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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Seria o “fundamentalismo cristão” tão perigoso quanto o “fundamentalismo islâmico”?

Um jornalista dinamarquês quase foi morto por causa desse cartum.

"Há vinte anos, seria inconcebível que o acerbispo de Canterbury pronunciasse um discurso em favor da incorporação da lei religiosa islâmica (a shariá) ao sistema legal inglês. Hoje, contudo, muitas pessoas julgam essa uma proposta razoável, talvez um avanço rumo a uma contemporização pacífica". [Roger Scruton 1] 

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Os “politicamente corretos” respondem com um sonoro “sim”. Ora, para eles um afegão do Talibã e um americano do Bible Belt são exatamente a mesma coisa. Exagero? Sim, um tremendo exagero. O fundamentalismo cristão não pode ser comparado com o fundamentalismo islâmico por vários motivos que veremos neste texto.

Em primeiro lugar eu quero informar que não nutro nenhuma simpatia pelo fundamentalismo protestante. Quem é leitor assíduo do blog sabe disso. O fundamentalismo nasceu como uma reação positiva ao liberalismo teológico europeu em solo americano, mas com o tempo transformou-se em um monstro anti-intelectual, anticultural, anticientífico e anticarismático.

Eu tenho horror desse povo que afirmar ser herege aquele que não acredita na literalidade da palavra “dia” do primeiro capítulo de Gênesis ou que se referem aos dinossauros como “uma grande mentira inventada para desacreditar a Bíblia”. Além disso, como pentecostal que sou, não tenho nenhum motivo para simpatizar com o movimento que mais combateu o pentecostalismo com uma teologia fraca e preconceituosa. Portanto, não sou e nem admiro o fundamentalismo protestante.

Agora, não é porque eu não gosto do fundamentalismo cristão que serei injusto com ele. É uma tremenda injustiça comparar, como eu já disse, um protestante abitolado com um islâmico fanático. Por que afirmo isso? Vejamos:

1. O “fundamentalismo islâmico” é um fenômeno abrangente e causador de instabilidade política e o “fundamentalismo cristão” não o é

É claro que o fundamentalismo islâmico não é a maioria do Islã, porém é um fenômeno bem abrangente. É um movimento tão forte que é capaz de instabilizar vários países ao mesmo tempo. Existe algum país instável por causa do fundamentalismo protestante? Se você respondeu que os Estados Unidos estão desestruturados por causa dos seus “fundamentalistas” é melhor começar a ler mais jornais e estudar com mais afinco a cultura americana. O primeiro sinal de analfabetismo sobre a política americana é associar o movimento libertário Tea Party ao Bible Belt, como muitos jornalistas fazem por aí. Agora, não temos dedos suficientes não mãos para contar todos os países que neste momento estão instáveis por causa do fundamentalismo islâmico.

2. O “fundamentalismo islâmico” é violentíssimo, mas o “fundamentalismo cristão” não o é

Bom, eu não tenho medo de discordar de um pastor como o Pat Robertson. Ora, por mais chato que ele seja como um fundamentalista, no mais Robertson não explodirá a minha casa. Agora, seria você capaz de criticar um talibã na cara dele? Falar mal dos fundamentalistas cristãos é fácil, mas o difícil mesmo é encarar os fundamentalistas xiitas. A prova maior disso é que ninguém no Ocidente tem a coragem de queimar um Alcorão, enquanto existem dezenas de vídeos no YouTube de pessoas queimando Bíblias e outros livros sagrados. Quem queima livros é sempre um idiota. Uso o exemplo só para comparar a reação violenta de cada grupo. É necessário muita desonestidade intelectual para equiparar ambos os grupos. Alguém já viu um grupo de cristãos fundamentalistas queimando uma mesquita?

E os médicos abortistas que foram mortos em atentados? São casos isolados que ocorreram nas décadas de 1980 e 1990, mas não é um fenômeno que encontre apoio de nenhuma igreja institucionalizada ou mesmo de organizações cristãs. Além disso, os fanáticos que assim fizeram não foram necessariamente ligados a uma igreja ou motivados por pregações de pastores fundamentalistas. As principais e maiores organizações pró-vida nos Estados Unidos combatem qualquer tipo de militância que use a violência. E nada mais anticristão do que o uso da violência.

03. A leitura e a estrutura bíblica inibem a formação de fundamentalismos, enquanto a singularidade do Alcorão não deixa margens para dúvidas

Há inúmeros cientistas da religião que mostram o porquê do Islã produzir mais fundamentalismos (e com grande violência) do que o cristianismo e o judaísmo. A grande razão seria a fonte da relevação, pois enquanto a Bíblia é variada em estilos e textos, o Alcorão é um texto dogmático e linear que não deixa margem para diversas interpretações. Não é à toa que o cristianismo está dividido em três grandes grupos (catolicismo romano, catolicismo ortodoxo e protestantismo) e esses grupos estão subdividos em vários outros.

Pondé comenta:

O texto sagrado do Corão, à diferença da Bíblia ocidental, que levou, grosso modo, uns mil anos para se constituir como cânone oficial (texto sagrado) das religiões judaica e cristã, se fechou como cânone em cerca de 50 anos apenas. Além disso, a forma da linguagem é basicamente constituída de leis divinas de comportamento. O pouco tempo de “escrita” e a hegemonia de um único estilo literário implicam necessariamente menor “ruído” interno ao próprio texto, por isso menos contradições surgiram quando o texto ficou “pronto” (e deve ter sido, claro, escrito por “menos pessoas”). Se um texto foi escrito durante mil anos (e há nele, como no caso da Bíblica, mais estilos literários, como poesia, narrativa mítica, livro de personagens, profecias, livros de conteúdo moral), o número de pessoas envolvidas na criação é bem maior do que em 50 anos, e daí os “ruídos” que tornam uma leitura “fundamentalista” menos viável [2].

A divisão e a variedade no cristianismo fazem mais bem do que mal, enquanto a grande unidade do islamismo permite o florescimento de fundamentalismos extremos.

Portanto, não se trata de dizer que todo muçulmano é um terrorista em potencial, mas sim que todo fundamentalista islâmico o é. E o mesmo não pode ser dito dos fundamentalistas protestantes e católicos, pois os mesmos são chatos, mas não violentos e causadores de instabilidades políticas.

Referência Bibliográfica:

[1] SCRUTON, Roger. O Islã e o Ocidente: questões em confronto. Dicta e Contradicta. Número 03. Julho, 2009, São Paulo. pp 56-67.

[2] PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. 1 ed. São Paulo: Leya, 2012. p 126.  
 



2 comentários:

Anônimo disse...

Talvez, a abordagem deva ser outra; buscar a compaixão ao invés de tentar ter razão.

http://www.ted.com/talks/lang/en/karen_armstrong_makes_her_ted_prize_wish_the_charter_for_compassion.html

Um abraço
Paulo

Anônimo disse...

Olá, qual sua opinião a respeito do editorial do Estadão de 29 de abril,sob o título "Uma proposta de estarrecer"?