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segunda-feira, 16 de julho de 2012

O luto e a morte

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A morte é assustadora, dolorosa, difícil e extremamente desagradável. Não negue isso. Não finja elevada superação triunfalista. Há quem tente minimizar a dor da morte, mas certamente quem assim o faz não logrará sucesso. Ora, diante da morte até Jesus Cristo, o Deus-Homem, suou sangue. Esse suor era um efeito do estresse elevadíssimo nas últimas horas de sua vida. Vamos dizer que não tememos algo para o qual não fomos preparados? Só cinicamente poderíamos fazê-lo. O escritor C. S. Lewis expressou diante do luto as palavras a seguir: “É difícil ter paciência com pessoas que dizem: ‘A morte não existe’, ou ‘A morte não importa’. A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece traz consequências, e tanto a morte quanto as consequências são irrevogáveis e irreversíveis” [1]. Ora, dizer o lugar comum que “crente não morre” não alivia a dor diante desse processo inevitável.

Cuidado com os “consolos” recheados de clichês e piedade barata, pois, muitas vezes, é melhor ficar calado do que tentar oferecer um conforto com palavras vazias. O momento do luto é um momento de poucas palavras. Os amigos de Jó falharam barbaramente nisso, pois ficaram calados por apenas uma semana: “Depois se assentaram no chão com ele, durante sete dias e sete noites. Ninguém lhe disse uma palavra, pois viam como era grande o seu sofrimento” [Jó 2.13]. E, quando abriram a boca, soltaram todos os discursos fáceis da Teologia Retribuitiva, mas o próprio Deus condenou todo o palavreado desses amigos. O Senhor foi enfático na reprimenda aos consoladores: “Vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó” [Jó 42.8]

O luto tem estágios e precisamos entender isso. A psiquiatria moderna desenvolveu o Modelo de Kübler-Ross, ou seja, nessa teoria o luto tem pelo menos cinco estágios, a saber: a negação, a raiva, a negociação, a depressão e a aceitação. Nem todos passam pelos cinco ciclos e nem necessariamente nessa ordem, mas os sentimentos descritos nesse modelo refletem a realidade do enlutado. O irlandês C. S. Lewis, por exemplo, escreveu o livro A Anatomia de uma Dor onde vemos claramente essas fases no decorrer dos capítulos. Conhecemos um Lewis revoltado no luto diante da morte de sua amada, mas que depois ele expressa aceitação. Exemplo disso é a linda mensagem sobre o silêncio de Deus diante da tragédia. Lewis, no início do livro, escreve em forma de desabafo:

Mas, volte-se para Ele (Deus), quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho sendo passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas. Talvez seja uma casa vazia. Será que, algum dia, chegou a ser habitada? Assim pareceu, certa vez. E essa semelhança era tão forte quanto agora. O que isso pode significar? Por que em tempos prósperos Ele mais parece um comandante e em tempos conturbados Sua ajuda é tão ausente? [2]

Todavia, passado o tempo mais crítico do luto, Lewis completa no final do livro:

Aos poucos passei a sentir que a porta não está mais fechada e aferrolhada. Será que foi minha necessidade frenética que a fechou na minha cara? Quando nada há em sua alma exceto um grito de socorro talvez seja o exato momento em que Deus não o pode atender: você é como o homem que se afoga e que não pode ser ajudado por tanto se debater. É possível que seus gritos repetidos o deixem surdo à voz que você esperava ouvir. [3]

É necessário respeitar o espaço e o momento do luto. Cada pessoa reagirá de uma forma. Não podemos tomar a nossa própria experiência como parâmetro que mede o luto alheio.

Estamos na era dos adultos que vivem como bebês. E essa geração detesta encarar a realidade. “Vivemos numa geração mariquinha”, como afirmou o famoso cineasta e ator Clint Eastwood [4]. Portanto, falar da “morte” em um tempo da autoestima festiva é citar um tabu, ou seja, é um assunto proibido. Nunca foi fácil falar da morte e nunca deveria sê-lo, porém a era presente dramatiza ainda mais essa realidade inevitável. A morte não é, obviamente, um assunto confortável, mas deve ser encarado. Ora, um dia a nossa hora chegará. Como dizem, só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. O sábio Salomão já aconselhava: “É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério” [Eclesiastes 7.2].

Obviamente não devemos celebrar a morte, pois somente os mórbidos fazem isso. Mas, também, não podemos fugir desse tema. Há até crentes supersticiosos que acreditam no fato que falar da morte atrai a "Morte" como uma entidade personalizada. É o famoso "vira essa boca pra lá" ou "bate na madeira". E, certamente, há crença na superstição é a ausência da doutrina da graça.

Concluo dizendo que devemos trata o assunto com muito cuidado. A dor não pode ser menosprezada, ignorada ou tratada como algo menor. Na verdade, nem nós sabemos como reagiremos diante de uma tragédia próxima. E, é claro, nem é bom saber.

Referências Bibliográficas:

[1] LEWIS, C. S. Anatomia de uma Dor: um Luto em Observação. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p 39.

[2] LEWIS, Idem. p 31.

[3] LEWIS, Idem. p 65-66.

[4] EASTWOOD, Clint. O Que Aprendi. Revista Piauí. Rio de Janeiro: Maio de 2012. Acesso em: 14/07/2012 Disponível em: <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-68/o-que-aprendi/se-eu-fosse-mais-disciplinado-poderia-ter-sido-musico>

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