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domingo, 13 de outubro de 2013

Por que tanta resistência ao ensino teológico?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Continuado o assunto do último post. [Leia aqui].

O anti-intelectualismo ainda persiste no pentecostalismo brasileiro. Diminuiu bastante, mas a frente contra o estudo aprofundado é resistente. Vejamos alguns exemplos:

1. Ausência de obras acadêmicas escritas por pentecostais. Infelizmente, é possível contar nos dedos as obras de referência escritas por brasileiros carismáticos. Falta capacidade? Não, alguns pastores assembleianos são eruditos de primeira linha. Agora- não sei bem o porquê- muitos desses eruditos só escrevem obras de “vida cristã” ou alguns livros apostilados.  

Em 2008, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) publicou o livro Teologia Sistemática Pentecostal escrita por autores brasileiros, mas logo se percebe que a obra não tem uma unidade (em tamanho dos textos, no padrão das citações e nas notas bibliográficas etc.). É uma copilação de artigos. Não estou dizendo que a obra seja ruim (pelo contrário, eu recomendo), mas poderia ser bem melhor. Não entenda essa observação como uma crítica aos autores (alguns são meus colegas), mas essas falham mostram uma falta de tradição nessa área.

Exemplo de erudição pentecostal.
A CPAD tem ótimas obras acadêmicas, mas em sua maioria são traduções. Os pentecostais norte-americanos e canadenses não têm esse problema com obras de referência. Eu sempre dou como exemplo o livraço Comentário Bíblico Pentecostal (1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003) editado pelos teólogos French L. Arrington e Roger Stronstad. Outro exemplo interessante de erudição pentecostal é o livro Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento (1 ed. São Paulo: Loyola, 2008) escrita pelo doutor Wilf Hildebrandt. Stronstad ainda escreveu na década de 1980 aquela que continua a ser a obra de referência da hermenêutica lucana para uma leitura pentecostal. É o livro Charismatic Theology of St. Luke, The: Trajectories from the Old Testament to Luke-Acts [1]. Essa obra foi amplamente debatida no contexto hermenêutico anglo-saxão, especialmente em debates com Gordon D. Fee, erudito em Novo Testamento e pastor das Assembleias de Deus [2].

2. O serviço intelectual é desprezado. Em uma igreja pentecostal você só trabalha para o Reino de Deus se for um missionário transcultural ou um evangelista de praças. O serviço do ensino é simplesmente desprezado. Você pode se esforçar ao máximo, mas a igreja- no geral- não levará isso em conta. Ora, como é possível ignorar que a Grande Comissão envolve a missão evangelizadora, mas também (e igualmente) o discipulado? Outro detalhe importante: os pentecostais esquecem que o ensino bíblico é um dom “espiritual”. “Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine”, diz Paulo em Romanos 12.6-7. Veja que o dom de ensinar é colocado ao lado do dom de profetizar. 

3. Intelectual como sinônimo de soberbo. Hoje eu falava na igreja sobre a vaidade e dei como exemplo aqueles crentes que se exaltam na ignorância, ou seja, aqueles que se acham “mais espirituais” porque não estudaram. Falei até em tom de brincadeira, pois toda vez que vejo a ilustração de um sermão sobre a figura do soberbo, o pregador costuma usar o exemplo do “intelectual vaidoso”. Ou seja, sempre quem é dedicado ao estudo é estereotipado como orgulhoso. Ora, a vaidade é parte da natureza humana. Há quem se orgulhe do seu conhecimento? Sim, há. Mas há também que se orgulhe de sua “humildade”! Vide o ex-presidente Lula que sempre exaltava a si mesmo e a sua falta de estudo. Ao mesmo tempo ele falava sobre sua suposta competência. Era a vaidade da ignorância. 

Portanto, é necessária trabalhar contra essa mentalidade anti-intelectual que permeia a igreja evangélica (e pentecostal, especialmente), assim como a cultura brasileira. Cultura essa que nunca deu muito valor para a educação. 

Nota:

[1] É uma pena que uma obra tão importante para o pentecostalismo não tenha tradução em português. 

[2] Ainda que Fee esteja distante da pneumatologia pentecostal, especialmente na relação do Batismo no (ou com) o Espírito Santo como uma segunda experiência para o serviço cristão.

14 comentários:

Diego Tosato disse...

Ótima postagem irmão, Deus continue te iluminando..

Anônimo disse...

A paz do Senhor!
Isso é pura verdade, acerca do ensino teológico no seio da Igreja. Queira o não ainda importamos teologia americana. Essa falsa interpretação que a letra mata (2 Co 3.6), tem levado miutos obreiros(a ser anti-intelectual) a não buscar o conhecimento bíblico e teológico. E mais por isso que existe esta resistência em ser um bom escritor, teólogo, educador cristão, com compromisso com a essência da Palavra de Deus. Que Deus levante mais escritores brasileiro para sua glória!

Daladier Lima disse...

Coincidentemente ontem estávamos no culto quando um dos irmãos começou a falar: Não precisa ser teólogo para fazer tal serviço para Deus, etc. Repetindo umas duas vezes. Leu um versículo e disse: Eu pesquisei o significado deste termo, etc.

Depois eu fui falar: Irmãos, sem querer o nosso amado irmão fez teologia. Talvez sem saber, mas sua pesquisa ampliou seu conhecimento e o fez mais entendido numa determinada área do conhecimento bíblico, isto é teologia.

Ou seja, pura ignorância.

Abraços!

klebersantos disse...

A Paz do Senhor Jesus!
Meu irmão,essa falta de interesse pelo estudo teológico seja por um dos motivos que o pastor Paulo Romeiro certa vez destacou[..],vivemos muna geração mais propensa a sentir do que pensar...

Em Cristo Jesus
Kleber Santos

Erick Lima disse...

A aversão à falta de compromisso com os princípios da palavra de
Deus dos liberais no meio pentecostal, promove uma cultura anti-intelectual. É fato que a santidade é algo precioso para o crente e ele não deve abrir mão dela. O problema é que rejeitando o conhecimento, eles dão um passo em direção ao legalismo, que é um passo em direção oposta a piedade ou santidade cristã. O pentecostal, quando rejeita conhecimento, ainda que no afã de acertar, caminha para doutrinas que estão desfocadas com os fundamentos de nossa fé. Quando olho para homens eruditos e piedosos como D A Carson percebo que, se alguém se tornou liberal, não foi por ter estudado, mas por não ter se negado e por ter se divorciado de Cristo. Penso também que muitas pessoas que o Espírito de Deus dotou com a capacidade para o ensino ou para entendimento profundo da palavra, são paralisadas pelo adversário, que usa essa cultura legalista anti-intelectual como ferramenta.
O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.
Oséias 4:6
E dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência. Jeremias 3:15

Só mais uma coisa, o conhecimento deve gerar mais piedade na vida do cristão.
Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.
Oséias 6:6

Gilmar Valverde disse...

Prezado Gutierres,

Quanto à obra Teologia Sistemática Pentecostal, que você abordou neste artigo, você não acha que ela está bem adaptada ao seu público-alvo?

Acho a obra muito boa e além disso ela serve para o cristão pentecostal que não tem muito conhecimento bíblico e teológico. Talvez esse tenha sido o grande motivador para a sua escrita.

Compare ela com a de Norman Geisler e você verá uma facilidade de compreensão para o leigo muito maior do que a segunda.

Ainda por cima, a obra é pequena em número de páginas, o que atende ao público que não tem como hábito a leitura.

Atenciosamente,

Gilmar

Erick Lima disse...

"Pensar é umas das coisas mais perigosas que fazemos. O apóstolo Paulo nos alerta que o conhecimento incha a pessoa, mas ele também nos ordena; [Sejam maduros ao pensarem]. O uso de nossas mentes é absolutamente necessário para que sejamos humanos e adoradores. Então faça essa coisa perigosa. Mas faça bem feito. Por muitos anos isso tem me deixado perplexo, O chamado para se pensar biblicamente parecia totalmente necessário, mas não absoluto. O pensamento é uma ferramenta criada para a construção de algo maior. Este algo maior é amar a Deus. Então o ato de amar a Deus sempre irá requerer pensar da forma correta sobre Deus. A igreja, e em especial a igreja americana, tem um histórico longo de anti-intelectualismo. O intelectualismo tem um histórico de ataque e desonra a ambos, Deus e a igreja. Então a rejeição é compreensível, mas isso não acaba bem. Quando a vida fiel e robusta da mente é diminuída, os benefícios espirituais não duram. Neste caso, àquilo que gostaríamos mais de proteger é eventuamente enfraquecido. O grande mandamento é amar a Deus com tudo em nós, isto incluiria nossas mentes. Se nossos meios de amar forem restritos, então nosso amor por Deus enfraquecerá. Nossa mente e coração devem estar unidas, para que Cristo produza ações que honrem a Deus e satisfação duradoura..." John Piper - fonte: http://www.youtube.com/watch?v=3F1V2fZS7yA

Gildo Gomes disse...

Meu irmão vou te dizer uma coisa: afirmar que a obra Teologia Sistemática, CPAD poderia ser melhor é ser generoso viu. Já pensou numa teologia que no capítulo de eclesiologia não tem uma sílaba sobre as ordenanças/sacramentos: batismo e ceia. E esse mesmo capítulo é literalmente uma reprodução da revista da escola dominical de jovens e adultos do 4º trimestre de 1998. E o que dizer daquele apêndice no final do capítulo de pneumatologia? O interessante é que muitos de nossos comentaristas falam do pequeno espaço nas obras literárias para aprofundamento do tema. Mas as 6 últimas páginas desse capítulo tornaram-se de pouca utilidade aos leitores. Lembram-se da propaganda: "A safra de teólogos pentecostais brasileiros não ficou no passado". Depois que comprei e li essa teologia dei vivas as pequenas, porém bem melhores teologias sistemáticas de Eurico Bergsten e Raimundo de Oliveira, também da CPAD.

Gutierres Siqueira disse...

Caro Gilmar, a paz!

Vejo isso como um problema. As editoras parecem preocupadas apenas em lanças livros "introdutórios". Eu, por exemplo, tenho vários livros de apologéticas introdutórios. No fundo, todos falam a mesma coisa. Uma hora é necessária avançar um pouco...

Abs!

Gilmar Valverde disse...

Gutierres,

Eu concordo com o irmão. Só acho que a obra em questão é boa por conta disso. Nossa realidade hoje é outra, e essa teologia sistemática atende, e muito, a boa parte dos cristãos pentecostais, que, repito, não possui conhecimento bíblico-teológico necessário para esse avanço que você tão bem mencionou.

Num curso de Teologia que está tendo no ministério que faço parte, alguns alunos compraram esse livro e vejo que a decisão foi acertada por causa disso que relatei.

Enfim, acho a obra muito boa, principalmente no que se propõe: ensino bíblico-teológico que sirva até para os mais leigos na Palavra. Digo "até", porque acredito eu que ela também serviu para muitos mais entendidos no assunto.

Ah, aproveitando o ensejo, quais obras você me indicaria para esse avanço no conhecimento da Palavra de Deus? Li a Teologia Sistemática Pentecostal da CPAD e estou lendo a da Editora Vida, escrita por J. Rodman Williams, no momento (que é muito boa).

Um abraço,

Gilmar

Pr Alessandro Garcia disse...

Falando sobre algumas obras da CPAD, tenho observado que algumas delas ferem brutalmente o pensamento teológico assembleiano e até protestante, como é o caso do VICENT VOL I, que afirma que a pedra sobre a qual a Igreja é edificada é Pedro. Temos que ter muito cuidado com essas obras e aprender a filtrar o seu conteúdo.

Erick Lima disse...

Concordo com você Pr Garcia. Isso é teologia católica. Eles ensinam isso para legitimar a pseudoautoridade papal na interpretação das escrituras. Assim o papa atesta aberrações heréticas como a mariologia que mais me lembra mariola que teologia por assim dizer, mas ninguém questiona, pois eles(papas) afirmam que são sucessores de Pedro. O Espírito Santo Falou através de Pedro que Jesus é o filho de Deus, e o Espírito Santo falou através de Cristo homem que Todo aquele que Confessa Jesus como filho de Deus é Pedra, e sobre essa verdade a igreja é edificada e as portas do inferno não prevalecem.

César Lopes disse...

Excelente texto! O exemplo da soberba na humildade é um fato!

Acho que uma das maiores contribuições da CPAD é o jornal Mensageiro da Paz - uma prova da existência de bons escritores pentecostais brasileiros!

Erick Lima disse...

Hei nick, não somos neocalvinista. Nem queremos ser. Falo pela maioria, inclusive eu. Agora falo por mim, também não arminiano nem quero ser.