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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Deus não é indiferente a nossa covardia e reage a ela!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Deus exige demais do ser humano? Essa pergunta é estranha, mas ao mesmo tempo é inconscientemente feita por muitas pessoas. Deus normalmente é apresentado por um certo calvinismo vulgar como o Inflexível, o Soberano cuja ação jamais reage ao ser humano, mesmo que em sua grandeza sejamos esmagados. Sendo, inclusive, um ser desprovido de qualquer emoção. Ele é tão Santo, mais tão Santo, que nenhuma concessão é feita para com a fraqueza do homem. Assim, a determinação do Poderoso Deus é quase de um Demiurgo, pois não importa a realidade do mal provocada por seus desígnios. Ele exige tanto que o homem vive sufocado no desespero.

A Soberania de Deus é uma doutrina bíblica e, logicamente, importante, mas o medo do pelagianismo, do Teísmo Aberto e da Teologia do Processo não pode colocar o evangélico em um beijo escandaloso com o hipercalvinismo. Deus é Soberano, mas não é o Inflexível, o Imovível. A Bíblia não se expressa dessa maneira. Deus reage ao ser humano e às suas circunstâncias, tanto para o bem como para o mal. E isso é um fato. Mas como se Ele é o Rei do Universo? Bom, Deus é certamente mais compreensivo do que muitos pensam e algumas pregações suportam.

O texto de Êxodo 13.17 diz: “E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou [nāḥāh] pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que porventura o povo [nāḥam] não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao Egito”. Observou? Deus reage à covardia do povo. Ele diz: “Ei, mudem de rota, pois se pegarem este caminho logo desistirão diante da primeira batalha”. Deus mandou o povo sair do Egito. Agora, Ele estava a guiar o caminho mais longo porque simplesmente reagiu ao despreparo do povo. Observe, essa reação não é com uma advertência para a coragem ou uma promessa de livramento. Deus decide soberanamente que os hebreus deveriam mudar o caminho.

O verbo hebraico nāḥāh (levar, conduzir, guiar) apresenta, particularmente nesse texto, uma ligação com o verbo hebraico nāḥam (arrepender-se). É como se o autor bíblico fizesse um jogo de palavras. Só que a ação de conduzir é de Deus, enquanto a ação de arrepender-se é do homem. Victor Hamilton [1] chama a atenção para as consoantes n-h-m no verbo levar [os levou - nā·ḥām]. Veja como o verbo  nāḥam (arrepender-se)  tem a mesma raiz das consoantes de levar (nāḥām). Essa ligação tão estreia mostra como o ato de conduzir estava condicionada ao pesar do coração hebreu. Vulgarmente, dessa questão exegética se conclui que Deus age como um pai que compra um doce para um filho que chora diante de uma queda.

Deus se arrepende?

Agora, mais importante que essa ligação é observar que o arrependimento dos israelitas, como fato esperado em uma eventual batalha com os filisteus, é o mesmo verbo para designar a mudança de atitude de Deus após a oração de Moisés (cf. Êxodo 32.11-14). Deus como Soberano não deixa de conduzir (nāḥāh) o Seu povo, mas ao mesmo tempo a situação humana afetou as decisões divinas (nāḥam). Deus não se arrepende, como um homem acusado pela consciência moral, mas Deus reage ao arrependimento do ser humano (cf. 1 Sm 15.11,35 e 29).

Deus não só reage ao sentimento positivo do arrependimento, mas também ao medo, ao pavor, à covardia e, também, à piedade. Evidentemente que Ele não é pego de surpresa ou que o Senhor mude de ideia por mero capricho ou despreparado. Muito menos Deus desconhece o futuro. O conhecimento prévio é um atributo divino e o texto de Êxodo 13.17 é prova disso. Como J. I. Packer escreveu:

Não já insinuação de que essa reação não tenha sido prevista, nem que Deus tenha sida tomado de surpresa, e que ela não estivesse estabelecida em seu plano eterno. Não há mudança alguma em seu propósito eterno quando Ele começa a agir em relação a uma pessoa de maneira diferente. [2]
Portanto, é interessante observar que Deus algumas vezes “muda de ideia” justamente conhecendo a nossa fraqueza. O apóstolo Paulo diz: “Não vos tem sobrevindo tentação que não seja comum aos homens; mas Deus é fiel, o qual não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas também com a tentação proverá o meio de saída para poderdes suportá-la” [1 Coríntios 10.13 NVI]. O texto paulino sinaliza alguma flexibilidade e individualização da relação de Deus com o homem, assim como o Deus compreensivo dos hebreus diante da ameaça egípcia.

Referências Bibliográficas:

[1] HAMILTON, Victor P. Exodus: An Exegetical Commentary. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2011. pos. 6138.
[2] PACKER, James I. O Conhecimento de Deus. 2 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2005. p 95.

2 comentários:

Ricardo Rocha Lima da Silva disse...

Muito bem, mas afinal de contas, é o homem capacitado pela graça preveniente que se arrepende e se entrega ao trabalhar de Deus ou é Deus, mediante seus inflexíveis decretos, que causa diretamente o arrependimento no homem?

Euler lopes disse...

Paz Gutierres Siqueira! Muito bom comentário.
Euler lopes.