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domingo, 28 de junho de 2015

Teologia Romântica: uma brevíssima introdução

Por Gutierres Fernandes Siqueira

“Quem não sente aqui e ali com a convicção viva que um espírito divino o movimenta, e que ele fala e age de acordo com a inspiração sagrada; quem pelo menos não tem consciência de que os sentimentos resultam das ações diretas do universo não tem religião alguma”. (Friedrich Schleiermacher [1])

Na Parada do Orgulho Gay deste ano, em São Paulo, um grupo de evangélicos levantou cartazes com dizeres “Jesus cura a homofobia”.  Naquela mesma semana um pastor carioca, numa cerimônia de lava-pés, limpou umbandistas, travestis e outros que “sofrem com o preconceito dos evangélicos”. Neste último fim de semana outros evangélicos, da chamada linha progressista, celebraram a aprovação do casamento gay pela Suprema Corte norte-americana e colocaram hashtags com a expressão “o amor vence”. Aliás, esse é o mesmo título de um livro teológico cuja mensagem evasiva insinua a defesa do universalismo, ou seja, a crença que no final das contas todos serão salvos [2]. E, para completar, nessa última semana um famoso pastor deu uma entrevista onde era claro o esforço daquele líder evangélico por rezar na cartilha da correção política.


Ora, o que une todas essas pessoas? O fundamentalista protestante logo dirá: “é o liberalismo teológico que os une.” Todavia, a pressa típica do fundamentalismo em jogar tudo no colo do chamado liberalismo teológico torna a visão do cenário enevoada.  Não, não se trata de liberalismo teológico. É algo bem mais profundo. Há uma linha que, na verdade, une muitos evangélicos ortodoxos, neo-ortodoxos e liberais, além, é claro, dos próprios secularistas: é o que chamo de Teologia Romântica.

Antes de tudo, esqueça o termo romântico do senso comum. Quando uso a qualificação “romântica” quero dizer:

O movimento intelectual e artístico ocidental que, a partir do final do século XVIII, fez prevalecerem, como princípios estéticos, o sentimento sobre a razão, a imaginação sobre o espírito crítico, a originalidade subjetiva sobre as regras estabelecidas pelo Classicismo, as tradições históricas e nacionais sobre os modelos da Antiguidade e a imaginação sobre o racional, na literatura, na música, nas belas-artes e em outras manifestações intelectuais. [Dicionário Houaiss]

Conheço muitos românticos teológicos que crêem no Credo Apostólico e outros que desprezam até a crença na divindade de Cristo. Portanto, o Romantismo teológico transcende a barreira entre ortodoxia e heterodoxia. Na verdade, em último grau, o Romantismo é uma escala heterodoxa que possui inúmeras camadas (da mesma aberta à fechada) com um único eixo: o endeusamento do sentimento. No Romantismo literário e filosófico o sentimento é o valor preponderante e o mesmo se dá na proposta teológica. Estudar e entender a influência do Romantismo é mais importante, pelos motivos listados acima, do que resistir automaticamente ao liberalismo teológico, logo porque a teologia moderna é apenas uma das filhas do Romantismo.
Como lembra Isaiah Berlin o Romantismo é o grande movimento ocidental dos últimos séculos:

A importância do Romantismo é ter sido o maior movimento recente que transformou a vida e o pensamento do mundo ocidental. Creio ser ele a maior mudança já ocorrida na consciência do Ocidente, e todas as outras mudanças que aconteceram ao longo dos séculos XIX e XX me parecem, em comparação, menos importantes e, de todo modo, profundamente influenciadas por ele. [3]

E quando falamos de Romantismo na teologia é impossível não se lembrar de Friedrich Schleiermacher. Schleiermacher não é só o pai da teologia liberal, mas talvez seja o maior expoente da teologia Romântica. E a influência desse alemão vai além dos liberais do século XIX. Há muitos evangélicos românticos em graus variados ao de Schleiermacher.

E, é isso que veremos numa série de artigos sobre o assunto. Acompanhe e entenda melhor esse tempo conturbado que atravessamos.

Referências Bibliográficas:

[1] SAFRANSKI, Rüdiger. Romantismo: uma Questão Alemã. 1 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2010. p 135.

[2] BELL, Rob. O Amor Vence. 1 ed. São Paulo: Sextante, 2012. p 168.

[3] BERLIN, Isaiah. As Raízes do Romantismo. 1 ed. São Paulo: Editora Três, 2015. p 24.

3 comentários:

Deyssy Jael De la Luz García disse...

Qué interesante que podamos conocer más y diálogar desde el pentecostalismo sobre la teología liberal, el fundamentalismo y todo lo que hoy en día nos reta para entedner cómo dios se manifiesta.

Ana Lúcia Louback disse...

Parabéns por essa mensagem lúcida e bem esclarecedora. Estamos assistindo essa "onda" romântica no meio evangélico como vemos o "canto da seriea" engolindo os desavisados. Deus o abençoe!

Alvaro disse...

muito bom,aguardando os outros textos.