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domingo, 4 de janeiro de 2015

A panpneuma dos liberais: uma pneumatologia do ego!

Por Gutierres Fernandes Siqueira


O cristianismo não é uma doutrina filosófica, não é um programa de vida para sobreviver, para ser educados, para fazer a paz. Estas são consequências. O cristianismo é uma pessoa, uma pessoa erguida, na Cruz, uma pessoa que se aniquilou a sí própria para nos salvar; fez-se pecado. E assim como no deserto foi erguido o pecado, aqui foi erguido Deus, feito homem e feito pecado por nós. E todos os nossos pecados estavam ali. Não se percebe o cristianismo sem se perceber esta humilhação profunda do Filho de Deus, que humilhou-se a si próprio fazendo-se servo até à morte de Cruz, para servir. [Jorge Mario Bergoglio]

O liberalismo teológico é uma cosmovisão muito, digamos, estranha. Sob o signo do livre pensamento cria-se as mais absurdas, criativas e vazias doutrinas.  E nem a pessoa do Espírito Santo escapa. Numa linha mais de neo-ortodoxa radical à liberal o Espírito Santo é exaustivamente tratado nas teologias sistemáticas, ao contrário das sistemáticas conservadoras, mas ao mesmo tempo perde pessoalidade e personalidade.  O Espírito Santo, quando muito é tratado com “e” minúsculo [1], é visto como a essência da comunidade e da vida cristã. Teólogos liberais, por exemplo, defendem uma “pneumatologia cósmica”, onde todo o universo está no Espírito Santo. É uma espécie de panteísmo do Espírito ou panpneuma (tudo é o Espírito e o Espírito é tudo). A pneumatologia cósmica é uma consequência lógica da doutrina do Cristo Cósmico [2]. O teólogo católico Luz Carlos Susin, por exemplo, expressa de forma resumida a abrangência da cosmologia do Espírito, assim segundo sua própria crença: 

Hoje, a consciência religiosa cristã reclama naturalmente, ao lado de uma cristologia cósmica das sementes do Verbo, também uma pneumatologia cósmica [...] A Ecologia, a nova física, a revalorização da corporeidade, o novo encantamento do universo habitado pelo mistério, reclamam uma teologia do Espírito Santo como Espírito de Deus em todo o universo. Ou, também, todo o universo no Espírito Santo. [3]
Portanto, essa postura moderna e ou pós-moderna de identificar o Espírito Santo como a essência do ser, a comunidade na individualidade, em nada resgata a figura bíblica da pessoa divina, mas, ao contrário, distorce segundo critérios esotéricos e de autoajuda numa linguagem avançada e erudita, mas recheada do antropocentrismo típico da “busca interior”. É apenas uma nova roupagem para o velho discurso New Age

Peço desculpas aos liberais, pois eles possuem um conceito elevado sobre si, mas não consigo diferenciar esse discurso “cósmico” da autoajuda pós-moderna na busca do “ser interior”. Aliás, nada mais sem graça do que o liberalismo, pois ele pode ser encontrado em qualquer prateleira esotérica da livraria mais próxima com outras roupagens. No fundo é o peso de fazer da teologia uma ciência da religião, uma sociologia mal feita, onde há um limite para o criar e a vacuidade toma conta do pensamento humanista. 

Que venha o Espírito Santo sobre nós! Assim não sejamos tragados pelo vácuo do espírito cósmico que é nada mais do que o nosso ego espiritualizado sob uma linguagem coletivista e potencialmente totalizante. “Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” [2 Coríntios 3.17]. No espírito cósmico há a prisão do coletivismo e a palavra final é do próprio eu- um horror! 

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 1 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p 567. A publicação original desta obra é de 1951. 

[2] Como lembra Carson o apelo dessa crença é vago porque esse Jesus transmite o conteúdo que o próprio indivíduo quer. O mesmo vale para o panteísmo da pneumatologia cósmica. Veja: CARSON, D. A. O Deus Amordaçado. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2013. p 44. Leia também: O Cristianismo e a Nova Era. 1 ed. Campinas: Ecclesiae, 2013. p 66-72. 

[3] SUSIN, Luiz Carlos. Espírito Santo: Seio maternal de Deus. HACKMANN, Geraldo L. B. (org.) Sub umbris fideliter. 1 ed. 1 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. p 228. Para livros que trabalham a partir de uma pespectiva da pneumatologia cósmica veja, por exemplo: ROCHA, Alessandro. Espírito Santo: Aspectos de uma Pneumatologia Solidária à Condição Humana. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008; BOFF, Leonardo. O Espírito Santo: Fogo interior, doador de vida e Pai dos pobres. 1 ed. Petrópolis, Vozes, 2013. No fundo Boff usa elementos da piedade cristã com a crença num Estado total. Não seria exagero afirmar que a consequência lógica dessa mistura nefasta é o fascismo. Veja: DOOYEWWERD, Herman. Estado e Soberania. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, p 41.

2 comentários:

Ventura Neto disse...

Parece Hinduísmo.

Ana Lúcia Louback disse...

Prezado Pastor,

Quero expressar minha alegria em ver que alguns, não muitos, ainda preservam a Sä Doutrina. Hoje, com essa balbúrdia teologia, parece quase "absurdo" falar em Teologia Sistematica Ortodoxa. Somos logo chamados de "fundamentalistas" no sentido mais desprezível do termo..

Triste ver, pastores e obreiros Pentecostais, ensinando e pregando essa "teologia do ego" - da autoestima. A moda, agora, é ser psicólogo. Ignoram completamente o mal que a falsa ciência, chamada psicologia , estás fazendo, principalmente aos jovens adolescentes.

Mas em nome de Jesus Cristo, da Verdade , devemos permanecer firmes e inabaláveis. Deus o abençoe!