Pesquisar este blog

Carregando...

domingo, 21 de junho de 2015

Latinidade e Pentecostalismo: uma entrevista com Bernardo Campos

Por Gutierres Fernandes Siqueira
O blog Teologia Pentecostal entrevista hoje o Dr. Bernardo Campos, um dos maiores especialistas em pentecostalismo na América hispânica. Peruano, é pastor ordenado pelas Assembleias de Deus daquele país e teólogo desde 1979. Graduou-se em teologia pelo Seminario Evangélico de Lima (SEL). Licenciado em teologia pelo Instituto Superior Evangélico de Estudios Teológicos (ISEDET) da Argentina (1989). Mestre em Ciências da Religião pela Universidad Nacional de San Marcos (1998) e doutor em teologia pela Rhema University dos EUA (2008). É atualmente professor do Seminario Evangélico Peruano (Presbiteriano), El Seminario Wesleyano del Perú (Metodista), El Seminario Bíblico Alianza del Perú e, mas recetimente, na Facultad Davar de la Iglesia El Tabernáculo de Dios. E, também, pastor da Iglesia Catedral del Espíritu Santo em Lima, capital do Peru. É autor de diversos livros, entre eles a Reforma Protestante a Pentecostalidade da Igreja (Editora Sinodal) e Hermenêutica Pentecostal (Fonte Editorial) a ser lançado em breve. Vejamos essa entrevista: 

01. Quais são as semelhanças e diferenças entre o pentecostalismo brasileiro e o pentecostalismo nos países hispânicos?

Não é fácil responder sem dados concretos. Pelo que tenho visto e lido nos últimos anos poderia corajosamente apontar algumas coisas, com o risco óbvio de caricaturizar. A primeira observação é que em muitos países as Assembleias de Deus são as mais antigas e, em alguns aspectos, hegemônicas na comunidade pentecostal. Há, com escreveu meu amigo ilustre Gedeon Alencar, uma "matriz assembleiana" não só no Brasil, como ele diz, mas no resto da América Latina (Alencar 2010). Por si só, essa linha é condizente com um pentecostalismo conservador, fundamentalista e evangélico (com exceções, é claro). No entanto, apesar disso, é um pentecostalismo aculturado (encarnado) porque ele criou raízes na cultura hispano-lusitana. Com mais de 100 anos, esse pentecostalismo é o pai de uma nova geração de crianças nascidas na fé carismática que está assumindo a sociedade e a cultura de uma maneira diferente de como se vivia no passado em gerações de seus pais. Na experiência histórica havia distanciamento do mundo, agora essa geração se comporta por uma proximidade refrigerada. Há razões sociológicas para essa mudança.

No que diz respeito às diferenças, noto que pentecostalismo hispânico na América Latina é mais susceptível a influências culturais americanas, especialmente a ideologia de mercado neoliberal e a teologia pragmática. Provavelmente no Brasil, o ethos cultural afro-brasileiro é maior em influência, assim como a abertura para a Europa e África. Tudo isso significa a configuração da sua identidade social.

Por outro lado, eu acho que há entre os vários pentecostalismos uma série de diferenças e semelhanças que somente comparações socioculturais com outras religiões podem trazer à luz. Posso mencionar aquele que é o mais marcante: a busca contínua da presença de Deus e do sobrenatural em todos os atos da vida diária.

02. O crescimento do pentecostalismo é grande em toda a América Latina. Por que essa região foi (e ainda é) tão promissora para o pentecostalismo? Há alguma característica particular dessa região que facilitou (e ainda facilita) essa expansão do pentecostalismo?

Sim. O antropólogo Elmer Miller (1979), explicando as razões para a aceitação do pentecostalismo pelos tobas argentinos (índios do Cone Sul), apontou alguns possíveis motivos, entre outros: a cultura receptora existiu na evangelização pelos elementos culturais dos tobas que fizeram harmonia com o discurso pentecostal. Em outras palavras, entre o universo simbólico cristão desenvolvido pelo pentecostalismo e o universo simbólico dos tobas havia elementos culturais semelhantes que permitiram a fácil recepção e harmonia. Antes da chegada dos pentecostais outras tradições confessionais protestantes tinham evangelizado os tobas, mas eram dissonantes em relação a sua cultura (Campos 1992, 2007). À luz dessa teoria, eu acho que no geral, podemos dizer que há condições culturas dos latino-americanos que favorecem o pentecostalismo, ao contrário de outras tradições religiosas mais antigas. Os pentecostalismos têm uma resposta concreta para as grandes massas e as respostas necessárias para ajudá-las a mitigar suas sentenças. A cosmovisão mítica pentecostal é profundamente sintonizada com universo cosmovisional dos tobas.

Nós somos e pertencemos a culturas antigas com religiões indígenas altamente desenvolvidas. Era natural que essas facilitassem a recepção ou o encontro com a fé cristã, na sua versão pentecostal, pelo menos na busca tradicional pela saúde (cura) e em aspectos da explicação mítico-simbólica sobre o sentido da vida.

03. Em seu país, o Peru, assim como no Brasil, o pentecostalismo é a maior força entre os evangélicos. Qual a importância social desse movimento na América Latina?

Por um lado, representa a possibilidade de um protesto simbólico com uma forma religiosa contra os problemas sociais do continente. Muitos sociólogos da religião mudaram sua atitude em relação ao papel das seitas e, inclusive, sobre o pentecostalismo. De uma avaliação sombria das seitas religiosas eles passaram a sua valorização como um protesto simbólico, mesmo que seja apenas a ponta de lança de uma grande mudança social. Os pentecostais são tidos como uma potencial força social que deve ser explorada para o bem. Nessa perspectiva, a questão é: por que não passar de um protesto simbólico para um protesto real? A resposta não está, em minha opinião, no pentecostalismo em si, mas nas condições sociais que permitem ou o impedem. Tanto Chrisian Lalive D'Epinay no Chile e na Argentina (1975) como Jean-Pierre Bastian na América Central (Bastian 1986) descobriram mutações de práticas pentecostais em tempos de crise ou de guerra. São necessárias condições drásticas que favoreçam uma mudança no sistema de crenças e ética dos movimentos religiosos para que aja mudança nas práticas (Campos, 1995). Aqui onde eu também me pergunto: por que os neopentecostais agora se voltam para a esfera pública enquanto favorecem uma teologia da prosperidade? Eu acho que existem condições históricas da luta pela distribuição da riqueza que poderia explicar essas mudanças de atitudes e de práticas pentecostais e, também, da adaptação sincrética do pentecostalismo na cultura no nosso continente (Alencar, 2005).

Por outro lado. Na medida em que falamos de um setor importante e majoritário da população protestante, nós também discutimos a possibilidade de uma força organizada que incorpore mudanças na sociedade a partir de práticas políticas. Nos últimos anos, estamos vendo uma maior participação dos pentecostais na vida pública, tanto nas esferas nacionais e locais de governo, e em termos de integração da sociedade civil. Isso significa, por um lado, o crescimento de uma consciência política social dos pentecostais, mas por sua vez, uma mudança na mentalidade dos crentes. Eles estão assumindo a realidade social como nunca antes. Não se fala mais de uma postura apolítica dos pentecostais. Pelo contrário, eu acredito que nós temos uma materialidade preocupada com a salvação, quando os resultados não são observados, para não passar os campos de especialidade entre religião e política, ou vice-versa.

04. A Fonte Editorial está lançando o seu livro “Hermenêutica Pentecostal”. O que vem a ser a hermenêutica pentecostal?

Essa é uma maneira pentecostal de ler a Bíblia (exegese) e, simultaneamente ou concomitantemente interpretar (hermenêutica) os eventos históricos à luz da profecia bíblica (teologia da história). Ou seja, os pentecostais interpretam a Bíblia não apenas pela própria Bíblia, mas a Bíblia à luz de suas próprias experiências religiosas. É uma apropriação do sentido bíblico na práxis pentecostal. Esse é um ato hermenêutico perfeitamente natural em toda a religião. A diferença é que o pentecostal, de uma simpatia com texto, procura atualizar ao mesmo tempo o sentido bíblico com sua experiência na vida cotidiana, como na sinagoga quando Jesus viveu o texto de Isaías 61 e disse: "Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir" (Lucas 4.21).

A hermenêutica pentecostal é semelhante ao do apóstolo Pedro no dia do Pentecostes. Ele interpretou o evento do Pentecostes à luz da profecia de Joel. O pentecostalismo é, da mesma forma, identificado pelos carismáticos com a experiência primária do Pentecostes para atualizar em cada culto e em cada momento de sua vida o evento original. É uma experiência com o Ressuscitado por meio do Espírito Santo, que o espera em todos os momentos cumprir a promessa do Pai. Essa virtude é também um evento escatológico que aponta para o último dia na história. O pentecostalismo é, em si, um sinal de sentido profético que anuncia semiologicamente a segunda vinda de Cristo cada vez que se prolonga em sua religiosidade.

05. Você é o criador da tese sobre a “historização” das igrejas pentecostais e a “pentecostalização” das igrejas históricas. Podemos falar que tal fenômeno já está consolidado?

Bem, cada vez mais as experiências são transversais. E é quase um fenômeno inerente à fé cristã. Por essa razão o crescimento do pentecostalismo deve ser interpretado como uma mutação do protestantismo e do catolicismo em favor de uma carismatização de toda a Igreja. Se isso continuar, o que vai acontecer, pela primeira vez, é o desaparecimento do pentecostalismo como uma identidade particular. O que se perde em particular identidade se tornará em identidade mais global. Teremos igrejas avivadas pelo Espírito e, assim, o esforço ecumênico não será mais necessário porque todos nós identificaremos como cristãos fervorosos e como igrejas vivas com uma liturgia e um desafio missionário comum. Ontologicamente iremos, nesse período, à Igreja de Cristo, sem mais adjetivos. É como se nós voltássemos para a igreja primitiva, embora não devemos olhar para isso, porque a igreja nasceu no primeiro século, mas avançou para o século XXI. Se algum dia alcançarmos essa unidade, a pergunta óbvia é: para que isso servirá? O que responderá a isso, como uma unidade espiritual, é para dar um testemunho global ao mundo.

06. Fazendo um exercício de futurologia: o crescimento do pentecostalismo na América Latina ainda é consistente ou corremos o risco de uma breve estagnação? O sociólogo da religião Paul Freston, por exemplo, já escreveu artigos defendendo a ideia que os evangélicos no Brasil não serão maioria nas próximas décadas como sempre se afirma.

Estou de acordo com Paul Freston. Eu acho que nós batemos um teto no que diz respeito ao crescimento numérico. Também é verdade que em 2030 a curva de crescimento protestante irá juntar-se a curva de declínio a Igreja Católica Romana e estará em uma paridade de adesão. Isso diz respeito a nós e não deve nos levar ao triunfalismo, porque o mundo vai continuar a exigir cristãos concretos para além das respostas de filiação religiosa. Na verdade, gostaria de colocar em questão a "conversão" de muito evangélicos, porque dentro da mesma religião o que ocorre não são conversões, mas a migração interna, e no máximo, um crescimento na consciência e prática da fé dos crentes. É a partir deste ponto de vista que devemos interpretar o crescimento do pentecostalismo como um fortalecimento espiritual da fé cristã como um todo e não como uma diminuição de fé católica ou protestante. 

07. Na sua visão, qual é a importância de eventos como o Fórum Pentecostal Latino-Americano e Caribenho?

O Fórum Pentecostal da América Latina e do Caribe é uma instância no âmbito do Fórum Cristão Global que busca encontrar novos modelos de unidade dentro da fé cristã. Em particular, o capítulo da América Latina e do Caribe, desde que se formou em Lima, Peru, em 2011, serviu para reuniões que discutem o sentido do pentecostalismo com suas práticas religiosas no continente. Estamos agrupados por região e, até agora, nos reunimos na região andina (Lima 2011), no Cone Sul (Chile 2012), na Colômbia (2013), na América Central e Caribe (Pachuca, México 2014) e no Brasil (2015) separadamente . Na maioria das reuniões vimos a abertura de outros setores da fé pentecostal cristã e temos apresentado propostas de unidade contidas nos relatórios regionais publicados como livros (Campos-Orellana 2012, 2014: Mesquiati 2015). No entanto, ao invés de uma experiência ecumênica, nós gostamos de nos ver como um esforço sincero de cristãos pentecostais para contribuir livremente com “a unidade da fé para que o mundo creia”. Pela primeira vez, sentimos que podemos falar no âmbito de uma verdadeira abertura, sem pressões institucionais ou ideológicas, como era, no passado, o diálogo ecumênico latino-americano.


Referência elencadas pelo entrevistado:
ALENCAR, Gedeon (2005) Protestantismo Tupiniquim. Hipóteses sobre a (Não) Contribuição Evangélica a Cultura Brasileira. São Paulo, Brasil: Arte Editorial.
ALENCAR, Gedeon (2010) Assembleias de Deus. Origem, implantação e Militância (1911-1946). São Paulo, Brasil: Arte Editorial.
BASTIÁN, J. Pierre (1986) “Religión Popular Protestante y comportamiento político en América Central, clientela religiosa y estado patrón en Guatemala y Nicaragua”, Cristianismo y Sociedad, Segunda Entrega, Año XXIV, Tercera Época, (1986) Nro. 88: 41 56
CAMPOS, Bernardo (1992) “El Influjo de las Huacas: La Espiritualidad Pentecostal en el Perú” en: Tomás Gutiérrez (compilador) Protestantismo y Cultura en América Latina. Aportes y Proyecciones. Ecuador: CLAI.
CAMPOS, Bernardo (1995) «En la fuerza del Espíritu: Pentecostalismo, Teología y Ética Social» Asociación de Iglesias Presbiterianas y Reformadas de América Latina (AIPRAL)
CAMPOS, Bernardo (1996) «Pentecostalism: A Latin American View» en Huibert van Beek (ed), Consultation with Pentecostals in the Americas. San José Costa Rica 4 8 June.  Geneva.
CAMPOS, Bernardo (1997) De la Reforma Protestante a la Pentecostalidad de la Iglesia. Quito, Ecuador: CLAI
CAMPOS, Bernardo (2002) Experiencia del Espíritu. Claves para una interpretación del Pentecostalismo. Quito, Ecuador: Ediciones CLAI
CAMPOS, Bernardo-Orellana, Luis (editores) (2012) Ecumenismo del Espíritu. Pentecostalismo, Unidad y Misión. Lima-Perú: Foro Pentecostal Latinoamericano y Caribeño.
CAMPOS, Bernardo-Orellana, Luis (editores) (2014), Fuego que Une. Pentecostalismo y Unidad de la Iglesia. Documentos del Foro Pentecostal Latinoamericano y Caribeño, Santiago 2012 y Bogotá 2013. Lima-Perú: Foro Pentecostal Latinoamericano y Caribeño.
LALIVE d´Epinay, Christian (1975a) «Sociedad Dependiente, clases populares y milenarismo: posibilidades de mutación de una formación religiosa en una sociedad en transición. El Pentecostalismos en Chile», Varios, Dependencia y Estructura de Clases en América Latina (Trad. del francés). Argentina: Megápolis.
LALIVE d´Epinay, Christian (1975b) Religion, dynamique sociale et dépendance, les mouvementes protestants en Argentine et au Chili, Paris: Mouton
MESQUIATI DE OLIVEIRA, David (Organizador) (2015) Pentecostalismos e Unidade. Brasil: Fonte Editorial.
MILLER, Elmer (1979), Los tobas argentinos: armonía y disonancia en una sociedad, Siglo XXI, México.

2 comentários:

Pr. Fábio Scofield disse...

Olá Irmão Gutierrez, A Paz do Senhor......

Parabéns pelo tema da sua postagem, como sempre, muito edificante.
Goste muito de saber que Dr. Bernardo Campos irá publicar um livro sobre a hermenêutica pentecostal. E, o que mais me impressionou, foi que eu não sabia nada a respeito deste livro, mas, a três semanas venho ministrando em nossa igreja, um estudo bíblico dentro desta visão. Estamos estudando sobre inspiração, revelação e o cumprimento das profecias.
Um grande abraço, Deus te abençoe.....

alvaro disse...

muito boa entrevista, isso só mostra que existe sim bons academicos pentecostais!!!