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domingo, 2 de agosto de 2015

É o pentecostalismo um mal ao protestantismo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Por um motivo não muito claro, especialmente nos últimos dias, vários blogs começaram campanhas contra o pentecostalismo. O que mais impressiona nesses ataques é a ignorância sobre o caráter carismático da cristandade. Esses tratam o pentecostalismo, mesmo na sua vertente clássica, como um câncer para a igreja protestante moderna. Os pentecostais merecem essa ojeriza pelos demais protestantes? Evidente que não. Aliás, desde sempre o pentecostalismo sofreu com ataques preconceituosos do fundamentalismo tipicamente americano de segunda geração.  E o que impera nesse grupo normalmente é a má vontade como o outro.


A multiformidade da Igreja Cristã é rejeitada pelos fundamentalistas contemporâneos, mas é apreciada por teólogos protestantes de uma linha mais, digamos, inteligente e elevada. Alister McGrath, um dos maiores eruditos do evangelicalismo e professor da Universidade de Oxford, escreveu resumidamente e propriamente sobre o pentecostalismo:

O pentecostalismo deve ser entendido como parte de um processo protestante de reflexão, reconsideração e regeneração. Ele não é consequência de uma “nova Reforma”, mas o resultado legítimo do programa contínuo que caracteriza e define o protestantismo desde seu início. O pentecostalismo, como a maioria dos outros movimentos do protestantismo, fundamenta-se no que aconteceu antes. Seu igualitarismo espiritual é claramente a redescoberta e a reafirmação da doutrina protestante clássica do “sacerdócio de todos os crentes”. Sua ênfase na importância da experiência e na necessidade de transformação remonta ao pietismo anterior, em especial, como desenvolvido na tradição de santidade. Contudo, o pentecostalismo uniu e casou essas percepções em sua própria percepção distintiva da vida cristã e de como Deus é encontrado e anunciado. Ele oferece um novo paradigma de autoexpressão para o protestantismo, antes, considerado marginal e levemente excêntrico pelos crentes da corrente principal; cem anos depois, o pentecostalismo, cada vez mais, passa, ele mesmo, a definir e a determinar essa mesma corrente principal. [1]

Como discordar de McGrath? O pentecostalismo é apenas uma consequência lógica do aspecto reformacional da Igreja pós-Lutero. Não é e nunca pretendeu ser uma Nova Reforma, mas é o resgate e a junção dos elementos esquecidos ou adormecidos.

É evidente que há inúmeros pentecostais problemáticos, heréticos e até moralmente duvidosos. Agora é necessário lembrar que o pentecostalismo cresceu muito e em pouco tempo e é até natural que surjam problemas de ordem doutrinária, litúrgica e até ética. O Movimento Pentecostal ainda é uma criança histórica dentro da cristandade. O primeiro centenário aconteceu apenas agora em 2001. Não se espera maturidade de uma criança, mas se sabe que é uma questão de tempo. E, ainda que a criança dê trabalho, ninguém em sã consciência a chama de um câncer indesejável.

Um cristão tradicional, seja ele episcopal ou presbiteriano, deveria celebrar a expressão carismática do cristianismo moderno. É essa vertente que tem apresentado Jesus Cristo, o Salvador, em países como a Nigéria e a Coreia do Sul. É essa vertente que chega às favelas de Luanda e nos subúrbios de Buenos Aires. Sim, esses pentecostais não apresentam outro fundamento, senão o Cristo, o filho do Deus vivo. Eles não apresentam Cristo como o Desmitolizado, mas como o Ressuscitado. Quantos de vocês conheceram Jesus Cristo através da pregação de um pentecostal desajeitado, mas cheio de fervor evangelístico?

Referências Bibliográficas:


[1] McGRATH, Alister. A Revolução Protestante. 1 ed. Brasília: Editora Palavra, 2012. p 428.

9 comentários:

Peter Erick de Oliveira disse...

Parabéns,irmão Gutierres. Vou compartilhar esse texto em meu blog e minhas páginas.

A Graça e a Paz do SENHOR JESUS CRISTO!

Fábio Stefani da Silva disse...

(Caro escritor: gostaria de conversar com você usando este comentário. E, assim como se faziam em alguns depoimentos do saudoso Orkut, peço a bondade de não publicá-lo)

Em primeiro lugar, creio que tenha sido tão de Deus o surgimento desses movimentos quanto a preservação dos movimentos anteriores.

Da mesma forma que alguns não queriam que a fé em Cristo tivesse todo o seu curso sem a chegada do Pentecostalismo, creio que não se deva querer que todos sejam pentecostais, ou se deve?

E, em segundo lugar, creio que espécimes como você seriam o perfil ideal dentro do Movimento, e olha que também faço parte dele (ainda que nominalmente, visto que sou da OBPC). Pena que você é minoria. E, se é assim, creio que a sua defesa é quase que utópica, em meio a tantos canelas de fogo, nadadores em azeite e arrotadores de brasa.

A minha membresia na OBPC se dá por duas razões: uma é que a minha esposa se identifica com os valores pentecostais, e a outra é que, dentre as várias que existem hoje, a OBPC (pelo menos a da minha região) é a mais moderada e equilibrada nas manifestações carismáticas.

Pra você entender melhor o que eu estou falando, fica um pequeno desafio aqui:

Peço que você tente escutar a duas rádios evangélicas, a BBN e a Melodia por um dia cada uma. Depois você me diz qual que está sendo mais relevante na fé cristã...

Até mais, e que Deus o abençoe!

meu contato: fabio.stefani.silva@gmail.com

Aprendiz disse...

Gutierres

Se me permite sair do assunto, acho que a perseguição de cristãos é um tema importantíssimo, que esse blog pouco tem apontado. Sugiro que se escreva algum artigo mais abrangente sobre a atual situação. Um exemplo entre milhões:

http://perigoislamico.blogspot.com.br/2015/08/muculmanos-matam-mulher-crista-por-esta.html

Note-se que, segundo afirma-se abertamente no Egito, esses perseguidores tem forte apoio internacional.

Vanzuite disse...

Ótima reflexão.

Anônimo disse...

Acredito que as crescentes criticas ao pentecostalismo são devidas as sua perda do sentido primal ao longo de sua existencia. As causas são o coronelismo praticado como forma de controle e disciplina, a segregacao alienadora da santidade estetica, as manifestações estereotipadas, carregadas de similariedade com as religioes afros e uma simbiose com o movimento da teologia da prosperidade. Infelizmente um movimento que deveria ser o entendimento e praxis do carisma na fé acabou se tornando uma instituição adoecida. A alcunha "pentecostal" nao mais reflete a honestidade dos primeiros pentecostais... Apesar que no meio ainda exista um remanescente que não é preso a rotulos, mas a pratica integral do evangelho.

Marcos Bandeira disse...

Prezado Gutierres! Sou batista e reconheço que o Pentecostalismo Clássico traz grandes bençãos para todos. Ótimo texto.

MARCO ANTONIO CORREIA disse...

Os pentecostais (dos quais eu sou um), estão em "crise": crise de identidade.

O culto é uma benção quando o pregador grita, fala em línguas, pula e gesticula. Profecia de prosperidade, vitória e cura são indispensáveis para atestar o poder de Deus (ou do pregador). A cada urro de cima do púlpito a igreja vai ao delírio e tem muitos estilos: o que termina a frase ofegante; aquele que começa baixinho e termina aos berros; o que começa e termina gritando, e por aí vai…. Os fiéis exacerbam e começam a se contorcer, jogam o corpo para frente e para trás num movimento pendular, correm por entre os bancos com os braços abertos, batem palmas e sapateiam freneticamente, pronunciando uma língua que, de tão estranha, é duvidosa sua procedência. Este é o culto pentecostal da igreja pós-moderna supostamente movido pelo poder do Espírito Santo.

Liturgia e sacramentos são retrógrados, prenúncio de um esfriamento espiritual. Na nova concepção cúltica, a “liberdade” do espírito prevalece sobre aquelas – na verdade, trata-se de liberalidade travestida de liberdade – e tudo não passa de uma confusão, barulho sem nenhum propósito.

O sermão expositivo e reflexivo é preterido e substituído pela frivolidade humana, sempre inventiva e capaz de prestar um desserviço ao Reino. A Palavra de Deus é relegada a um quarto plano, desprezam-se seus propósitos e o seu poder e, moldada segundo a vontade do homem, fala-se o que os fiéis querem ouvir.

Diante desta balbúrdia espiritual, onde está o limite entre a infantilidade carnal e a verdadeira ação do Espírito Santo à luz das sagradas Escrituras? Em que lugar do passado se perdeu o verdadeiro movimento pentecostal? Como resgatar a legitimidade dos dons do Espírito Santo e sua plenitude?

Tudo isso serve como combustível para os críticos, ou pior, vergonha para igreja.

Gilson Filho disse...

A Paz do Senhor
Recentemente fiz um comentário sobre este assunto em um determinado blog. Sou assembleiano, reconheço que o grande erro das igrejas pentecostais foram não ter sistematizado, organizado um tratado teológico sobre o assunto. Quando não se tem uma direção, as pessoas seguem qualquer vento. O comodismo ou a falta de preparo dos teólogos da Assembleia de Deus é vergonhoso.Não existe um livro publicado pela CPAD, que faça um estudo exegético sobre os capítulos 12,13 e 14 de 1 Coríntios.Agora, quando os críticos dessem a madeira, com certa razão; os líderes ou se omitem como de costume ou dão desculpa do tamanho de suas mediocridades.

Anderson Melo disse...

Graça e paz.

Amigo, acompanhei alguns de seus posts, e realmente gostei do que vi, contudo, ao que me parece, em vez de uma "busca" por verdades, está havendo uma "defesa pessoal". O problema disso é que corre-se o risco de não ser imparcial nas avaliações.

Digo isso pelo fato desse post em específico abordara contraposição feita pelos movimentos "reformados" em relação ao movimento protestante, contudo, mal foi dito sobre a contraparte pentecostal.

Se traçarmos uma leve comparação entre o surgimento da Reforma, e o Surgimento do Pentecostalismo, veremos que, infelizmente, existem forças motrizes abissalmente diferentes.

Os reformadores, ou pré-reformadores diziam que a igreja precisava consertar seus erros, nem mesmo que os cristãos católicos estavam afastados de Cristo. Todavia, se acompanhar os movimentos iniciais do pentecostalismo, o discurso era extremista. A igreja estava afastada de Deus e este "reavivamento" veio pra RESTAURAR a igreja. Faço ênfase no "restaurar" porque muitos dos irmãos pentecostais dizem que o movimento não tinha tal visão, contudo, é evidente isso ao pegar os primeiros pregadores proto-pentecostais e pentecostais, afirmando categoricamente que a igreja de Cristo estava apostatada. Oras, realmente, o movimento pentecostal não foi uma "nova reforma", visto que a reforma não afirmou que a igreja estava apostadada, aliás, o discurso da "apostasia católica, hoje, é bem mais forte entre pentecostais do que entre reformados"

Continuando, não são apenas nossos irmãos históricos, mas os contemporâneos carregam também essa mácula. É muito comum ouvir, em qualquer igreja pentecostal ou neo que tenha ido(fui 20 anos de uma AD-Missão), que os crentes não pentecostais precisavam aceitar a cristo, se converter dos maus caminhos e serem batizados no Espírito Santo. Eu mesmo sofri duras represálias por não pensar como os pentecostais. E aí, como fica?

A questão que quero abordar é que o discurso ''intolerante'' ao pentecostalismo não é gratuíto. Apenas uma pequena viagem pela história e veremos como fora "bizarro" a origem experiencialista pentecostal nos movimentos holiness, bem como no começo do movimento pentecostal em si. E não sou eu que digo. Autores como Ciro Sanches Zibordi, que eu amo de paixão, deixa explicitamente claro o bom serviço prestado pelos senhores Berg e Vingren em não deixar tais coisas se infiltrarem no pentecostalismo brasileiro.

Mas não só a experiência, temos também as distorções teológicas iniciais feitas por Charles Parham, que afirmava categoricamente que um cristão que não falasse em línguas não era salvo e precisava se converter. E isso, novamente, não fica apenas na história. Até hoje, nas IEAD Missão, um obreiro não pode "ascender" eclesiasticamente se não tiver tal dom,coisa que a bíblia jamais ensinou.

Mas não é só questão de Experiências ou Teologia, é o próprio "exclusivismo" claramente vivido até hoje e já comentei sobre isso, que está tão presente em QUALQUER denominação pentecostal ou neo pentecostal, aliás, não posso incorrer de ser imparcial, então, sim, também existe tal exclusivismo dentro das denominações históricas.

Sobre a afirmação do sr McGrath. Como discordar? Discordando, rsrs. Brincadeiras a parte, "O pentecostalismo ser a consequência lógica da reforma" é forçar MUITO a historicidade dos movimento, mas muito.

Enfim, não sou pentecostal, tão pouco "carismático", contudo, creio na atualidade dos dons porém, nem de perto como o pentecostalismo o traduz. vejo os pentecostais, ou neo, ou qualquer um que procure a Cristo como senhor e salvador, como verdadeiros irmãos em Cristo, e não vejo o "pentecostalismo classico" como mal à igreja de Cristo. As derivações, bem, já é outra história.

Meu intuito foi apenas esse, de mostrar que a visão reformada pentecostal não é gratuita, mas embasada também numa resposta pentecostal até um tanto agressiva.


Graça e paz