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sábado, 20 de outubro de 2012

O mito da “manipulação midiática”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Hoje terminou a novela “Avenida Brasil”. Assim como você, caro leitor, eu detesto novelas. Eu prefiro séries americanas, filmes com bom roteiro e outros entretenimentos. Agora, o nosso meio evangélico costuma avaliar mal a suposta influência das novelas. É a velha história que a mídia tem um grande poder de manipulação. Será que isso é verdade?

Nos anos de 1930 nasceu nos Estados Unidos a Teoria Hipodérmica ou
Mass Communication Research. Os formuladores desse pensamento defendiam que a mídia (o rádio, naquele contexto) era capaz de influenciar a massa (conjunto de indivíduos) de forma uniforme, ou seja, a informação atinge todos de uma mesma maneira e sem nenhuma resistência. É a tal da “manipulação das massas”. Foi um modelo simplista e, por isso mesmo, bem popular até a presente data.

Os evangélicos adoram essa teoria, pois sempre estão a defender que uma novela por levar inúmeras pessoas para comportamentos reprováveis. Alguns psicólogos pensam da mesma forma.  Repito que detesto novelas, mas é necessário desmistificar o poder delas.

Genericamente, a forma como a comunicação é vista pelos teóricos por ser dividida em duas noções: 1) De um lado, alguns acreditam que a mídia tem uma força para impor a sua mensagem e o indivíduo é manipulado para aceitá-la sem contrapontos. 2) Do outro lado, alguns acreditam que a mídia tem influência, mas não sozinha, pois a mesma compete com o próprio indivíduo (seus valores, seus desejos, seus anseios) e com outros atores sociais (família, igreja, partido, etc.).

Estou com a segunda posição. O poder da mídia é a persuasão e não a manipulação. Ninguém vai trair porque assisti uma novela, mas sim porque o seu coração está cheio de adultério. Culpar a novela é fácil, pois sempre foi difícil assumir a responsabilidade individual. O adúltero de coração pode até encontrar apoio nos meios de comunicação para o seu comportamento, mas a TV não vai levá-lo para um Motel segurando em seu braço. Quando um autor de novela diz que apenas representa a sociedade, infelizmente, ele está certo. Como isso não quero dizer que a mídia em nada influencia, pois o seu papel está na banalização do comportamento. Mas ninguém pode atribuir uma falha pessoal baseada na ideia que “viu na televisão e praticou”.

Por que uma emissora de TV não passa música clássica no horário nobre? Ora, isso porque a maioria das pessoas querem é “barraco, pagode e praia”. É mais correto dizer que o público influencia e demanda “produtos midiáticos” para as produtoras de comunicação. O grande problema de todos nós é a grande corrupção do nosso coração. Assim, essa corrupção busca uma mensagem que apoie suas ideias e, nisso, o entretenimento popular em muito “ajuda”.

As tiranias como o nazismo não provam o poder manipulador da comunicação? Bom, nesse sentido recomendo o livro Modernidade e Holocausto [1] de Zygmunt Bauman que mostra complexidade desse processo totalitário. Na verdade, os apoiadores do massacre aos judeus não eram loucos manipulados, mas pessoas cultas e bem informadas. Por que pessoas tão diferenciadas daquilo que chamamos “massa” foram capazes de colaborar com o nazismo? É difícil responder, mas podemos ligar claramente com a maldade inata.

É até estranho ver os evangélicos defendendo uma teoria que desenha o homem como uma tabula rasa. É uma ideia que não encontra apoio em doutrinas cristãs como o “pecado original” e a “responsabilidade humana”. Do ponto de vista teológico seria como acreditar em uma variante do determinismo. O pecado, na Bíblia, é uma ação de responsabilidade individual. Davi cantou: “Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado” [Salmo 51.2 grifo meu]. E ainda, a  Parábola do Semeador [cf. Mateus  13. 1-23] mostra claramente como a comunicação não é um processo hipodérmico.


Leia mais:

Sobre a relação do cristão com a cultura do entretenimento midiático.

- LINDVALL, Terrence R. e MELTON, J. Matthew. Os Cristãos e a Cultura da Mídia e do Entretenimento. em: PALMER, Michael D. (ed). Panorama do Pensamento Cristão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. pp 391-426.

- COLSON, Charles e PEARCEY, Nancy. Toda Boa Música Pertence ao Diabo? em: E Agora Como Viveremos? 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. pp 543-554.

Referência Bibliográfica:

[1] BAUMAN, Zygmunt. Singularidade e Normalidade do Holocausto. em Modernidade e Holocausto. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. pp 106-141.

5 comentários:

Ricardo Rocha disse...

Caro Gutierrez.

Eu concordo com vc que o poder de manipulação da mídia é com certeza supervalorizado muitas vezes, principalmente pelos esquerdistas contra a liberdade de imprensa ou por ultra "conservadores" (como detesto esse termo) que querem impor sua moral goela a abaixo da população.

De fato a mídia compete em em sua influência com inúmeros outros fatores que devem ser levados em conta, mas também deve ser considerado que a mídia é, hoje, o único grande meio de comunicação que atinge uma massa de pessoas de maneira uniforme sem dar a oportunidade de ser feito um contraponto ao que está sendo transmitido, justamente por ser um meio de comuonicação que atinge as pessoas de forma passiva.

Um exemplo claríssimo, a meu ver, de que a mídia exerce sim uma grande influencia sobre a massa da população foi a candidatura do Celso Russomano a prefeito da capital. Não que eu tenha ficado triste com o fato dele ter perdido a eleição, ao contrário, considero ele o pior de todos os candidatos. Mas é que foi evidente que a queda repentina dele nas pesquisas que culminaram que a sua derrota no primeiro turno tem muito a ver com o poder da mídia que fez com ele entrevistas claramente tendenciosas e passaram a transmitir seguindamente diversos escandalos envolvendo a sua imagem. Ora, porque fizeram isso somente com ele? Obvio pq eram contra a sua eleição. Isso sendo transmitido ao povo dia após dia de fato exerce uma influência muito grande sobre a massa, que em regra, não tem senso crítico desenvolvido.

O caso das novelas, com toda a sua romantização do adultério, certamente também tem grande peso promiscuidade da população. De fato que o indivíduo tem sua culpa nisso, mas quando ele se expõe a toneladas de cenas de adultério legitimadas como é o que acontece nas novelas, certamente isso fará com que ele veja tal cena com outros olhos se não for devidamente treinado contra isso.

Enfim, acredito que não se pode analisar a coisa de forma extrema. A mídia pode não ser esse monstro todo que os teóricos de gabinete geralmente pintam, mas certamente é um poder forte o suficiente que não deve nunca ser menosprezada, afinal, ela se vale para continuar forte das mais profundas fraquezas do ser humano.

A paz.

pretinha disse...

Gutierrez

Concordo que o poder da mídia não é absoluto, mas creio que é importante. Alguns pontos que me levam a pensar assim:

1. Não deixaríamos nossos filhos pequenos em companhia de pessoas que dissessem e ensinassem as coisas que muitas crianças veem na tv.

2. Paulo disse "as más conversasões corrompem os bons costumes".

3. A mentira sistematica da mídia a respeito de determinado é capaz de bloquear a percepção dos fatos. A esquerda tem quase monopolio sobre as comunicações, de forma que a maioria das pessoas não tem nem como saber a verdade.

Jefferson Sales disse...

Alguns dias atrás postei sobre isso e a música de Charles Colson

http://segredodedavi.blogspot.com/2012/10/o-alimento-mental-de-baixa-qualidade.html

Anônimo disse...

Leia a autobiografia de Dias Gomes, intitulada "Apenas um Subversivo". Com todo o respeito,
achar que as novelas apenas "inspiram-se ou retratam a realidade como ela é" e não o contrario,
ou seja: que não induzem as pessoas aos maus costumes, à formação de opiniões e à lavagem cerebral ideológica,
é de uma ingenuidade lamentável para pessoa que se julgam tão inteligentes nos tempos modernos. Só o fato de
ficar preso no sofá todos os dias, no mesmo horário´, deixando de melhorar a sua própria vida e a dos outros,
deixando de visitar seus parentes, amigos e necessitados, já é um estrago bem grande na nossa vida em coletividade.
Imaginem, agora, isso somado aos péssimos exemplos que certamente vão influir na formação de personaliades e opiniões.
O pior cego é aquele que não quer ver.

Anônimo disse...

Novelas são provavelmente a maior ferramenta de engenharia psico-social do MUNDO.
Me desculpe mas acho incrível, diante de tanta informação, ainda nos dias de hoje, não enxergar a gigantesca influencia desses programas na vida das pessoas. Não é uma novela que vai levar alguem a trair, e sim a pregação sistematica da traicao em diversas novelas, que vai banalizando condutas reprovaveis de comportamento.
Existe ate um estudo ligando o numero de divorcios com a expansão do canal da globo nas cidades brasileiras nas decadas passadas.
Novelas fazem um desserviço a sociedade, deixam o mundo pior. E quem defende é moralmente responsavel tambem.