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domingo, 10 de agosto de 2014

Deus desnuda nossa alma na angústia!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Este breve ensaio é a base para o esboço de um sermão pregado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Jardim das Pedras, São Paulo (SP) neste domingo.

[6] Aborreço aqueles que se entregam a vaidades enganosas; eu, porém, confio no SENHOR. [7] Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois consideraste a minha aflição; conheceste a minha alma nas angústias. [8] E não me entregaste nas mãos do inimigo; puseste os meus pés num lugar espaçoso. [Salmos 31.6-8 ARC]

[6] Odeio aqueles que se apegam a ídolos inúteis; eu, porém, confio no Senhor. [7] Exultarei com grande alegria por teu amor, pois viste a minha aflição e conheceste a angústia da minha alma. [8] Não me entregas-te nas mãos dos meus inimigos; deste-me segurança e liberdade. [Salmos 31. 6-8 NVI]


Introdução. Davi, segundo a tradição judaica, escreveu este salmo enquanto fugia da fúria do rei Saul. A vida de Davi não foi fácil, mas totalmente atribulada com problemas familiares, perseguições e a ácida consequência do próprio pecado. O teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) escreveu que a angústia nasce com o pecado, especialmente com o pecado hereditário, sendo a marca humana do vazio e do desespero. Essa foi uma verdade bem presente na vida do grande rei de Israel. Neste grande salmo destaco apenas um pequeno trecho onde o Davi angustiado condena a idolatria e o vazio dos ídolos que nada fazem na angústia e abraça com confiança ao Senhor diante das correntes do desespero.

Odeio aqueles que se apegam a ídolos inúteis. Embora o amor cristão seja paradigma para com todos, ainda assim o pecado alheio não deve ser tratado com apatia e benevolência. Odiar é um sentimento forte, mas também estava presente no meigo Jesus. Hoje, especialmente na teologia água com açúcar, Jesus é tratado como um hipster velho e bonachão, mas ao mesmo tempo sem nenhum pulso moral. É claro no texto hebraico que o ódio não é dirigido para uma abstração como a “idolatria”, mas para com os idólatras. Agora, como é possível cultivar ódio se o próprio Cristo nos ensinou a amar os nossos inimigos? A resposta está na “forma como uma pessoa fica nervosa e o motivo por que fica assim é uma pista real do que ela realmente é”, como bem escreveu John Eldrege [1].

Na literatura hebraica o ódio faz com frequência uma antítese ao amor (cf. 2 Sm 13.15; Sl 11.5; 26.5,8; 45.7, 8; 119.163; Pv 12.1; Ec 3.8 etc.). O ódio pode ser mera antipatia causada pela raiva e o rancor justificado ou não, mas também significa aquilo que deve ser repugnado. O ódio outras vezes é expresso na Bíblia como um amor secundário, em menor escala ou comparativo (cf. Dt 21.15 comp. Lc 14.26). Há também um tempo para a aversão (Ec 3.8). Por exemplo, em Provérbios 11.15 “servir como fiador” deve ser evitado com “ódio”. Mas estamos mal acostumados com a palavra portuguesa para ódio e esquecemos a amplitude desse termo na cultura hebraica e mesmo nos derivados latinos. Ódio nem sempre expressa desprezo raivoso. Assim como é possível amar as coisas erradas é possível odiar de maneira certeira. Ora, não foi esse o sentimento de Cristo diante dos cambistas? Ou você não sentiria repugnância diante de um pedófilo confesso? Caso a resposta seja não, talvez estejamos diante de um super-homem da misericórdia ou alguém cuja frieza da alma já não desperta nenhum senso de justiça. A repugnância correta é quando se aborrece o que Deus aborrece e, é claro, a começar em nossas próprias vidas (Sl 139. 21).

A ARC (Almeida Revista Corrigida) traduz o verbo odiar por aborrecer. A escolha é muito feliz porque etimologicamente aborrecer significa “afastar-se com horror”. Outras versões trabalham com o próprio Deus como o sujeito do verbo e não o salmista (exemplo: ARA, BJ, NTLH, Nova Vulgata, BVA). Porém, a maior parte das traduções protestantes colocam o salmista como sujeito principal (ARC, ARF, NVI, TB, BV etc.).

No Salmo 31.7, Davi apela para a sua inteira e simples rendição a Deus. Odioso para ele são aqueles que adoram imagens vãs, ao passo que, por outro lado, Davi se unirá ao Senhor. Os falsos deuses que são chamados de  הבלי־שׁו [vãos], ou seja, como seres sem ser, ídolos que não são de nenhum serviço aos seus adoradores e só decepcionam suas expectativas. O vazio dos ídolos aumenta o desespero dos homens. Provavelmente (como no Salmo 5.6) o termo hebraico שׂנאת [ódio] é para ser lido como nas traduções da LXX, Vulgata, Siríaco e versões árabes (Hitzig, Ewald, Olshausen e outros) [2]. No texto antes de nós, que não nos dá o corretivo Kerî como em 2 Samuel 14.21; 4.5, ואני ["Eu" em hebraico. Essa expressão não é um contraponto a afirmação anterior] não é uma antítese à afirmação anterior, ou seja, não é um contraponto ao ódio que ele sentia àqueles que se “apegam aos ídolos inúteis” (v. 6), mas faz parte da referida sentença que o precede imediatamente. A fé e a confiança do salmista em Deus não é uma antítese- um contraponto conectado- mas uma sentença independente. Ou seja, ele não adora a Deus porque odiava os ídolos inúteis, mas os odiava porque o amor era somente ao Senhor. A nossa fé não pode ser marcada pela antítese do mal, pois a conexão com o objeto do ódio nos torna identificáveis com ele.

Na oração de Jonas (2.8,9), por exemplo, esse contraponto é expresso pela frase hebraica משׁמּרים הבלי־שׁוא [ou seja הבלי - שׁוא, vaidades inúteis, são todas as coisas que o homem faz como ídolos ou objetos de confiança. הבלים são, de acordo com Deuteronômio 32.21, os falsos deuses ou ídolos.] como no presente versículo (v.6), e é utilizado no sentido de “observar”, “atentar” ao Deus verdadeiro em Oséias 4.10, e também em Provérbios 27.18. Na espera da ação divina está incluída, de acordo com o Salmo 59.10, a espera derivada da confiança. A palavra בּטח que denota fiducia fidei, expressão latina para "certeza de fé", é geralmente interpretado com בּ “aderir”, ou על de “repousar sobre”, mas aqui ele é combinado com אל de “pendurar em” alguma coisa. O enunciado no Salmo 31.8 expressão intenção. Olshausen e Hitzig traduzem como um enunciado optativo: “pode ser capaz de se alegrar”; mas isso, como uma continuação do Salmo 31.7, parece menos adequado. Certo de que ele vai ser ouvido, o salmista determina o manifestar da alegria agradecida pela misericórdia de Senhor, porque (אשׁר como “enunciado de ligação de causa e efeito” em Gênesis 34.27 ARC) Ele atentou (ἐπέβλεψε, Lucas 1.48) para sua aflição. Porque o Senhor conheceu e esforçou-se sobre angústias de sua alma. É lindo sentir e observar que o Senhor está a observar a nossa dor e a nossa angústia com uma atenção carinhosa e presente, mas que num primeiro momento se ouça nada mais do que silêncio e nenhuma resposta.

A expressão hebraica ידע בּ está presente em textos como Gênesis 19.33; 19.35; Jó 12.9; 35.15. Esses são textos denotam completa “falta de atenção”. "Não dá a mínima atenção" (Jó 35.15 NVI).; mas neste Salmo (v. 7) a expressão é mais significativa do que "saber de nada, nada notou, não deu atenção"; בּ é como ἐπι em ἐπιγιγνωσκειν usado na “percepção” ou “conhecimento abrangente”, ou seja, aquele que pega um objeto e toma posse dele, ou se faz mestre desse objeto. Isso mesmo, pois o Senhor desnuda a nossa alma para que a mesma seja plenamente conhecida no momento da dificuldade. Mas uma vez citando o teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard, logo descobrimos que a angústia transparece nossas ilusões: “A angústia é a possibilidade da liberdade, só esta angústia é, pela fé, absolutamente formadora, na medida que consome todas as coisas finitas, descobre todas as suas ilusões” [3]. Lewis, depois de uma intensa dor da perda, escreve:

Deus certamente não está fazendo uma experiência com minha fé nem com meu amor para provar sua qualidade. Ele já os conhecia muito bem. Eu é que não. Nesse julgamento, ele nos faz ocupar o banco dos réus, o banco das testemunhas e o assento do juiz de uma só vez. Ele sempre soube que meu templo era um castelo de cartas. A única forma de fazer-me compreender foi colocá-lo abaixo [4].

הסגּיר, Salmo 31.8, συγκλείειν, como em 1 Samuel 23.11 (na boca de Davi) é ser abandonado na mão de outrem que fecha as mãos sobre aquilo que lhe está entregue, ou seja, é um objeto que está completamente sob seu poder. Deus não permite que tão mal destrua com o salmista. Esse é o nosso bom Deus. Com Ele temos a segurança que a pior situação pode ser revertida e isso se chama fé.

מרחב, como em Salmos 18.19, cf. Salmos 26.12. Cujo significado é “um lugar amplo ou espaçoso” (ARC).  A liberdade e a segurança (NVI) representados em um “grande campo”. Na linguagem de Davi, onde a linguagem da Torá está permeada, Deuteronômio é mais especialmente ecoado (32.30; 23.16). É um contraponto ao próprio conceito de angústia que nos remete a algo apertado como um poço fundo e estreito.

Conclusão. Olhando o salmo em retrospectiva (versículo 5, por exemplo) vemos como ele lembra o sofrimento de Cristo na Cruz. Cristo sofreu a angústia de diante de um dia claro que fica escuro e tenebroso ao meio-dia e grita sobre o abandono de Deus e o Pai nada responde naquele momento. É a síntese da forma como muitas vezes nos sentimos, mas assim como Cristo foi confortado por um anjo [Lucas 22.43] nós termos a segurança que nunca, de forma alguma, somos abandonados por Deus mesmo que a circunstância aponte para um doloroso silêncio do Todo-Poderoso.  Assim como o Pai o Verbo emeduce” e a última expressão de Jesus é um suspiro. Assim, diante do silêncio de Deus nasce também o nosso reverente silêncio para ouví-lo no próprio silêncio, pois como escreveu Joseph Ratzinger: “Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam” [5]. Deus em Cristo Jesus é bom, e isso basta!

Referências Bibliográficas e Notas:

[1] ELDREDGE, John. Um Mestre Fora da Lei. 1 ed. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013. p 151.

[2]  A exegese do hebraico em parte foi consultada pela obra clássica Keil and Delitzsch Commentary on the Old Testament de Karl Fredreich Keil (1807-1888), um famoso exegeta protestante alemão.

[3] KIERKEGAARD, Søren. O Conceito de Agústia. 1 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2011. p 169.

[4] LEWIS, C. S. A Anatomia de uma Dor: um luto em observação. 1 ed. São Paulo: 2007. p 71.

[5] RATZINGER, Joseph. Escola de Oração. 1 ed. Campinas: Editora Ecclesiae, 2014. p 193.

Um comentário:

Ricardo Rocha disse...

É por essas e outras que a interpretação meramente gramatical deve ser unicamente um ponto de partida para a compreensão integral de um texto.

Ora, se o ódio, na cultura judaica, não significa o que nós entendemos por ódio, mas pode significar outros sentimentos, então, afinal de contas, como traduzir a palávra ódio? A tradução "ódio" é adequada para expressar o que Deus sente pelo pecador?

Se você diz que Deus sente ódio pelo pecador, e o ódio significa exatamente o que entendemos por ódio, então como é possível a mesma escritura declarar Deus amava os homens enquanto eles eram pecadores? Nesse caso, teríamos uma evidente contradição.

Se, então, o ódio no contexto hebraico não significa o ódio a que estamos acostumados, ou ao menos não sempre, então qual o sentido de enfatizar tanto a questão do ódio como você fez neste texto?

Sinceramente, não consigo deixar de ver as influencias de certa literatura reformada a qual você tem se entregado a tanto tempo...