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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O mito do voto evangélico

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A simplificação como o evangélico é tratado na figura de eleitor impressiona. De um lado há os pastores oportunistas que julgam possuir capital político para determinar o voto de suas ovelhas. De outro lado há analistas e cientistas sociais que veem os evangélicos como massa de manobra fácil de ser manipulada. É uma derivação da velha e equivocada doutrina da tabula rasa. A verdade é que os pastores só podem falar por si, assim como os eleitores evangélicos trabalham diversos fatores no voto efetivo. O voto evangélico não é simplista.
Dilma na Assembleia de Deus do Brás.
Imagem: Veja.com
O “povo não sabe votar” é a opinião corrente entre grupos de direita, esquerda e também dos anarquistas radicais como black blocs. A bem da verdade é que o voto costuma ser muito racional. Veja que desde a democratização em 1985 nenhum candidato majoritário ganhou com um discurso de ódio, radicalismos, propondo moratória da dívida ou apostando apenas em minorias. O voto brasileiro, mesmo quando dedicado a candidatos à esquerda do espectro político, aponta para uma acomodação conservadora. É a política da prudência. O maior grupo político no Brasil não é o extremo, mas o centro.
O chamado “voto evangélico” é uma abstração. Evidente que entre os evangélicos é possível perceber como os costumes sociais são importantes para a decisão de voto. Agora, repito, não é e nunca foi o principal fator. Em 2008 o principal ministério das Assembleias de Deus em São Paulo apoiava abertamente o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) contra ex-prefeita Marta Suplicy (PT). Numa reunião um pastor falava da importância de votar em Kassab contra a agenda LGBT da senhora Suplicy - papo furado, mas era necessário algum discurso. No final daquela reunião muitos diziam que iam continuar a votar em Marta Suplicy, que na ocasião era popular na periferia de São Paulo, e um dos jovens justificava o voto na petista: “Ela prometeu internet grátis nas praças”. Veja que para aquele jovem evangélico a agenda populista da internet “grátis” era mais importante do que a agenda dos costumes.
O evangélico não é nenhum perigo para a democracia brasileira. Os evangélicos, em geral, não são fundamentalistas, ou seja, não querem subjulgar as instituições do Estado brasileiro ao cristianismo protestante. Grupos defensores de uma espécie de teocracia (teonomia, na linguagem teológica) representam uma minoria. A acomodação secularista do protestantismo impede qualquer adesismo religioso ao Estado. O evangélico é sim conservador, como é a sociedade brasileira. É um conservadorismo um tanto estranho, é verdade, porque abraça com afinco o Estado de bem-estar social. Não é nenhum Tea Party. O conservadorismo também não representa necessariamente perigo à democracia e o nosso país é um exemplo nesse sentido: toda minoria tem espaço de reinvindicações fora da proporção de sua própria população- o que é natural numa democracia sólida.
E outra, na eleição de 2006, a bancada evangélica foi afetada em cheio pela repercussão do escândalo da “Máfia das Sanguessugas", um esquema irregular e imoral de desvio de recursos públicos, especialmente da saúde, por meio da apresentação de emendas parlamentares ao Orçamento. Entre os 72 deputados envolvidos, a maioria da base aliada do governo Lula, os evangélicos eram 28. Nenhum se reelegeu na eleição daquele ano. Isso mesmo, nenhum deputado evangélico envolvido no escândalo foi reeleito. Povo manipulável?

A CGADB quer montar um partido. O outro lado (equivocado) da relação política com os evangélicos.

A Assembleia de Deus por meio da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) quer montar um partido político. Essa notícia teve até chamada de capa no jornal Valor Econômico de hoje, embora essa história já é do conhecimento da membresia há 15 dias. E não é a primeira vez que a CGADB faz essa tentativa, pois em 2008/2009 também houve pedidos de assinaturas para a formação de um partido.
O nome do partido? Previamente é descrito como Partido da Democracia Direta (PDD). Péssima escolha de nome e espero que não reflita numa ideologia que despreze as instituições legislativas. O recolhimento de assinaturas já começou nas congregações e a justificativa é: a Convenção quer maior controle sobre os candidatos que se identificam como parte da denominação. O fato é que depois da criação do PSD com a garantia do fundo partidário pelo Supremo Tribunal Federal (STF) começou uma corrida maluca pela criação de novos partido, ou seja, novas bocas para a União. Hoje, também, administrar um partido político é um bom, aliás, um ótimo negócio.
Pastor Lélis Marinho, Coordenador político da CGADB
Imagem: Valor Econômico 
Outra observação: os nossos interlocutores políticos são mal preparados. O pastor Lélis Marinho, presidente do conselho político da CGADB, infelizmente manifestou opiniões sem estrutura em entrevista ao jornal Valor Econômico. Sobre Marina Silva ele disse: "Vejo a ascensão de Marina como um avanço. É uma possibilidade de diálogo com o governo dentro de outro ponto de vista, mas com ela ainda estamos estabelecendo um diálogo. É curioso, mas temos que buscar interlocução com uma de nossas seguidoras. Ela não assumiu compromissos". Ora, isso deveria ser exaltado por ele como maturidade da candidata que é membro da Assembleia de Deus. Ao que parece há alguma lamentação por Marina não será, digamos, tão aberta à igreja. Outra frase infeliz: “Somos a favor do Estado laico, mas um governante precisa ser alguém que tema a Deus. A falta de crença faz toda a diferença”. Como assim? Desde quando na Nova Aliança Deus exige que um governante seja um fiel? É ignorância bíblica, teológica e política. É bom lembrar que os pais fundadores dos Estados Unidos, exaltados por um suposto cristianismo, eram em sua maioria deístas.
Infelizmente, enquanto há problemas doutrinários sérios na Assembleia de Deus, a grande Convenção preocupa-se apenas com o poder temporal. E está mal preparada para isso. Felizmente, os membros são mais espertos e muitos recusam a assinar a ficha para criação desse partido.

2 comentários:

sanctusviana disse...

Suas colocações se tornam pertinentes porque você procura alertar para os equívocos que têm sido a tônica dessa disputa eleitoral e aconselha que os que estão nessa repensem suas atitudes porque estão incorrendo num erro que pode ser fatal. E é por aí.
Tomando um pouco sua linha de raciocínio, talvez as pessoas estejam imaginando que os protestantes neopentecostais (linha da maioria dos candidatos) ao tomarem o poder seriam capazes até de promover um lobby por uma nova Constituinte a fim de acabar com a laicidade do Estado porque as grandes lideranças neopentes têm se posicionado frontalmente em relação a questões que nada têm a ver com o mandato parlamentar e muito menos com as atribuições do Planalto. Questões que, inclusive, ferem frontalmente a Constituição, porque a laicidade é cláusula pétrea. E esses posicionamentos, como você bem sabe, conseguem comover e demover as pessoas porque mexem com aquilo que elas têm de mais sagrado, que é sua crença.
Ora, existe muita falácia perigosa no meio desses discursos, em especial os que usam como a "família" e a "moral e os bons costumes" como arcabouço. Primeiramente, porque existe muita subjetividade nessas questões de "certo" e "errado". Em verdade, é algo maniqueísta demais porque existem ponderações que não podem ser ignoradas. E é aí que entra a questão das crenças.
Embora possam ser compartilhadas por uma coletividade, num todo as crenças são premissas muito pessoais, individuais, pois cada um acaba tendo leituras pessoais de livros sagrados da religião, assim como as sensações espirituais também podem ser diferentes. Sendo assim, não podemos concordar com a noção dum país que tenha, por exemplo, uma Constituição baseada em noções onde nem mesmo os religiosos conseguiriam uma unidade. Haveria discordância em algum ponto, como por exemplo, "o livro de Paulo nos diz x, mas o de João diz y". E isso é apenas tomando o cristianismo como base dessa "teocracia disfarçada de democracia".
Além disso, o país precisa de idéias e ideais maiores. E podemos te dizer isso tranquilamente porque acreditamos em Deus, mas isso não é o suficiente para fazermos a nação parar ou andar por conta de um preceito que depende demais da maneira como conduzimos nossa relação com o Altíssimo. Pois mesmo que fosse o caso, e com efeito, a pergunta-chave se torna inevitável: por que o modus vivendi neopentecostal é o ideal ao Brasil em termos de "moral e bons costumes"? Essa pergunta é importantíssima para debatermos a questão porque certamente os ateus e as demais religiões também quereriam saber a resposta com dados concretos. Afinal, ninguém aceitará de bom grado uma "superioridade religiosa", uma "supremacia", que não se comprova com fatos reais e sim com ilações, com exemplos que sugerirão ambigüidade, etc.
Nesse ponto de nossa explanação, deixamos claro que nosso argumento não visa atacar religiões ou ferir suscetibilidades ateístas e sim demonstrar que se não soubermos separar o cidadão do (não-)religioso, é preferível que primeiro haja um plebiscito para se definir se devemos seguir como democracia ou se devemos nos tornar um estado teocrático. E depois, caso a teocracia vença, que se defina a vertente que nortearia nossa nação.
Grande abraço meu caro e que Deus nos ajude!

Jeferson Santos
Rio de Janeiro-RJ

Pr.Helcias nei. (membro da Primeira Igreja de Piedade,Rio de Janeiro, disse...

imaginar a criação de um partido politico de cunho denominacional,é triste e contraditório. sem contar que a Bíblia é citada nessa denominação de uma forma fundamentalista(leitura),e ai se encontra os problemas doutrinais das Assembleias de Deus em solo Brasileiro.