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sábado, 3 de maio de 2014

Desmitologizando o Liberalismo Teológico

Por André Gomes Quirino

Poucas frases têm sido tão decisivas na constituição da minha postura intelectual quanto esta de Gilbert Keith Chesterton: "As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética".

Bultmann não curtiu isso
A partir dela, tornou-se-me claro e cristalino que o liberalismo teológico é o que há de mais reacionário no mundo das ideias. Eu poderia dizer que ele é um retorno ao paganismo, mas isso seria subestimar o paganismo. No paganismo, permitia-se à razão humana criar as histórias sagradas que gerariam os dogmas, mas depois procurava-se a confirmação destes no que parecesse ser revelações. No cristianismo, tem-se a revelação, e ela própria é o único dogma, a partir do qual desenvolvem-se as doutrinas. No liberalismo, a revelação não está nem antes nem depois dos dogmas ou doutrinas - fundamentalmente porque não os há, nem os dogmas e doutrinas, nem a revelação.

Acontece que teologia sem revelação é nada menos que nada. Pretender que haja uma teologia, qualquer que seja, é assumir a realidade e a necessidade de uma revelação. Mas o liberalismo teológico está disposto a abrir mão desta para poder dialogar livremente com outras ciências. Por isso rejeita a filosofia da religião, essa mania de pensar sobre o impensável. Por isso rejeita a teologia sistemática, essa mania de classificar o inclassificável. Por isso rejeita o exercício apologético, essa mania de justificar o que justifica-se a si mesmo. Mas o que exatamente é isso que justifica-se a si mesmo sendo impensável e inclassificável?

Falta ao liberalismo teológico algo que possa nos colocar em contato com a dimensão do divino. Ele se encontra permanentemente na desconfortável posição daquele que "tateia conceitos", na expressão de Immanuel Kant, em sua "Crítica da Razão Pura". A crítica que o filósofo de Königsberg endereçou a toda a metafísica, parece-me, encaixa-se com muito mais perfeição à tradição que Schleiermacher iniciaria poucas décadas depois na Alemanha.

O que eu tenho chamado de revelação, na tradição cristã, resume-se a três coisas: a natureza, as Escrituras e, principalmente, Cristo. Para o cristianismo, Deus se revela na criação, nos livros que inspirou durante a História e em Seu Filho. Haveria uma harmonia tão perfeita e perceptível entre as três fontes que a trama em que elas se inserem, a trágica história humana, pintada nas cavernas, escrita pelos pagãos, vivida pelos bárbaros, naturalmente daria testemunho dela. É a partir desse testemunho que se pode falar numa filosofia da religião, numa teologia sistemática, numa apologética cristã. Sem ela, não se pode falar nem numa teologia liberal.

A revelação é necessária. Mais: é o necessário exprimindo-se no contingente. É o único Deus falando e sendo ouvido apesar dos altares e ídolos ao redor.

Onde está a redenção, para o liberalismo teológico? Na razão humana, qualquer que seja o sentido em que se toma a expressão. Mas nisso nem os pagãos, nem os antigos, nem os primitivos acreditavam. É fácil, muito fácil chamar de teologia a primeira ideia que surgir na razão humana (leia-se: minha razão) e chamar essa atitude de "crença no homem". A primeira consequência disso é inaugurar um panteão com todos os meus alter egos. Difícil é pensar a partir de uma revelação, sabendo-se inserido numa história que não começa nem termina consigo mesmo. Isso é que é crer de fato no homem. Aquilo é crer em si. Isso é crer no Filho do Homem. Eis a radicalidade que o liberalismo teológico não é capaz assumir: Cristo. Por isso ele não poderia ter sido concebido antes - no tempo de Cristo, por exemplo. Ele só poderia ser uma imprecisão moderna. Há dois mil anos não havia liberalismo teológico porque sua refutação tinha carne e osso e perambulava pela Palestina.

2 comentários:

Aprendiz disse...

Ótimo artigo.

Um reparo a respeito de um anacronismo:
"Há dois mil anos não havia liberalismo teológico porque sua refutação tinha carne e osso e perambulava pela Palestina".
Há dois mil anos, nenhuma parte do globo era chamada de "palestina". Só depois deda derrota final dos judeus, e de sua expulsão, os romanos criaram a expressão ofensiva "palestina". O nome foi ressuscitado sabe-se lá por que cargas d'água, pelos britânicos quando venceram os turcos e se tornaram responsáveis por algums de suas antigas províncias.

Creio que sermos mais precisos, neste momento, não é um diletantismo inútil.

Jones Mendonça disse...

Você usa uma frase do católico G. K. Chesteston para defender a ortodoxia. Esquece-se, todavia, que o protestantismo foi considerado uma heresia cristã pela cúria romana no século XVI. Questão: a tese do pensador católico defendendo a ortodoxia vale também para os “hereges”? Defender a ortodoxia é como pintar em nuvens. Isso porque ortodoxia e heresia são conceitos do tipo bolhas de sabão, frágeis que só...

Ah, e o nosso amigo aí de cima está enganado, o termo “Palestina” (do grego Palaistinê = que se refere aos filisteus) já era usado por Heródoto (Histórias VII, 89), pelo geógrafo Pompônio (Chorographia, I, 11, 63) e por Plínio, o Velho (História Natural, V, 69). O próprio Fílon de Alexandria (que era judeu) chamava a região de Síria Palestina (Probus, 75).