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sábado, 24 de outubro de 2015

A idolatria do sermão

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Se o pregador estimar mais a mensagem que prega do que a Pessoa de Cristo, tal pregador é idólatra. Se a pregação for feita com o propósito de mostrar a capacidade do orador, ninguém negará que no coração há idolatria ligada ao sermão. [...] Pregar para ser admirado é fundir bezerros de ouro que os ouvintes, mais cedo ou mais tarde, adorarão. Pregar a Palavra é sacrifício que leva até ao holocausto, mas que impede chegar-se à idolatria. [Emílio Conde]
Frequentemente, leio sermões modernos com espanto. Como é que os pregadores esperam produzir qualquer coisa na vida das pessoas com tais discursos? [...] Eles produzem ensaios, o que significa que estão principalmente preocupados com a elucidação de um tema. Se eles estivessem produzindo mesmo sermões, estariam essencialmente preocupados com a transformação de pessoas. [Harry Emerson Fosdick]


Emílio Conde (1901-1971) foi um importante pensador no início das Assembleias de Deus no Brasil. Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, era um ávido anti-intelectual, ou melhor, um antiacadêmico. Ele era um crítico ferrenho de qualquer institucionalização do ensino teológico pelos pentecostais brasileiros. Não era contra o ensino em si, mas tinha um pavor da formalização. Todavia, nutria esse sentimento enquanto exercia o ofício de jornalista e de escritor, além de tradutor, compositor e membro da Sociedade Bíblica do Brasil. Portanto, eis aí o paradoxo: enquanto intelectual ele militava contra a academia.

Embora o anti-intelectualismo do Conde seja rejeitável, é particularmente interessante uma expressão que ele costumava usar: a “idolatria do sermão”. A sentença é fruto de um ótimo artigo escrito por ele e publicado no livro Igrejas Sem Brilho. O radicalismo deve ser cobalido, é claro, mas há uma verdade nessa expressão. Qual verdade? Ora, até o sermão pode ser um potencial ídolo, uma vaca sagrada.

Por que escrevo isso? É comum no evangelicalismo brasileiro, especialmente na ala calvinista, uma preocupação que julgo excessiva sobre e com o sermão. Alguns dizem que são necessários longos dias e até semanas para preparar uma mensagem. Será mesmo? Ou você acha que todo sermão depende de um longo trabalho de crítica literária? Absolutamente que não. O sermão, por acaso, é uma nova monografia a cada semana? Ou seja, a fim de combater o relaxo do neopentecostalismo com a pregação se toma um caminho do exagero no lado oposto.

Alguns, infelizmente afetados pelo analfabetismo funcional, lerão o parágrafo acima e dirão que estou em defesa do sermão relapso. Não, nada disso. Eu quando prego, a título de exemplo, costumo me alongar em muitos comentários bíblicos, bíblias de estudo, dicionários, léxicos, textos originais etc. Acho o preparo indispensável para qualquer pregador. E isso leva naturalmente um tempo, horas e horas. O meu alerta é outro, ou seja, é fazer do preparo um fim em si.

Segue algumas lições que aprendi nessa curta caminhada como expositor das Escrituras:

1.       O preparo, embora indispensável, é apenas o lado humano do sermão. Nunca, em hipótese alguma, deixe o seu coração ressecado sem oração e propenso ao orgulho intelectual. Sem a dependência do Espírito Santo o nosso sermão é um vale de ossos secos.
2.      Há sermões que mais parecem trabalhos de revisão da versão Almeida. É mesmo necessário todo esse tecnicismo? O preparo deve ser feito, mas não precisa ser exposto. O que quero dizer? Você não precisa despejar sobre o púlpito todos os detalhes técnicos do seu aprendizado com o texto e a exegese do mesmo.
3.     Sermão não é aula, palestra ou workshop. Sermão precisa transmitir vida, crença e paixão; não o sono da alma, a incredulidade e o cinismo. O sermão, como expressão da voz de Deus, deve nos levar ao temor e tremor. É uma experiência cúltica. 
4. O bom pregador é um bom ouvinte. E, também, é participante do culto. Ou seja, ele canta enquanto a igreja canta, ele ora enquanto a igreja ora, ele prega ou de debruça sobre o texto apenas no momento da Palavra. Há tempo para todo propósito debaixo do sol, não é mesmo? 
5. Explique os termos difíceis. Cite os originais só quando for realmente necessário. 
6.  Respeite a sua personalidade. Não queira imitar pregadores e seus estilos. Só existe um Paul Washer, assim como existe apenas um John Piper. Antigamente a mania imitadora era apenas um problema de neopentecostais, mas agora afeta até jovens calvinistas. 
7. E a autoridade do sermão não está no grito, na histeria e nem no barulho do auditório. “Keep Calm” e se concentre na glorificação do Nosso Senhor Jesus Cristo.

6 comentários:

Fábio Stefani da Silva disse...

Amém!

Todos os crentes verdadeiros, calvinistas ou arminianos, históricos ou pentecostais devem pensar no equilíbrio como um ideal a ser seguido.

O apego aos extremos deve ser combatido por todo crente. O qual, seguindo a Palavra, sempre considerará o outro superior a si mesmo.

Que lavemos os pés um dos outros, e que mostremos ao mundo que somos discípulos de Cristo, amando-nos uns aos outros.

Que Deus abençoe a todos em tudo, cada vez mais e sempre!

César disse...

Excelentes observações. O último ponto fechou com chave de ouro!

Nando Jesus disse...

Cirúrgico. Muito bom!

Eliton Carlos disse...

Uma pena que hoje em dia essa nova geração estão escolhendo os bezerros de ouro para serem venerados... Os pregadores mais velhos entre nós conhecidos como ancioes, que pregam por divina revelação e se preocupa com a salvação da alma mais que a prosperidade do individuo, estão em discredito entre esses novos ouvintes da pura palavra do Senhor Jesus Cristo, que foi e é nos revelar sempre seu amor na cruz pra nos salvar.



Luciano Paiva disse...

Belo artigo, confesso que nunca parei para pensar sob este ponto de vista, "Idolatria do Sermão. Concordo plenamente que; por mais bem elaborado que seja um sermão, o grande diferencial, sempre estará na dependência do Espírito de Deus. Falo isso com experiência própria, desde que me converti á Cristo, há quinze anos atrás, sempre tive vivência com teologia, pesquisando, estudando, lecionando e ministrando a palavra de Deus(Deus é bom). As melhores experiências que tive e tenho vivenciado, são as que pergunto ao Senhor Deus em oração, qual é a mensagem que devo pregar ? Temos que entender que o preparo é fundamental para a realização da obra de Deus, mas nunca podemos esquecer que o Senhor é quem deve nos usar, e não o contrário. Fiquem todos na Paz de Cristo !

Anderson de França Silva disse...

Obrigado pela orientação irmão Gutierres. A leitura do teu artigo ocorreu num momento oportuno.

Abraço,

Anderson de França Silva.