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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Crendo no “profeta” eu prospero?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

E, pela manhã cedo, se levantaram e saíram ao deserto de Tecoa; e, saindo eles, pôs-se em pé Josafá e disse: Ouvi-me, ó Judá e vós, moradores de Jerusalém: Crede no Senhor, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis[2 Crônicas 2.20, grifo meu]

É muito comum nas igrejas neopentecostais- e, também, nas igrejas pentecostais que perderam sua identidade e consistência- a citação de 2 Crônicas 2.20 em um contexto distorcido e, ao mesmo tempo, como justificador da Confissão Positiva, uma heresia que ensina ser possível criar uma nova realidade a partir de palavras corretas. 

O contexto conta a história da vitória do rei Josafá sobre os amonitas, os edonitas e os moabitas, que eram povos hostis à nação de Israel. O rei recebe, em um estado de completo pavor, a notícia que os inimigos estão próximos (vv. 1-4). Josafá reúne o povo e faz uma oração de clamor ao Senhor (vv. 5-12); então o Senhor levanta o profeta Jaaziel para aliviar tanto o rei como o povo do medo (vv. 13-17). Diante dessa confirmação houve um grande louvor entre o povo junto aos levitas e coraítas (vv. 18-19) e, em seguida, Josafá retoma o discurso para encorajar a toda tribo de Judá a confiar na promessa do Senhor. E é justamente nesse momento que ele exorta o povo: “Crede no Senhor, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis” (ARC, ARA). Ou, em outras palavras, “crede nos seus profetas” e “terão vitória” (NVI); “tudo o que vocês fizerem dará certo” (NTLH); “sereis bem sucedidos” (BJ, TB, A21); “tudo dará certo” (BP) etc. Ou, como lembra Martin J. Selman:

Os dois verbos estão de fato baseados na mesma palavra hebraica, sendo conectados por uma relação de causa e efeito. “Acreditar/crer” na realidade significa “exercer confiança firme”, de forma que a pessoa que acredita/crê fica firme ou segura. [1]

Em outras palavras: Judá precisava confiar na palavra de Deus e, assim, na batalha tudo correria bem conforme a soberana vontade do Senhor. E isso ocorreu com Judá. Eles creram e venceram os inimigos cantando louvores (vv. 21-24) e o medo inicial de Josafá se converteu em desposo, júbilo e pavor, que antes enchia o coração do rei, mas que agora estava como sentimento de tormento entre os próprios inimigos (vv. 25-30).

Contextualizando

Bem, esse texto ensina que basta eu confiar na palavra profética de um pregador ou pastor e ficarei próspero, como ensinam os mestres da Confissão Positiva? Vejamos:

a) O Ministério Profético do Antigo Testamento durou até João Batista (cf. Mateus 11.13). Não é possível ensinar que o ofício de profeta-pregador contemporâneo tem a mesma autoridade do profeta veterotestamentário. O ministério profético que Jaaziel fez parte já não existe mais. O equivalente em autoridade no Novo Testamento com o profeta veterotestamentário não é o pastor/presbítero/bispo e nem aquele que possui o dom de profecia, mas sim e tão somente o Colégio Apostólico, ou seja, os Doze Apóstolos. O cristianismo construiu uma casa doutrinária sobre dois fundamentos: os profetas do Antigo Testamento e os apóstolos do Novo Testamento (cf. Efésios 2.20), sendo o próprio Cristo a garantia de ambos os alicerces.  O alicerce doutrinário da igreja primitiva não estava sob quem exercia o dom de profecia em Corinto, por exemplo, e nem sobre as filhas de Filipe, mas sim nos profetas do Antigo Pacto e nos apóstolos da Nova Aliança.
b) Nenhum homem hoje, mesmo quem exercer o dom de profecia, pode reivindicar autoridade infalível de palavra como se esta fosse do próprio Deus. A Bíblia ensina a julgar qualquer profecia (cf. 1 Coríntios 14.29). Logo, se eu posso julgar uma profecia isso a coloca em um patamar de análise e risco. Quem profetiza hoje está sub judice da profecia maior: que é a Palavra de Deus revelada e escrita, ou, como se diz, as Sagradas Escrituras. Na história de Josafá, a palavra de Jaaziel era a própria Palavra de Deus, mas o dom de profecia contemporâneo não admite tamanha pretensão. Embora o dom de profecia seja impulsionado pelo Espírito Santo, a escolha de palavras e a forma de colocação serão, em todo caso, uma deliberação do portador do dom e, em hipótese alguma, servirá como autoridade doutrinária, moral ou ética e nem deve parametrizar tradições e costumes. Em outras palavras, a profecia contemporânea é uma forma sobrenatural de reafirmar verdades já escritas e aplicá-las para contextos próprios, visando à edificação e consolação da comunidade cristã. É outra forma do Espírito Santo lembrar as palavras de Cristo à Igreja.
c)  O Antigo Testamento só conhecia um tipo de profeta e este era autoritativo. E esses profetas acabaram em João Batista. Já o Novo Testamento conheça duas classes de “profetas”: o dom e o ofício (ou governo da igreja). O dom de profecia visa à edificação da igreja e pode ser concedido a qualquer membro do Corpo de Cristo. Em Atos 21.9 é dito que as filhas de Filipe profetizavam. Elas não eram parte dos oficiais da Igreja, mas ainda assim exerciam o dom de profecia. Isso mostra como o dom de profecia em o Novo Testamento não tinha pretensão nenhuma de autoridade escriturística. Outra coisa é o ofício de profeta, ou seja, alguém usado na exposição das Escrituras sob impulso do Espírito para aperfeiçoamento dos santos (Efésios 4. 1-16). O profeta neotestamentário se destaca entre outros oficiais da igreja, juntamente com apóstolos-missionários, os evangelistas e os pastores-mestres (4.11).
Portanto, fica claro que hoje ninguém pode reivindicar a mesma autoridade de Jaaziel. A base do cristão não está na palavra de qualquer um que revindica autoridade profética, mas apenas na Palavra de Deus relevada. É a obediência aos princípios das Sagradas Escrituras que fará o caminho do cristão plano, próspero e bem sucedido. E isso nada tem a ver com finanças, mas sim com a paz de espírito. “Assim o reinado de Josafá continuou tranquilo, pois Deus lhe deu paz com todas as nações vizinhas” [20.30 NTLH]. Creia na Palavra e não no homem que diz ser profeta!

Referência Bibliográfica:


[1] SELMAN, Martin J. 1 e 2 Crônicas: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006. p 343. 

2 comentários:

PB. João Eduardo Silva disse...

Paz de Cristo! Perfeito seu texto, pena que a maioria na igreja preferem ouvir esses fanfarrões irresponsáveis.
Abraços no amor de Cristo.

Interdisciplinar disse...

Que mais textos como este continuem a edificar a nossa fé.