Pesquisar este blog

Carregando...

domingo, 1 de dezembro de 2013

Existe vida na teologia contemporânea

Por Gutierres Fernandes Siqueira

"Deus, dá-nos a graça de aceitar com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, a coragem para mudar as que devem ser mudadas, e sabedoria para distinguir uma da outra". [Reinhold Niebuhr]
Rahner é cada
vez mais influente
Nem sempre uma expressão indica exatamente o significado dela. A “teologia contemporânea” é um desses conceitos cujo significado deve ser explicado. O contemporâneo não quer dizer meramente sobre uma teologia ensinada neste momento da histórica, mas sim uma teologia produzida no último século. E, em geral, essa nova teologia veio fartamente influenciada pela filosofia de seu tempo, seja pela modernidade tardia ou pela hipermodernidade. Mas há um contingente de teólogos contemporâneos que são críticos dessa paixão irrefletida pela modernidade. Ou seja, há vida na teologia contemporânea. E é sobre esse grupo que o artigo tem como objeto de apreciação. 

Erro comum entre alguns teólogos conservadores é confundir “teologia contemporânea” com teologia moderna ou liberal. Outro equívoco é atribuir à teologia contemporânea uma forma sutil de Teologia Liberal. Alguns chegam a dizer que Karl Barth é mais perigoso que Rudolf Buttmann, pois enquanto o segundo é “transparente”, o primeiro seria sorrateiro. Claramente um exagero. Na teologia, como na vida, nem tudo é oito ou oitenta, preto ou branco. Há sempre uma zona cinzenta. Sem negar os fundamentos das Sagradas Escrituras, bem expressos nos Credos, é possível debater e respeitar opiniões divergentes. 

Sempre cito que a melhor crítica que li- até este momento- sobre a Teologia Liberal veio do livro Cristo e Cultura de  H. Richard Niebuhr, um autor neo-ortodoxo [1]. Os irmãos Niebuhrs - o outro é Reinhold Niebuhr- foram os maiores expoentes da neo-ortodoxia nos Estados Unidos. Eles não era propriamente evangelicais, conservadores e, muito menos, fundamentalistas, mas a crítica à Teologia Liberal é simplesmente bem focada. É até famosa a frase de H. Richard que fala sobre a teologia liberal como “um Deus sem ira, que conduziu homens sem pecado para um reino sem julgamento, pela ministração de um Cristo sem cruz” [2]. O autores Ed. L. Millher e Stanley J. Grenz lembram que “entre os teólogos contemporâneos, [Reinhold] Niebuhr foi um dos mais ardentes defensores da doutrina do pecado original” [3]. E cita uma famosa frase de Reinhold claramente influenciada por Chesterton: “A doutrina do pecado original é a única doutrina da fé cristã de comprovação empírica”. 

Portanto, desprezar uma riqueza teológica porque essa não segue ponto a ponto determinada confissão de fé donde se congrega é simplesmente perder. É possível citar muitos nomes não-evangelicais, mas que todo evangelical pode ler tais teólogos para o próprio enriquecimento e maior profundidade bíblica. Alguns desses teólogos são de tradição protestante como os irmãos Niebuhrs, Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, Wolfhart Pannenberg. Outros de tradição católica como Joseph Ratzinger, Hans Urs von Balthasar, G. K. Chesterton, Peter Kreeft etc. Discernindo tudo e retendo o que é bom.

O outro lado

Infelizmente, não é a teologia contemporânea dos Niebuhrs que faz sucesso no Brasil. Nem mesmo os textos devocionais de Bonhoeffer. Outros teólogos formam a cabeça de jovens e velhos para um liberalismo rasteiro. Exemplo disso é a crescente influência de Karl Rahner, um dos mais controvertidos teólogos católicos do século XX. Certamente você conhece algum discípulo anônimo de Rahner por aí, seja nas redes sociais, no YouTube, na sua igreja ou no seminário. 

Karl Rahner foi um dos maiores críticos do “pessimismo salvífico agostiniano”, ou seja, a sua antropologia era otimista, pois a salvação é um caminho construído pelo homem mediante uma consciência iluminada pela bondade e na prática do bem comum. Rahner escreveu que “cada caminho trilhado pelo ser humano em real fidelidade à sua consciência é um caminho que conduz ao Deus infinito” [4]. Soa familiar? Bom, na teologia “a oferta da graça, na ordem atual, alcança todos os homens, e que estes têm certa consciência, não necessariamente reflexa, de sua ação e de sua luz” [5]. O “cristãos anônimos” de Rahner são até mesmo os ateus ou adeptos de qualquer culto que encontram um relacionamento com Deus potencializando sua humanidade. 

Moralismo

Se o homem é salvo pela consciência de humanidade essa redenção é antropocêntrica, ou seja, é centrada no próprio homem. Não há necessidade de Cristo, da cruz e nem mesmo da Igreja como meio de graça. Ora, para ser uma “uma pessoa de bem” não “é preciso ser cristão [...] Basta ser kantiano, estóico ou...fariseu” [6], como bem criticou o conceito de Rahner por Clodovis Boff, um dos fundadores da Teologia da Libertação e hoje um dos melhores críticos. Clodovis ainda lembra que o cristianismo não pode se resumir a um código gnóstico (escondido) de valores morais salvíficos. 

Isso mesmo, o cristianismo não se resume a uma moralidade. O teólogo suíço Hans Urs von Balthasar era amigo de Karl Rahner, mas acusou o teólogo alemão de “não propor uma teologia da cruz e uma soteriologia dignas desses nomes” [7]. A teologia de Rahner é puro moralismo. É isso que a teologia rahneriana oferece: moralidade para salvação. Isso é tudo, menos graça divina. É uma maldição e um peso para o ser humano pensar a salvação como construção própria. Só a verdade do Evangelho tira do homem tamanho enfado. O Evangelho é Deus em resgate do homem e não o homem na consciência de si e com sua bondade inata ao encontro de Deus. 

Portanto, é lamentável que alguns jovens teólogos sigam o velho caminho da religiosidade e sigam pregando um moralismo salvífico sob linguagem moderna. Enquanto isso poderiam ler outros teólogos contemporâneos melhores. Engraçado e irônico, mas estão na mesma religião dos fariseus. 

Referências Bibliográficas:


[1] NIEBUHR, H. Richard. Cristo e Cultura. 1 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. p 289.  E, na minha opinião, a segunda melhor crítica é de um conservador: MACHEN, J. Gresham. Cristianismo e Liberalismo. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2012. p 151. 

[2] NIEBUHR, H. Richard. The Kingdom of God in America. 1 ed. Chicago: Harper & Row Publishers Inc., 1937. p 193. 

[3] MILLER, Ed. L. e GRENZ, Stanley J. Teologias Contemporâneas. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2011. p 41. A frase de Niebuhr é influenciada pelo pensamento de Chesterton: “Certos novos teólogos questionam o pecado original, que constitui a única parte da teologia cristã que pode realmente ser provada. Alguns seguidores do rev. R. J. Campbell, em sua espiritualidade quase exigente demais, admitem a ausência de pecado em Deus, que não podem ver nem em sonhos. Mas eles essencialmente negam o pecado humano, que eles podem ver na rua.” [CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008. p 27.]. 

[4] RAHNER, Karl. La chiesa, le chiese e le religioni. p 451. Cit. em: OLIVEIRA, Pedro Rubens F. de e PAUL, Claudio. Karl Rahner em Perspectiva.  1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p 252. 

[5] Comissão Teológica Internacional. O Cristianismo e as Religiões. Vaticano. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_1997_cristianesimo-religioni_po.html> Acesso em: 01/12/2013. 

[6] GONÇALVES, Alexandre. A Libertação da Teologia: Entrevista com Clodovis Boff. Dicta e ContraDicta. vol. 10. São Paulo: Instituto de Formação e Pesquisa, 2013. p 52. Clodovis tem seguido caminho do irmão Leonardo Boff, que além de um distanciamento do cristianismo está cada vez mais próximo de um panteísmo ambientalista e, também, não se distancia de uma ideologia marxista.

[7] SESBOUE, Bernard. Karl Rahner: Itinerário Teológico. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p 28. Balthasar também disse o óbvio: a teologia rahneriana é “uma antropologização do cristianismo”. Veja mais: GIBELLINI, Rosino. Teologia do Século XX. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002. p 237.

3 comentários:

Walder disse...

Moralidade é o legalismo travestido.
Cresci numa escola legalista e hoje luto contra o liberalismo. Tanto um como o outro são como um cancêr que aos poucos vai corroendo a salvação, se é que ela existiu em algum momento, nesses casos.

A todos, deixo Isaias 45.22

alvaro disse...

belo texto Gutierres,vejo que o moralismo tem sido um grande problema dentro das igrejas hoje, e é uma pena que as lideranças não se preocupam em debater isso em seus pupitos

Erick Lima disse...

O legalismo levou o povo judeu a ser rejeitado.

"Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus.
Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê." Romanos 10:3-4

Recentemente postei um singelo artigo sobre salvação, como é Deus que age em nossa salvação e a responsabilidade do homem nesta.

http://atalaiasdoreino.blogspot.com.br/2013/12/e-justo-as-pessoas-irem-para-o-inferno.html