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domingo, 7 de setembro de 2014

Marina Silva, a democracia e a Assembleia de Deus

Por André Gomes Quirino e Gutierres Fernandes Siqueira
“A democracia é a pior forma de governo existente, exceto todas as outras”, asseverou o conservador Churchill, e desde então muitas e divergentes interpretações de sua máxima têm sido apresentadas. A que considero mais consistente – e conservadora, no sentido muito positivo do termo – é a que se lembra de que o ser humano é em sua própria natureza mau, que todas as formas de governo refletirão com alguma intensidade esse dado e que, na exata medida em que a democracia iguala juridicamente todos os homens, evitando assim que algum deles tenha poder suficiente para efetuar toda a maldade de que é capaz em detrimento da liberdade dos outros, ela, por não anular essa mesma maldade, obriga a que os maus – ou seja, todos nós – executem seus planos em surdina e apresentem uma imagem alternativa de si mesmos e seus planos para fins de publicidade. A democracia inventou o marketing, e o marketing é desde o seu nascedouro democrático: todos agimos como marqueteiros nalgum momento da vida em sociedade.
Nos países democráticos, os períodos de disputa eleitoral fazem pulular, simultaneamente, a nossa tendência e a nossa aversão ao marketing. É com justiça que nos aborrecemos em frente à TV ao vermos candidatos a cargos públicos repetindo discursos, promessas e sorrisos que sabemos ser mentirosos. Mas desconfio que a verdadeira razão para o nosso aborrecimento encontra-se entre o desejo que secretamente alimentamos de ser o alvo do marketing que coroa o candidato na telinha e a ira de nos vermos – ainda que minimamente – comovidos por aquela mesma propaganda que sabemos ser mentirosa. No fim das contas, é o marketing que vence as campanhas: sabemo-lo, detestamo-lo, mas não somos capazes de nos desenredar disso, a menos que sob o preço de abdicar da democracia – a pior forma de governo existente, exceto todas as outras.
O fenômeno Marina Silva tem impressionado a todos. Em que o fenômeno Marina Silva interessa a um blog de teologia pentecostal? Interessa em que Marina seja, desde 1998, evangélica pentecostal, membro da Assembleia de Deus, e, desde 2012, evangelista na AD do Distrito Federal. A candidata considerada – por grande parte do eleitorado, dos analistas políticos e da imprensa – um símbolo de renovação está filiada à denominação religiosa considerada – por boa parte desses mesmos analistas, jornalistas e cidadãos – símbolo de atraso e fundamentalismo. Interessa-nos que a presença de Marina na disputa pela presidência coloca-nos, aos conservadores, numa delicada e interessante posição política. Não por acaso, ela tem alcançado apoio de teólogos liberais tanto quanto de ortodoxos.
Marina Silva é uma defensora apaixonada do que chama “nova política”. Quando começou a coleta de assinaturas para a criação de seu partido Rede Sustentabilidade – que não foi viabilizado a tempo de participar oficialmente das eleições deste ano, mas continua sendo formado, o PSB servindo apenas de barriga de aluguel para a candidatura de Marina –, a ex-senadora o caracterizou como “nem de esquerda, nem de direita, nem situação, nem oposição”. “Estamos à frente”, foi o que afirmou. Seu discurso é notadamente “contra tudo que está aí”: a corrupção, os fisiologismos, o aparelhamento do Estado, as alianças partidárias unicamente movidas por conveniências eleitorais etc. Em seu programa de governo, uma grande atenção é dedicada ao tema da reforma política, criticando-se o presidencialismo de coalizão e o “desapreço dos ocupantes de cargos públicos por práticas de accountability e transparência”. Críticas acertadas e necessárias. Mas elas não param por aí. O programa também critica o fato de que o debate político “é delimitado por estreitas orientações de marketing, e o sistema político confunde-se com o mercado: só tem valor o que tem preço”. E arremata: “Assim é o atual modelo brasileiro de democracia, em evidente crise”.
Compartilho da consternação pela nossa dependência do marketing. É especialmente vergonhoso que a escolha, feita por um partido, do marqueteiro que conduzirá uma campanha possa ser decisiva no êxito eleitoral. Mas volto ao começo do texto para lembrar que esse é um dos muitos problemas intrínsecos à democracia. Ao menos da democracia como a conhecemos. Talvez por isso Marina tenha de chegar a diagnosticar na nossa uma “evidente crise”. Ocorre que só pode enfrentar crise o que um dia já foi exitoso. E esse definitivamente não é o caso da democracia brasileira, jovem e perturbada como só. Reconheço que as democracias possam atenuar o problema da dependência do marketing, mas isso acontece fundamentalmente pelo esclarecimento e amadurecimento da consciência política dos cidadãos – um ato de liberdade por parte destes, em vista do qual o governo pode apenas fornecer as condições materiais, e que só se dá maciçamente numa população quando o país que a abriga já se encontra num estágio consideravelmente avançado de desenvolvimento. E o que Marina propõe para superarmos a suposta crise? Conforme consta de seu programa de governo, uma “democracia de alta intensidade”, uma “democratização da democracia”. Ainda citando o documento: “Democratização da democracia pressupõe combinar os movimentos sociais históricos com as mobilizações que surgem por meio das novas tecnologias”. Vale dizer: pressupõe que cada grupo de interesses (noutro lugar, o programa fala em OSCs: Organizações da Sociedade Civil) seja o marqueteiro de si mesmo e transporte a batalha de marketing das propagandas eleitorais da TV para as novas tecnologias, democratizando-a.
Democracia marinista
Poder-se-ia falar aqui em oclocracia, não fosse por uma premissa, na proposta de Marina, que julgo equivocada. Lê-se também em seu plano: “A política brasileira vive, atualmente, uma das crises de legitimidade mais agudas da redemocratização. Tornou-se comum a ocupação dos espaços públicos por cidadãos que não pretendem mais delegar tudo a seus governantes”. A bem da verdade, o que se viu nas manifestações do ano passado iniciadas em junho, ou na maior parte de suas reivindicações, foi, ao contrário, uma pretensão enorme, mesmo incontrolável, de se delegar tudo aos governantes. Era a estes que os pedidos de transporte, saúde e educação “padrão Fifa” se dirigiam. Via-se não um anseio por democracia direta (da qual, se viesse a ser implantada, não tenho dúvida que a esmagadora maioria dos manifestantes de junho rapidamente se cansaria), mas por uma democracia verdadeiramente representativa, e eficiente.
Alguém questionará: “Como você ousa discordar de Marina Silva, se foi precisamente nela que o eleitorado encontrou a encarnação do ‘espírito das ruas’?” De fato, a se confirmar o que as pesquisas têm indicado, foi nela que o eleitorado encontrou a encarnação desse tal “espírito”. Mas pergunte a um eleitor médio: “Por quê?” Por que exatamente Marina Silva? Devido a quais propostas? Ainda não me deparei com uma resposta convincente. Parecerá uma obsessão pelo termo, mas devo dizer que o que faz o eleitorado vislumbrar uma similitude entre a postura de Marina e o “espírito das ruas” é o marketing. Marina se apresenta como a interlocutora ideal dos manifestantes e, talvez exatamente por não descer às minúcias de suas propostas, sua imagem convence. Pode ser um novo marketing, mas é marketing e, a rigor, não é nova política. Marina não escapa à disputa política como mercado, e é mesmo beneficiada por ela: está sendo a vencedora dessa concorrência por valor e por demanda. E, embora possa soar como uma ofensa aos ouvidos de um marinista, tal constatação não me surpreende, nem me desaponta. Apenas confirma a tese de que a dependência do marketing é um dos problemas intrínsecos à democracia.
E, correndo o risco de parecer ter sucumbido à imprecisão “sonhática” do marinismo, digo que justamente aqui podemos ter uma boa razão para, num segundo turno, endossar a candidatura de Marina Silva.
Se eleita, Marina precisará negociar e fazer concessões. Esse é um bem intrínseco à democracia. O chefe de Estado não governa sozinho. Mas digo com mais precisão: tornando-se presidente, Marina terá uma oposição – o que hoje lhe falta, já que a maior parte do eleitorado e da imprensa está encantada com sua figura. Há muito tempo a direita democrática reclama, com razão, por não haver partidos que a representem politicamente no Brasil. Temos tido de nos contentar com o partido da socialdemocracia porque é o que de menos à esquerda existe no espectro ideológico dos partidos locais. É difícil saber o que esperar de um governo Marina, mas é um exercício interessante se perguntar quem lhe faria oposição. Há pontos fortíssimos em seu programa de governo (para além da reforma política) que certamente não encontrarão apoio em quem hoje é situação (ou está à esquerda do governo): menor intervenção estatal na economia, empresas estatais menos fechadas à concorrência, política externa sem compromissos ideológicos de grupos políticos etc. Há pontos obscuros, como o tratamento com o agronegócio, que podem ou não ter apoio do atual governo e de quem está à sua esquerda – mesmo porque há que se considerar a possibilidade de, fora do governo, o PT dirigir-se novamente ao radicalismo que o poder lhe ensinara a adestrar. Será que fora do governo a órbita petista manterá a sua força? E o PSDB, como se comportará sem o PT no poder? Se hoje ele não faz oposição sistemática ao PT, que é o seu maior rival dentre os partidos relevantes, terá a boa vontade de se opor ao PSB/Rede quando com ele tiver divergências? Certamente elas serão menos frequentes do que as que há com o governo atual, mas não serão pequenas – por exemplo, no modo de promover a participação popular na política. Estamos num terreno nebuloso, mas algo bastante provável é que quatro anos sem PT nem PSDB no governo federal diminuam a força política de ambos os partidos. E quando o possível governo de Marina enfrentar problemas – nossa única certeza é que enfrentará –, aqueles e os que giram em suas órbitas saberão apresentar alternativas tão eficazes quanto atraentes? Não é absurdo supor que, para o debate com o governo Marina, forme-se um terreno fértil a ideias até agora ausentes do cenário político brasileiro, ideias liberais ou conservadoras, defendidas, por exemplo, pelos embrionários partidos Liber e Novo. Isto é: não é absurdo supor que a busca precipitada por uma “democracia de alta intensidade”, com Marina, nos ajude a avançar no processo de consolidação da jovem democracia brasileira, lançando, no mercado das ideias, alternativas que os políticos e eleitores tupiniquins ainda não têm considerado. Em suma: o marinismo, por vezes, causa a impressão de que um governo Marina Silva inauguraria de uma vez para sempre uma nova fase na política brasileira. Obviamente, essa é uma esperança ingênua, e perigosa. Mas, exatamente por ser irrealizável, o tal governo permitiria que florescessem alternativas a si mesmo.
É desconcertante votar tão fria e calculadamente? Bem, a julgar pelas pesquisas, a nossa outra escolha seria mais quatro anos de PT no Planalto. Antes superá-lo com frieza do que sofrê-lo com paixão. É desconcertante decidir o voto encaixando-o em projeções do que o restante do eleitorado pretende votar? “A democracia é a pior forma de governo existente, exceto todas as outras”.
Marina é uma candidata assembleiana?
Superando a crise da democracia e sua representação há outra grande dúvida no debate público sobre Marina Silva: a influência da fé no processo político. Marina Silva seria fundamentalista? A afirmativa a essa pergunta é uma grande injustiça. Marina não quer subordinar as instituições à religião cristã e ao evangelicalismo pentecostal em particular. Ela nunca se portou como a “candidata assembleiana” mesmo sendo “missionária” das Assembleias de Deus. Entre os principais candidatos Marina apareceu em poucos templos enquanto a agnóstica Dilma Rousseff é quase uma beata. Marina sabe separar bem a esfera política da esfera religiosa. Entre os evangélicos políticos mais famosos a postura de Marina é rara.
Outro ponto em questão: como a Assembleia de Deus abriga pessoas tão diferentes como Marina Silva, Marco Feliciano e o pastor Everaldo? Essa é mais uma prova que mesmo uma única denominação evangélica não é um grupo monolítico.  A Assembleia de Deus como uma gigante da religião abriga diversos tipos, ou seja, não está sob um único esteriótipo. Alguns pastores até pensam que possuem um rebanho, mas o “rebanho” é mais autônomo do que a intelligentsia nacional suporta.
Neste fim de semana algumas matérias na imprensa escrita falam do "voto evangélico" como algo uniforme e manipulável. No geral o tom é: os fiéis seguem a indicação dos seus pastores. Essa é a opinião, por exemplo, do famoso cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília à revista Época (p. 42 ed 849). Pura ignorância ou preconceito? Talvez seja ignorância até sobre as teorias da comunição. O processo do voto não é automático, pois se assim fosse o nanico pastor Everaldo seria um fenômeno há algum tempo. Como qualquer cidadão, o evangélico vota decidindo sobre vários interesses pessoais. Nessa soma de fatores há também uma análise sobre costumes, mas não é o único fator. Lembro que muitos (ou a maioria dos) evangélicos da periferia votaram em 2008 na candidata Marta Suplicy, uma musa da causa LGBT. Falar em "voto evangélico" é o tipo de bobagem influenciada pela ideia de "massas manipuláveis". Para não ser injusto houve apenas um artigo na imprensa que não seguiu esse caminho fácil. O professor Leandro Karnal escreveu no Estadão (p. E3, edição 07/09/2014) que o eleitorado evangélico não vota em bloco e não é uma ameaça ao processo democrático.

Conclusão. Marina Silva é ainda uma dúvida sobre a relação política e no fortalecimento das instituições pela democracia representativa, mas não é obscura sobre outro fato importante: nela o Estado laico não está apenas assegurado como também sairá mais fortalecido.

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