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sábado, 10 de outubro de 2015

Gênesis e a Doutrina da Criação

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O “livro do princípio”, como comumente é chamado pelos judeus, tem a marca do fascínio. Embora a Alta Crítica negue a autoria de Moisés, vale lembrar que o seu autor está em sintonia com a fé exclusiva em Yahweh- lembre sempre que a crítica literária não é uma ciência exata, ainda que alguns dos seus postulantes assim a julguem. Nele o Deus de Israel não é apresentado como um ídolo tribal, bairrista; mas como o Soberano, o Integral e o Universal. Ele conversa e passeia no jardim, ou ainda, Yahweh não está distante e indiferente como os deuses da crença deísta e nem distraído com traições familiares como os deuses do politeísmo. Ele é o Deus que intervém; que está presente o tempo todo. Ele é o próprio Criador, mas não criado e nem se confunde com a criatura, ou melhor, em nada o Todo Poderoso lembra os deuses do panteísmo. A natureza não escapa à Soberania Divina.

Ele simplesmente existe e em nenhum momento tenta explicar a Sua própria existência. Existe antes mesmo do tempo e além do espaço. O Senhor é aquele que faz tudo bom e não está preso a um maniqueísmo que separa alguma esfera da criação para além de Sua presença. Ou, parafraseando Abraham Kuyper, “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Yahweh, que é soberano sobre tudo, não clame: é meu!”. Não há uma única palavra explícita contra o politeísmo no “livro das origens”, mas a crença na exclusividade de Yahweh torna a fé em muitos deuses um sinônimo de confusão, desordem e estagnação. Ele também é um Deus em unidade, simplesmente completo e independente, e, ao contrário dos deuses pagãos, Yahweh não possui uma esposa, pois é o ser em Trindade que não necessita de um complemento ou contraponto.

A criação
O texto de Gênesis começa com uma sentença curta e objetiva: “No princípio Deus criou os céus e a terra” [1.1]. O autor do Pentateuco não está preocupado com detalhes cirúrgicos do processo criativo, mas tão somente em reconhecer no Deus de Israel o dono de todo o cosmo. O primeiro capítulo do livro dos começos enfatiza a singularidade de Deus, pois Ele é aquele “que viu; que disse; que fez”; um Deus diferente dos deuses pagãos que desconheciam qualquer modo extraordinário de pensar e agir. Ou seja, como você já percebeu, os capítulos 1-3 de Gênesis é uma apresentação do verdadeiro Deus diante da idolatria pagã dos deuses estrangeiros.  É, em algum aspecto, uma obra apologética.

Ao mesmo tempo isso não quer dizer que a linguagem dos primeiros capítulos indique uma observação literalista da criação do cosmo. Gênesis contém história, mas não se resume a esse gênero [1]. No detalhe, na lupa, no laboratório, é possível enxergar ou não um processo gradual e lento de seleção e evolução, todavia, é necessário repetir, o Gênesis não é um livro de biologia ou de cosmologia em si, mas é uma obra de história redentiva, portanto, é uma produção teológica. Ou seja, são níveis de explicação complemente diferentes.

Nos livros de história redentiva não é importante saber o detalhamento microscópico, mas tão somente entender a relação do Criador com a criatura [2]. A hierarquia da explicação é superior; é macro. E é a assim que a narração da criação se dá. Se alguém pergunta por que o seu coração dispara diante de determinada pessoa a sua resposta será um “estou apaixonado”, mas o cientista explicará todo o processo biológico que faz o seu coração bombear mais sangue. Nenhuma das respostas estará errada, pois, como já dito, são níveis de explicações diferentes.

Gênesis 1, por exemplo, é um relato marcado pela literalidade de uma observação científica ou jornalística ou ainda de um historiador moderno? A progressão, a simetria e a repetição dos verbos não parecem indicar tal postura. Gênesis 1 está mais próximo do gênero de louvor do Salmo 104 e dos capítulos finais de Jó, do que de Gênesis 3, por exemplo. Sim, no hebraico Gênesis 1 lembra muito pouco uma poesia, mas ainda que seja prosa a mesma é uma exaltação do Criador. Esse prólogo 1.1-2.3, como escreve Gordon J. Wenham, “é mais do que uma declaração teológica; é um hino de louvor ao Criador, por meio de quem e para quem todas as coisas existem” [3]. O teólogo Timothy Keller, por exemplo, também defende esse capítulo como uma expressão de louvor e conclui:

Gênesis 1 não ensina que Deus criou o mundo em seis dias de vinte e quatro horas. Claro, o texto não ensina evolução também, porque ele não aborda os processos reais pelo qual Deus criou a vida humana. No entanto, isso não exclui a possibilidade da terra ser extremamente velha. Chegamos a esta conclusão não porque queremos dar espaço para qualquer visão científica particular, mas porque estamos tentando ser fiéis ao texto, ouvindo cuidadosamente quanto possível para o significado do autor inspirado. [4]

Ou, “em vez de permitir Gênesis 1 e 2 conte sua própria história e execute sua própria operação pretendida, muitos intérpretes (liberais e conservadoras) tem vindo a narrativa com perguntas modernas que são estranhas ao texto”, como escreveu Michael Horton [5]. Que o texto seja lido naquilo que Moisés pretendeu explicar: o Deus criador.

É certo como as águas dos rios correm para o mar que o Gênesis não é um conjunto de mitos, ainda que contenha alguma estrutura mítica- mas como recurso apologético, especialmente nos primeiros capítulos. E se assim fosse seria muito pobre como literatura mítica, pois não há tantos elementos fantásticos como outros relatos de criação [6]. Basta comparar a história da criação hebreia com os mitos mesopotâmicos. Há mais singularidade no livro hebreu do que semelhanças com os mitos de sua época. No Enûma Eliš, o relato da criação babilônico, há uma disputa sangrenta de poder entre deuses familiares e coligados. Nessa história de elementos fantásticos o homem é visto apenas como um carregador dos fardos dos deuses. A terra e o céu, por exemplo, são formados a partir da divisão do corpo da deusa Tiamat- que é cortada em duas partes pelo poderoso deus Marduque em uma das inúmeras batalhas cósmicas. A trama e o drama de invejas e disputas de poder entre os deuses lembram mais a mitologia grega do que a narrativa de Gênesis. O relato hebreu é teológico e de louvor, mas é temerário afirmar que é estritamente histórico, no sentido moderno do termo, como alguns poucos fundamentalistas insistem em afirmar. É mais histórico-teológico com elementos poéticos, mas ao mesmo tempo chama atenção a ausência de uma narrativa fantástica do cosmo.
A identificação do gênero de Gênesis 1—11 é difícil por causa de sua singularidade. Nenhum desses relatos pertence ao gênero “mito”. Mas nenhum deles é “história” no sentido moderno de testemunho ocular, relato objetivo. Antes, transmitem verdades teológicas acerca de eventos retratados principalmente em estilo literário simbólico e pictórico. Isso não significa que Gênesis 1—11 contenha inverdades históricas. Tal conclusão só seria procedente se o material alegasse conter descrições objetivas. Conclui-se da discussão acima que tal não era seu intento. Por um outro lado é errada a ideia de que as verdades ensinadas nesses capítulos não têm base objetiva. Verdades fundamentais são declaradas: criação de tudo por obra de Deus, intervenção divina especial na origem do primeiro homem e da primeira mulher, a unidade da raça humana, a bondade prístina do mundo criado, inclusive da humanidade, a entrada do pecado pela desobediência do primeiro casal, a disseminação generalizada do pecado após esse ato inicial de desobediência. Essas verdades são todas baseadas em fatos [7, grifo meu]
A observação acima é clara: lidar com Gênesis é lidar com uma história factual, mas não relata o ato de Deus necessariamente, especialmente nos primeiros versículos e capítulos, com a precisão de uma filmagem jornalística. A categoria de história-teológica suporta alguns elementos de simbologia sem matar a essência do fato.

A Doutrina da Criação não permite uma crença cega na contingência, ou seja, não coloca a eventualidade como categoria de pensamento e análise para qualquer elo perdido das ciências ou da teologia. No texto Respostas dadas por Lewis a questões formuladas por empregados da Electric and Musical Industries Ltd., Heyes, Middlesex, Inglaterra, em 18 de abril de 1944 um leitor pergunta ao escritor irlandês: “Os materialistas e alguns astrônomos sugerem que o sistema solar e a vida como a conhecemos foram criados por uma colisão estelar acidental. Qual é a visão cristã dessa teoria?” E Lewis responde:

Se o sistema solar foi criado por uma colisão estelar acidental, então o aparecimento da vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do Homem foi um acidente também. Se é assim, então todos nossos pensamentos atuais são meros acidentes – o subproduto acidental de um movimento de átomos. E isso é verdade para os pensamentos dos materialistas e astrônomos, como para todos nós. Mas se os pensamentos deles – isto é, do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por que devemos considerá-los verdadeiros? Não vejo razão para acreditarmos que um acidente deva ser capaz de me proporcionar o entendimento sobre todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada pelo leite esparramado pelo chão, quando você deixa cair a jarra, pudesse explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.

C. S. Lewis não estava negando o Big Bang, pois ele era um evolucionista convicto, mas apenas a ideia filosófica que tal fenômeno seja fruto da mera contingência. Por que precisamos negar o papel de Deus, ainda que aparente descrição, nesses fenômenos primevos e gradativos? Por acaso a teologia bíblica ensina que Deus só age pelo extraordinário e incomum? Seria o cotidiano um espaço onde Deus simplesmente se ausenta? Quem assim pensa parece que jamais leu um livro como Ester, a rainha que salvou o povo judeu, que nunca cita o nome do Senhor, mas cuja ação e presença estão no enredo o tempo todo. O engraçado é que esse tipo de pensamento mágico sobre a ação de Deus une Ken Ham e Richard Dawkins.

Se essas questões servem para a cosmologia, o mesmo serve para a biologia. É incrível observar, mas a microevolução e macroevolução sempre convergem para a solução correta. Como a contingência pode agir aleatoriamente para pontos convergentes? Como escreveu Alister McGrath: “A história biológica mostra uma tendência acentuada de se repetir, como a vida demonstrando reiteradamente, uma habilidade quase misteriosa de encontrar seu caminho para a solução correta” [8].

O homem
A antropologia do Gênesis é negativa e mais uma vez serve de contraponto à crença mesopotâmica. Assim como os atuais modernistas, os babilônicos eram crentes do progresso. Eles exaltavam a própria civilização como o marco do avanço enquanto Gênesis os retrata como mais decadentes (6. 1-4). Não há nesse livro nenhuma tentativa de romantização da raça humana, mas há um realismo duro, difícil de digerir: “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” [Gênesis 6.5].

Ou seja, o homem é um ser criado, irrefletido, cuja índole de herói cai por terra quando Abraão expulsa a amante de casa com um filho bastardo ou quando os irmãos de José o vendem enquanto estavam possuídos e munidos pela inveja. No Gênesis, vale lembrar, a primeira família é marcada pela vitimização, ressentimento e até homicídio. Nenhum "Estatuto da Família" tomaria as famílias dos patriarcas como exemplos a serem seguidos. Portanto, o Livro de Gênesis mostra que, como diz Victor Hamilton, “se a salvação de Israel está na humanidade há desespero; se está em Deus, há esperança” [9].

Referências Bibliográficas e Notas:

[1] D. A. Carson, um grande nome da exegese conservadora, concorda que Gênesis é um conjunto de gêneros e não apenas história: “O relato de Gênesis é uma mistura de gêneros que nos dá realmente alguns detalhes históricos. Ao mesmo tempo, está cheio de simbolismo demonstrável. Selecionar o simbólico e o não simbólico é bastante difícil” [CARSON, Donald A. O Deus Presente. 1 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012. P 20.].

[2] Para uma breve exegese de Gênesis 1 veja: JONES, Landon. O Deus de Israel. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2015. pp 93-96.

[3] CARSON, D. A. (Ed). Comentário Bíblico Vida Nova. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 100.

[4] KELLER, Timothy. Creation, Evolution, and Christian Laypeople. The BioLogos Foundation. Grand Rapids. p 5. Disponível em: < https://biologos.org/uploads/projects/Keller_white_paper.pdf> Acesso em: 04/10/2015.

[5] HORTON, Michael. The Christian Faith: A Systematic Theology for Pilgrims on the Way. 1 ed. Grand Rapids: Zondervan, 2011. p 381.

[6] É complicado relatar Gênesis ou partes de Gênesis como mito já que não há nem consenso sobre o que vem a ser um mito. Leia qualquer definição desse termo e na maior parte das vezes você terá uma explicação diferente e até contraditória. De maneira geral, o mito é a história de um povo, normalmente com elementos religiosos e de magia, e que servem à tradição oral. Não só é a história do povo como é construída em conjunto por este mesmo povo e não apenas por um indivíduo. O mito responde ou tenta responder as grandes questões da vida e ao mesmo tempo serve como base para explicar o desconhecido e misterioso. Não é uma obra de ficção, pelo menos para quem a expressa. O mito sempre envolve o poder superior. Para uma definição simples de mito veja: SEARS, Kathleen. Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Mitologia. 1 ed. São Paulo: Editora Gente, 2015. O escritor C. S. Lewis observou que nem sempre a mesma história é encarada como mito por duas pessoas [veja: LEWIS, C. S. Um Experimento na Crítica Literária. 1 ed. São Paulo: EDUSP, 2009. pp 39- 46]. Ou seja, a experiência do leitor é importante nesse processo de comunicação através do mito. E aí vem uma pergunta básica: a leitura do judaísmo antigo sobre esses textos é antes de tudo narrativo ou é fantasioso? Lewis também observou que no mito não há empatia, ou seja, o leitor até se emociona com a história, mas concluiu que nunca faria parte dela. Ao ler o relato de Queda é possível fazê-lo sem empatia?

[7] LASOR, William S.; HUBBARD, David A. e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2002. p 22

[8] McGRATH, Alister. Surpreendido pelo Sentido. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2015. p 126.

[9] HAMILTON, Victor P. Manual do Pentateuco. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 23.


4 comentários:

Alcides Barbosa de Amorim disse...

Muito bom texto. Obrigado!

Rinaldo Brasil disse...

A Paz do Senhor, amém !!!
Bacana o texto, edifica ... e claro, precisamos também buscar outras fontes ...
Muito Sucesso pelo Espírito Santo ... desejo a todos do Blog aqui ...
Amém !!!
Está me ajudando muitoooo nos estudos ... e, espero poder um dia chegar ...
" Neste Estágio Espiritual " amém !!!

MARAVILHOSO RAPAZES =) Continuem ...

A Paz do Senhor, amém ...

JOÃO 3: 30 =)

Rinaldo Brasil disse...

A paz do Senhor, amém !!!
Olá pessoal, bem bacana este blog ... Maravilhoso !!!
E claro, além de todo este empenho , nós devemos nos mexer ... ( risos )
Buscando novas fontes de estudos ...
Agradeço de coração toda dedicação de vocês rapazes ... !!!
Valeu !!!

A Paz do Senhor, amém !!!

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