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segunda-feira, 24 de junho de 2013

O Gigante Acordou?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Este blog é de teologia, mas quero comentar rapidamente sobre a onda de protestos no Brasil. Ora, o cristianismo é uma lente para enxergarmos o mundo à nossa volta. É uma cosmovisão [1] como C. S. Lewis escreveu: “Acredito no Cristianismo como acredito que o Sol nasceu, não apenas porque eu o vejo, mas porque por meio dele eu vejo todo o resto” [2] . Portanto, um blog de teologia também tem o dever de comentar a política profunda de seu país.

Nesta primeira parte levanto os pontos negativos, ou melhor dizendo, os pontos de alerta. É legal ver um “despertar político” da população, mas não sejamos ingênuos. Na segunda parte, publicada ainda nesta semana, levantarei os aspectos positivos.

Os pontos negativos

1. Há um forte discurso contra a “democracia representativa”. Todos aprendemos nas aulas de história que a democracia nasceu na Grécia antiga. É o governo (cracia) do povo
(demo). Mas a democracia pura e simples não existe. O povo como governante é apenas uma abstração. Por que? Ora, porque se todos governam literalmente, logo ninguém direciona e o lugar vira uma bagunça. Bom, para resolver esse “paradoxo da democracia” nasceu a representatividade partidária e parlamentar. Assim, de tempos em tempos elegemos os “nossos representantes”.

Portanto, para representar a sociedade essa classe política se divide em partidos. Sejam de direita (individualismo, liberdade econômica, valores morais conservadores, liberdade de imprensa) ou de esquerda (igualitarismo, coletivismo, economia de Estado, valores morais liberais) ou de centro. Há ainda a extrema direita e a extrema esquerda (igualmente autoritárias, estatizantes, mas que divergem no modus operandi...). Essa divisão existe nas principais democracia do mundo.

Talvez você argumente que essa representatividade não exista nos partidos brasileiros! É verdade, mas ela existe em indivíduos como candidatos. Por exemplo, em um mesmo partido é possível encontrar um deputado libertário e outro comunista. O problema é que os brasileiros, de maneira geral, não possuem o costume de pesquisar sobre os pensamentos políticos do seu candidato ou votam em alguém que quer apenas o poder pelo salário ali bem representado.

A representativa através do voto é um filtro importante para que uma maioria seja ouvida, mas também a minoria seja igualmente protegida. Democracia não é simplesmente imposição de uma vontade da maioria, mas é o espaço da negociação. A maioria, é claro, votará e apresentará as pautas, mas em democracias terá que negociar com diversos atores da sociedade. Há, assim, inúmeras instituições para ouvir: a Constituição, o Poder Judiciário, o Poder Legislativo, o Poder Executivo, a imprensa, os empresários, os sindicatos, as igrejas, o mercado financeiro etc. e tal. Na nossa visão cristã ninguém é soberano, pois ninguém é deus, logo todos precisam de um poder moderador e de limitações.

É evidente que tal modelo não seja perfeito e que suporte muitas falhas, mas não há nada melhor para colocar no lugar. É necessário lembrar que a democracia é um sistema complexo. “A complexidade alcança a forma, a ideologia subjacente e o nível de maturidade”, escreve o erudito evangélico D. A. Carson [3]. Portanto, ela não pode ser resumida numa votação ou na simples vontade da maioria. Assim, lembramos a velha e batida frase de Winston Churchill: A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Há uma crise de representatividade? Sim, há. Mas o caminho não é acabar com essa representatividade.

02. Há forte romantização sobre “a voz das ruas”. O teólogo  D. A. Carson escreveu um ótimo livro- sem tradução em português - sobre o politicamente correto com o título The Intolerance of Tolerance. Nessa obra Carson observa: “Certamente, os representantes do povo devem ser sensíveis à opinião pública [...]. No entanto, a opinião pública pode ser inconstante, facilmente influenciada por acontecimentos dramáticos ou pela língua de ouro dos demagogos” [4]. Isso é tão óbvio que é simplesmente espantoso como muitos são empolgadíssimos com a “voz das ruas” sem nenhuma reflexão mais profunda. Um deputado evangélico ligado à esquerda chegou a lembrar entusiasmado a idiota frase latina Vox populi, vox Dei.

O filósofo irlandês Edmund Burke escreveu o famoso livro Reflexões sobre a Revolução na França onde, como espectador privilegiado da revolução na vizinha França, fala sobre o espírito preventivo e cético ao lidar com fenômenos políticos: “Sempre que a casa do nosso vizinho estiver pegando fogo, é conveniente acionar um pouco as bombas d`água na nossa própria casa. Melhor ser desprezado por apreensões excessivas do que arruinado por uma segurança confiante demais” [5].

O maior exemplo histórico de uma “voz nas ruas” histérica e movida pela demagogia de alguns líderes religiosos foi a própria crucificação de Cristo:

Por ocasião da festa era costume do governador soltar um prisioneiro escolhido pela multidão. Eles tinham, naquela ocasião, um prisioneiro muito conhecido, chamado Barrabás. Pilatos perguntou à multidão que ali se havia reunido: "Qual destes vocês querem que lhes solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo? "Porque sabia que o haviam entregado por inveja. Estando Pilatos sentado no tribunal, sua mulher lhe enviou esta mensagem: "Não se envolva com este inocente, porque hoje, em sonho, sofri muito por causa dele". Mas os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos convenceram a multidão a que pedisse Barrabás e mandasse executar a Jesus. Então perguntou o governador: "Qual dos dois vocês querem que eu lhes solte? " Responderam eles: "Barrabás! " Perguntou Pilatos: "Que farei então com Jesus, chamado Cristo? " Todos responderam: "Crucifica-o! " "Por quê? Que crime ele cometeu? ", perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais: "Crucifica-o! " Quando Pilatos percebeu que não estava obtendo nenhum resultado, mas, pelo contrário, estava se iniciando um tumulto, mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão e disse: "Estou inocente do sangue deste homem; a responsabilidade é de vocês". Todo o povo respondeu: "Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos! " Então Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado. [6].

O interessante na história é a pergunta de Pilatos sobre o crime de Jesus. Alguma resposta? Não! Algum argumento? Não. Algum julgamento de fato? Não. Simplesmente palavras de ordem como “crucifica-o”!

Foto: Revista Época
03. Demandas irrealistas e soluções populistas. Muitos manifestantes pedem hospitais e escolas no “padrão Fifa”. É uma irrealidade, pois o Estado brasileiro nunca foi um bom gerenciador em qualquer circunstância. Essas pessoas estão, infelizmente, pedindo ainda mais Estado. Como o Estado não pode garantir um bom hospital ou uma boa escola, então que se cobre menos impostos. A demanda mais realista é pedir a diminuição radical da carga tributária. Assim, sobraria mais dinheiro para comprarmos os serviços privados de saúde, educação e transporte. A redução da carga tributária seria o maior ato de “justiça social” nesse país. Isso faz lembrar Provérbios 29.4: “O rei mantém a terra pelo direito, mas o ávido de impostos a transtorna. [BJ]”

Ratzinger comentando o marxismo como proposta de liberdade mostra como a fé cega de alguns intelectuais faz com que os mesmos joguem fora qualquer sistema pautável com a realidade. Nesse sentido, criam suas próprias doutrinas e ideias e as impõe de maneira autoritária para as desenham como salvadoras e messiânicas. É a famosa “teorias de gabinete”, uma expressão usada por Edmund Burke para mostrar o irrealismo de alguns intelectuais. O assunto aqui não é propriamente o marxismo ou qualquer outra ideologia de esquerda, mas o comentário do teólogo católico cabe bem a esse contexto de revindicações sem lastro:

O marxismo, no entanto, perde o fôlego na questão de como essa estrutura haveria de ser, e quais seriam os meios para estabelecê-la [7]. Até um cego pode ver que nenhuma das estruturas construídas, pelas quais se exigiu a renúncia da liberdade, possibilitou de fato a liberdade. Mas os intelectuais são cegos quando se trata de suas construções mentais. Por isso, podiam renunciar a qualquer realismo e continuar a lutar por um sistema cujas promessas era irrealizáveis. Procurou-se uma saída na mitologia: as novas estruturas deveriam produzir um homem novo- pois na verdade apenas com novos homens, com homens totalmente diferentes, as promessas poderiam funcionar. Se o caráter moral do marxismo se acha na exigência de solidariedade e na ideia de indivisibilidade da liberdade, então o anúncio do novo homem é claramente uma mentira que paralisa qualquer enfoque moral. Verdades parciais orientam-se para uma mentira, e então o todo fracassa: a mentira da liberdade elimina também os elementos verdadeiros. Liberdade sem verdade não é liberdade. [8]

É necessário cuidado perante o surgimento de populistas demagogos em ambientes de revoltas. Na Argentina de 2001 muitos gritavam nas ruas contras todos os políticos, mas logo em seguida elegeram Néstor Kirchner, a própria encarnação do populismo. Hoje a Argentina vive uma presente e consistente crise econômica e política. Alguns já gritam para uma reforma política. Sim, precisamos de reformas, mas todo cuidado é pouco.

Além disso, nada mais anticristão do que eleger políticos como “messias” e “salvadores da pátria”. Sempre desconfie do messianismo político. A ficção 1984 de George Orwell tem uma passagem interessante. O personagem Winston Smith descreve uma cena onde uma mulher louvava o Grande Irmão (The Big Brother) como um messias. A cena mostra muito bem como ditaduras passam a imagem salvacionista. E uma democracia não cria expectativa de “salvadores”:

A mulher esguia e ruiva se jogara para a frente, apoiando-se no encosto da cadeira diante dela. Com um murmúrio trêmulo que parecia dizer “Meu Salvador!”, estendeu os braços para a tela. Em seguida afundou o rosto nas mãos. Era visível que fazia uma oração. [9]



Referências Bibliográficas:

[1] “Uma cosmovisão é um comprometimento, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressa como uma história ou um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser total ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas), que detemos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade e que fornece o alicerce sobre o qual vivemos, movemos e possuímos nosso ser”. SIRE, James W. O Universo ao Lado: Uma catálogo básico sobre cosmovisão. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2009. p 16.

[2] LEWIS, C. S. O Peso de Glória. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 134.

[3] CARSON, D. A. Cristo e Cultura: Uma Releitura. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2012. p 111. Leia especialmente o capítulo Secularismo, Democracia, Liberdade e Poder entre as páginas 105 a 129.

[4] CARSON, D. A. Intolerance of Tolerance. 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 2012. p 151.

[5] BURKE, Edmund. Reflexões Sobre a Revolução na França. 1 ed. Rio de Janeiro: TopBooks, 2012. p 154.

[6] Evangelho Segundo Mateus 27. 15-26 [Nova Versão Internacional].

[7] Isso lembra claramente as revindicações do grupo radical Movimento Passe Livre.

[8] RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância: O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo. 1 ed. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2007.  p 218.

[9] ORWELL, George. 1984. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p 27.

2 comentários:

Mateus Emilio Mazzochi disse...

Paz do Senhor. O que mais me admira em todo este processo é que, mesmo trazendo um efeito pífio ou até mesmo nulo, fizemos algo. A parte termos no meio das manifestações muitos que se aproveitam para saquear e incluir vandalismo aos protestos, conseguindo com isto deturpar o movimento, o povo (que não é a voz de Deus ) levantou-se querendo uma mudança efetiva. Obviamente, ainda vivemos numa democracia aparente, onde opiniões são tidas como crime e a liberdade não existe de fato. O resultado ideal e mais importante de tudo isto seria que se chegasse às urnas com outra mentalidade, nesta próxima eleição e nas seguintes. O que me chamou a atenção no seu texto foi a sugestão de que se diminua a carga tributária para que possamos pagar (devido a "sobra" dos recursos) pelos serviços de forma particular. Não concordo. Penso eu que primeiramente deveríamos sim ter uma carga tributária menor sim, mas que a totalidade dos impostos pagos fosse revertida em benefício da população. Hospitais em padrão FIFA é o mínimo que deveríamos ter. O que nos impede de obtê-los é o simples fato de que não se muda a concepção a respeito da política. Caso se fizesse uma pesquisa entre o povo (nós) perguntando o que você faria se fosse eleito, boa parte das pessoas responderia que aproveitaria para fazer o seu "pé-de-meia", infelizmente. Poderemos protestar e realizar um manifesto por dia em cada uma das cidades do Brasil, enquanto não mudarmos de consciência, nada trará retorno nenhum. Deus nos abençoe. Desculpe o extenso comentário.

Vitor Germano Oliveira disse...

O que o povo está pedindo nas ruas é apenas uma coisa: o fim da corrupção.
A grande mídia tenta abafar esta voz dando outra roupagem ao movimento.
É verdade que existem outras demandas e reclamações no meio do protesto mas o cerne do movimento é contra a corrupção e o excesso de burocracia que engessa nossa democracia em benefício das elites.

A corrupção a falta de transparência e a "imoralidade" nos gastos públicos já "cheira mal" para todo o mundo.A comunidade internacional já se deu conta que o Brasil está nadando na corrupção política, o povo mesmo é que demorou para acordar para isto.Se nada for feito de fato haverá revolução!

Pb.Vitor Germano