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domingo, 1 de junho de 2014

Algumas novas notas sobre a Teologia da Missão Integral

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Já virou rotina a necessidade de escrever um texto para explicar outro. Talvez falte clareza nos meus escritos. Talvez aja uma dificuldade de interpretação por parte de alguns leitores. Ou ambas as coisas. Bom, de qualquer forma os ruídos na comunicação não ajudam no debate. Por isso, quero voltar para alguns pontos sobre a Teologia da Missão Integral (TMI) mencionados no último texto publicado neste blog [leia aqui].

Não fiz uma crítica bíblico-teológica, mas uma brevíssima análise do discurso socioeconômico. Há gente infinitamente mais capacitada para um trabalho bíblico-exegético dessa tema. O objetivo do texto não foi uma análise doutrinária da TMI. Aliás, pegando como exemplo o livro O Que é Missão Integral? [1] do teólogo equatoriano René Padilla eu concordo com cada linha dos três primeiros capítulos do livro, mas a minha dificuldade nasce com os demais 16 capítulos. Mas, no geral, o livro é bom. Quem o lê simplesmente não entende a minha crítica. A TMI que ataco com paixão é a expressa em outro livro do C. René Padilla cujo título é Deus e Mamom: Economia do reino na era da globalização [2] publicado em espanhol em 2003. Essa segunda obra, em especial, mostra como a TMI está infelizmente comprometida com uma agenda ideológica transvertida de “valores do Reino de Deus”.  Este blogueiro quis apenas apontar dois problemas no último artigo: a vertente do discurso e a vertente da compreensão dos teólogos da Missão Integral. 

Vejamos:

A vertente do discurso. No discurso - e não necessariamente na produção acadêmica- os teólogos apontam que Cristo fez uma opção preferencial pelos pobres e insinuam “o como trilhar" esse caminho. O discurso é ao mesmo tempo impraticável, pois trabalha sob a perspectiva de Cristo Jesus como um exemplo para os nossos dias de reformador social e moral, e é extremamente otimista. O primeiro problema da TMI, portanto, é o crédito à utopia. Padilla apregoa que a pregação do Evangelho visa no tempo presente “a criação de uma nova humanidade na qual desaparecem as barreiras de gênero, raça e classe social” [3]. Não acredito que a leitura das Escrituras, a tradição cristã e a história nos leve para tal otimismo [4]. Não que o Evangelho seja mais fraco que o pecado, mas acreditar em uma "nova humanidade" é uma distorção do conceito paulino de “novo homem”, pois o apóstolo pensa na individualidade e não numa coletividade redimida. O teólogo alemão Karl Barth pergunta, sob o espanto do óbvio, “como pretende a humanidade ter critério histórico, e por ele orientar-se se,  sistematicamente, ela insiste em ignorar a pecaminosidade que a história mesma tão eloquentemente comprova?” [5]. Logo, a compreensão otimista das possibilidades históricas da Igreja e do homem afeta a vertente da compreensão que falarei mais adiante. Ora, como Barth escreveu, a nossa compreensão sobre o homem e seu estado afeta o nosso “critério histórico”. 

A vertente da compreensão. O teólogo peruano Samuel Escobar escreveu que “se como evangélicos rejeitamos a adaptação liberal do Evangelho ao racionalismo do século XIX, devemos também rejeitar a adaptação do Evangelho ao conformismo e conservadorismo sociais da classe média deste poderoso Ocidente” [6].  É impressionante como Escobar mistura alho com bugalhos. Evidente que muitos valores e ideias presentes na classe média precisam de redenção, mas não pela classe social em si, mas sim pela humanidade decaída. Eleger a “classe média ocidental” como o mal presente a ser combatido pelo Evangelho soa falso, moralista e hipócrita. É o pequeno burguês lutando contra a pequena burguesia sem renunciar a ela. Não é à toa que o escritor russo Liev Tolstói seja tão querido nesse meio. Há aí um problema de compreensão, pois o conceito de classe média é oriundo de uma visão preconceituosa da escola desenvolvimentista que tomou mentes e corações na América Latina após a Segunda Grande Guerra [7]. Ler o capítulo 4 do livro Deus e Mamom: Economia do reino na era da globalização em nada difere do discurso da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) com sua “teoria da dependência” ou de teóricos da Escola de Economia da UNICAMP. Esses organismos não entenderam o processo da globalização como a fluência de cadeias de comércio, mas sim como um mal aos nacionalismos locais. Nada mais reacionário. O problema é revestir esse discurso de uma “espiritualidade integral”. 

Portanto, resumindo, coloco em algumas frases os problemas que na minha visão atrapalham o progresso da Teologia da Missão Integral.

1) A TMI é dependente ideologicamente de uma visão socioeconômica antiglobalização e antiliberal. Não há problema numa pessoa assumir tal agenda. O problema nasce quando damos uma linguagem espiritual para tal abordagem. Espiritualizar a agenda cepalina [8] é de uma infantilidade absurda. 

2) Os teólogos da TMI podem até estar entre os pobres e conversar com eles, mas não entendem os seus anseios e vontades, pois o pobre de hoje quer ser integrado na economia mundial e sonha com o filho numa multinacional, mas o teólogo afetado pela ideologia quer interpretar a vontade do pobre segundo lentes ideológicas.

3) A TMI trabalha com utopias políticas. Utopia política é a forma do homem moderno manifestar a velha idiotice da idolatria. Seja a utopia conservadora e seu passado idílico, seja a utopia progressista e seu futuro bonito, o crente ao Evangelho precisa entender que qualquer empreendimento humano será incapaz de nos conduzir para facetas de perfeição.

3. A TMI trabalha sobre a ideia romântica de uma latinalidade teológica. O próprio conceito de uma América Latina homogênea culturalmente e socialmente é bastante contestável.

É isso.

Referências Bibliográfica:


[1]  PADILLA, C. René. O Que é Missão Integral? 1 ed. Viçosa: Ultimato, 2009. p 136.


[2] PADILLA, C. René.  Deus e Mamom: Economia do reino na era da globalização. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Novas Diálogos, 2011. p 112.


[3] PADILLA, C. René. O Que é Missão Integral? 1 ed. Viçosa: Ultimato, 2009. p 58. A interpretação que ele faz de Tito 2.14 é um exemplo claro de “forçação de barra”.


[4] Há de se fazer justiça, pois Padilla reconhece a limitação do discurso utópico: “Se há uma lei na história que sempre se cumpre é a de que o maior esforço humano para construir um novo mundo termina por estilhaçar-se contra os obstáculos da natureza humana”. PADILLA, C. René. O Que é Missão Integral? 1 ed. Viçosa: Ultimato, 2009. p 77.


[5] BARTH, Karl. Carta aos Romanos. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial, p 126.


[6] ESCOBAR, Samuel. A Missão da Igreja no Mundo de Hoje. 1 ed. São Paulo: ABU, 1982.  p 183.


[7] Padilla é fortemente influenciado ideologicamente pelo pensamento socioeconômico do uruguaio Eduardo Galeano. Veja por exemplo: PADILLA, C. René. O Que é Missão Integral? 1 ed. Viçosa: Ultimato, 2009. p 83, 84. O próprio Galeano em entrevista recente criticou a visão estreita e tradicional de sua obra escrita ainda na juventude acadêmica.

[8] Agenda desenvolvimentista expresso por economistas como Celso Furtado.

5 comentários:

Marcelo de Oliveira e Oliveira disse...

Caro Gutierrez,

Paz e Bem!

Parece que a palavra "pobre" traz um desconforto incrível para as igrejas atuais. É impossível ler os Evangelhos e não identificar o público alvo de Jesus de Nazaré: os pobres, os coxos, os cegos, os oprimidos. Os ricos tiveram um grande problema ao se depararem com a mensagem de Jesus de Nazaré.
A Assembleia de Deus é a maior igreja evangélica hoje porque ela foi aonde as igrejas históricas não foram. Ela buscou os pobres, ou melhor, os pobres a construíram. Em que espaço religioso se via uma analfabeta dizer "Gesuse é bom"? E ser respeitada por isso.
Hoje, meu amigo, a Assembleia de Deus vem se elitizando tanto que nem oportunidades dão mais oportunidades para as pessoas simples expressarem no espaço do culto a sua felicidade. Ainda que atabalhoadamente, mas se a nossa comunhão não suportar os erros dos irmãos, ela deixou de ser comunhão.
É notório que a igreja evangélica brasileira parece ter ignorado o pobre e escolhido a classe média. Não tenho nada contra a classe média, até porque, neste espaço virtual, a princípio, todos nós fazemos parte dela. Mas o pobre não dá o retorno financeiro; a classe média, sim: esta realidade conta muito para se abrir igreja hoje em dia.
Embora alguns expoentes da TMI identifiquem-se politicamente com o socialismo (coisa que para mim não dá, pois ele usa os pobres para perpetuar poucos no poder e não para mudar o rumo de fato. Vide o PT!), é inegável que os Evangelhos trazem uma mensagem contundente sobre o nosso cuidado com os pobres (e não só os economicamente pobres).
O teólogo John Stott tem uma postura muito adequada quanto isso nas obras "Cristianismo Equilibrado", da CPAD e "Discípulo Radical", da Ultimato. Entendo ser uma postura bíblica, sensata e equilibrada que as igrejas evangélicas e sérias deveriam enfrentar.
Despeço-me com uma reflexão do padre José Comblain, desejando-lhe um abraço:
"O povo de Deus não se constrói de cima para baixo, começando pelos grandes e pelos poderosos. Essa foi a tentação permanente da Igreja. Dizem: formemos as elites e as elites formarão as massas. A experiência confirma o que Jesus ensinou: os poderosos querem mais poder e não se importam com o que acontece com as massas, mas fazem delas um instrumento para aumentar o seu poder, colocando os pobres ao seu serviço. As elites querem fazer do próprio Jesus um instrumento de dominação. Corrompem tudo e usam palavras do evangelho para justificar a sua própria dominação e confundir os pobres.
O povo de Deus começa de baixo para cima. Começa pelos mais fracos e mais pobres, como esperança dos fracos. 'O que é fraco para o mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes; o que é vil e desprezível para o mundo, Deus o escolheu, como também aquilo que não é nada, para destruir aquilo que é' (1 Cor 1,27-28). Essa é a sabedoria do Espírito, aquela que o Pai revelou aos simples e que os sábios não entendem" (COMBLIN, José. O Espírito Santo no Mundo. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2010, p.30).

Anônimo disse...

A paz do Senhor!
Parabéns Guitierres! Como disse neste novo artigo, o maior problema da TMI (e que seus defensores e detratores apaixonadosnão querem ver) é espiritualizar discursos acadêmicos, posições políticas, sistemas econômicos. Quando um "não pobre" é resistente ao Evangelho, é por causa de um fator socio-ecomômico, de preconceitos por parte da liderança da igreja, por causa de injustiça social, e etc. Não se considera o fato de que esse sujeito pode simplesmente idolatrar seus bens, ou de que ele AINDA está sendo trabalhado pelo Espírito Santo, ou até mesmo o fato de ele não quer saber de Deus. Considerar que a raiz de todos os males é o pecado, a natureza humana caída não é "cool", não tem charme acadêmico. Por exemplo, andar de carro para o pessoal "cool" é reacionário, ecologicamente incorreto, mais para quem sempre andou de ônibus, metrô ou trem é a possibilidade de chegar em casa umas duas horas mais cedo e acordar uma meia hora mais tarde ou na pior das hipóteses não ser obrigado a ouvir o "play list" do celular alheio e ser espremido num coletivo hiper lotado. Como dizia um carnavalesco: "Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual". Vamos levar a palavra de Deus, amar ao Senhor e ao pŕoximo. Deus abençoe à todos!
Marco Davi

Noemi disse...

hola, visitando su blog les dejo un saludo desde mi blog www.creeenjesusyserassalvo.blogspot.com

Gilmar Valverde disse...

Gutierres,

A revista de ED que a CPAD lançou em 2011 intitulada "A missão integral da Igreja" tinha alguma coisa a ver com a Teologia da Missão Integral?

Atenciosamente,

Gilmar

Rockwell's Knife disse...

Rene Padilla alega ter recebido muita influência do Ron Sider, que teve seu principal livro (Rich Christians in the Age of Hunger) que foi totalmente destruído pelo David Chilton. Por isso sou muito cético que possa vir coisa boa dele.