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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

“O crescimento evangélico tem como causa a teologia da prosperidade!”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Eis o maior de todos os clichês para explicar o crescimento evangélico. Quem nunca ouvi essa frase? Eu já ouvi e li esse clichê em palestras de teólogos evangélicos, em seminários entre estudiosos católicos, artigos de jornais, reportagem de revistas, papers acadêmicos, blogs cristãos etc.

1. É claro pelos números que o crescimento evangélico ganhou mais corpo a partir de 1991. Naquele ano éramos apenas 9% da população. Em 2010 já éramos 22,2%. Mas é perceptível que o crescimento vem constante e persistente. Não há grandes saltos, mas sim um pequeno incremento na velocidade desse crescimento.

Gráfico publicado no jornal O Estado de S. Paulo
2. A Teologia da Prosperidade chegou ao Brasil na década de 1970, mas a popularidade dessa doutrina se deu na década de 1990 e 2000. Isso coincide com um crescimento evangélico maior, mas não necessariamente explica essa maior velocidade. É bom observar que igrejas ícones dessa teologia- como a Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Apostólica Renascer em Cristo- perderam membros e encolheram na década de 2000.  

3. Portanto, fica a pergunta: o que impulsionava o crescimento vigoroso entre as décadas de 1940 e 1970? Certamente que não era a prosperidade. A mensagem protestante/evangélica era em si pietista (antimundana, pobreza como expressão de humildade, legalismo, moralismo e experiências de conversão). Ora, nada disso tem ligação com a mensagem de autoajuda e prosperidade dos grandes tele-evangelistas. Falar que a Teologia da Prosperidade explica o crescimento evangélico é desprezar 70% do avanço dado no século XX.

4. A sociologia da Religião sempre explica o fenômeno religioso como consequência do meio e nunca como causa. É quase um vício acadêmico. O crescimento evangélico foi explosivo e os estudiosos se voltaram para os pais da sociologia. Leram o processo com óculos redundantes. O professor Jorge Pinheiro explica:

A academia em suas análises sobre o fenômeno evangélico brasileiro na alta-modernidade urbana criou três lugares comuns: mercado, trânsito religioso e fundamentalismo. Na verdade, a leitura reducionista da realidade traduz um defeito que nasceu de suas bases teóricas de análise, fundamentadas sobre les trois petits cochons da sociologia: Marx, Durkheim e Weber. É a partir dessa trindade que nos debruçamos sobre o fenômeno religioso. Esses três pensadores das ciências sociais, por mais importantes, tinham em comum a ideia de a religião é sempre consequência, resultante de fenômenos ou situações sociais e nunca fenômeno fundante, embora relacional com contexto cultural da época, situação e geografia. [1]

5. Aos evangélicos fascinados com conclusões sociológicos parece existir um ceticismo desprezador de qualquer intervenção divina. É duro ver jovens confundindo Ciências da Religião com teologia. Ora, enquanto a primeira é mais uma das ciências humanas, a segunda é um exercício de fé e dogma. A soberania de Deus não pode ser, também, descartada nesse processo, mesmo sem esquecer a mundanidade dos homens.

Referência:

[1] PINHEIRO, Jorge. Evangelicalismo e cidade: mitos da religiosidade evangélica brasileira. Em: REGA, Lourenço Stelio (org.) Quando a Teologia Faz Diferença: Ferramentas para o Ministério nos Dias de Hoje. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2012. p 201-202.

8 comentários:

Jeziel Marinho disse...

Meu caro Gutierres, tenho uma pergunta para você: Se, de repente, todas as igrejas evangélicas do Brasil voltassem ao verdadeiro Evangelho Bíblico e puro, quantos dos ditos evangélicos permaneceriam na igreja? De fato, o número de evangélicos tem crescido muito nos últimos anos, mas, com dor no coração, devemos admitir que nunca tivemos igrejas(de todas as denominações) tão contaminadas com todo tipo de heresias que promovem um evangelho de conto de fadas, fácil de abraçar mantendo o amor ao mundo.

Jeziel Marinho disse...

Meu caro Gutierres, tenho uma pergunta para você: Se, de repente, todas as igrejas evangélicas do Brasil voltassem ao verdadeiro Evangelho Bíblico e puro, quantos dos ditos evangélicos permaneceriam na igreja? De fato, o número de evangélicos tem crescido muito nos últimos anos, mas, com dor no coração, devemos admitir que nunca tivemos igrejas(de todas as denominações) tão contaminadas com todo tipo de heresias que promovem um evangelho de conto de fadas, fácil de abraçar mantendo o amor ao mundo.

Gutierres Siqueira disse...

Jeziel,

Entendo sua questão de "qualidade versus quantidade". Mas o assunto do texto não é exatamente esse, mas sim sobre mitos sociológicos na explicação desse crescimento quantitativo.

wallace disse...

Irmão Gutierres, esse "fenômeno fundante" dito pelo autor é a vontade soberana de Deus ?


Gutierres Siqueira disse...

Wallace,

Pelo contexto do capítulo, a expressão "fenômeno fundante" tem haver mais com uma igreja produtora de meios (culturas) do que fruto de um determinado meio existente (tradição, regionalismo, etc.).

Colocar o "fenômeno fundante" como, também, a Soberania de Deus é uma defesa minha, não necessariamente do Jorge Pinheiro.

Daladier Lima disse...

Prezado Gutierres, esta conclusão equivocada da sociologia religiosa se parece com aquela: o evangelho cresceu entre as periferias e os pobres. Ora, há mais pobres que ricos do Brasil, logo... É o mesmo de olhar para o Iraque e dizer: olha aí são pobres e excluídos por isso aderiram ao Islamismo. Tese que não se sustenta em Dubai!

Abração!

Victor Leonardo Barbosa disse...

Artigo certeiro mano, e particularmente gostei da crítica aos esquemas sociológicos de teoristas religiosos, pois muitas vezes serem limitado, seletivos e altamente hipotéticos.

Veja por exemplo o livro "O Crescimento do Cristianismo" de Rodney Stark. Um livro que resgata fatos históricos muito importantes sobre o crescimento do cristianismo, mas em vários momentos se perde na criação de hipóteses para explicar esse fenômeno, ignorando e menosprezando a questão da soberania de Deus no crescimento cristão.

Forte abraço caro amigo!

Gutierres Siqueira disse...

Daladier e Victor, vocês lembraram aspectos que são vícios acadêmicos e, muitas vezes, até problemas com a matemática e com o excesso de especulações.