos rabinos.

Então, talvez a chave para o estudo mais profundo da Bíblia seja uma atitude de maior interesse pela cultura e pensamento hebraico 0antigo.

Fazendo um paralelo, imagine um estudioso que tentasse entender um antigo livro japonês, de linguagem um tanto hermética, mas desprezasse totalmenteo estudo do pensamento japonês daquela época. Alguém ache que ele teria sucesso?

Faltam mais estudiosos que façam essa ponte, e faltam pastores dispostos a estudar os poucos estudos que existem a respeito.

Adilson Benevides disse...

O "Problema" apontado pelo aprendiz, desaparece se entendermos que são dois povos distintos que vivem sobre revelaçoes diferentes, uma coisa é o Judaismo e outra é Cristianismo! Ja me disseram o todo o NT é talmudico em sua interpretação mas, sabemos que o próprio Jesus, Judeu, condenou as "interpretações" farisaicas, e dos judeus da chamada tradição dos ançiãos! Uma coisa é entender o pensamento dos Judeus no Primeiro Seculo e entender como eles receberam a MENSAGEM APOCALIPTICA, outra coisa é dar a essa mensagem interpretação rabínica , o que discordo veementemente, senão teriamos tal interpretação também para Gálatas e Hebreus e não só Apocalipse.

Aprendiz disse...

Adilson Benevides

Há duas coisas diferentes aqui, que talvez o irmão esteja confundindo.

Uma coisas são as interpretações rabínicas em si. A respeito da maioria dos assuntos, a interpretação de Jesus era bastante contrária à interpretação da maioria dos rabinos. Ele geralmente estava com a minoria. Portanto, se formos simplesmente seguir a "interpretação rabínica" significando com isso o pensmaneto comum da maioria dos rabinos, geralmente entenderemos diferente de Jesus, e portanto estaremos errados.

Agora, outra coisa muito diferente é entender as palavras de Jesus no contexto do debate de sua época e esse era um contexto judaico. Seria um anacronismo de nossa parte tirar as palavras de Jesus desse debate. Mas para entendermos ela dentro desse contexto, nós teríamos de conhecer esse contexto. E claramente a maioria dos ministros cristão não o conhecem, ou dele tem apenas um esboço caricato.

Quanto aos outros livros do NT acontece a mesma coisa. Grande parte do novo testamento foi escrito por Paulo, que não veio de marte. Era simplesmente um judeu que havia passado muitos anos estudando a Tanacha (AT) com mestres judaicos. O contexto em que ele viveu o moldou.

Quando Jesus apareceu inicialmente para Paulo, ele disse uma coisa estranha "dura coisa é para ti recalcitrares contra os aguilhões". O que ele quis dizer com isso? Penso que já naquela época Paulo resistia a uma impressão íntima de que Jesus seria o Messias. Seus estudos o conduziam a isso, mas ele resitia horrorizado diante dessa idéia. A doutrina de Paulo parece ser o resultado da sofrida luta de um estudioso judeu, que reconheceu de repente no seu pior inimigo o Messias por quem esperava. Então vem uma outra luta, para compreender porque estivera tão cego, a ponto de não ver o evidente.

De qualquer forma, o material de estudo que os escritores do NT tinham era a Tanach. E a primeira coisa que um estudioso deve entender sobre um texto é o significado que ele tinha para os seus leitores originais. E a única forma de entender o seu significado para os leiotres originais, é compreender o pensamento desses leitores. Certamento Jesus e os apóstolos entendiam muito bem esse pensamento, e esgrimiam bem por causa disso.

A respeito especificamente de Apocalipse, suas mensagens e suas imagens são uma retomada e ampliação das mensagens e imagens dos profetas do AT. Parece difícil que entenda Apocalipse aquele que recusa-se a entender os profetas, dentro de seu contexto.