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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Por que precisamos de obras mais densas?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Recentemente escrevi [leia aqui] sobre a necessidade dos pentecostais brasileiros produzirem obras mais densas de teologia. Algo que alguns carismáticos americanos e canadenses já fazem. Sim, uma teologia acadêmica propriamente dita. Fui, como é natural, mal interpretado. Alguns entenderam como se eu tivesse defendendo um bacharelismo na linguagem ou uma precisão da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas)  para tudo e para todos. Não, não é isso que eu quis dizer. E nem eu estava defendendo uma escrita hermética acessível somente para alguns poucos iluminados etc. e tal.

Bacharelismo hermético
Livro apostilado
Obras de referência
Usa uma linguagem incompreensível de maneira proposital.
Usa linguagem simples ou simplória.
Usa uma linguagem mais acessível e procura definir termos não usuais.
Escreve qualquer obra como se fosse uma tese de doutoramento.
Escreve o básico do básico e de maneira rápida. Não procura aprofundamento. Normalmente são livros curtos.
Escreve com o propósito de ser compreendido, mas sem superficialidade e sem a necessidade de repetir o “arroz com feijão” que todo mundo já falou.
Escreve para poucos.
Escreve para muitos.
Escreve para muitos, mas nunca será como um best-seller de autoajuda.
Escreve muito para falar pouco.
Escreve pouco e fala pouco.
Escreve muito para falar muito.
Não contextualiza o público do assunto tratado e julga todos como especialistas na matéria citada.
Contextualiza, mas a didática é quase paternalista.


Procura contextualizar, mas também sem tratar o leitor como um bebê meio bobo e sem qualquer referência.

Sim, os pentecostais precisam de obras mais densas. Um livro introdutório não é suficiente. Na minha pequena biblioteca há inúmeros livros de introdução à pneumatologia pentecostal. Ora, será que não precisamos sair da introdução? Isso acontece porque as editoras evangélicas, no geral, se preocupam bastante como “introduções disso e daquilo” e esquecem de aprofundar o debate. E temos inúmeros homens capazes de produzir obras referencias excelentes. Por que não sair do básico?

Não é um mal somente entre os teólogos pentecostais. É até um problema generalizado em outros assuntos como apologética, teologia do Antigo Testamento, teologia do Novo Testamento etc. Veja, por exemplo, quantos livros de introdução à apologética temos no mercado editorial evangélico? Só recentemente algumas editoras evangélicas, como as Edições Vida Nova, começaram de maneira muito acertada a publicar uma apologética que foge de mera introdução com autores como Alvin Plantinga e William Lane Craig. É até curioso que o clássico apologético Cristianismo Puro e Simples de C. S. Lewis tenha sido publicado no Brasil pelo católica Editora Loyola e depois pela secular Editora Martins Fontes. Outra coisa: a pequena oferta de livros de referência sobre o Antigo Testamento é uma vergonha para todos nós. 

Mas voltando ao ponto: por que precisamos de obras mais densas? Ora, há vários assuntos que não podem ser trabalhados em livros apostilados, em fast-food literário ou em rápidas palestras. Quando escrevo isso lembro da forma como o tema “tolerância” foi abordado por dois autores evangélicos distintos. O John MacArthur certa vez disse em uma palestra que “a heresia vem montada nos lombos da tolerância”. A frase solta simplesmente demoniza a “tolerância” e inibe qualquer simpatia pelo termo. Assim, a análise caiu num superficialismo bem típico do fundamentalismo macarthuriano. Enquanto isso, o teólogo conservador D. A. Carson escreveu dois livros onde trata de modo extensivo sobre o assunto. Na obra The Intolerance of Tolerance [2 ed. Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 2012] Carson argumenta sobre duas formas distintas de “tolerância” e analisa esse aspecto pela história, a filosofia e a própria teologia. Ora, esse é apenas um exemplo de como uma obra densa (não necessariamente grande) pode ajudar a compreender um tema de maneira mais ampla. Outro livraço sobre o mesmo assunto escrito por Carson é O Deus Amordaçado [1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013]. Portanto, essa é a diferença entre um autor ou palestrante profundo de outro superficial.

Bom, espero ter sido claro.

8 comentários:

Marco Antonio disse...

Exatamente!

Daladier Lima disse...

Prezado Gutierres, um dos grandes problemas para alcançarmos obras densas é a quase ausência de produção intelectual dos seminários. Outro problema é que as editoras estão preocupadas com vendas e não com aprofundamento dos leitores. Junte-se a isto a falta de estímulo ao escritor brasileiro e está feito o monstro.

Aprendiz disse...

Gutierres

Está pegando demais no pé do MacArtur. Parece que a questão ficou muito pessoal.

Andrew Comings disse...

Concordo com o Aprendiz. O MacArthur tem escrito muito sobre o assunto da tolerância, e com certeza o D.A. Carson já fez afirmações deste tipo. Sua colocação, demonstra a atitude que está tentando rebater.

alvaro disse...

concordo plenamente,há uma necessidade do obras mais densas em lingua portuguesa,mas,também à a necessidade de os lideres pentecostais terem o desejo de consumirem essas obras,pois tenho visto nas igrejas pentecostais(inclusive a qual faço parte)a falte de interesse de conhecimento teologico,contentado se apenas com superficiais explanações.

Carlos Roberto disse...

Como vai Gutierres? Paz do Senhor irmão.Muito relevante o post e por demais necessário repetir sempre esse assunto.Não concordo plenamente com o Daladier sobre as editoras se preocuparem só com vendas,não são todas(claro que é a maioria)uma e outra ainda mantém uma certa dignidade(o preço talvez seja salgado para o consumidor).Estímulo ao escritor brasileiro você encontra, mas é em lugares que a doutrina pentecostal não se encontra.O escritor brasileiro na minha humilde opinião têm que ser bom.Aliás temos esses autores,mas a maioria fora do cenário Pentecostal

Gildo Gomes disse...

Irmão Gutierres, não é possível considerar MacArthur superficial por determinada declaração isolada que tenha dado, embora concorde com você sobre os posicionamentos dele acerca do pentecostalismo. Já li mais de 15 livros dele, incluindo o não recomendável "Os Carismáticos". Mas convenhamos se o considerarmos superficial imagine então o teólogo pentecostal Donald Stamps, pois se compararmos as Bíblias de estudo de MacArthur e Pentecostal a última está muito aquém. E sobre a falta de densa e boa literatura teológica no meio pentecostal, especificamente no nosso meio assembleiano faço uma pergunta: "Porque será que o "papa" da Assembleia de Deus, pastor Antônio Gilberto, não escreve obras desse gênero"? Inclusive a Teologia Sistemática Pentecostal, poderia ter sido escrita apenas por ele como consultor máximo da CPAD. Aqui no Brasil Leandro de Sousa e Franklim Ferreira, por exemplo, já escreveram sozinhos boas teologias sistemáticas. Ah, a expressão "papa" que usei é sem nenhum demérito, por isso entre aspas e pelo fato de alguns blogs e sites destacarem até que Antônio Gilberto é ex-cientistas da NASA e nesse caso acho que seja o único teólogo no Brasil com esse detalhe no currículo.

Walder disse...

Concordo, não tenho nem o que falar. Perfeito!