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quarta-feira, 6 de maio de 2015

É possível uma interação com o catolicismo? Uma resposta ao artigo de Gutierres Fernandes

Por Victor Leonardo Barbosa

Cresci como católico e, apesar de ter uma família um tanto mesclada de evangélicos e alguns católicos nominais, o fato é que minha mãe sempre foi religiosa, e antes de abraçar a fé evangélica  nutria uma boa religiosidade para com a “Nossa Senhora de Fátima”. Tudo isso me levou a estudar em um dos vários colégios católicos em Belém (PA), sendo este autor pertencente à Congregação das Irmãs do Preciosíssimo Sangue, da ordem de Madre Maria Bucchi, de origem italiana. Nos 11 anos que frequentei esse colégio (dos 03 aos 14 anos) pude contemplar boa parte da teologia, missiologia e estrutura do catolicismo (assim como acompanhar as distinções existentes entre as ordens dos outros colégios, como o Marista e do Carmo), todavia, todos comungavam de crenças fundamentais com o resto do catolicismo mundial. Até mesmo no Seminário Batista tive contato com outros católicos. Por isso, não há como aliar tanto a experiência em um ambiente romano e suas doutrinas que me levaram a escrever, de maneira irênica, ao artigo anterior do Gutierres acerca do catolicismo e sua relação com o protestantismo [leia aqui].

1. A Igreja Cristã: continuidade e descontinuidade

Um dos argumentos utilizados pelo catolicismo (que remonta até ao tempo de Lutero) é acerca de sua antiguidade. Poderia a igreja estar errada em cerca de 1000 anos e só ser ajustada em 1517? Afinal, como disse Siqueira, o cristianismo não nasceu com Lutero. E é verdade, mas o romanismo tampouco nasceu no Livro de Atos dos Apóstolos. É necessário fazer várias distinções importantes dentro dos períodos da história da Igreja e verificar a continuidade existente entre esses períodos e a reforma.

1.1) As fases da Igreja

Deve-se fazer uma distinção nos períodos da igreja. Há a Igreja Católica antiga, há a Igreja imperial e católica romana da Idade Média, assim como a Igreja Católica em sua formatação moderna (Concílio de Trento) e contemporânea (Vaticano II). Não se pode comparar a igreja de Roma e seu império com a igreja da época de Irineu, Policarpo, Tertuliano e até mesmo Agostinho e Jerônimo. O período patrístico foi um período de florescimento teológico e que deu bases até hoje utilizadas pela fé cristã. É só ler os argumentos e pontos teológicos de Irineu e Justino Mártir, assim como a apologética de Orígenes em Contra Celso para ver que muito da saudável teologia que temos hoje, vieram dos pais da Igreja, que na época pode ser conceituada como Igreja católica (no sentido universal) Antiga. Os reformadores como Lutero, Bucer e principalmente Calvino beberam profundamente nos escritos patrísticos e resgataram ensinamentos preciosos que estavam enterrados há séculos na parafernália teológica e Litúrgica de boa parte da Idade Média. Por isso, todo cristão evangélico seguramente e com bom conhecimento bíblico deve ler (obviamente com discernimento) os pais da Igreja e seus ensinamentos.

1.2). O período medieval e o endurecimento da “Tradição II”

O período medieval é marcado por variações históricas, o que não poderia deixar de ser, haja vista que é um tempo de cerca de mil anos. Não há dúvida que houve boa produção teológica nesse período (como Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino), assim como genuínos crentes que compunham a igreja instituída como John Wycliffe e até mesmo separatistas como Pedro Waldo. Porém, fica evidente que a Igreja medieval se afastou grandemente da simplicidade que há em Cristo assim como  também do coração do próprio Evangelho. É notável aquilo que David Riker classifica como “Tradição I” e Tradição II” dentro da igreja.  No dizer de Riker:
[Há] duas maneiras diferentes de entender o relacionamento da Escritura com a tradição... Tradição I tinha como fonte a autoridade da Escritura mais a tradição exegética, com esta submissa àquela... A Tradição II inclui- além da Bíblia e da tradição exegética – a tradição oral como fonte de autoridade. Ou seja, Tradição II envolve a mensagem apostólica escrita, os comentários bíblicos e a tradição oral aprovada pela Cúria. ”[1].
Claramente a fé protestante segue a Tradição I que existia na Idade Média, com representantes como Thomas Bradwadine, Wensel Ganfort e o próprio Wycliffe.  Todavia, é necessário dizer que a Igreja Católica Romana não é a mesma do período medieval, mas possui muito da igreja da Contra-Reforma.

2. Catolicismo: de Trento até hoje

Que a Contra-Reforma trouxe mudanças éticas e morais positivas no seio católico não há dúvidas, mas poucas foram as mudanças teológicas, pois a mesma, sem dúvidas, optou  pela Tradição II (que de certa forma, era majoritária). Até hoje, mesmo com as mudanças introduzidas no Vaticano II (algumas sensatas, ouras prejudiciais), pouca coisa mudou. A visão de Trento acerca da figura de Maria, dos santos, da Igreja e da salvação praticamente foi inalterada, sendo ainda promovidos de maneira institucional. Segundo o ex-católico irlandês Tom Coffey, comentando acerca de João Paulo II, afirmou:


Seu papado não será esquecido nos anais empoeirados da história. Sua posição inflexível em questões morais tais como aborto, o comportamento homossexual, o casamento entre homossexuais , o materialismo e a importância da família foram revigoradas para um mundo moralmente decaído. [...] No entanto, alguns dos ensinamentos de João Paulo II jamais poderão ser aceitos por aqueles que, entre nós, que sabe que a Bíblia é a Palavra de Deus.... Por exemplo, João Paulo II promoveu incansavelmente a devoção a virgem Maria e canonizou mais de quatrocentos santos; leia-se mais do que tinham sido canonizados por todos os papas que o sucederam. “[2]


Não se trata apenas aqui de “irmãos equivocados”, mas de doutrinas institucionalmente estabelecidas e aprovadas religiosamente pela Cúria. É bem verdade que existem as manifestações populares que nem sempre convergem exatamente com a ritualística católica (ainda que muitos clérigos apóiem e até incentivem tais eventos), porém, é claro pelos documentos católicos como o registro da seção XXV de Trento ou então o Catecismo da Igreja Católica, desvios graves que afetam a pureza do Evangelho, transtornando-o, obscurecendo e desvirtuando-o.  No dizer de Coffey: “O modelo da Igreja Católica Romana jamais seria endossado por Jesus”[3]. 

Uma objeção que poderia ser levantada é: “mas não há graves erros acontecendo dentro do meio protestante evangélico”? Certamente que há e, por isso, um lema que os reformadores tinham em mente era Ecclesia Reformata semper reformanda est. Todavia, o protestantismo e evangelicalismo histórico/conservador sempre mantiveram os fundamentos da Tradição I, explicadas nos Solas da Reforma, que ainda diferem totalmente da configuração católica romana atual. Como já escrevi em artigo anterior, tais fundamentos não podemos esquecer  [4].

Isso significa que a Igreja Católica não produziu teólogos capazes em tempos recentes? Certamente que sim. Homens como Gilbert K. Chesterton e teólogos como Joseph Ratzinger e Etienne Gilson sem dúvida foram e são pensadores, teólogos e filósofos capazes, porém não há como abrandar suas ilusões e erros perigosos à própria salvação, deles e dos que o escutam (1 Tm 4.16). Minha oração a Deus é que Ele ilumine homens como Ratzinger para que comprem a verdade e não a vendam, mas possam verdadeiramente cumprir 1 Tm 2.5.

3. Catolicismo versus protestantismo: é possível alguma interação?

É necessário esclarecer algumas definições. Se por “interação ” se quer dizer cultos ecumênicos e diálogo religioso, minha resposta é um firme e sincero não. Enquanto Roma não abandonar sua eclesiologia, suas tradições alheias a Bíblia e não exaltarem doutrinariamente como Cristo o único mediador entre Deus e os homens, assim como a justificação pela fé, tal tipo de interação é perigosa, espiritualmente danosa, inconsequente e pueril.

Todavia, caso a interação seja a participação em atividades sociais dentro de instituições conservadoras, que militam em prol da vida contra o aborto, ou contra os ataques à família como  a promoção do homossexualismo e a contrariedade à liberdade  religiosa, penso que seja possível uma interação, desde que não saia do nível sociológico da cristandade para o religioso. Se isso é possível, aí já é outra questão.

Conclusão

O cristianismo não nasceu na Reforma, todavia, tampouco a história da Reforma não possui continuidade com que ocorreu antes na Igreja Cristã.  Uma linha foi marcada na Reforma, sendo que as divisões são claras e necessárias diante das escolhas feitas pelos católicos-romanos. Qualquer interação com Roma que ameace os fundamentos do protestantismo não é avanço, mas retrocesso.
Soli Deo Gloria.




[1]          RIKER, David. Continuidade no Seio da Igreja. In: Revista Sistemática Equatorial. Belém: Gráfica Alves. 2009, p.10
[2]          COFFEY, Tom. Respostas às Perguntas que os Católicos Costumam Fazer.  1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2013. p. 20
[3]          Ibid. p.  21.
[4]          Disponível em: http://gqlgeracaoquelamba.blogspot.com.br/2014/10/a-justificacao-pela-fe-uma-doutrina.html.

3 comentários:

wally disse...

Victor, não seria "interação", em vez de 'inteiração'?

abs,

João Emiliano Martins Neto disse...

Parabéns Víctor pelo seu artigo. Realmente, há posições católicas e protestantes inconciliáveis como a postura protestante de não se abrir para a totalidade do real, isto é, para os fatos do mundo em sua diversidade a fim de o homem conhecer a Deus, a si mesmo e ao mundo que para o protestante fica limitado à Bíblia. Para mim Aristóteles, Santo Tomás ou o Beato Duns Scotus são insuperáveis. Acho tal postura bibilista protestante um erro e foi isso que fez-me afastar do Protestantismo.

Acho que nos diálogos entre os católicos e protestantes, aqueles podem mostrar para os protestantes que o homem não é tão mal assim e incapaz.

Layanna Maiara disse...

Não há uma ressalva que eu precise fazer com relação ao texto. Simplesmente concordo com tudo!