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terça-feira, 11 de setembro de 2012

A hermenêutica falha e a praga da “moralização”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Interpretar a Bíblia não é uma tarefa fácil. Ainda assim, é obrigação do pregador buscar a melhor interpretação possível para o desenvolvimento de um sermão que respeite as Sagradas Escrituras. Uma hermenêutica falha acaba por prejudicar a mensagem da pregação e nada pior para a saúde de uma comunidade cristã do que a fome pela Palavra genuína derivada de um púlpito pobre.

Hoje em dia a maioria dos pregadores querem transmitir “praticidade” para o público. Não é à toa que tantas pregações comecem com “cinco chaves para isso...”, “sete passos para aquilo”, “dez atitudes para aquilo outro”, etc. e tal. É um excesso de “moralização”, pois o pregador assume que “os princípios para a vida diária podem ser derivados de qualquer passagem” [1].

A moralização é o exercício de ensinar a “prática da boa conduta”, ou seja, aquilo que é correto e deve ser reproduzido. É, basicamente, ensinar a imitar exemplos externos. E, é claro, a Bíblia é moralizadora em certo aspecto, mas nem todo texto bíblico pode ser colocado de tal forma. Moralizar com texto não moralizante torce o sentido que o autor quis dar àquelas páginas.

Isso acontece especialmente com textos narrativos do Antigo Testamento e com o livro neotestamentário Atos dos Apóstolos. Alguém pode dizer ao ler Atos 5.15: “Vejam, o apóstolo Pedro era tão ungido que a sua sombra curava” e depois perguntar: “Por que isso não acontece conosco? Onde está a nossa fé? Igreja, desperta!”. Assim, a congregação pode concluir que o seu cristianismo será de fato verdadeiro quando a sua sombra mostrar um poder curativo.

Ou ainda mais comum. Alguém lê a história de Daniel no capítulo 6 e diz: “Quantos de nós oramos três vezes ao dia? Será que podemos nos considerar cristãos orando somente antes de dormir? Desperta, povo de Deus!”. Assim, essa congregação de ouvintes conclui que um cristão verdadeiro precisa orar como uma atividade alimentícia, ou seja, em alguns momentos do dia. Assim, a oração pode deixar de ser um momento de “conversa com Deus” para ser um rito religioso. A mudança é aparentemente sutil, mas altamente destrutiva.

Portanto, será que toda e qualquer passagem têm “uma moral” sobre o que ser e fazer assim como no final das histórias infantis? É claro que não. Ou vamos ler as genealogias de Números e concluir que temos o dever de fazer uma “árvore genealógica”? Tal conclusão soaria ridícula, mas o mesmo raciocínio torto permeia muitas pregações que não respeitam o texto em suas próprias características. 

Além disso, é sempre bom lembrar que uma mensagem moralizante sem a graça de Cristo é mera religiosidade, menos Evangelho. Assim como declarou Bryan Chapell: " “uma mensagem que meramente defende a moralidade e a compaixão permanece na condição de mensagem não integralmente cristã, mesmo que o pregador seja capaz de provar que a Bíblia exige tais ensinamentos” [2]. É preciso temperar o "seja assim e assado" com "permita que a graça de Deus o ajude a ser assim".

Referências Bibliográficas:

[1] FEE, Gordon D. e STUART, Douglas. Manual de Exegese Bíblica: Antigo e Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2008. p 199.

[2] CHAPELL, Bryan. Pregação cristocêntrica. 1 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p 290. (cit. em:) CARDOSO, Dario de Araújo. Uma Abordagem Cristocêntrica para Sermões Biográficos. Fides Reformata. n 1. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2010. pp 57-79.

3 comentários:

jurandir alves disse...

Gutierres...
Meu amigo, tem toda razao na mencao ao mau uso que fazemos a partir de nossos pobres interesses nas Escrituras.

abcs

Aprendiz disse...

As cartas do apósolo Paulo geralmente percorrem um vasto caminho pela teologia pura. Então, baseado nessa teolgia, ele argumenta pela santidade, justiça, paz.

Os pastores brasileiros geralmente se consideram mais "espertos", e querem basear seu "chamado à moralidade" no senso comum e em textos fora do contexto. Essa igreja desviada brasileira é a grande obra desses homens "muito práticos".

Leandro Teixeira disse...

É verdade, irmão Gutierres, e isso acontece mais frequentemente em aplicações do Antigo Testamento, pela experiência que tenho. A impressão que fica é que o AT pode ser usado por nós independentemente da vinda, da vida e da influência de Cristo.

Graça e paz!