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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Teologia da Retribuição. Por que Deuteronômio 28 precisa ser lido com cuidado?

A Aliança e a expressão da Lei
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não é função fácil interpretar o Antigo Testamento. Muitas doutrinas equivocadas como a Teologia da Prosperidade e a Teologia Judaizante usam e abusam do Velho Testamento. É, também, difícil combater tais doutrinas e práticas porque elas apresentam uma "aparência bíblica" com inúmeros versículos fora do seu devido contexto. E, é claro, tudo isso nasce de uma hermenêutica deficiente ou completamente ausente.

Você certamente já ouviu clichês como: "Quem não entrega o dízimo gasta na farmácia" ou "crente que tem promessas de Deus não morre" e outras inúmeras frases infelizes. Assim como já deve ter escutado uma pregação sobre prosperidade baseada em Deuteronômio 28 e outros textos veterotestamentários. Agora, quer dizer que entregar o dízimo livra o crente de doenças e infortúnios? Quer dizer que a vida é simples como uma negociação mercantil? Só uma mente contaminada por uma visão pobre da Teologia Retribuitiva, diga-se de passagem, pode formular uma frase que não passa no teste de veracidade.

A essência da Teologia da Retribuição consiste na noção de que a fidelidade a Deus é plenamente recompensada com vida e bênção e a infidelidade é castigada com sofrimento e miséria. A retribuição divina alcança uma dimensão material, sendo a prosperidade e a estruturação familiar os pontos mais altos dessa aliança (leia-se "negociação") com Deus.

Ser fiel a Deus é garantia de prosperidade, saúde e família estruturada? O "bom crente" será sempre uma ilha de tranquilidade diante das perturbações da vida? Em outras palavras, a Teologia Retribuitiva é bíblica? Ora, a resposta é um "sim" e um "não", pois tal conclusão depende do texto lido e o contexto escolhido. Com Deuteronômio 28 e outros textos mosaicos é possível responder positivamente, enquanto que todo o Livro de Jó, o Salmo 73 e o Livro de Habacuque darão uma resposta completamente negativa. E olha que são somente exemplos em livros do Antigo Testamento. Em Hebreus 11, por exemplo, é evidente que a resposta soe negativa e, também, nas epístolas paulinas como Romanos e Gálatas.

Por que há duas respostas para a mesma pergunta? Isso acontece porque o público não é o mesmo. E acima de tudo, não se pode esquecer a Teologia da Aliança. As promessas retribuitivas da Lei Mosaica referiam-se a aliança de Deus com a nação de Israel. Não se aplicam a indivíduos ou à Igreja neotestamentária, mas somente à nação israelita como "povo escolhido". O Novo Testamento [Novum Testamentum] não é apenas um conjunto de livros pós-Cristo, mas a expressão, a aplicação e a explicação da Nova Aliança.

A Aliança com Deus

Aliança é constantemente citada como a “concordância entre Deus e os seres humanos, na qual Deus promete abençoar aqueles que o aceitarem e se comprometerem com Ele” [1]. Ainda assim, é preferível lembrar o que escreveu J. Rodman Williams:
Uma aliança divina é um contrato obrigatório estabelecido soberanamente por Deus. Há, como em alianças humanas, duas partes; mas não há acordo mútuo de termos. Uma aliança divina é uma questão de mão única; Deus mesmo faz toda a promessa e estabelece todos os termos. Trata-se essencialmente de uma aliança de Deus com o homem, não de Deus e o homem firmando uma aliança entre eles. Assim, na Escritura, a designação é com frequência “minha aliança”. A aliança ainda é bilateral, conquanto a aliança em si seja uma disposição soberana de Deus. [2]
A Aliança é um pacto de salvação, sendo que a Aliança de Abrãao norteia todo o Antigo Testamento, pois passa pela Aliança com Moisés (a revelação da Lei) e a Aliança com Davi (reafirmação do pacto), mas o seu cumprimento está na pessoa e na obra de Jesus Cristo, o filho de Davi. A aliança é uma forma de descrever o relacionamento de Deus com o seu povo e indica um contínuo trabalhar de Deus na história, ou seja, é a história da salvação.

A Aliança de Deus com o seu povo é uma só, pois é a Aliança com o seu Filho. As identificações históricas servem para entendermos o progresso da revelação, mas é necessário atentar para o fato que a “nova” aliança é a consumação da experiência genuína de salvação com a pessoa de Jesus Cristo. Era a promessa que passou por Abraão, Moisés e Davi. É a “aliança superior” (Hb 7.22 ARA), a “melhor aliança” (Hb 8.6 ARA), ou seja, “Jesus tornou-se... a garantia de uma aliança superior” (NVI). É a “aliança da graça”.

A Nova Aliança é superior, portanto, a Igreja está sob esse pacto. A Igreja não é Israel e Israel não é a Igreja. O avanço (certamente há um termo melhor) da revelação de Cristo mostra mais claramente a face da graça divina, mas ela nunca deixou de ser exposta no Antigo Pacto. “A superioridade veio do progresso da revelação e não dos erros ou deliberada falsa informação das alianças anteriores” [3].

Diante de um texto veterotestamentário é importante perguntar se tal mandamento ou tal promessa se estende a toda humanidade pela Igreja universal ou que seja somente aplicada ao povo de Israel. O mesmo vale para o mandamento do sábado ou para as concepções retributivas. O sábado, só para exemplificar,  é colocado como sinal da Antiga Aliança em Jeremias 17. E todos sabemos que a sua validade ficou restrita como sinal daquela aliança. A Aliança, portanto, "não existe no vazio, mas em um tempo e lugar" [4] e assim se entende a diferença entre Israel e a Igreja com os seus devidos papéis.

Deuteronômio 28

Portanto, o livro de Moisés e o capítulo 28 está dentro de um contexto, ou seja, o contexto da aliança de Deus com Israel. O capítulo não pode ser usado sem “observações” para uma plateia neotestamentária, ou seja, para pessoas que estão sob a Aliança da Graça. Como diz sabiamente Ron Rhodes: “Ao interpretar as promessas de Deus, deixe o contexto determinar o significado apropriado das palavras bíblicas” [5].

A Teologia Retribuitiva é um aspecto do Antigo Pacto, mas não podemos esquecer que com Cristo tudo mudou. A Aliança consumada em Cristo não é mais com uma nação, mas sim com a sua Igreja. E, a retribuição era um aspecto de aliança nacional, pois mesmo sobre os indivíduos a retribuição não parece evidente. “Na literatura sapiencial, particularmente no livro de Jó, constatamos que a teodiceia retribuitiva recebe um questionamento” [6].

Portanto, é necessário que o texto bíblico seja interpretado corretamente para que o pregador não expresse aquilo que a própria Escritura condena.


LEIA MAIS: 



Referências Bibliográficas:

[1] ERICKSON, Millard J. Dicionário Popular de Teologia. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2001. p 12.

[2] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: Uma perspectiva pentecostal. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2011. p 237-238.

[3] KAISER Jr., Walter C. Teologia do Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. p 276.

[4] CAMPBELL, W. S. Aliança e Nova Aliança. HARWTHORNE, Gerald F.; MARTIN P. Ralph e REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas Cartas. 2 ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola e Edições Vida Nova, 2008. p 46.

[5] RHODES, Ron. O Livro Completo das Promessas Bíblicas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 26.

[6] SAYÃO, Luiz Alberto. O Problema do Mal no Antigo Testamento: O Caso de Habacuque. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2012. p 42.

7 comentários:

Luciano de Paula Lourenço disse...

Prezado irmão Gutierres, essa “teologia” é um axioma da diabólica “teologia” da substituição(ou teologia Amilenista, termo este que significa a inexistência de um Milênio, ou seja, não haveria um futuro Reino Milenar israelita, pois, na concepção amilenista, o Reino agora é a Igreja), segundo a qual a igreja de Cristo é uma continuação de Israel, e que todas as promessas e bênçãos prometidas aos patriarcas, a Moisés, Josué e Davi, foram transferidas para a igreja, sendo elas “espiritualizadas” quando falam de coisas terrenas. Os partidários desta teologia acreditam – e ensinam - que Deus não tem mais planos específicos para a nação de Israel. Isso é uma aberração!
Como se antecipasse esse ensinamento errôneo, Paulo, especificamente, advertiu os gentios crentes, em Romanos 11, para que não se tornassem arrogantes por causa da sua posição de bênção, em contraste com o povo judeu, a quem ele assemelha a ramos de oliveira que foram cortados de sua própria árvore, devido à incredulidade (Rm 11:17-20). Paulo ensinou que os crentes de origem gentílica não deveriam se considerar mais justos do que Israel, nem deveriam pensar que Israel havia sido rejeitado permanentemente e tinha perdido as promessas de Deus (Rm 11:1-12). Pelo contrário, os gentios (os cristãos não-judeus) devem entender a sua posição como uma dádiva da graça, baseada nas promessas de Deus a Abraão. Eles agora desfrutam dessa posição como filhos de Abraão, por meio da fé em Cristo, como acontecerá com Israel, quando o Senhor, finalmente, trouxer a nação de volta para si mesmo (Rm 11:25-32).
Luciano Lourenço

clickok disse...

Irmão, bela mensagem! Tenho uma dúvida - os pastores da Teologia da Prosperidade usam Galatas 3:13,14 para defender as bênçãos no AT para nós do NT:

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo e para que, pela fé, nós recebamos a promessa do Espírito.

Como contra-argumentar contra isso?

Fábio

Gutierres Siqueira disse...

Caro Fábio,

É terrível como os pregadores da prosperidade distorcem o texto bíblico. A "bênção de Abraão" é claramente a revelação de Jesus Cristo. E eles, infelizmente, interpretam como posses materiais.

É um verdadeiro escândalo.

Gutierres Siqueira disse...

Caro Luciano,

Não é bom que você expresse sobre a "teologia amilenista" como "diabólica". Ora, é possível discordar sem satanizar o outro. Esse debate envolve questões não essenciais e, portanto, devemos medir bem a nossa avaliação.

Abraço

Adriana Benatto disse...

Isso ta muito confuso e sinceramente acho que você só expressou sua opinião....

Andreo Z disse...

Acho que vc precisa estudar melhor a nova aliança.A lei esta escrita na nossa mente e em nosso coração.Não obedecemos a lei pra se salvar e sim obedecemos pq aceitemos Jesus e fomos salvos para boas obras e não salvo por obras.

Wilson Mello disse...

Tenho visto muita confusão, a respeito da teologia da substituição sempre descarta Israel nos propósitos de Deus.
Muitos tem visto a Lei como algo antagônico à graça de Deus. Bom, minha intenção não é debater mas ajudar aqueles que acham que a lei ou Israel perderam sua importância com a vinda de Cristo Jesus. Leiam estes livros que irão ajuda-los a ter uma maior compreensão a respeito: A Sombra do Templo, a Bíblia Judaica Completa e Comentário Judaico do N.T por David H. Stern. Assim você poderá tirar suas próprias conclusões. Boa leitura!