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domingo, 29 de setembro de 2013

O sacrifício que agrada a Deus

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Breve análise do texto base para a última lição deste trimestre sobre a Epístola aos Filipenses.

Traduções

“Todavia, fizestes bem em tomar parte na minha aflição”. [Almeida Revista Corrigida]
“Todavia fizestes bem em tomar parte na minha aflição”. [Almeida Revista Fiel]
“Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação”. [Almeida Revista Atualizada]
“Mesmo assim vocês fizeram bem em me ajudar nas minhas aflições”[Nova Tradução Linguagem de Hoje].
“Apesar disso, vocês fizeram bem em participar de minhas tribulações. [Nova Versão Internacional].
“Todavia, fizestes bem em participar da minha aflição”[Almeida Século XXI]
“Entretanto, fizestes bem em participar da minha aflição”. [Bíblia de Jerusalém]
“Entretanto fizestes bem em tomar parte na minha tribulação”. [Tradução Brasileira]

Análise exegética

Plēn - Traduzido por “todavia”. Poderia ser traduzido por “mesmo assim” [NTLH]. Paulo quer mostrar que, mesmo reconhecendo unicamente a ajuda divina e a independência do auxílio humano, não despreza a ajuda da Igreja. Ele não queria parecer desdenhar da preciosa ajuda vinda pelos irmãos de Filipos, mas muito pelo contrário.

É interessante notar como Paulo mostra uma independência dependente em relação à igreja. É comum no texto paulino a expressão de gratidão pela ajuda recebida, mas ao mesmo tempo o apóstolo nunca esquece de mostrar que a ajuda- mesmo bem vinda- não o torna dependente dos humores de uma congregação. “Não que que esteja procurando ofertas”, diz o apóstolo logo em seguida, “mas o que pode ser creditado na conta de vocês” [4.16 NVI].  Ou seja, não são vantagens pessoais que o apóstolo busca, mas o crescimento espiritual da congregação.

Em todo o capítulo nove de I Coríntios, por exemplo, Paulo argumenta sobre o direito de receber ajudar como anunciante do Evangelho, mas ao mesmo tempo mostra como renunciou a esse direito para que ninguém o acusasse de “constrangimento”, ou seja, de servir à igreja por vantagens e glórias pessoais. Ele estava tão focado na livre pregação do Evangelho que queria exercer livremente tal vocação sem depender de sustento financeiro alheio. E é por isso que ele fazia tendas (Atos 18.3).

A postura do apóstolo é exemplo de nobreza, ética e desprendimento. Ora, renunciar direitos é uma tendência cada vez mais rara. A busca do homem moderno é a busca de direitos. O apóstolo buscou o dever maior da proclamação. Mas, é claro, nem sempre foi possível trabalhar para o próprio sustento, especialmente quando este esteve preso em Roma por causa da pregação evangélica. Nesse momento de profunda tribulação o apóstolo só poderia contar com ajuda externa.

Ajuda esta que ele não negou, logo porque era inevitável aceitá-la, mesmo preferindo não exercê-la. Paulo, também, não sofrera do agudo orgulho ferido de alguns que, acostumados ao trabalho rígido e autossustento, não aceitam ser ajudados no momento da dificuldade. Tal pensamento acomete principalmente aqueles que, generalizando, atribuem qualquer necessidade aos méritos e desméritos de um homem. Paulo, mesmo centrado no autossustento, não abdicou de agradecer aos irmãos que o ajudaram.

Kalōs epoiēsate- Traduzido por “fizestes bem”. É uma expressão idiomática, ou seja, uma expressão popular (gíria, ditado etc.). Não passível de uma tradução literal. É de significação cultural. Ao usar tal expressão Paulo expressa a satisfação na ação da igreja filipense. A expressão é como um “muito obrigado”.

Sugkoinóneó- Traduzido por “tomar parte”. Pode significar: “para ter comunhão com”, “compartilhar com alguém pelo conjunto”, “compartilhar com outrem em alguma coisa”, “compartilhar por estar totalmente identificado”, “coparticipar”. No original traz a ideia de uma associação profunda e de consequências relacionais duradouras. A Almeida Atualizada traz a tradução como “associando-vos”.  A expressão está no “particípio aoristo”, ou seja, indicando uma ação simples e pontual feita no passado. Mas é o tipo de ajuda que desperta a exclamação do “sou eternamente grato pela ajuda prestada a mim no momento da dificuldade”.

O conceito é próximo do grego sumpátheia,  que significa a “participação no sofrimento de outrem, compaixão, comunhão de sentimentos ou de impressões”. E de “empatia” que é “a capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc” [Houaiss]. Mas ao mesmo tempo produz a gratidão constante do ajudado.

Quem nunca teve a rica experiência de ser ajudado por alguém em uma passado remoto que jamais esquece? É o vizinho que leva para o hospital aquele prestes a morrer. É o parente que liga para consolar no momento de profunda angústia. É o amigo que o socorre financeiramente. Ora, são atitudes de ajuda que são únicas e passadas, mas marcam o início de um relacionamento duradouro. “Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão”, já dizia Provérbios 17.17.

A tradução de Almeida Corrigida como “tomar parte” traz a bonita ideia de que, uma vez que você ajuda o necessitado, você participa em prática. Não é mero sentimento ou emoção. É a prática real. Ou seja, eu “tomo a miha parte”. Eu divido a aflição do outro.

Mou tē thlipsei- Traduzido por “minha aflição”. A palavra grega para aflição (gr. thlipsei) aparece nove vezes em o Novo Testamento sendo sete ocorrências em textos paulinos, um joanino e outro em Tiago. Portanto, é uma expressão tipicamente paulina e pode ser entendida no sentido pessoal como “perseguição, aflição, angústia, tribulação” [Strong].

Agora é interessante notar que a palavra indica uma “pressão interna”, um “aperto no coração”. É um “confinamento da alma” diante das circunstâncias presentes, ou seja, são as aflições que o cercam por dentro. Uma palavra em português que capta melhor a ideia deste texto é “pertubação” ou “angústia”.

Certamente que a ajuda para o homem perturbado vai além de meros recursos financeiros. É o amor e o carinho de uma igreja acolhedora que ajudou Paulo na caminhada cristã. O texto está estruturado na ideia sobre a qual a solidariedade é melhor do que doações em si, mesmo sabendo que as doações são provas preciosas dessa mesma solidariedade. Logo porque, os filipenses foram os únicos que lembraram do apóstolo Paulo. 

"Nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente"! Isso em si já diz muito dessa relação entre Paulo e os Filipenses.

2 comentários:

Anônimo disse...

Gostaria de agradecer pela análise do texto.bastante enriquecedor.

Weinne Santos disse...

Estava estudando esse texto, e vi sua análise agora. Muito obrigado!