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domingo, 21 de setembro de 2014

Por que historicamente a Assembleia de Deus abraçou o legalismo?

AD em Recife. Ainda um pedaço de resistência legalista.
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Graças a Deus, hoje a Igreja Evangélica Assembleia de Deus não é mais um exemplo negativo de legalismo nos usos e costumes. Especialmente na última década houve mudanças significativas nos costumes assembleianos. É verdade que ainda há alguns bolsões, especialmente em cidades pequenas, onde o “pecado” é identificado com o “grave erro” de tomar banho na praia (!) ou assistir o Jornal Nacional. Todavia, hoje de maneira geral o assembleiano não teme o teatro e o cinema, a maquiagem e o jeans, o rock e o jazz, a teologia e a filosofia etc.

Mas, então, como nasceu essa maldição legalista no seio assembleiano? A explicação é dupla: o pietismo e a pobreza.

O pietismo. Os missionários fundadores das Assembleias de Deus, assim como outros nomes que reforçaram o evangelismo e ensino nessa denominação, tinham formação batista pietista.  Historicamente,  o pietismo foi importante para reagir ao exagerado escolasticismo luterano ainda no final do século XVII. O escolasticismo pecava pelo cunho excessivamente racionalista e pouco preocupado com a espiritualidade. Porém, o antídoto pietista logo abraçou o seu próprio exagero espiritualista. O pietismo é uma visão de mundo, aliás, uma visão sem mundo, pois o mundanismo é confundido com o próprio mundo. Entenderam? Bom, no fundo o pietismo é acético, antipolítico e algumas vezes um tanto gnóstico, pois o mistério assume um papel tão revelante quando a verdade revelada. Além, é claro, do forte legalismo.

A pobreza. A pobreza favorece o legalismo. Ora, é fácil condenar os costumes e os valores da classe média quando você não faz parte dela. Isso não vem de hoje. Na obra monumental de Edward Gibbon A História do Declínio e Queda do Império Romano, o historiador britânico comenta que no início do cristianismo a censura do luxo era uma constante entre os Pais da Igreja, mas esse discurso foi sendo esvaziado a medida que a classe rica romana aderiu ao cristianismo nascente. Gibbson comenta[1]:

Em suas censuras ao luxo, os pais da Igreja eram extremamente minuciosos e circunstanciais; entre os diversos artigos que lhes excitavam a piedosa indignação podemos enumerar as perucas, os trajes de outra cor que não a branca, os instrumentos de música, os vasos de ouro ou prata, as almofadas macias (visto que Jacó pousava a cabeça numa pedra), o pão branco, os vinhos estrangeiros, os cumprimentos públicos, o uso de banhos quentes e o hábito de barbear-se, o qual, segundo a expressão de Tertuliano, é uma mentira contra nossos próprios rostos e uma tentativa ímpia de melhorar a obra do Criador. Quando o cristianismo se introduziu entre os ricos e os elegantes, a observância desses singulares preceitos foi deixada, como o seria hoje, aos poucos que aspirassem à superior santidade. Mas é sempre fácil, tanto quanto agradável, para as classes inferiores da humanidade, alegar como mérito o desprezo daquela pompa e daqueles prazeres que a fortuna lhes pôs fora do alcance. A virtude dos cristãos primitivos, tal como a dos primeiros romanos, tinha a guardá-la, com muita frequência, a pobreza e a ignorância.

Veja como o discurso é um tanto parecido com décadas anteriores das Assembleias de Deus. Hoje, porém, muitos assembleianos são de classe média e suas derivações. A classe média sempre frequentou cinemas, teatros, estádios e shows. Além disso, o final de semana na praia ou em algum clube esportivo também é parte dessa paisagem. A classe média é, também, ávida por produtos de beleza. Portanto, a forte pobreza extrema do norte e nordeste do país favoreceu a condenação “do mundo” pelas três primeiras gerações de assembleianos no Brasil. Veja que nos Estados Unidos, por exemplo, o problema do legalismo nunca foi central, logo porque os pentecostais assembleianos de lá já nasceram na classe média.

É uma boa notícia saber que o legalismo hoje é um problema menor, mas é igualmente preocupante saber que essa melhoria no conceito dos costumes não veio acompanhada do esforço no ensinamento bíblico, mas apenas por questões sociais e históricas.

Referência Bibliográfica:

[1] GIBBSON, Edward. Os cristãos e a queda de Roma. 1 ed. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2012. pos 535.

15 comentários:

Anônimo disse...

Advinha quem falou em defesa do legalismo no início do ano! Veja no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=FRD-RqlLxVo

Daladier Lima disse...

Prezado Gutierres, você o penso a respeito do assunto. O que mais me incomoda é que a pregação contra usos e costumes dizia que com a retirada da exigência os crentes seriam mais maduros. Não é o que aconteceu. Conheço congregações nas quais as irmãs usam brincos, calças compridas, pintam cabelos, etc, e vivem às voltas com os mesmos desvios. Cultos frios e pouco concorridos.

Dizia-se, por exemplo, que os jovens estariam se afastando de algumas igrejas por conta do rigor nas vestes, mas nestas igrejas mencionadas vi poucos jovens e quase não se engajam nos ministérios da Igreja.

Por outro lado, penso que essa é uma pedra cantada. De fato, a liderança assembleiana já perdeu essa guerra, resta agora recolher os cacos e repensar a estratégia.

Abração!

Daladier Lima

PB. João Eduardo Silva disse...

Paz de Cristo!, aqui em São Paulo o contexto é um pouco diferente. Infelizmente muitas Assembléia de Deus são legalistas sim, congreguei no ministério do Belém SP, e fiquei impressionado com tamanha ignorância. Como pode uma igreja tão grande com pessoas influentes ser tão legalista?.
Tive que sair porque minha esposa não podia usar nada para ir a igreja, tudo é pecado.
E aqui muitos jovens se afstaram sim da igreja por conta dessas besteiras, tanto que outras igreja aqui como a batista, quadrangular, e presbiteriana tem muitos jovens.

Abraços no amor de Cristo - Pb. João Eduardo Silva

Anônimo disse...

Gutierres

Noto que as igrejas pentecostais brasileira tem certos aspectos de legalismo que são verdadeiras jabuticabas, são "invenção brasileira", não existiram no passado.

Ricardo Rocha disse...

O legalismo é um problema menor??? Pffff....

Enquanto mulheres serem afastadas dos trabalhas por serem pegas usando calças e os homens serem recriminados por usarem cavanhaques (na minha igreja haverá, pasme, uma reunião esse domingo justamente para discutir este tema) não há a menor chance de sequer se pensar que o legalismo se afastou da Assembleia de Deus.

Gutierres Siqueira disse...

Ricardo, atenção, eu não disse que o legalismo acabou. Aliás, ele nunca acabará. O que eu disse é que nunca perspectiva história o legalismo de hoje é bem menor. Isso é história pura.

Gutierres Siqueira disse...

Errata: nunca no lugar de numa.

Célio de Castro disse...

O conceito de pentecostalismos apresentado pelo pastor Geremias do Couto no podcast do Bibotalk também se aplica à AD. No cenário atual não se pode falar em Assembléia, mas em Assembléias (isso também fica claro no seu texto quando você cita os "bolsões"). A Assembléia de Deus está fragmentada em suas posições. Recentemente me mudei pra Goiânia, e visitando algumas congregações de um grande campo, encontrei igreja onde numa EBD com poucos presentes, o obreiro me pediu pra me mudar dos assentos da ala do meio para a ala dos "varões' sob pretexto que ali era pra jovens, e na mesma oportunidade vi o obreiro separar um casal de visitantes que estavam sentados juntos. Em outra congregação não havia esse costume.
Aqui temos AD com posturas que vão de um extremo ao outro.

Antonio Michael disse...

Isso acontece Célio de Castro porque em muitas AD as classes de EBD são divididas por sexo e idade. E o assunto de cada uma quando não é diferente pelo menos é tratado de forma diferente, adequando-se a ralidade do aluno.

ayume disse...

Gutierres,acho essa questão de usos e costumes um fardo tão pesado que atrapalha,pelo menos a minha caminhada para o céu.Já é tão difícil não pecar,esquivar-se das tentações reais e esses homens acham pouco e tomem mais carga,dobrem o peso e tornem a caminhada mais difícil.Talvez aqueles que cobram coisas que a bíblia não cobra,devessem ter uma conta com Deus por ditar regras para entrar no céu,pois acho que Jesus,estando aqui não imporia tais normas. Lamento,acho que o evangelho deveria ser coerente,consistente,equilibrado claro!não estou falando de carnalidade ,mas de liberdade cristã,com consciência. Abraços!

Célio de Castro disse...

Olá Antonio Michael, nasci na AD e desde criança participo de EBD, é um departamento que gosto demais. Mas no caso em que citei no outro comentário não havia divisão de classes, era dentro da igreja e o único jovem era o operador da mesa de som. Nem eu nem o casal que passou pela mesma situação estava em espaço destinado a outra classe, é uma pequena congregação com classe única. Creio que é pelo costume mesmo meu amigo.

Pedro Santos disse...

Concordo com o irmão Daladier. Não creio que o legalismo seja um problema tão grave assim. A AD que eu faço parte(AD Recife), como o próprio irmão Guttierres falou, é legalista, mas nem por isso há falta de jovens e adolescentes ou novos convertidos (só na minha congregação (que é pequena) o discipulado tem por volta de 50 pessoas e em algumas outras congregações se chega a ter bem mais que isso). Na minha concepção, quando um cristão deseja servir a Deus com sinceridade, não é o legalismo que irá atrapalhar.

Ivan disse...

Engraçado...
Eu como adventista da promessa, denominação que por ser pentecostal herdeu até alguns anos atrás estes usos e costumes, vejo muitos ditos "apologetas" dizendo que os adventistas não vão se salvar, com frases do tipo "não estão na graça" "legalismo mata" "ou se vive na lei ou se vive na graça"etc.

Agora o que eu pergunto pra essas pessoas é se metade dos membros da IEAD do passando estão queimando no inferno, já que todos tinham essa visão de que não usar calça salva.

JOSIAS lEONARDO disse...

Falar de legalismo é bom né? É fácil dizer que em recife somos legalistas, mas, por outro lado, as assembleias do Sul-sudeste abriram-se demais, o que é outro extremo, quase quase se mundanizaram.É preciso ver isso também, irmão. Pelo menos aqui já não é proibido ir à praia, a não ser alguns antigos, mas geralmente não se proíbe as irmãs trabalharem de calça jeans. Esqueceram também que um dos maiores grupos de rock evangélico era daqui: os Embaixadores de Sião. Acho que não ser legalista é importante, já que somos salvos pela Graça, mas, por outro lado, não sejamos amigos do mundo, e perdermos nossa amizade com Deus, por causa de um pretenso "crescimento" espiritual.Se crescer, para voces do Sudeste, é tornaram--se parecidos tanto com o mundo a ponto de não serem distinguidos deles, prefiro ficar "legalista" aqui.

Daniel Gomes da Silva disse...

E os legalistas continuam utilizando a Bíblia e as palavras bonitas para defenderem essa pposição. Tem assembleiano que parece mais com torcedor do que cristão. Ama mais a denominação do que a Bíblia.

http://cirozibordi.blogspot.com.br/2009/01/por-que-assembleia-de-deus-nasceu-e.html