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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os jovens pentecostais, os teólogos liberais e a pseudoerudição (Parte 2)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

No último domingo publiquei o texto Os jovens pentecostais, os teólogos liberais e a pseudoerudição e nele esqueci de mencionar uma observação do erudito evangélico D. A. Carson que eu tinha separado para esse artigo. O Carson alerta quanto ao bom, mas perigoso “negativismo” contínuo. E, também, quero falar brevemente sobre a doutora Eta Linnemann que foi mencionada pelo amigo-leitor Matias Heidmann no campo de comentários. E, por último, escrevo sobre o termo “conservador” como colocado impecavelmente pelo amigo-leitor Ricardo Rocha.

Portanto, por favor, peço que você leia a primeira parte do texto e os comentários antes de prosseguir neste artigo [leia aqui]. E, do diálogo com os leitores, vamos criando novos textos pelos novos debates. Houve outros comentários bem interessantes dos leitores, mas não há espaço de tempo para trabalhar todos os pontos levantados.

Negativistas!

Um traço marcante na vida acadêmica é o negativismo, ou seja, a tendência de sempre apontar problemas, viver de refutações, negar a estrutura vigente etc. e tal. Isso atinge tanto liberais como conservadores. Mas não é exagero afirmar que o liberalismo teológico é o ápice do negativismo. Além disso, ser negativo em excesso é uma baita tentação para blogueiros e estudantes de teologia. E aí eu me incluo, pois como diziam os antigos católicos na missa conhecida como Confiteor: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa (minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa; em latim)!

Bom, mas qual é o lado ruim do negativismo? Ora, é a velha e conhecida vaidade. O orgulho, como dizia C. S. Lewis, é o “grande pecado” porque um orgulhoso nunca se reconhece como tal. Se eu tenho um conceito elevado sobre mim mesmo, como poderei considerar-me entregue ao pior dos vícios? O orgulho cega. É fácil se reconhecer adúltero, mas não é simples confessar a altivez. “Não existe nenhum outro defeito que torne alguém mais impopular, e mesmo assim não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos. Quanto mais o temos, menos gostamos de vê-lo nos outros”, escreveu Lewis [1].

Mas voltando ao D. A. Carson, que é um teólogo de primeira linha, ele escreveu sobre o negativismo:

Um negativismo contínuo é espiritualmente perigoso. Se a principal ambição da vida de alguém é descobrir tudo o que está errado- seja com relação à vida, seja no que diz respeito a algum componente dela, como por exemplo a exegese- essa pessoa está se expondo à destruição espiritual. Gratidão a Deus tanto pelos coisas boas quanto por Sua soberana proteção e propósito, mesmo nos fatos ruins, é a primeira virtude que se perde. A isso logo se seguira a humildade, na medida em que o crítico, conhecendo profundamente as falhas e falácias (especialmente as dos outros!), começa a sentir superior àqueles que ele censura. Sentimento de superioridade espiritual não é uma virtude cristão. O negativismo constante é um alimento altamente energético para o orgulho. Tenho observado que os estudantes de seminário, sem falar dos professores, não estão particularmente livres desse perigo [2]. 

Eta Linnemann:
Liberal que tornou-se pentecostal
Sim, mesmo reconhecendo que eu possa ser um negativo extremado, volto a falar no liberalismo teológico. A preocupação de um jovem teólogo que “descobriu a roda” que fora “inventada” pelo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834) é o, volto ao termo, negativismo profundo. Não é à toa que alguns tornam-se “desigrejados” e passam a abraçar uma militância pelo fim da igreja institucionalizada. E, convenhamos, todo militante é um chato. É uma mistura de azedume com ressentimento [3]. Outros, ainda dentro da instituição, tentam converter os “ignorantes e manipulados da igreja”, como relatei no primeiro texto.

Uma característica do negativista é sempre achar “o outro” um “manipulado” e “ignorante”. Bom, os adolescentes costumam achar que os seus pais são uns imbecis porque esses não sabem abrir uma conta no Facebook ou não sabem ligar o PlayStation. Mera arrogância aborrecente, pois os mesmos ainda passarão por experiências de vida que os pais já passaram há décadas e que eles ainda nem sonham com lidar com tais realidades. Assim, o negativista se comporta como um adolescente. É a arrogância na ignorância. O “ignorante” da igreja pode dar um aula que jamais imaginaríamos.

Eta Linnemann

A professora alemã de teologia Eta Linnemann (1926-2009) foi discípula direta de Rudolf Bultmann (1884-1976). Ela trabalhou, também, com outro grande nome do liberalismo, o teólogo Ernst Fuchs. Linnemann escreveu várias obras defendendo a Alta Crítica na sua vida acadêmica, mas renunciou o método histórico-crítico ao se converter (segundo seu próprio testemunho) em uma igreja pentecostal. Depois disso, Eta Linnemann pediu a todos que desconsiderassem os seus antigos escritos e seguiu carreia missionária a partir de 1983. Ela treinou inúmeros pastores na Indonésia. [Leia o testemunho dela aqui]

O amigo-leitor Matias Heidmann lembra que Eta Linnemann começou a se sentir incomodada ao ler relatos de milagres contemporâneos escritos por teólogos africanos. Convidada por alunos para uma ouvir uma pregação evangelística, Linnemann acabou se convertendo em uma igreja pentecostal. Ela cria no exercício contemporâneo dos dons espirituais e passou a ensinar o método histórico-gramatical.

Há dois livros em português publicados pela editora Cultura Cristã dessa autora: A Crítica Bíblica em Julgamento e Crítica Histórica da Bíblia.

Bom, com esse testemunho vemos que antes o pentecostalismo “convertia” liberais, mas agora está acontecendo o oposto. Que pena!

O termo “conservador” e “liberal”

A “Teologia Liberal é um movimento que, iniciado no final do século XIX na Europa e Estados Unidos, tinha como objetivo extirpar da Bíblia todo elemento sobrenatural, submetendo as Escrituras ao crivo da crítica científica (leia-se ciências humanas) e humanista. No liberalismo teológico, geralmente, não há espaço para os milagres, profecias e a divindade de Cristo Jesus” [4]. Mas não confunda os liberalismos. O Ocidente recebeu a influência de dois tipos opostos de liberalismo, sendo o inglês e o francês. O economista Luiz Felipe Estanislau do Amaral assim desenha as diferenças:

O conceito de liberal tem duas origens distintas, independentes e quase opostas- a clássica, de Smith, e uma outra na Revolução Francesa e no movimento liberal espanhol do século XIX. Este não tinha como objetivo a liberdade de mercado, mas o enfraquecimento da monarquia e da Igreja na Espanha. Seus membros diziam-se liberales por contraposição com os "servos" do Rei; e, curiosamente, o liberalismo no sentido norte-americano provém desta segunda origem. [5]

O liberalismo teológico é herança do Iluminismo e, por isso, recebe o nome de “liberal”.O teólogo alemão Friedrich Schleiermacher, o pai da teologia liberal, acatou as críticas do Iluminismo contra a ortodoxia protestante, mesmo rejeitando alguns pontos da filosofia das luzes. Em Schleiermacher, a experiência era a causa da doutrina, enquanto a objetividade ortodoxa colocava (e coloca) a doutrina como originadora da experiência.

A experiência conservadora nasce como eu reação ao Iluminismo e à Revolução Francesa. Portanto, antes de ser uma caricatura de “defensores do status quo” o conservador desconfia como um cético de todo discurso que diz promover o progresso do homem em alguma engenharia social. O conservadorismo não é a busca de um “estado perfeito” que supostamente existiu no passado (isso se chama “reacionarismo”). Ora, enquanto o revolucionário busca a perfeição futura com suas temerárias paixões totalitárias, o reacionário busca a perfeição em um passado idílico. Ambos são a mesma coisa, ou seja, são pessoas que negam o presente em sua complexidade. O presente envolve o passado (tradição) e os desafios futuros (inovação). Nem oito nem oitenta. O conservador consciente desafia a ideia de progresso que faz engenharia social (utopias políticas), mas não nega a necessidade de avanços.

O ensaísta João Pereira Coutinho expressa bem esse ponto:

Na utopia, a liberdade, a igualdade e a fraternidade são totais- sem concessões ou compromissos. Exatamente o contrário do que sucede na vida real, na vida dos homens reais, permanentemente dividios entre valores rivais, incompatíveis, incomensuráveis. “Total liberdade para os lobos significa a morte dos cordeiros”, escreve Berlin. Pensar politicamente é pensar num universo de escolhas, e de sacrifícios, e de compromissos [6].

Portanto, como defensor da democracia em detrimento de “sonhos políticos”, o conservador sabe que o regime democrático é antiutópico por natureza [7]. Nesse pensamento, o conservadorismo político ou teológico entende que nenhuma aventura conceitual vale a pena sem sustentação histórica. “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol” [Eclesiastes 1.9].


Referências Bibliográficas:

[1] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p 161-162.

[2] CARSON, Donald Arthur. Os Perigos da Interpretação Bíblica. 1 ed. São Paulo: Vida Nova, 2008. p 20.

[3] Atenção! Não estou dizendo que toda “desigrejado” tenha essa causa em comum.

[4] ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 16 ed. Rio de Janeiro: 2007, p 253

[5] AMARAL, Luiz Felipe Estanislau do. Dicta & Contradicta. Instituto de Formação e Educação. jun de 2008, n. 01 p 187-189.

[6] COUTINHO, João Pereira; PONDÉ, Luiz Felipe e ROSENFIELD, Denis. Por Que Virei à Direita. 1 ed. São Paulo: Três Estrelas, 2012. p 37. O filósofo Russel Kirk escreve a obra The Conservative Mind em 1953 que é considerado o ideário conservador. Recomendo a leitura dos pontos resumidos de Kirk que podem ser estudados em: PONDÉ, Luiz Felipe. O Catolicismo Hoje. 1 ed. São Paulo: Benvirá, 2011. p 47-52.

[7] “A democracia é um regime essencialmente antiutópico, pois seu alicerce filosófico se encontra no princípio do pluralismo político: a ideia de que nenhum partido tem a propriedade da verdade histórica. Na democracia as leis valem para todos – mesmo para aqueles que, imbuídos de visões, reclamam uma aliança preferencial com o futuro” MAGNOLI, Demétrio. O Julgamento da História. O Estado de S. Paulo. 02 de agosto de 2012. p A2.

10 comentários:

Daladier Lima disse...

Prezado Gutierres, tenho dito em meu blog e até em algum comentário aqui que o problema dos teólogos iniciantes é a arrogância. Eles querem ser respeitados pela Igreja, sem se envolverem com os trabalhos mais comezinhos. Querem ser um crente de elite. Isto não existe!

Abraços!

Anônimo disse...

pena que o blog "o tempora, o mores", que também luta contra a teologia liberal, não faça referência ao seu blog... deve ser porque vc é pentecostal kkkk

E não é impressionante que a conversão de uma professora e doutora de teologia está relacionada mais a milagres do que disputas apologéticas....

Muito bom artigo!
Abraço, Matias

Kenner Terra disse...

Olá,
obrigado pelo texto. Acredito que polarizações, tais como liberal x conservador, não podem se sustentar em nossos dias; e nem sei se esta citada se sustentou um dia. As pesquisas bíblicas, por exemplo, que é uma área que me detenho academicamente há alguns anos, serve-se de resultados tanto de exegetas mais críticos (sejam eles do método histórico-crítico ou não -, como também de posições mais conservadoras) (escrevi algo sobre isso: (http://kennerterra.blogspot.com/b/post-preview?token=fuOXCDkBAAA.6UA_pWdD-Fa6JkX3mgNXkA.TY70dViRCksFIKq5oIHJxw&postId=7624046806581980350&type=POST). Por isso. Acho ser antipedagógico e obscurantista este tipo de agrupamento.
Abraço

Anônimo disse...

Caro Gutierres,

Paz e Bem!

"Atenção! Não estou dizendo que toda “desigrejado” tenha essa causa em comum."

Parabéns pela ressalva. A causa do fenômeno dos desigrejados - penso eu - não é a aproximação do indivíduo com a "Teologia Liberal". É mais de cunho ético.
E concordo com o Kenner Terra, polarizar Conservadorismo x Liberalismo não é a questão fulcral. Podemos ser injustos com quem faz o uso responsável do Método-Histórico-Crítico. Aquele que o faz não é, necessariamente, um "Liberal".
Se o estudante de teologia não for capaz de dialogar, de forma responsável, como por exemplo, Rudolf Buttman; temo o tipo de estudante que estamos forjando, e pior ainda, o pastor.

Em Cristo,

M.O.O.
Rio de Janeiro, RJ.
agracadateologia.blogspot.com

Gutierres Siqueira disse...

Caros Kenner e Marcelo, a paz!

Eu também não gosto da restrição que os termos conceituais nos impõe. Mas é importante ficar claro que no texto mostro apenas o contexto histórico vinculado a “liberais” e “conservadores” no Ocidente. Resumindo: o liberal/progressista é um herdeiro do Iluminismo francês e o conservador/liberal clássico é um herdeiro do Iluminismo inglês.

Agora, rotular é algo que todos fazem. E os liberais adoram rótulos, mesmo que eles critiquem essa prática.

Por exemplo, todo liberal (que não é assumidamente liberal) quando criticado fala que o seu crítico é um fundamentalista. Certa vez critiquei uma frase infeliz que comparava os israelenses aos nazistas. O autor da frase logo insinuou que eu era um adepto da Chamada da Meia-Noite. Era somente uma forma “educada” de tachar-me de fundamentalista. E fiquei chateado, pois não sou fundamentalista e não tenho nenhuma simpatia por um movimento reconhecidamente antipentecostal, dispensacionalista, exclusivista e culturalmente fechado.

Quando ao uso consciente do método histórico-crítico para estudos aprofundados, logo temo que poucos estejam fazendo.

Eu também acredito que um jovem teólogo deve ter maturidade suficiente para ler qualquer liberal, neo-ortodoxo ou ortodoxo (usando os termos clássicos). Mas, infelizmente, acontece que vemos vários novos teólogos que vivem como fanáticos, pois logo se fecham em alguma igrejinha do pensamento teológico. Se abraçam Bultmann, logo desprezam qualquer leitura tida como conservadora. Alguns abraçam Bultmann como outros abraçam o Valdemiro Santiago. É pura paixão sem crítica racional. Vejo nisso falta de maturidade.

Anônimo disse...

Vc disse
"Alguns abraçam Bultmann como outros abraçam o Valdemiro Santiago"
Minha pergunta: quem dos dois fede mais de suor?
Abraço,
Matias

Anônimo disse...

Acho interessante essa discussão, mas tenho problemas como ela se apresenta. A superficialidade em que os conceitos são apresentados reproduz esse eco insistente e árido, fruto do escolasticismo protestante. Temo que nós pentecostais, a medida que desenvolvamos um senso crítico quanto aos conteúdos da fé, nos tornemos inquisidores da teologia alheia.

Gutierres Siqueira disse...

É mistério, caro Matias. rsrs

Rodrigo disse...

Penso como vc, Gutierres. O diálogo crítico com ambas as correntes é sempre a melhor opção. Um exemplo disso é dado pelo Esdras Bentho.

George Ladd também é um excelente erudito que optou por essa via. Seu livro "New Testament and criticism" é um estímulo para que os teólogos de posição conservadora possam contribuir construtivamente para os estudos bíblicos, sem ficar meramente numa posição defensiva ou apologética contra o liberalismo

Abraços,

Rodrigo

Aprendiz disse...

Prezado Gutierres

Antes de dizer o que vou dizer, esclareço que sou um pré-milenista não dispensasionalista (sim , isso existe).

Apesar de não ser dispensasionalista, conheço uma muiltidão de irmãos que são, tenho imensa admiração por muitos deles, já li muitos jornaizinhos da Chamada da Meia Noite, e não os considero uns leprosos espirituais como normalmente os liberais os querem fazer parecer. Mesmo porque, dessa forma estão dufamando uma grande parcela da igreja brasileira, por causa de uma opinião totalmente legítima (embora para mim não totalmente satisfatória, mas da mesma forma considero o pós-milenismo e o amilenismo).

Se algum liberal tentasse sugerir que eu sou dispensasionalista, simplesmente eu responderia que, apesar de não ser, isso não me ofende nenhum pouco, e que estaria em companhia de muitas pessoas maravilhosas que eu amo e admiro, e que preferiria um milhão de vezes ser dispensasionalista a ser "liveral".

Se os "liberais" quiserem discutir. que venham com argumentos, e não com desqualificações, intimidações, arrogancia e mistificações, como muitos deles fazem.

Parece que eles nada aprenderem com a muitidão de falhas da alta crítica alemã. O insucesso lhes subiu à cabeça.