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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Posso orar ao Espírito Santo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Quem se inebria do Espírito está radicado em Cristo. (Ambrósio) [1]

Espírito Santo, ore por mim/ Leve pra Deus tudo aquilo que eu preciso/ Espírito Santo, use as palavras/ Que eu necessito usar, mas não consigo/ Me ajude nas minhas fraquezas/ Não sei como devo pedir/ Espírito Santo, vem interceder por mim/ Todas as coisas cooperam pra o bem/ Daqueles que amam a Ti/ Espírito Santo, vem orar por mim/ Estou clamando, estou pedindo/ Só Deus sabe a dor que estou sentindo/ Meu coração está ferido/ Mas o meu clamor está subindo. (Canção “Espírito Santo”)

Um leitor deste blog fez a pergunta titular deste texto. É uma questão interessante. Ela reflete uma consequência secular na teologia cristã ocidental que transformou o Espírito Santo num "deus desconhecido" e "sem um altar" ateniense ou romano para lembrá-lo e exaltá-lo. Somente em meados do século XX o Espírito Santo voltou para o debate teológico sob o incêndio do pentecostalismo. Antes disso as teologias sistemáticas ignoram a pneumatologia. E, infelizmente, a ignorância sobre o papel do Espírito Santo traz consequências para a Igreja até os nossos dias.

É bem verdade que nenhuma oração é dirigida ao Espírito Santo no Novo Testamento [2]. Agora, como poderíamos ser privados de orar a uma pessoa divina? Mas observe bem: quase, também, nenhuma oração é dirigida ao Filho [2 Coríntios 12.8-10, como exceção]. O padrão da oração é quase sempre a pessoa de Deus Pai. Todavia, a Trindade é a pluralidade de pessoas na unidade de um só Deus. Portanto, falar com o Pai, o Filho ou o Espírito Santo especificamente não é nenhum sacrilégio senão grande privilégio do cristão orante. Na comunhão da Trindade é possível falar com três pessoas. O escritor C. S. Lewis falou sobre essa comunhão única na oração com a Trindade: “Estou de pleno acordo em que a relação entre Deus e o homem é de índole mais particular e íntima do que qualquer outra relação possível entre duas criaturas da mesma espécie” [3].
Outro ponto importante: o louvor é uma espécie de oração. E na tradição cristã sempre se louvou ao Espírito Santo. Wayne Grudem lembra:

Muitos hinos em uso há séculos dão louvor ao Espírito Santo, tais como o Gloria Patri (“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito, como era no princípio, agora e para sempre, por todos os séculos. Amém!”) ou como a doxologia (“A Deus, supremo benfeitor, anjos e homens dêem louvor; a Deus, o Filho, a Deus, Espírito, glória dai. Amém”). Essa prática é baseada na convicção de que Deus é digno de adoração, e como o Espírito é plenamente Deus, Ele é digno de adoração. Tais palavras de louvor são uma espécie de oração ao Espírito Santo, e, se elas são apropriadas, parece não haver razão para pensar que outras espécies de oração ao Espírito Santo não sejam apropriadas [4].


Portanto, ao louvar o Espírito Santo se faz uma oração em reconhecimento por Sua divindade e Soberania, como não poderia ser diferente. O Espírito é Deus.

Espírito Santo, o nosso companheiro de oração

Agora, mais importante é entender que o Espírito Santo é o nosso companheiro de oração. Sim, como Deus Ele ouve a nossa oração na posição de Divino, mas também nos auxilia a falar bem com o Pai. A oração não é uma dádiva humana perante um deus insaciável de oferendas. Deus não é um ídolo e, portanto, de nada necessita. A oração é fluxo de comunhão entre o homem e a Trindade onde o Espírito Santo nos interpreta e interpreta o Pai para nós. A oração é, também, graça advinda do Espírito Santo. É Ele que nos ajuda a orar bem. “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’, a não ser pelo Espírito Santo” escreve o apóstolo Paulo [1 Coríntios 12.3] e continua:

Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus [Romanos 8. 26-27].

O ato de orar é um trabalho divino em nós. É um dom de Deus através da Pessoa do Espírito Santo. Como Karl Barth escreveu:

“Quando acontece de o homem obter liberdade tornando-se um ouvinte, responsável, agradecido, uma pessoa esperançosa, não é por causa de um ato do espírito humano,  mas somente por causa do ato do Espírito Santo. Portanto isto é, em outras palavras, um Dom de Deus. Isto tem que ver com um novo nascimento, com o Espírito Santo” [5].

Assim, encerro este texto com uma oração e um louvor ao nosso Deus na Pessoa do Espírito Santo: “Oh, Espírito Santo de Deus, ajuda-me! A minha vida de oração é cada vez mais fraca e diluída nas preocupações do presente século. Espírito Santo, me conduz a Ti. Conduza-me ao Senhor subjugando a minha carne e a minha própria vontade. A ti, Deus Soberano, limpa o meu ser do pecado maculador. Espírito Santo, me conduz nas águas refrigeradoras da comunhão com a Santíssima Trindade. Em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!”


Referências Bibliográficas:

[1] Aurélio Ambrósio (340-397), Pai da Igreja e bispo de Mediolano. Frase citada em: RATZINGER, Joseph. Escola de Oração: A Vida Interior e a Elevação da Alma. 1 ed. Campinas: Editora Ecclesiae, 2014. p 236.
[2] “É apropriado orar ao Espírito? Não existe em nenhuma parte das Escrituras um exemplo deste costume; visto, porém, que o Espírito é Deus, não pode ser errado invocá-o e nos dirigirmos a ele, se há uma boa razão para fazê-lo [...] e a oração ao Espírito será igualmente apropriada quando o que buscamos dele é uma comunhão mais íntima com Jesus...”. PACKER, James I. Na Dinâmica do Espírito. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1991. p 254-255.
[3] LEWIS, C. S. Oração: Cartas a Malcolm. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 17.
[4] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999. p 179-180. Na edição atualizada (2 ed/2010) essa nota não consta e o texto subsequente está entre as páginas 309 e 310.
[5] BARTH, Karl. Esboço de uma Dogmática. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. p 202.

8 comentários:

Anônimo disse...

"Somente em meados do século XX o Espírito Santo voltou para o debate teológico sob o incêndio do pentecostalismo. Antes disso as teologias sistemáticas ignoram a pneumatologia."

Irmão Gutierres, achei essa uma afirmação interessante. Tem alguma indicação de referência que desenvolva essa tese?

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá mano, a paz de Cristo!

Excelente artigo, realmente é algo bem natural ao desfrutarmos em adoração do Deus trino de nos dirigirmos em determinadas ocasiões ao Espírito Santo, que é Deus, assim como o Pai e o Filho.

No que tange a questão de não houver nenhuma referência bíblica de orações ao Espírito (pelo menos em um sentido mais lato), gostaria de fazer uma observação.

No Antigo Testamento, quando Ezequiel está tendo a visão dos ossos secos, é dito para o Profeta se dirigir ao Espírito, sendo que ele diz "vem ó Espírito",segundo o comando de Deus (Ez 37.9).

No Novo Testamento, há a peculiar passagem em 2 Tessalonicenses 3.5, onde Paulo diz "Ora, o Senhor encaminhe o vosso coração no amor de Deus e na paciência de Cristo". Aqui, a indicação que é "Deus" aqui se refere ao Pai, logo depois temos Cristo, logo, o "Senhor" aqui se refere ao Espírito. Cabe ressaltar que aquilo que Paulo pede é justamente o que o Espírito Santo faz, derramar o amor de Deus, sem esquecer da mediação de Cristo.

Caso esses versículos apresentem uma "oração direta ao Espírito", creio que isso demonstra que não há problema algum em se dirigir ao Espírito, porém isso não se constitui como o procedimento geral, haja vista que as orações neotestamentárias focam o Pai e o Filho.

Dito isso, de forma alguma quero menosprezar seu importante e excelente artigo, que traz um tema interessante acerca para a igreja contemporânea, algo que, quer goste-se ou não, ganhou propulsão com o movimento pentecostal.

Forte abraço!

Anônimo disse...

Meu nome é Márcio de Araújo Barboza e tenho uma dúvida, há quatro anos comecei a ler o livro Bom dia Espírito Santo! e quis orar ao Espírito, porém quando me ajoelhei veio a seguinte dúvida: orar como? eu sempre entendi que deveríamos orar ao Pai em nome de Jesus, mas se a oração é ao Espírito, então em nome de quem eu oro? a dúvida foi tão forte que eu me levantei e nunca mais tentei fazer isso.

Obs: não entrei com meu email por que estou em uma lan house e demora muito para carregar o gmail.

Gutierres Siqueira disse...

Em breve vou publicar um texto mais longo sobre esse tópico.

Gutierres Siqueira disse...

Creio que não há nenhuma dificuldade em ao orar ao Espírito Santo encerrar essa oração em "nome de Jesus".

Diego Oliveira Santana disse...

Gostei do texto. No último domingo falamos sobre oração na EBD e foi muito bacana. Só complementando: Estêvão também orou a Jesus, ao ser apedrejado (Atos 7:59).

Anônimo disse...

Vou citar John Stott, como forma de adendo ao texto.

"...o advérbio apropriado para escrever a atuação do Espírito Santo hoje não é hapax ("uma vez por todas"), mas ma/ton (“mais e mais"). Afinal, o Espírito Santo vive constantemente - ou melhor, cada vez mais - mostrando-nos Cristo e formando Cristo em nós. O estabelecimento definitivo do Espírito Santo na igreja, “ uma vez por todas” , tem implicações contínuas e vitais em relação à revelação e redenção de Deus através de Cristo. É o Espírito Santo que, enquanto “espírito de sabedoria e revelação" em nosso conhecimento de Cristo (Ef1.17.), abre nossos olhos para vermos cada vez mais aquilo que Deus nos revelou em Cristo.

Retirado do livro "A Verdade do Evangelho" pág. 33.

Deus vos abençõe e que o Filho de Davi tenha piedade de nós.

Carlos Antonio disse...

O Espírito Santo é humilde assim como o Senhor Jesus que não buscava glória para si porém o Senhor Jesus nunca repreendeu quando foi adorado ele recebeu porque ele é digno assim também é o Espirito Santo ele é o outro Consolador do mesmo tipo de Jesus sendo assim ele merece a nossa adoração assim como o Cordeiro de Deus merece toda honra e toda Glória