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sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Pessoa do Espírito Santo é uma “produção” do pensamento neotestamentário? Uma crítica a Roger Stronstad

"E o Espírito de Deus se movia 
sobre a face das águas". Gênesis 1.2
Por Victor Leonardo Barbosa [a]


Recentemente recebi The Charismatic Theology of Saint Luke, a importantíssima obra do teólogo pentecostal Roger Stronstad, publicada pela Hendrickson Publishers em 1985 e, agora, reeditada em 2012 pela Baker Publishing House. Tal livro marcou época, por ser uma firme defesa erudita da hermenêutica pentecostal nos textos lucanos (Evangelho de Lucas-Atos). Originalmente concebida como uma tese de doutorado, o livro de Stronstad apresenta uma língua simples e firme, com a citação de importantes obras de teólogos como James Dunn e Frederick Dale Bruner (que argumentam contra a interpretação pentecostal tradicional). Infelizmente tal obra ainda não se encontra disponível em português.

Há pequenos detalhes, porém, que chamam a atenção e geraram em mim uma firme discordância. Depois do instigante primeiro capítulo: “O Espírito Santo em Lucas-Atos: uma mudança metodológica”, Stronstad passa a analisar o Espírito Santo no Antigo Testamento (capítulo 2), e aí surgem minhas divergências. Na página 16 do livro, ele faz uma desconcertante declaração: “Na discussão da atividade carismática do Espírito de Deus, o interprete cristão deve resistir a sutil tentação de interpreta-la na luz de seu conhecimento cristão... na Bíblia hebraica o Espírito de Deus não é nem plenamente pessoal nem o terceiro membro da Trindade. Estas são verdades cristãs, não hebraicas”1.

Qualquer teólogo judeu e liberal vibraria ao ler tais declarações preocupantes, e sem dúvida, isso geraria fortes reações de teólogos conservadores, incluindo pentecostais [a]. Ao dizer que a pessoa do Espírito Santo só é revelada como pessoa no Novo Testamento, Stronstad põe em cheque a continuidade entre o Antigo e Novo Testamento, possibilitando a formação da típica dicotomia entre o Deus do Antigo e o Deus do Novo. Outro problema em questão (que gera farta discussão na área da teologia bíblica veterotestamentária) é como ver as firmes declarações do Senhor Jesus acerca do Antigo Testamento como um testemunho de sua Pessoa? É verdade que em o NT, encontramos mais profundamente iluminados em diversos assuntos não totalmente detalhados no Antigo, mas por certo aqui também há luz. No dizer de David Murray, as sombras do Antigo testamento são “iluminadoras”2, pois já tratavam acerca da Pessoa de Jesus, igualmente por sua atividade redentora., a bem da verdade, o próprio Senhor Jesus afirmou que tudo no Antigo Testamento apontava para Ele [cf. Lc 24.27]. Se crermos na autoridade de Cristo, precisamos analisar o que Ele apresenta acerca da pessoa do Espírito Santo, porém, antes uma nota lexical é necessária.

A argumentação de Stronstad, sem dúvida, está ligada com a palavra “Espírito” no original hebraico (ruah), que pode ser traduzida por “sopro” ou “vento”. Por isso, o Espírito de Deus é visto, na maioria das interpretações liberais e em geral por judeus, como uma força de Deus, em vez de possuir personalidade. Um dos que discordam frontalmente com tal perspectiva é o teólogo pentecostal Stanley Horton. Em seu Livro A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento, comentando acerca de Gênesis 1.2 , Horton afirma:


Um exame mais próximo da realidade do primeiro capítulo de Gênesis demonstra que Deus é o sujeito da maioria das frases, lemos que Ele criou, viu, chamou, fez, abençoou. O quadro inteiro e de Deus em ação, não qualquer um, mas o único Deus verdadeiro. Assim vemos que o hebraico considera a palavra Deus como substantivo definido. Uma regra da gramática faz da Palavra Espírito um substantivo também. Assim sendo, a única tradução que se relaciona com o contexto é o Espírito de Deus 3.


Há outro detalhe importante, a declaração teológica de Stronstad não se reconcilia com a Teologia do Espírito como exposta principalmente por Isaías. É dito em Isaías 6:10:
“Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles”.

Ao comentar essa passagem, Meno Kalisher afirma que a passagem “demonstra que Ele é muito mais do que uma força ou ‘energia’ proveniente de Deus. A capacidade de ser contristado é uma característica de personalidade. O Espírito Santo tem todo o direito de ser tratado com uma pessoa”4.

No que tange a questão gramatical da palavra “ruah”, a explicação perfeita provém dos lábios do próprio Senhor Jesus, encontrado singularmente em dois momentos do Evangelho de João. No debate com Nicodemus, Jesus faz uma importante comparação e analogia entre os dois significados de “ruah” (no grego, pelo seu equivalente “pneuma”) no versículo oito: “O vento (pneuma) assopra onde quer, e ouves a sua voz (Phone - som, ruído, voz), mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito (gr. Pneumatós)” .

No dizer de D. A. Carson, Jesus "está traçando uma analogia entre o vento e o Espírito, ou mais precisamente, os efeitos do vento e os efeitos do Espírito, e a coesão interna da analogia é mais firme no texto grego que no português, porque em grego utiliza-se a mesma palavra”5. Fica claro que na verdade as palavras “ruah/pneuma” são análogas, sendo por isso que em determinadas passagens, o vento pode simplesmente identificar um vento comum, porém em outras partes, alguém pessoal, agindo.

A outra declaração clara da pessoa do Espírito feito por Jesus está em íntima conexão com Isaías. Em João 14.26: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o quanto vos tenho dito”, e também 15.26: “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito da verdade, que procede do pai, ele testificará de mim”. A palavra de Jesus encontra firme paralelo com a palavra do servo do Senhor em Isaías 48.16: “... Agora, o SENHOR DEUS me enviou a mim, e o seu Espírito”. Esses e outros textos do Antigo testamento claramente testemunham da Pessoa do Espírito Santo no Antigo Testamento.

É claro que é no Novo Testamento que a doutrina da trindade é exposta como um grande sol ao meio dia, porém, não há dúvida que já há feixes de luz na antiga dispensação, a doutrina trinitariana não é uma invenção cristã, mas é a clara manifestação da revelação testemunhada nas Sagradas Escrituras Hebraicas.

Apesar disso, a obra de Stronstad possui grandes méritos, os quais poderão ser expressos em uma resenha propriamente dita. O fato de eu apreciar grandemente seu trabalho não o escusa de receber críticas em um assunto tão importante para a Teologia Sistemática e Bíblica. Assim, como também, para a saúde do corpo de Cristo.

Soli Deo Gloria

Referências Bibliográficas:

[a] NOTA DO EDITOR:  Victor Leonardo Barbosa é formado em Comunicação Social/Jornalismo, editor do Blog Geração Que Lamba,  formando em teologia pela Faculdade Batista Equatorial e membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Belém (PA).

[b] NOTA DO EDITOR: O teólogo pentecostal Wilf Hildebrandt, colega da mesma universidade de Stronstad, discorda dessa posição: "A concepção neotestamentária do Espírito Santo como uma pessoa está baseada sobre e é desenvolvida das Escrituras do Antigo Testamento". Veja: HILDEBRANDT, Wilf. Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Academia Cristã e Edições Loyola, 2008. p 108. 

1 STRONSTAD, Roger. The Charismatic Theology of St. Luke. 2 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2012. p 16.

2 Esse é o título do artigo escrito por Murray, disponível em português no portal da Editora Fiel: http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/116/Sombras_Iluminadas_Pregando_a_Cristo_com_Base_no_Antigo_Testamento. Esse assunto é tratado com mais detalhes em seu livro Jesus on Every Page, publicado pela Thomas Nelson.
3 HORTON, Stanley. A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 18.

4 KALISHER, Meno. Jesus no Antigo Testamento.  1ed. São Paulo: Actual Edições, 2010. p. 23-24. 

5 CARSON, D. A.  O Evangelho de João. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p. 198.

Um comentário:

Pastor José Gonçalves disse...

Veja o que de fato diz Roger Stronstad sobre a Trindade em: http://ag.org/enrichmentjournal_sp/top/200703_pneumatologia.cfm