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domingo, 23 de agosto de 2015

A “Declaração de Fé das Assembleias de Deus” e o seu momento histórico

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil (CGADB) criou uma comissão especial para a elaboração de uma inédita Declaração de Fé das Assembleias de Deus. A previsão é que essa comissão conclua o trabalho em 2017. Nesses próximos meses alguns fóruns serão realizados em todo o país para que a elaboração do documento tenha a contribuição da igreja nacional.  

A Assembleia de Deus não está formulando um credo.  A palavra Credo está sempre associada aos primeiros documentos da Igreja Cristã antes da primeira cisão entre a igreja ocidental e oriental. Nesse grupo de documentos há o Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano. O que caracteriza o Credo é o seu caráter ecumênico (serve a todas as tradições cristãs- católica, ortodoxa e protestante), histórico, devocional e sacramental. Os assembleianos também não estão formulando uma Confissão de Fé ou um Catecismo Maior. Essas nomenclaturas normalmente estão associadas aos documentos do período da Reforma Protestante. Nesse grupo de documentos há o Catecismo Maior de Lutero, a Confissão de Fé Belga, o Catecismo de Heidelberg, a Confissão de Fé de Westminster, os 39 Artigos da Religião etc. O que a Assembleia de Deus está fazendo é uma Declaração de Fé, um documento que naturalmente sofrerá influências dos credos da tradição cristã e das confissões reformadas.

Até a presente data o único documento doutrinário institucional das Assembleias de Deus brasileira é o Cremos. O Cremos, um texto conciso e simples, é um resumo das Verdades Fundamentais- que é a declaração de fé das Assembleias de Deus norte-americana (AG). Adaptar o documento americano para a igreja brasileira foi uma iniciativa do pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos (1914-1988). Vasconcelos trabalhava com a perspectiva que a igreja brasileira precisava de consolidação. O Cremos teve a primeira publicação em junho de 1969 no jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial de comunicação de denominação.

“Declaração das Verdades Fundamentais”

Inicialmente com o nome Declaração de Verdades, as Assembleias de Deus nos Estados Unidos (AG) prepararam esse documento ainda em 1916, ou seja, apenas dois anos após a fundação oficial da denominação. No Concílio Geral da AG em 1961 foi aprovado o atual documento Declaração das Verdades Fundamentais com 16 pontos. A única diferença entre os dois papéis era a expressão “inteira santificação”, que, ao ser excluída na nova declaração de 1961, retirava da doutrina assembleiana a influência wesleyana.


Desde cedo a AG teve forte preocupação doutrinária. Isso porque no seu começo alguns grupos defendiam doutrinas não trinitárias e pregavam um restauracionismo além dos limites da ortodoxia. Outro debate importante na época girou em torno da santificação- onde a visão próxima da tradição reformada do evangelista William Howard Durham sobre a “obra consumada no Calvário” acabou prevalecendo em relação à santificação como “segundo obra da graça” de Charles Fox Parham e William Seymour, ambos de origem no Movimento da Santidade que, por outro lado, teve decisiva influência da doutrina da “perfeição cristã” de John Wesley.

Ao contrário da irmã americana, a Assembleia de Deus no Brasil só agora determinou a criação de sua própria Declaração de Fé, mas o debate não é recente. Desde a década de 1960 pastores mais esclarecidos, como o próprio Alcebíades Vasconcelos, alertavam sobre a necessidade de oficialização doutrinária. E, é claro, tais pastores sofreram a oposição daqueles líderes que temiam o tradicionalismo nas Assembleias de Deus.

A necessidade de posição na catolicidade da igreja

Embora o Cremos seja ortodoxo e consistente há a necessidade de um documento mais amplo. E, talvez, essa seja a principal novidade da declaração que está sendo elaborada, pois esta não ficará restrita aos atuais temas do Cremos (trindade, salvação, santificação, escatologia, ordenanças etc.), mas também trará a posição da denominação em assuntos de ética e moralidade (divórcio e segundo casamento, homossexualidade, aborto, eutanásia, etc.). É importante que não somente a igreja tenha posição, mas saiba o conteúdo da daquilo que acredita.  

Espera-se que o documento não seja excessivamente hermético e nem caia na tentação de fechar qualquer assunto não essencial como fundamental. Ainda que aja a necessidade de um aprofundamento, esse processo não deve ser feito à custa da consciência que o “Espírito sopra onde quer” e que a Igreja não pode viver em função do denominacionalismo, ainda que seja ela mesma uma denominação histórica. A AD é apenas parte da cristandade e sempre precisa lembrar aos seus membros deste fato. A igreja do Senhor nunca é uma seita, ou seja, fechada em si como o grupo iluminado e exclusivo.  O pastor E. N. Bell, o formulador da Declaração de Verdades da AG em 1916, humildemente declarou sobre o documento pronto: “a fraseologia empregada em tal declaração não é inspirada e nem a defendemos contenciosamente” (grifo meu) [1]. Que esse seja o lema dessa nova Declaração de Fé.

Outra posição que cabe destacar é de Jacó Armínio, que longe da controvérsia soteriológica, declarou pela moderação na relação entre as confissões e seus rebeldes:

Mas o Sínodo não deverá assumir a autoridade de impor aos outros, pela força, as resoluções que possam ter sido aprovadas por consentimento unânime. Pois esta reflexão sempre deve ser sugerida: “Embora este Sínodo possa parecer ter feito todas as coisas conscientemente, é possível que, afinal, possa ter cometido um erro de juízo”. Essa modéstia e moderação de mente terão maior poder e maior influência que qualquer rigor excessivo possa ter sobre a consciência dos dissidentes obstinados, e sobre todo o grupo de fiéis, porque segundo Lactâncio, 'Para recomendar a fé aos outros devemos fazer dela assunto de persuasão, e não de compulsão'. Tertuliano também diz: “Nada está mais distante de ser algo religioso do que o emprego da coerção a respeito da religião”. [2]

É importante sempre defender as doutrinas da denominação sem, é claro, esquecer-se da catolicidade da igreja, ou seja, lembrando que a Igreja do Senhor tem um caráter além do tempo, do espaço, da cultura e das histórias locais. A denominação não pode usar o combate ao sincretismo como desculpa para o sectarismo, como bem escreveu o teólogo Justo González:

No entanto, o que muitas vezes não vemos é que o sincretismo e o sectarismo caminham paralelamente, que é muito fácil usar a ameaça do sincretismo como desculpa para sectarismo, e que, inclusive, o sincretismo pode ser sectário. Como o próprio nome indica, uma seita é um grupo que toma uma parte da realidade e da experiência como se fosse o todo. O termo “seita”, por si mesmo, não diz nada acerca da verdade ou falsidade, ortodoxia ou heterodoxia dos ensinamentos de um grupo. O que quer dizer é que um grupo, não importa o quanto ortodoxo seja, se equivoca quando considera que seu próprio âmbito da realidade, sua própria perspectiva limitada são toda a realidade ou a única perspectiva possível. Uma seita pode, então, ser perfeitamente ortodoxa. Certamente, pode ser mais ortodoxa que qualquer outro grupo. Mas, enquanto se considera como a única ortodoxia possível, torna-se sectária. [3]

Portanto, o momento é histórico e relevante, mas ao mesmo tempo, como dito acima, se deve evitar qualquer tentação sectária. Que o documento seja claro o suficiente para evitar interpretações dúbias em questões essenciais e seja livre o suficiente nas controvérsias não essenciais. E, ao mesmo tempo, que honre às Sagradas Escrituras e a tradição pentecostal-assembleiana. O desafio não é fácil e a comunidade assembleiana faz bem ao orar por esse período de elaboração e meditação.

Referências Bibliográficas:

[1] HORTON, Stanley M. e MENZIES, William W. Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.  p 11. Bell ainda declarou: Essas Assembleias opõem-se a toda Alta Crítica radical da Bíblia, a todo o modernismo, a toda a incredulidade na igreja e à filiação a ela de pessoas não-salvas, cheias de pecado e de mundanismo; e acreditam em todas as verdades bíblicas genuínas sustentadas por todas as igrejas verdadeiramente evangélicas [HORTON, Stanley M. (Ed.) Teologia Sistemática: uma Perspectiva Pentecostal. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. p 21.]

[2] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. p 174.


[3] GONZÁLEZ, Justo L. Mapas Para a História Futura da Igreja. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 99.

7 comentários:

Nando Jesus disse...

Momento ímpar. Acompanhando.

FRANK BRAGA DI ASSIS disse...

Muito bom artigo meu cargo Gutierrez, já estamos desde já ansiosos esperando a nossa declaração de fé, que o nosso Deus possa iluminar e orientar os pastores e medtres que irão participar desta comissão

Lynecker Santos disse...

Irmão, você acha que é necessário que a Assembléia de Deus assuma uma posição soteriológica? Digo referente a eterna discussão Arminianismo x Calvinismo
Acha que a AD como um todo deve assumir um lado?

Davi Faria de Caires disse...

Oremos por essa comissão. Temos um marco histórico na AD. Belo artigo, Gutierres. Obrigado.

Fábio Victtor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fábio Victtor disse...

Chamem Geremias Couto pra ajuda-los nesta confissão, irmãos.

Unknown disse...

Muito bom o artigo, parabéns