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domingo, 3 de maio de 2015

É possível um bom e saudável diálogo com o catolicismo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira


É possível um bom e saudável diálogo com o catolicismo? Acredito que sim. Eu sei que esse é o tipo de texto que desagradará a muitos, especialmente os irmãos de linha fundamentalista [1], mas não vejo motivos para um ferrenho anticatolicismo nos dias atuais. Vejamos:

1.      Dialogar não é concordar com tudo.

Eu, como protestante, tenho inúmeras ressalvas ao catolicismo. Não é possível para mim concordar com doutrinas estranhas como a imaculada conceição da Maria, a confissão auricular, o papismo, a infalibilidade papal, a intercessão dos santos, a canonização de seres humanos, o papel excessivo da tradição, etc. Todavia, nas doutrinas cardeais a Igreja Católica é ortodoxa. O catolicismo romano, o catolicismo ortodoxo e o protestantismo são ramos menores da religião cristã e, todas elas, defendem as doutrinas resumidas no Credo Apostólico. O catolicismo não é uma seita, nem sociologicamente nem teologicamente falando, mas um ramo importante da cristandade. Sim, há inúmeros equívocos doutrinários, mas existe ramo denominacional sem equívocos importantes? Se eu sendo pentecostal posso conviver com um cessacionista e até com deterministas- hipercalvinistas, logo não posso conviver com outros irmãos equivocados em outros pontos? É possível dialogar com ressalvas e, também, manter um senso crítico sobre a doutrina alheia.

2.     O secularismo excessivo é um inimigo em comum.

A privatização da fé é um inimigo comum de todos os ramos do cristianismo. O século XXI não suporta divisões tão fortes entre católicos e protestantes porque já não vivemos no mundo ocidental sob o domínio da cristandade. É óbvio, mas é necessário lembrar: não estamos no século XIX. O mundo pós-cristão demanda uma união maior dos próprios cristãos. “Se um reino estiver dividido contra si mesmo, não poderá subsistir”, disse Jesus [Evangelho de Marcos 3.24]. O contexto da frase não é sobre a unidade da igreja, mas o princípio é igualmente válido. Hoje a agenda militante do aborto, da eutanásia, da sexualidade desenfreada etc. deve nos unir pela formação de uma contra-agenda.

3.     Não é possível fazer boa teologia desprezando séculos de produção católica romana.

O cristianismo não nasceu com Martinho Lutero e nem com William Seymour. São importantes para todos nós os chamados Pais da Igreja, os teólogos medievais e os escolásticos. Há também uma riqueza inestimável na mística medieval. Se você nunca leu nada de católicos como Tomás de Kempis (1379- 1471), Tereza de Ávila (1515-1582) e Blaise Pascal (1623- 1662) você não sabe o que está perdendo. E sem falar, é claro, de Tomás de Aquino (1225- 1274), um dos maiores teólogos da história cristã. Mesmo com muitos problemas e corrupções, a Igreja do Senhor nunca deixou de existir sobre esta terra.

4.     O catolicismo popular é uma lástima, mas o evangelicalismo popular não fica atrás.

Você pode alegar que os católicos comuns são pelagianos, idólatras, supersticiosos, teologicamente confusos e nominalistas, todavia pergunto: os evangélicos-médios são diferentes?

No demais, voltarei ao tema.
Nota:

[1] Há exceções. O reverendo D. James Kennedy (1930-2007), famoso pastor presbiteriano, é um exemplo de fundamentalista que não era anticatólico. Essa visão mais positiva pode ser lida resumidamente no livro KENNEDY, D. James & NEWCOMBE Jerry. As Portas do Inferno não Prevalecerão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

15 comentários:

Victor Leonardo Barbosa disse...

Penso que se deve fazer uma distinção nos períodos da igreja. Há a igreja católica antiga, há a igreja imperial e católica romana da idade média, e a igreja católica em sua formatação moderna (concílio de Trento) e contemporânea (Vaticano II). Desde a época da Reforma, a igreja católica definiu seus dogmas e suas doutrinas, assim com seu evangelho. A forma popular de catolicismo é uma forma popular de seus dogmas, por vezes tolerado sou até mesmo apoiados pelo clero. Por isso, não sou a favor de um diálogo com Roma, Pelo menos no nível religioso, ainda que no sociológico do cristianismo, seja possível uma interação por causas morais comuns, por exemplo em instituições conservadoras contra o aborto, clonagem, etc..

Victor Leonardo Barbosa disse...

Obs: É importante ressaltar também que estou entrando no mérito de um indivíduo em particular, pois o homem não é justificado pela instituição, mas pela fé em Cristo Jesus somente.

JAMIERSON OLIVEIRA disse...

Gutierres, posso achar católicos irmãos (refiro-me espiritualmente, pois em Adão isso é óbvio) quando comparados com protestantismo nominal, mas esse é um critério equivocado. Devo comparar outra religião, igreja ou confissão com o protestantismo bíblico, fiel às Escrituras, cristocentricos, enfim.

Paulo Ribeiro disse...

Muito legal o artigo. Me lembrou das frequentes ocasiões em que, dialogando sobre o tema com estes fundamentalistas denominacionais, elenquei motivos muito parecidos para apoiar um diálogo mais próximo com os católicos verdadeiros, sem constranger a consciência com a aceitação de suas doutrinas. Me lembro especialmente do argumento do item 4, quando meu interlocutor quis levantar a pauta do paganismo no catolicismo popular, rs. Enfim, muito legal.

Anônimo disse...

Dentro do catolicismo e no protestantismo há vozes autenticamente cristãs, bem como anticristãs. Cabe discernimento. Sempre prego que não é pertencer a uma igreja evangelica é que salva. Quem salva é Jesus Cristo.
Enquanto que o protestantismo moderno, bem como o evangelicalismo entregam pobres cristologias, ou se desgastam para a defesa de um sistema (ex calvinismo, arminianismo)o teólogo Joseph Ratzinger, o papa emérito, presenteou a cristandade com os livros "Jesus de Nazaré", que é uma das mais ricas contribuições para a cristologia e nossa fé comum.
Um abraço, Matias

EDIMARIO SILVA disse...

Muito bom mesmo este comentário,enriquecedor estudar sobre os pais da igreja,mesmo não concordando em alguns pontos.

Alan Alencar disse...

Mesmos havendo divergência em pontos de vista, quero parabenizar ao autor Gutierres, que antes de escrever o artigo, trazendo um assunto quase tabu no Brasil (tanto para católicos como para evangélicos)--o Dialogo, ou até mesmo o ecumenismo- deixando claro que ecumenismo não é o ponto tratado na matéria- só posso dizer que é raro uma compreensão tão lógica e verdadeira a cerca da Igreja, continue nesta investida Gutierres pois enriqueceras a muitos (que queiram)e ao corpo do Senhor como um todo, ao tratar o assunto de forma séria, clara e verdadeira.

Devocionais de Fabio Campos disse...

Parabéns pelo artigo, brother.

Abs,
Fabio Campos

Nando Jesus disse...

Muito bom o artigo, Gutierres! Como "ex-católico" o meu pensamento é bem amplo também. Mesmo discordando de alguns pontos é de salutar importância quebrar esse tabu e falar abertamente sobre esse tema.
O que está acontecendo com o padre Fabio de Melo é um exemplo.
Minha conversão se deu em uma Escola Bíblica Dominical. Sempre amei estudar e estava em busca (continuo) de conhecer a Deus.

Karol Arimateyah disse...

Se um diálogo proveitoso só é possível até Trento, como ficaria com a Igreja Ortodoxa (Cisma de 1054)?

João Emiliano Martins Neto disse...

[o homem não é justificado pela instituição, mas pela fé em Cristo Jesus somente.]

A justificação pela fé em Cristo SOMENTE é desmentida por São Tiago que diz que a fé sem obras é morta. E mesmo assim devemos levar em conta o Cristo total (Christus totus) que é a cabeça e seu corpo que é a Igreja Católica a qual o homem deve ser membro para ser salvo, pois fora da Igreja não há salvação, pois somos os ramos da videira que é Cristo.

Gilmar Valverde disse...

Caro João Emiliano,

A justificação pela fé em Cristo somente não está em desacordo com os ensinos de Tiago. Cremos que o homem é justificado pela fé em Cristo, pois, caso contrário, se ele for pelas obras, significa que a salvação é meritória e não pela graça de Deus (Ef 2.8,9).

As obras a que Tiago se refere são a conduta do cristão após a justificação.

João Emiliano Martins Neto disse...

Caro amigo Gilmar, não sou nenhum teólogo e nem muito menos um santo que é a única pessoa capacitada para compreender a vontade divina, mas parece-me ser um fato que é muito claro o versículo 24 do capítulo II de São Tiago ao dizer que "Vedes como o homem é justificado pelas obras e NÃO SOMENTE PELA FÉ? (grifos meus/Bíblia Ave Maria) ou "Verificais que uma pessoa É JUSTIFICADA POR OBRAS E NÃO POR FÉ SOMENTE." (grifos meus/Bíblia Almeida Revista e Atualizada), o que faz cair por terra os slogans Reforma, sola fide e sola gratia.


Roma locuta, causa finita est!.

Samuel Maia disse...

Se colocarmos o que nos une, o Cristo Ressuscitado, no centro do diálogo e deixarmos de lado o que nos divide. Encontraremos mais consensos que divergências. Paz e Bem! Samuel Maia - Pastoral Familiar da Igreja Católica Apostólica Romana

Anônimo disse...

João as Escrituras estão disponíveis paea avaliarmos as doutrinas. Muitas doutrinas católicas foram criadas pela tradição humana e não vinham da igreja primitiva, ora a veneração dos santos e tantas outras doutrinas eram desconhecidas para os cristãos de antigamente. Ainda por cima Tiago está falando de que a fé salvífica vai resultar em obras. E apóstolo paulo escreveu:

Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.
Romanos 5:1-2 NVI
http://bible.com/129/rom.5.1-2.NVI

Efésios 2:8-10: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.