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terça-feira, 9 de junho de 2015

A guerra cultural: onde o bom senso descansa em perturbação!

Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz. (Ec 3. 1,8)

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Abaixo segue algumas questões importantes sobre a bagunça desses últimos dias. Primeiro começou com a reação tresloucada de alguns evangélicos diante do comercial da empresa O Boticário e, depois, veio a reação tresloucada do movimento gay ao usar uma imagem religiosa como protesto.

1. O cristão, seja evangélico ou católico, não é um cidadão de segunda classe, ou seja, ele pode e tem todo o direito à indignação. Eu li uma quantidade absurda de textos insinuando que os cristãos deveriam permanecer calados diante de qualquer manifestação de sacrilégio. Outros textos, sempre generalizantes, diziam que os religiosos deveriam se indignar com “outras questões”. Bobagem, pois a indignação é fruto de um momento histórico e todos nós, ateus ou crentes, somos seletivos nas nossas revoltas. Em Atos 17.16 diz que, em Atenas, o apóstolo Paulo “ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos”. É até estranho alguém que em nada fica indignado: é a famosa ausência de “fogo e paixão” e, quando não, de glória. A indignação é natural, legítima e desejável, mas ela só precisa ser bem direcionada, inteligível e igualmente equilibrada.

2. O problema hermenêutico: há um abuso no uso excessivo do Sermão do Monte como regulador das relações políticas e culturais. Ora, o Sermão do Monte é uma mensagem para indivíduos regenerados e guiados pela graça divina. É uma prédica pós-graça e não para obtenção de graça. Os princípios éticos da mensagem de Cristo não servem como impulso moralizante da sociedade e nem seu modelo. Isso mesmo: a mensagem de Cristo nunca foi moralista, ou seja, nunca ensinou que o homem fosse capaz de construir uma ética para si ou mesmo a partir dEle como um exemplo de “boa gente”.  Não estou dizendo que a mensagem ética do Reino seja imperfeita ou ineficaz, mas sim que o homem e a sociedade não-regenerada pelo sopro do Espírito são, pelas suas próprias limitações, totalmente incapazes para tal mensagem e o seu forte peso. Querer empurrar uma moral do Reino para relações políticas é uma bobagem tremenda. A sociedade como coletividade nunca será capaz de experimentar uma regeneração espiritual, pois tal graça é infundida apenas a indivíduos. A única coletividade próxima de tal padrão- todavia não igual- é a igreja que, como comunidade constituída pelo próprio Cristo, ainda assim perece perenemente com a precariedade da moral humana. A graça e a misericórdia de Deus tornam possível viver tão elevado padrão de ética e moral. E é tão somente na Igreja com “I” maiúsculo que tal prédica serve como parâmetro de moralidade, pois só se entra nas portas dessa comunidade após a experiência da graça conversora. Portanto, exortar um crente a não se indignar com uma ofensa pública porque “precisamos dar a outra face” é uma leitura romantizada em demasia. Jesus Cristo, Ele próprio, foi “consumido pelo zelo” da casa do Senhor (João 2.17)- nada mais tradicional- e não fez, como diz o ditado, cara de Amélia diante dos vendilhões do templo. Jesus não é meramente o parâmetro do Sermão do Monte, mas sim: Ele é a única garantia de sua realização. Exigir esse elevado padrão sem a graça é um discurso vazio e diluído na covardia daqueles que não querem assumir uma posição em tempos de crise.

3. O evangélico não pode aderir à guerra cultural. O evangélico não pode viver em função do movimento LGBT, ou seja, viver de observá-lo e criticá-lo. A Bíblia nos exorta a tomar “todo o conselho de Deus” e certamente que a mensagem evangélica não é simplesmente o antagonismo à homossexualidade. O evangélico não pode confundir o homossexual com o movimento LGBT, ou seja, nunca se deve confundir o indivíduo com a coletividade de uma ideologia. O homossexual precisa do Evangelho da mesma forma que você e eu. O homossexual não é mais necessitado ou menos necessitado: ele é igualmente necessitado da graça divina. O problema do homossexual é a sexualidade, mas talvez o seu o meu problema também seja. A homossexualidade não é, biblicamente falando, a única distorção da sexualidade sadia. O adultério, a fornicação, o incesto também o são. Além disso, o pecado não se resume ao sexo distorcido. O pecado é o “desvio do alvo”. Até uma oração pode se tornar um pecado quando se desvia da glória devida a Cristo somente.

4. Diante de um sacrilégio se pede misericórdia e não “fogo do céu”. Deus construiu durante um século o Novo Testamento, mas ainda há quem tenha uma mentalidade da pré-aliança. Há um sentimento difuso de salmos imprecatórios misturado com a vingança de sabor divino. É muita fúria e pouca misericórdia. Além disso, não se deve pedir leis mais duras. A lei de proteção à religião já é muito boa no Brasil. Pedir leis e mais leis é um tiro no pé. Já li que um deputado está propondo que a ofensa à religião seja crime hediondo: grande idiotice. Devemos preservar a todo custo a liberdade de expressão, pois essa também nos beneficia. E sim, a liberdade só é liberdade quando o outro tem espaço para manifestar suas bobagens.

E, para encerrar, vamos deixar que a nossa mente seja moldada pela Palavra. A ideologia, seja conservadora ou progressista, é míope. Só o Evangelho nos faz enxergar além.

2 comentários:

Diego Oliveira Santana disse...

A indignação dos cristãos é válida, mas o que me impressiona é que a maioria de nós não se enfurece com tantos desvios de conduta dentro da própria igreja. Usamos dois pesos e duas medidas.

MARCO ANTONIO CORREIA disse...

Gutierrez, neste contexto beligerante entre o profano e o sagrado, realmente perdeu-se o bom senso e o equilíbrio.
Do ponto de vista do direito é necessário responsabilizar criminalmente os atos de desrespeito aos símbolos religioso (causa imediata) e a fé (causa mediata), como corolário da equidade; esta busca pelos irresponsáveis não se trata de uma perseguição de caráter religioso e sim, uma efetivação do direito como norteador das relações sociais. Ou seja, não se trata de cumprir o anseio da uma parcela da sociedade (os evangélicos), mas de se aplicar a justiça como anseio de uma sociedade equilibrada, respeitosa e igualitária.
Por outro lado, considerando o aspecto espiritual (ou melhor a relação igreja X mundo), vou confessar uma coisa: os evangélicos são os principais causadores deste problema. Estão colhendo o que plantaram. Entendo que toda celeuma em torno desta violência é fruto de uma igreja irrelevante e enfraquecida espiritualmente. A violência do grupo GLBT é uma reação a violência semeada por parte desta igreja irrelevante. É pura vingança. E como violência gera violência, num ciclo interminável de ódio, vamos esperar a contra reação.