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domingo, 22 de setembro de 2013

Os filhos pródigos

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Esboço do sermão pregado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras, São Paulo (SP).

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Lucas 15. 11-32

Este sermão contrasta duas formas de alienação a Deus. A primeira é a libertinagem de uma vida mundana. A segunda é a religiosidade de uma vida legalista. Ou seja, é possível rejeitar a Deus como “desviado” e como “crente”. 

“Um certo homem tinha dois filhos” (v. 11)- Não é apenas a história de um filho perdido, mas sim de dois. Sendo que o foco é o desprezo da alegria pelo filho mais velho. Essa foi uma parábola escrita para mostrar que o moralismo farisaico e dos escribas era uma atitude tão pródiga quanto a libertinagem do filho mais novo. 

“E ele repartiu por eles a fazenda” (v.12). O texto está dizendo literalmente no grego que esse pai estava “desperdiçando sua vida”, pois tamanha era a generosidade- considerada irresponsável pela sociedade da época- em repartir uma herança ainda em vida. Outro paradoxo da vida cristã é que o amor demanda liberdade: “Sou amado a tal ponto que tenho liberdade para abandonar a casa” [Henri Nouwen]. 

“Ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente.” (v. 13). Entre viver dissolutamente e celebrar festas com o pai. Uma questão entre a estupidez e a sabedoria. 

“E chegou-se a um dos cidadãos daquela terra” (v. 15). O verbo “chegar” traz a ideia que o filho pródigo conseguiu um empreso humilhante e amaldiçoado com muita custo. O fundo do poço era, ainda, fruto de humilhação. 

“Caindo em si” (v. 17). Uma expressão da própria conversão é reconhecer a si como miserável. Isso diferencia a atitude do filho pródigo para o seu irmão moralista e cheio de “dever”. O estado de rebelião é alienação parente Deus. É uma espécie de loucura. 

“Quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão” (v. 20). Os pais, na maioria das vezes, cuidam mais dos filhos problemáticos do que dos filhos que “não dão trabalho”. Esse aspecto do amor muitas vezes irrita aqueles que não são objeto desse cuidado. Isso, também, reflete a atitude de Jesus para com os pecadores: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores”. [Marcos 2.17 NVI]

"A volta do Filho Pródigo"
Pintura de Rembrandt van Rijn
“E, correndo” (v. 20). Não era próprio a um homem velho correr. Correr era atitude de crianças. Mostrar as pernas era uma desonra ao homem judeu de certa idade. As extravagâncias do pai é o símbolo das extravagâncias que Deus pai concede pela Sua rica e infinita misericórdia. 

“Já não sou digno de ser chamado teu filho” (v. 21). O pródigo queria ser visto como um empregado. O filho mais velho queria ser reconhecido como um bom servo. O pai queria que ambos entendessem que o melhor seria ser filho. A graça é o resgate da identidade.

“Comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado” (v. 23, 24). A alegria da conversão é restaurada. 

“Mas ele se indignou e não queria entrar. E, saindo o pai, instava com ele” (v. 28). O filho mais velho mostra intolerância, mesquinhez e uma falta de compreensão da misericórdia. Ou seja, a atitude de qualquer religioso. Ele desonra o pai ao negar participação na festa. O religioso tem uma espiritualidade rasa, pois na primeira oportunidade interpreta as atitudes de misericórdia como injustiça e “insta” com Deus.

“Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos” (v. 29). O problema da religiosidade é achar que pode comprar Deus como “bom comportamento”. 

“Este teu filho” (v. 30). “Este teu irmão” (v. 32). O pai contrasta a aceitação dele com o filho moralista. É a própria conclusão que bate de frente com o espírito farisaico

Bibliografia consultada:


KELLER, Timothy. O Deus Pródigo. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010. p 173. 

NOUWEN, Henri J. M. A Volta da Filho Pródigo: A história de um retorno para casa. 1 ed. São Paulo: Editora Paulinas, 1997. p 167. 

RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré. 1 ed. São Paulo: Editora Planeta, 2007. p 179-187.

SNODGRASS, Klyne. Compreendendo Todas as Parábolas de Jesus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p 182- 218. 

VICENT, Marvin. Vincent: Estudo do Vocabulário Grego do Novo Testamento (Volume I). 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p 316-322.

Um comentário:

Daladier Lima disse...

Associo os dois filhos aos gentios e a Israel. Os judeus não gostam de conversões cinematográficas, são risíveis e exclusivistas. Já os gentios são exemplares da graça divina. Saíram cedo da casa paterna, correram o mundo e, agora, tem a atenção do Pai celestial, pois voltam atrás empedernidos, ao contrário do outro filho.

Inclua em sua bibliografia o material de William Barclay, sempre com muitas novidades sutis em muitos textos do NT.

Abraços!