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domingo, 8 de junho de 2014

Não tenha medo dos meteorologistas!

Por André Gomes Quirino
Sempre que chove podemos ter duas certezas: a cidade de São Paulo vai parar e ouviremos algum evangélico dizer: “Tá vendo só? Os meteorologistas disseram que não ia chover. Nisso é que dá querer saber mais do que Deus...” Este é um dos muitos lugares comuns que só alcançaram unanimidade pelas vias da repetição acrítica. Acontece que ele revela um medo infundado e desnecessário, o qual, antes ainda de ser socialmente danoso, é biblicamente ignorante: o medo dos cientistas.
Ele é movido pela ideia de que esse grupo de pessoas possui acesso privilegiado a um conjunto de verdades que, vindas à tona, seriam potencialmente desastrosas para a fé cristã. Além de endossar a dicotomia “ciência x religião” (que, como sabe qualquer um que tenha lido o protestante do século XIX Abraham Kuyper, o historiador católico contemporâneo Thomas E. Woods Jr. ou mesmo a Questão 1 da Suma Teológica de Tomás de Aquino e os debates engendrados por ela na Alta Escolástica, é absurdamente falsa), essa ideia, que via de regra presenteia o repetidor do lugar comum com um ar de sabedoria ascética, acreditem (acreditem porque irei demonstrá-lo), desnuda na verdade uma constrangedora falta de fé, justamente daquela fé que a revelação cristã requer por princípio.
Se não, vejamos.
Para o evangélico que acha que sua fé exige uma desconfiança em relação à meteorologia (aqui utilizada como metonímia para a ciência em geral), quem não alimenta essa desconfiança, quem acredita na meteorologia, está sendo conivente com um movimento humano de arrogância que pretende superar a sabedoria divina, já que Deus Ele mesmo é quem resolve pessoal e deliberadamente, a cada minuto, e em cada metro quadrado do céu, se vai ou não chover, quanto o vai e quais serão a temperatura ambiente e a velocidade e umidade do ar.
Bem, qual é a fé que a revelação cristã requer por princípio? É a fé em que Deus se fez homem, que esse sonho que a humanidade alimenta desde antes de Abraão se tornou realidade e Deus veio até nós. Na teologia cristã, isso é chamado de Encarnação. Qual é o primeiro requisito para se acreditar que Deus se fez homem? É assumir que Deus por Sua própria natureza pode se fazer homem, que Ele não é só e permanentemente incognoscível e transcendente, mas se revela, se comunica e é também imanente. E qual o segundo requisito para essa crença? É assumir que Deus por Sua posição pode se fazer homem, que Ele tem poder para tanto, poder para interferir na História, para gerar um bebê no ventre de uma virgem sendo Ele mesmo esse bebê, poder, enfim, para fazer a Si mesmo a forma de uma criatura.
No limite, a fé que a revelação cristã requer por princípio (para que possa ser recebida com o mínimo conveniente de simpatia) é em que Deus seja o criador único, pessoal e soberano do Universo. Mas não só isso – porque a fé que a Bíblia instiga não é meramente passiva, nominal; é uma fé ativa, uma fé nervosa: também em que Ele possa e queira revelar Suas obras. De fato, esta era a fé peculiar ao povo de Israel, para quem Jesus disse ter vindo ao mundo: Eles criam “no Senhor Deus, que fez os céus e a terra”, e em seus cânticos O louvavam por Seu poder criativo, além de descansarem um dia inteiro a cada semana para rememorar o descanso de que o Criador teria desfrutado no sétimo dia da criação – este era o sinal de que Israel era “feitura das mãos de Deus”.
O poder e a vontade de Deus de se tornar conhecido foram tão grandes que Ele nos revelou o que Lhe há de mais precioso: Seu próprio Filho. Isso desencadeia consequências até na ciência. Pois, se aprouve a Deus que o Filho fosse visto e tocado por nós, que conversássemos com Ele, que aprendêssemos Sua doutrina pessoalmente, se foi tamanho o desprendimento de Deus, quão mesquinhos seremos nós se quisermos impedir que nos seja revelado o funcionamento de obras menores (mas ainda grandes) de Deus, como a meteorologia!
Atentemos, portanto, ao desconfortável paradoxo a que chegamos: um cristão acha descabido que um mortal possa conhecer o modus operandi da chuva, do vento e do ar... Espere só até ele descobrir que foi-nos dado, a nós mortais, o conhecimento do Filho de Deus! Falta fé a quem receia a meteorologia: ela é legítima justamente porque Deus é o criador pessoal do mundo. É em questões como esta que percebemos a tamanha novidade e alegria que há no evangelho, e como ele é inesgotável. Assim vê-se que mesmo nós, cristãos, podemos ainda a todo momento ser confrontados e esclarecidos por ele. Aliás, nós o devemos, se quisermos conhecer a missão que Deus nos outorgou, o nosso lugar no mundo e como devemos abordar os que estão em outros lugares no mundo. Porque Deus faz raiar Seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.

Mesmo à parte a previsão do tempo, a previsão e análise de clichês evangélicos já se tornou uma ciência exata – e enquanto tal executá-la é uma obrigação moral que nos cabe.

Um comentário:

Aprendiz disse...

É muito importante notar o seguinte: O cristianismo foi, durante sua história, amigo da ciência e do conhecimento. Essa visão anti-intelectual foi uma criação do pentecostalismo. É uma novidade, algo que não existia antes.