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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Lição 1- Deu Dons aos Homens


Por Gutierres Fernandes Siqueira


Subsídio para a Lição 1 intitulada  Deu Dons aos Homens publicada nas Lições Bíblicas da CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). A ideia é praticar esse subsídio semanalmente. 

INTRODUÇÃO

A Doutrina dos Dons Espirituais é importante para a Igreja contemporânea porque essas dádivas divinas visam a edificação do Corpo de Cristo. A Igreja é uma organização espiritual, portanto, feita de indivíduos para indivíduos. Alguns podem pensar que os dons provocam mais problemas do que soluções nas congregações, mas é necessário concluir que nada é simples no relacionamento comunitário. Nós, como homens decaídos, sempre tendemos a abraçar o vício e o pecado, mesmo nas manifestações de espiritualidade. O pecado da falsa modéstia, por exemplo, começa com a virtude da modéstia. O zelo pela obra de Deus, um ponto positivo na vida do homem cristão, pode ocorrer em legalismo, intolerância e, no fim, até mesmo na perda da fé. Ou seja, temos uma tendência maligna de corromper o que é bom. E com os dons espirituais não é diferente. Portanto, estejamos atentos aos abusos, mas também sem desprezar o presente do Senhor.

I- OS DONS NA BÍBLIA

1. No Antigo Testamento
Não esqueça que havia manifestações dos dons espirituais no Antigo Testamento. Essa não é uma doutrina paulina, mas está permeada em toda a Escritura. Mesmo os ditos dons revelacionais estavam presentes na Antiga Aliança [cf. Joel 2.28]. Ainda que as “línguas estranhas” não sejam mencionadas entre a Lei e os Profetas, porém o caráter de revelacional estava nos sonhos, visões e, é claro, nas profecias. Os “vários dons que Paulo menciona já eram associados ao Espírito (ou identificados pela expressão ‘um espírito de...’) no Antigo Testamento e no pensamento judaico, inclusive os dons de sabedoria e conhecimento ou entendimento (Êx 31.3; 35.31; Is 11.2; Dn 1.4; 5.11,12; 1QS IV 3-4, 20-22; 4QS161 8-8 III, 11-12), cura (Is 61.1; 1QS IV, 6) e profecia (e.g. Nm 11.29; Jl 2.28; 1Sm 10. 6,10; 19.20,23; 2Sm 23.2)”, escrevem Roy E. Ciampa e Brian S. Rosner [1]. 

Outro dado interessante no Antigo Testamento é a diversidade dons do Espirito Santo. Bezalel foi cheio do Espírito para capacitação arquitetônica, artística e de engenharia na construção do Tabernáculo. Nada no Novo Testamento indica um dom para capacitação artística e de engenharia. Portanto, esse é um indicativo da diversidade na unidade do Espírito. O Espírito Santo não apenas capacita, mas capacita conforme necessidades da Igreja e vontade do próprio Deus. Em Êxodo 31-1-5 lemos: 

Disse então o Senhor a Moisés: "Eu escolhi a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhes destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal. [2]
Essa é a primeira vez nas Sagradas Escrituras onde uma pessoa é indicada como cheia do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, capacitada pelo próprio Deus com um dom. Essa menção não veio em Abraão, Isaque ou Jacó e nem em Moisés, mas sim a esse artesão. Alguns acham que Gênesis 41.38 mencionaria o primeiro homem cheio do Espírito como José do Egito, mas é uma interpretação equivocada, pois a pergunta é feita por Faraó e o conceito dele não era monoteísta e trinitário, mas sim da mística religião egípcia. O fato é que Bezalel recebeu o dom do Espírito e isso o aperfeiçoou em seu trabalho na construção do Tabernáculo juntamente com Aoliabe. E em Êxodo 35.33, Moisés proclama que Deus “concedeu tanto a ele (Bezabel) como a Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã, a habilidade de ensinar os outros”. Ou seja, o dom do Espírito sempre tem o propósito de edificação e crescimento no aprendizado da comunidade. Não é algo próprio e para interesses individuais. 

2. No Novo Testamento
O assunto é especialmente tratado pelo apóstolo Paulo (Romanos 12; 1 Coríntios 12-14 e Efésios 4). As listas dos dons são heterogêneas e, por que não dizer, até complicadas de entender. Nisso nasce várias questões e debates. Por exemplo: Todos os dons são espirituais? Ou seja, todos são uma manifestação visível do Espírito como uma teofania moderna, ou, por outro lado, a capacitação humana já existe, mas o Espírito conduz essa habilidade conforme a glorificação de Cristo? É necessário dividir os dons entre “espirituais” e “ministeriais” ou essa é apenas uma questão didática? O texto suporta essa divisão? Ao mesmo tempo, o adjetivo grego pneumatikon em 1 Coríntios 12.1 e 14.1 parece realçar os noves dons com alguma diferenciação em relação aos demais dons, pois esse mesmo termo não é mencionado nas outras listagens. Outro exemplo, ministério parece indicar o conjunto de dons em um texto (cf. 1 Co 12.5), mas noutro mostra como um dom específico ( Rm 12.7), ou talvez “ministrar” no plural indique as várias formas de aplicação desse dom particular e, assim, o texto se complementa. Enquanto em Coríntios, especialmente na primeira parte do capítulo 12, indica dons com caráter espetacular, em Romanos a diversidade é o real espetáculo. Gordon D. Fee, comentado Romanos 12, escreveu: “Essa lista é tão heterogênea e abrange uma série tão ampla de atividades, que é mais provável a ênfase estar na ‘graça de Deus’, aqui sendo realidade entre os fiéis romanos de forma concreta” [3]. Não faltam dificuldades exegéticas e hermenêuticas para o entendimento dessas listas. 

II- OS DONS DE SERVIÇO, ESPIRITUAIS e MINISTERIAIS

1. Dons relacionados ao serviço cristão
Independente se você foi chamado e capacitado para o ensino, a administração ou qualquer outro dom de serviço, esse dom é uma capacitação do próprio Deus. Uma igreja que fosse coerentemente cessacionista negaria, inclusive, a diaconia. Mas, alguns dons ditos de serviço, se confundem com os dons da classificação “espiritual” como é o caso da “exortação” (encorajamento, no grego). A profecia é, também, um dom de exortação. Ou seja, quando a exortação vem da parte de Deus talvez apareça como um conselho ou como uma profecia mais clara e visível. 

2. Conhecendo os dons espirituais
A ignorância quando aos dons espirituais é gritante, mesmo em ambientes pentecostais. Há quem acredite, por exemplo, que qualquer limitação ao uso dos dons é um erro porque “ninguém pode limitar o Espírito Santo”! Santa ignorância, é óbvio que ninguém pode impedir o agir de Deus, mas é o próprio Deus em sua Palavra que limita o uso dos dons para o contexto de edificação no culto. Bastar ler 1 Coríntios 14. É necessário conhecer os dons, mas pelas Escrituras e não por meio de conferências “avivalistas” que nada ensinam e só tornam os ouvintes ainda mais ignorantes. 

3. Acerca dos dons ministeriais
Ser um ministro é responder pela edificação e educação espiritual da comunidade cristã, especialmente por meio da Igreja constituída. O ministério vem por meio do apostolado, profetas, evangelistas e pastores-doutores (no grego é uma expressão única). Mas, cabe uma observação, como dito pelo teólogo Antonio Gilberto: 

A igreja ordena o obreiro como ministro do Evangelho e não como apóstolo, profeta, evangelista, pastor ou mestre. Esses são ministérios dados por Deus. A igreja convencionou por si mesma chamar todos os ministros ora como pastores, ora como evangelistas, mas precisamentos encarar o assunto dos dons ministeriais apresentados em Efésios 4.11 à luz da doutrina bíblica do ministério [4]. 

O ministério não é para todos, assim como o corpo não pode ser constituído somente de pernas. O Senhor, em sua infinita sabedoria, colocou à frente pessoas capazes de responder ao chamado do santo ministério. A Igreja é formada por indivíduos bem diferentes e com problemas nada iguais, portanto, uma liderança saudável faz toda a diferença. É necessário cuidado para não criar “ministros” que não existem nas Escrituras, como os “ministros de louvor”. Ora, quem canta adora, não é um ministrar para homens, mas um adorador para Deus. 

III- CORINTO: UMA IGREJA PROBLEMÁTICA NA ADMINISTRAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS (1 Co 12-1-11)

1. Os dons são importantes
É inegável a importância edificadora dos dons, mas igualmente imprescindível é uma Igreja que cultive o fruto do Espírito Santo. Erros comuns nos usos dos dons é o orgulho de uma suposta espiritualidade superior, é confundir o ser usado por Deus como ser aprovado por Deus (são duas coisas bem diferentes), é confundir alguém usado em dons como autoridade de ensino e doutrina e, ainda, é confundir dom espiritual com espiritualidade saudável (santidade). É possível ser carnal e ao mesmo tempo profetizar, falar em línguas e até mesmo curar. A igreja era Corinto era carnal, divisionista, havia bêbados na Ceia e até se tolerava escândalos sexuais, mas ali na faltava nenhum dom (cf. 1 Co 1.7). 

2. Diversidade dos dons
Uma lição importante sobre os dons é sua a ampla diversidade. Isso porque cada ser humano é singular. Imagine que um profeta normalmente não é um bom consolador. E uma pessoa generosa nas ofertas talvez não seja uma boa administradora. E administradores não costumam ser generosos. Quem ensina tem um raciocínio rápido, mas pode ser devagar na hora da diaconia. Portanto, é necessário várias pessoas com dons diferentes. É um conjunto de dons que se complementam, pois não há ninguém que seja tão versátil [5]. 

3. Autossuficiência e humildade
Dom é uma graça. Quem se julga mais espiritual porque porta um dom simplesmente despreza o doador. Se dom é uma graça nós recebemos não por mérito próprio, mas pela infinita misericórdia de Cristo.

CONCLUSÃO
A conclusão é simples: devemos abraçar com entusiamo a doutrina dos dons e pedir a Deus para nos conceder essa graça a fim de edificar a Sua Santa Igreja. Faz parte da maturidade cristã, inclusive, se perceber como usado por Deus mesmo em meio às inúmeras limitações morais e espirituais em nossas vidas. É claro, por essa misericórdia, devemos ter um coração agradecido.

Referências Bibliográficas:

[1] CIAMPA, Roy E. e ROSNER, Brian S. 1 Coríntios. Em: BEALE, G. K. e CARSON, D. A. Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento.  1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2014. p 917.
[2] Para detalhamento exegético desse texto leia: HAMILTON, Victor P. Exodus: An Exegetical Commentary. 1 ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2011. pos. 14536. HILDEBRANDT, Wilf. Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Academia Cristã e Edições Loyola, 2008. p 126. 
[3] FEE, Gordon. Dons do Espírito. Em: HARWTHORNE, Gerald F.; MARTIN P. Ralph e REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas Cartas. 2 ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola e Edições Vida Nova, 2008. p 411.
[4] SILVA, Antonio Gilberto da. Os Dons Ministeriais. Em: BENTHO, Esdras Costa (ed.) Bíblia do Obreiro Aprovado. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 1411.
[5] Para um devocional sobre esse assunto leia: Manual da Bíblia de Aplicação Pessoal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. p 269.

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5 comentários:

Anônimo disse...

Paz, Gutierres!

Pretende fazer o subsídio da Lição 2: Propósito dos Dons Espirituais?

Abraço.

Anônimo disse...

Caro Gutierres,

Quero parabenizá-lo pelo texto esclarecedor. Gostaria que me tirasse uma dúvida: Na ótica pentecostal, somente as pessoas batizadas com o Espírito Santo podem receber os dons espirituais e ministeriais? Qual a sua opinião?

Abraços.

Diego

Otniel Cabral disse...

Só uma dúvida charisma se refere a dom (singular) e charismata se refere a dons (plural)?

Gutierres Siqueira disse...

Olá Diego, a paz!

Segue o link para essa questão: http://www.teologiapentecostal.com/2014/04/o-batismo-no-espirito-santo-e-condicao.html

Otniel, em um próximo post relato essa questão do original.

Marcelo disse...

Ministério é diakonia em grego. Até Jesus usou o termo em referência a si: Mc 10.45 (diakoneo). Assim, sendo, Diaconia (Ministério) é serviço, serviço na igreja e para a igreja, serviço espiritual. O diácono é um servo, do serviço, não um doulos, escravo comum, mas um servo da obra de Deus, da igreja.
Por isso, salvo melhor juízo, acredito que alguém pode ser denominado "ministro de louvor", pode elevar a alma dos crentes, preparando-os para a pregação da palavra (diaconia da palavra - At 6.4). O que temos que ensinar é que ministério, essa palavra tão pomposa e bonita, não passa de serviço - inclusive lavar banheiros, carregar bancos, dar uma carona para alguém que vai para a igreja, visitar doentes, consolar os que choram em nome do Senhor.

A graça e a paz.

Marcelo Henrique
Igreja Batista em Camboinha, Cabedelo-PB