Pesquisar este blog

Carregando...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Ocidente resistirá ao islã? – Uma resenha teológica de “Submissão” (Michel Houellebecq) e “Herege” (Ayaan Hirsi Ali)

Por André Gomes Quirino

Nota prévia. Este texto começou a ser escrito em julho deste ano, e foi abandonado quando percebi que pouquíssimos leitores deste blog teriam lido os livros que são objetos do meu comentário: Submissão, de Michel Houellebecq, e Herege, de Ayaan Hirsi Ali. Já havíamos passado pelo atentado à redação do Charlie Hebdo, mas ainda não pela tragédia da França e os demais acontecimentos a que ela fez chamar atenção. O Ocidente ainda não havia declarado guerra ao ISIS. Agora já a declarou, e as duas leituras são mais do que nunca obrigatórias – com toda a força do termo que o clichê infelizmente faz minimizar. Que esta resenha dupla sirva, pelo menos, de incentivo a que se leiam as obras.

As atrocidades cometidas pelo ISIS, o autoproclamado Estado Islâmico, deixam atrás de si assombro sobre assombro. A dor pelas vítimas, o desprezo pelos que se deixam seduzir por uma ideologia sanguinolenta, o receio do que esse grupo terrorista ainda pode vir a fazer, tudo isso se mistura numa montanha de indignação cujos questionamentos são difíceis de discernir e cujas respostas são difíceis de aceitar. Não é bonito dizê-lo, mas a única reação justa aos atentados perpetrados pelo ISIS é destruí-lo. Não é agradável admiti-lo, mas a democracia liberal possui um ponto cego: a despeito da pluralidade que a define, há modos de vida que ela não pode aceitar dentro de si, e estes são precisamente os que pretendem arruiná-la, os que intentam eliminar a pluralidade de modos de vida e de opiniões. Houve quem sugerisse que se dialogasse com o Estado Islâmico, mas o diálogo pressupõe que os interlocutores compreendam uma mesma língua, ao passo que o cenário que se traça aqui é de duas linguagens incomunicáveis – a rigor, a linguagem de um lado (isto é, a civilização) e a violência bruta do outro (isto é, a barbárie).

            Mas dois fatos especialmente perturbadores complexificam a leitura que devemos fazer desta situação. Em primeiro lugar, dizemos que o Ocidente não é capaz de compreender a barbárie jihadista, mas cresce vertiginosamente a adesão e simpatia de ocidentais ao fundamentalismo islâmico. Uma pesquisa recente constatou que um a cada seis franceses apoia as ações do ISIS – uma popularidade tecnicamente empatada com a do presidente do país, François Hollande, que segundo o último levantamento conta com 18% de aprovação dos franceses. A mesma matéria da Newsweek que divulgou a pesquisa dá conta de que, entre os muçulmanos britânicos, a quantidade dos que emigraram para o Oriente Médio a fim de lutar pelo ISIS (cerca de 1500) ultrapassa o dobro dos que servem ao exército de seu país. Outra curiosidade macabra é o estilo de vida da francesa Hasna Aitboulahcen, prima do belga Abdelhamid Abaaoud, mentor dos ataques a Paris, a primeira mulher-bomba da Europa, que se explodiu em Saint-Denis durante a caça aos responsáveis pela carnificina de 13 de novembro. Como revelou um jornal belga, Hasna era uma muçulmana praticante há apenas um mês, e antes disso era baladeira, gostava de cigarros e bebidas alcoólicas e passava a maior parte do tempo acessando pelo smartphone o WhatsApp e o Facebook, onde publicava selfies como uma típica jovem ocidental. Ela nunca lera o Alcorão até um mês antes de seu suicídio, e muito provavelmente não teve tempo de lê-lo na íntegra antes que se explodisse. Ou seja: há, na adesão dos jovens do Ocidente às práticas do ISIS, um fator cultural que independe de motivação religiosa direta e a utiliza como mero pretexto. O que pode haver de suscetível à ideologia jihadista no modo de vida pós-moderno? Estou convencido de que o romance Submissão, de Michel Houellebecq, nos dá boas dicas de como responder a esta pergunta.

            O segundo fato especialmente perturbador é que, ao mesmo tempo em que muitos muçulmanos reagiam aos atentados do dia 13 postando fotos com a hashtag #NotInMyName (“#NãoEmMeuNome”, em tradução direta), outros vaiavam o minuto de silêncio que foi conclamado na abertura da partida de futebol entre Turquia e Grécia no dia 17 em memória das vítimas dos ataques a Paris, e repetiam o “grito de guerra” dos jihadistas: “Allahu akbar” (“Alá é grande”). Parece haver um senso de fraternidade que leva alguns muçulmanos, árabes ou não, a se “solidarizarem” com os jihadistas quando o Ocidente promove manifestações de repulsa aos atos fundamentalistas (ou, menos ainda, quando o Ocidente promove manifestações de tristeza pelas vítimas dos atos fundamentalistas). Haverá algum elemento inerente à fé – ou à prática – islâmica que permite a defesa da conduta terrorista? Por que nunca se vê um grande líder muçulmano defendendo uma reforma em sua religião? Creio – e Houellebecq parece também crer – que nenhuma cultura é arreligiosa, e é por isso que o fator cultural revelado pelo ponto anterior não prescinde de uma análise doutrinária. Como propõe Ayaan Hirsi Ali – uma ex-muçulmana, hoje agnóstica – em “Herege: por que o islã precisa de uma reforma imediata”, face à cultura jihadista “precisamos de mais do que uma simples contranarrativa. Precisamos de uma resposta teológica”.

            Se faço uma resenha conjunta dos livros de Houellebecq e Ali, é por acreditar que suas leituras se complementam. Sustento que o traço cultural do Ocidente hipermoderno (revelado pelo romance de Houellebecq) que faz com que o Islã lhe pareça atrativo é identificável com uma postura bastante precisa considerada pecado pela tradição cristã. E a contrapartida cultural dessa postura não será, obviamente, uma condenação rabugenta do seu caráter iníquo, mas, antes, será fomentada por uma resposta teológica (do tipo exigido pelo argumento de Ali) ao que no islamismo satisfaz as expectativas pós-cristãs – a qual consistirá, contudo, não num pedido de reforma da fé muçulmana (ainda que este seja um pedido oportuno), mas na reafirmação de uma doutrina distintiva do cristianismo (o que está mais prontamente ao nosso alcance).  Embora esta sugestão possa ofender certos pudores politicamente corretos – aqueles que fazem alguns definirem a diferença entre o fundamentalismo evangélico e o fundamentalismo islâmico como mera “questão de grau” –, a agudeza da visão de um grande romancista e a força do relato de uma árabe ex-muçulmana levam-nos a crer que ela não deve ser desprezada.

A história do prostrar-se de uma dura cerviz

As histórias narradas em primeira pessoa, pelo protagonista, transportam-nos, como todas as histórias, para cada cenário em que os acontecimentos se dão, é evidente, mas constituem um tipo especial de viagem porque nos transportam em primeiro lugar para a mente do narrador, como que fazendo-nos enxergar tudo através de seus olhos, treinando-nos a pensar como ele pensa. Ao fim de histórias que são assim conduzidas, se bem conduzidas, podemos ter a sensação de afinidade – quando compreendemos o personagem e compartilhamos seu sentimento – ou de revolta, divergência – quando, mesmo na posição de quem olha a história de dentro da alma do narrador, incomodamo-nos com essa hospedaria, sentimo-nos estranhos nela, não compreendemos as opiniões e expectativas que o narrador expressa. As grandes obras, a menos que mal lidas, causam-nos invariavelmente a primeira sensação, porque se caracterizam exatamente por escancarar tipos humanos que são todos encontrados na vida real, e um leitor razoável saberá reconhecer naquele personagem, senão precisamente a si mesmo, ao menos um caráter cujos impulsos fazem-se perceber na própria alma – reconhecerá, enfim, alguém que ele próprio poderia muito bem ser. É por isso que a literatura é a forma artística que mais se aproxima da atividade profética: os grandes autores recortam eventos, cenários, falas, expressões, com tal encadeamento e estilo que trazem para diante de nossos olhos o significado profundo – seja ele sublime ou aterrorizante – do nosso próprio caráter, do nosso cotidiano em sua mediocridade, das nossas esperanças e opiniões. Qualquer leitor atento da Bíblia sabe que a profecia é, antes de tudo, a descrição nua e crua do momento presente, uma narrativa do ponto de vista da eternidade do que se passa hoje, e é por isso que ela é atemporal. É também por isso que, para se fazer entender, ela precisa ser enunciada no tempo futuro, uma vez que, visão superficial a que temos, incapazes que somos de reagir à decadência presente, só podemos ser despertados da letargia pelo vislumbre de um futuro desconfortante, de um futuro que ameace a tranquilidade que julgamos hoje desfrutar.
Com o papel central que a política ganhou na vida humana desde o advento da modernidade, e a culminação perversa desse estatuto nas ideologias com ambições de totalidade, a literatura viu surgir no século XX um gênero peculiar, que assume como sua função principal a profecia de alerta de que falávamos acima: falo do gênero da distopia. O último romance de Houellebecq não demorou a ser comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e não sem razão. O livro disseca o tempo presente apontando para um futuro próximo hipotético que, na medida mesma em que nos parece verossímil, deve causar preocupação. Mas há uma peculiaridade na história de Submissão que o distingue das distopias clássicas: o cenário repulsivo que ele retrata não é, em primeiro lugar, o país em que a história se desenvolve, mas a própria alma do narrador. Ele, que se parece tanto com o leitor, não é um herói que tenta vencer o autoritarismo do ambiente político, mas é, por sua própria indiferença, uma alma que se submete. Como coloca Mark Lilla em sua resenha “Slouching toward Mecca” (“Andando em direção a Meca”, em tradução direta), em The New York Review of Books, Houellebecq criou um novo gênero: a narrativa de conversão distópica (“dystopian conversion tale”).

A história de Submissão é narrada por François, um professor universitário desiludido e solitário. É através de seus olhos que vemos a trama se desenvolver, e uma pequena medida de sinceridade é suficiente para que reconheçamos nele o ocidental – ou, pelo menos, o europeu – contemporâneo médio, o estereótipo mais adequado do homem hipermoderno (notem que “François” está muito próximo da palavra francesa para “francês”: “Français”). Esta figura é, mais ou menos, a do sujeito que se julga esclarecido e pertencente a uma era que vive a convalescença de quem vem de culminar a História, que pensa estar a par das explicações para as coisas mais importantes – o comportamento humano e o funcionamento do mundo – e, nesta condição, descobriu que não há (nunca houve) mistérios tão grandes assim – que a vida não é lá grande coisa. A crença no progresso levou-o à indiferença e a crença na autonomia levou-o ao egocentrismo. O ocidental pós-cristão habituou-se às soluções fáceis, às respostas imediatas, a tal ponto que nada lhe é mais custoso – nem lhe parece menos proveitoso – do que criar, cultivar relações, se aplicar ao trabalho de compreender um outro. Ele conheceu a origem da espécie humana com Darwin, o princípio regulador das mutações históricas com Marx, o funcionamento da psique humana com Freud e, tal como o perito numa máquina, interage com os outros homens não pela via do trabalho árduo, da amizade, mas pela via do macete: “É muito difícil compreender os outros, saber o que se esconde no fundo de seus corações, e sem a presença do álcool talvez fosse totalmente impossível”.

Álcool, não todo o trabalho de conquistar a confiança de uma pessoa sóbria. Conquistar a confiança talvez não valha o esforço, já que todos querem apenas satisfazer o próprio ego, e ser sociável reduz-se a auxiliá-los nisso: “Podemos deixar as pessoas falarem bastante tempo, elas estão sempre interessadas no próprio discurso, mas, ainda assim, de vez em quando convém interferir, um mínimo que seja”. Relacionar-se é calcular, é participar desse jogo de autossatisfações. O homem é cada vez mais dependente dos prazeres sensíveis, utiliza-os como refúgio da própria vida, uma vez considerado que esta permanece, em seu todo, desconexa e entediante, tendo como único fio condutor um miserável ego evanescente. O momento em que o materialista François diz ter a impressão de ser eterno é durante um coito. Ele já não sabe se seu órgão sexual está a seu serviço ou se ele, ao contrário, está a serviço daquele – e, se este for o caso, eis o que se poderia chamar um jugo suave: “nunca me dava ordens, às vezes me incitava, humildemente, sem acrimônia e sem raiva, a participar mais da vida social”.

A vida do hipermoderno escapa o mínimo imaginável ao âmbito do seu ego e por isso consiste numa constante contemplação do tédio. Sua desgraça, enquanto homem evoluído, é autoinfligida, e tanto mais é deprimente quanto mais se evidencia como sendo o custo do progresso. O que deveria servir ao homem acaba sendo aquilo em função do que a sua vida se desenvolve: os “dois interlocutores essenciais”, “que estruturam a vida de um homem”, são o seguro de saúde e as repartições fiscais. O presente é tédio, nele a felicidade não é possível – ela sempre nos escapa, e por isso a esperança, ainda que sabidamente vã, e a saudade, ainda que sabidamente injustificada, são os últimos refúgios (absolutamente vulneráveis) do sentimento.

A nostalgia nada tem de sentimento estético, tampouco está ligada à lembrança de uma felicidade, somos nostálgicos de um lugar simplesmente porque ali vivemos, bem ou mal, pouco importa, o passado é sempre bonito, e o futuro também, aliás, só o presente é que faz mal, é que transportamos conosco como um abscesso de sofrimento que nos acompanha entre dois infinitos de felicidade serena.
            
François é um caso claro de um sujeito tomado pelo pecado a que a tradição cristã chama acídia: trata-se da tristeza espiritual, a recusa aos bens do espírito, a falta de curiosidade pelo real, a preguiça de reagir ao que lhe acontece, a covardia de enfrentar o significado das coisas, a timidez de confrontar-se com um fato concreto – o que tem como virtude oposta a fortaleza, que é ao mesmo tempo ânimo, coragem, intrepidez, firmeza de espírito, curiosidade pelo real. Há um motivo evidente para a acídia ser um pecado, e este é que, por mais convincente e atrativo que o cristianismo possa ser, como todo cristão julga que é, ele nada tem a dizer a quem segue indiferente à realidade, a quem tem preguiça de pensar a sério sobre o mundo, a quem tem medo, como dizia Chesterton, de quatro pequenas palavras: “Ele se fez carne” – a quem, em suma, é covarde para atentar ao que as coisas significam. No plano intelectual, há um único pré-requisito totalmente dependente do homem para que o cristianismo lhe pareça plausível: que ele tenha atenção, uma curiosidade mínima pelo que lhe acontece, naquele nível imediatamente superior ao que define a letargia. Mas a hipermodernidade treina-nos a vivermos no estado de acídia.

A vida social, a existência de François para fora de si mesmo, é uma procura por curativos para o abscesso que ele julga ser o tempo presente, e portanto ela se dá como uma relação entre objetos, um conflito entre desejos. O momento em que ele chega mais próximo de sentir compaixão por alguém é quando atenta para a flacidez do corpo de uma mulher e constata: “ela já não podia, nunca mais poderia ser considerada um objeto de desejo” – esta é a própria declaração de óbito social hipermoderna. A linguagem dos corpos é a linguagem prototípica. É ao lembrar-se do movimento de sua interlocutora feminina, que numa conversa esperava por uma resposta afastando ligeiramente as coxas, que François pôde ter a garantia: “estávamos no real”. Também quando tinha decepções, quando se esgarçava dividindo seu tempo entre os encontros pagos agendados pela internet e os aborrecimentos burocráticos, era no corpo que sentia a ausência de prazer, era ele que “permanecia uma fonte plausível de sofrimentos”, e sem desespero nem tristeza François se percebia caminhando para o suicídio, citando um anatomista para descrever a “lenta degradação da ‘soma total das funções que resistem à morte’” que se passava nele. E, assim como o movimento de duas pernas é garantia de se estar no real e a aproximação ao suicídio é definível em termos anatômicos, o amor, alvo de tanta admiração, é, para o homem, nada mais que o desdobramento de uma causa material, uma reação física (no máximo, talvez, bioquímica), “o reconhecimento pelo prazer dado”. É por isso – por seu caráter egoísta, não por algum aspecto de abnegação – que o amor é o ápice da vida social. François, em momento de especial abatimento, percebe a semelhança que há entre ele próprio e todos os demais humanos, mas exatamente essa semelhança é o que o espanta, o que o repele para longe dos demais homens – “eu precisaria de uma mulher, essa era a solução clássica, já testada. Uma mulher é sem dúvida humana, mas representa um tipo ligeiramente diferente de humanidade, pois traz à vida certo perfume de exotismo”. Em resumo: é na diferença entre o masculino e o feminino que se apoia a vida social de François, que se traduz na procura por momentos de soberania, momentos em que pode subjugar uma mulher.
            
Como acadêmico, a especialidade de François é o escritor Joris-Karl Huysmans, a princípio um naturalista associado a Émile Zola, mas ao fim da vida convertido ao catolicismo e tornado um defensor da arte cristã. Repetidamente François sugere, sua vida orbita a biografia e a obra de Huysmans. É delas que surgem seus – rápidos, cínicos, mas pertinentes – questionamentos existenciais:

A totalidade dos animais, a esmagadora maioria dos homens vive sem jamais sentir a menor necessidade de justificação. Vivem porque vivem, e mais nada, é assim que raciocinam; depois, suponho que morrem porque morrem, e que isso, a seu ver, conclui a análise. Pelo menos como especialista de Huysmans, eu me sentia obrigado a me sair um pouquinho melhor.
            
Mas o exemplo do escritor convertido não foi suficiente para despertar François da acídia. Modesto em suas expectativas, a felicidade parecia-lhe uma utopia de mau tom: ele não descartava o luto, a doença, o sofrimento, esperava apenas que pudesse deixar este mundo “sem violência exagerada”. E, quando a ascensão de um muçulmano à presidência desperta o medo em alguns e gera a perspectiva de mudanças drásticas na vida de todos, François, que cria um casal ter de ser um mundo fechado e autônomo que não fosse atingido pelo mundo mais vasto no meio do qual se desloca, reafirma o seu desconforto e certa repugnância com o fato de a história política ter um papel em sua própria vida – mas também ratifica o que já suspeitava, que “a distância crescente, agora abissal, entre a população e os que falavam em seu nome, políticos e jornalistas, devia necessariamente levar a algo caótico, violento e imprevisível”.
            
Myriam, uma das muitas alunas com quem se relacionou sexualmente, mas aquela com quem por mais tempo manteve contato, era filha de judeus, e estava de mudança para Israel com os pais. Ao se despedirem, ela perguntou o que ele pretendia fazer, o que esperava que acontecesse na faculdade, ao que ele respondeu, depois de um beijo: “Para mim não há Israel”. Como ele mesmo descreve: “Um pensamento bem pobre; mas um pensamento exato”. Um pensamento exato, porque, para François, não há um território que sirva de refúgio, não há um solo sagrado, nem uma terra prometida: assim como ele não se sente devedor para com a terra de seus pais, ele não espera que território algum pertença por direito ao seu povo ou a seu clã. Em conversa anterior com a mesma Myriam, que o considerava machista e o inquiria sobre o que achava do patriarcado, ele expusera sua posição – “Eu não sou a favor de nada” –, mas demonstrara ter consciência de estar num sistema social que sequer tem o mérito de existir, que é incapaz de se autorreproduzir e funcionar, ao qual faltam famílias com filhos e que, assim, não “persevera no próprio ser”. A atitude indiferente de François apenas reflete a condição da sociedade em que vive: não se pode reagir ao nada.
            
Momentos antes da despedida, François se lembrava de uma visita que fizera à casa da família de Myriam, e de como, no instante em que seu pai abria uma garrafa de vinho, ele se deu conta de que, aos plenos vinte anos, Myriam ainda jantava todas as noites com os pais, ajudava o irmãozinho nas lições de casa, saía com a irmãzinha para passear: ele estava diante de uma tribo, de uma família unida, o que, de tão inacreditável, por pouco não o fez chorar. Sua sensibilidade em muito se assemelhava à de Huysmans, seu grande companheiro. O escritor dava grande importância aos temas do sexo e da morte, mas – como sustentaria François em seu prefácio às obras completas de Huysmans – o que de fato o impressionara na crucificação de Grünewald foram, muito menos do que a agonia do Cristo, os sofrimentos físicos, dos quais, como todos os homens, Huysmans desejava ardentemente escapar, mais do que da morte.

O único verdadeiro tema de Huysmans foi a felicidade burguesa, uma felicidade burguesa dolorosamente inacessível ao solteiro (...). O que de fato representava a felicidade, a seu ver, era uma alegre refeição entre artistas e entre amigos, um pot-au-feu com molho de raiz-forte, acompanhado por um vinho “honesto”, e depois de uma aguardente de ameixa e um fumo, ao pé do fogareiro, enquanto as rajadas do vento invernal batem nas torres de Saint-Sulpice.
            
Huysmans ainda pôde testemunhar, no século XIX, um sistema que de fato existia, ao qual havia o que responder e a resposta eram família e filhos, no qual havia espaço para os sonhos burgueses, porque valia a pena lutar por tranquilidade, porque trazer filhos à existência era trazê-los a algo, e não jogá-los no nada. Na arte cristã, estava expresso de modo arrebatador esse significado que habitava as coisas, essa batalha espiritual em que, no nível mais profundo, a vida consistia. Assim Huysmans pôde nutrir uma “dileção estética e quase carnal” pela liturgia católica.
            
O que François não encontrava no escritor do século XIX, em contrapartida, eram questionamentos “metafísicos” (ou pelo menos que arrogassem para si esse nome), os quais, já acompanhados de sugestões de respostas, foram-lhe apresentados por Robert Rediger, o reitor da universidade islâmica Sorbonne e futuro ministro da educação do novo presidente francês, Ben Abbes. Rediger era autor de uma tese chamada “René Guenon, leitor de Nietzsche”. Guenon foi um esotérico e metafísico francês, notável crítico da modernidade e proponente do chamado perenialismo, expresso na máxima da unidade transcendental das religiões, que, depois de se mudar para o Egito, adotou o islamismo sufista como sua religião pessoal. Rediger expôs a François sua própria conversão ao islamismo como uma fascinação pela “ideia assombrosa e simples” da submissão, tal como expressa no romance erótico A história do olho, de Dominique Aury: do mesmo modo como a mulher se submete absolutamente ao homem, o homem deve se submeter a Deus – deve louvar ao Criador e seguir as suas leis. Isso inclui aceitar integralmente o mundo como ele é, em vez de considerá-lo dukkha (inadequação, sofrimento) como os budistas ou “reino de Satanás” como os cristãos. O propósito do Alcorão é expressar o mundo, com os seus ritmos, rimas, refrões, assonâncias, a união da sonoridade com o sentido enfim. Aceitar o mundo como ele é implica também reconhecer os desígnios do Criador para os seres vivos como sendo expressos pela seleção natural. O que acontece só pode ter sido da vontade de Alá. A seleção natural encaminha os homens para o máximo de beleza, vitalidade e força, e é por isso que a um único homem cabe casar-se com mais de uma mulher. Por outro lado, os homens são “rigorosamente ineducáveis”, tendem todos a fazer as mesmas escolhas, e por isso a aptidão da nossa espécie à evolução se deve também à “plasticidade intelectual” das mulheres, que como esposas se submetem ao homem que as escolhe, quem quer que ele seja, e como casamenteiras ainda podem orientar outros homens na escolha de suas mulheres.
            
François já notara, as mulheres muçulmanas bonitas o suficiente para serem escolhidas por um homem rico jamais precisariam deixar de ser crianças. Mal saíam da infância, elas trocavam os jogos infantis por lingeries sexy, que não deixavam de ser um tipo de jogo; logo tornavam-se mães e, assim, ainda viam-se envolvidas pelo universo infantil. Quando foi a uma cerimônia na universidade islâmica Sorbonne, François notou a dificuldade de manter uma vida social sem mulheres, composta apenas por vinhos e homens. Mas para quê contar com mulheres na vida social, se elas estão inteiramente disponíveis, como crianças, em casa? Esse era o arranjo social demandado pelo islamismo, aliás foi para refundamentar o casamento por interesse que o presidente Ben Abbes aplicou a política econômica distributista, dos católicos Chesterton e Belloc, quando ascendeu ao governo. A recompensa, François também já notara, era ilustrativa da diferença entre o Ocidente e a civilização islâmica, e contava em favor desta:

Vestindo durante o dia impenetráveis burcas pretas, as ricas sauditas se transformavam à noite em aves-do-paraíso, ornamentavam-se com espartilhos, sutiãs rendados, fios dentais enfeitados de rendas coloridas e pedrarias; exatamente o inverso das ocidentais, classudas e sexy durante o dia porque seu estatuto social estava em jogo, e à noite desabando, ao voltarem para casa, abdicando exaustas de qualquer perspectiva de sedução, vestindo roupas descontraídas e disformes.

Eis a derrocada da civilização ocidental. Por um lado, seu ideal de igualdade colocou homens e mulheres para disputarem, sob as mesmas condições, lugares no mercado – de trabalho, de imagens, de relacionamentos. Por outro lado, o progresso da técnica, o império da eficiência, criou a cultura do efêmero, na qual as coisas desejadas devem estar sempre à disposição e, se alguém quiser permanecer vivo no jogo dos relacionamentos, não deve se negar a ser um objeto de desejo. Tudo que o homem pretende, tudo que pode pretender, é escapar minimamente do tédio que o assola. Ser fiel a uma única mulher não é uma opção, neste caso, tampouco as mulheres cogitam ser fiéis a um único homem, e as muitas mulheres com quem o homem ocidental divide espaço no cotidiano de trabalho estão totalmente ocupadas em serem admiráveis publicamente, elas não podem estar à disposição do desejo dos homens, não lhes sobra tempo nem vontade para serem objetos de desejo no ambiente íntimo. São todos, embora extremamente ocupados, escravos da preguiça espiritual que é a acídia: não têm disposição para cultivar relacionamentos. 
      
Rediger fora na juventude um leitor de Arnold J. Toynbee, e foi marcadamente influenciado por sua ideia de que as civilizações não são assassinadas, mas se suicidam. Era um mistério, simplesmente a vontade de Deus, que a grande civilização do cristianismo medieval tivesse se diluído no racionalismo moderno e perdido o poder temporal; mas Rediger é capaz de apontar os pontos em que o cristianismo errou, e eles se resumem a isto: “Jesus amara demais os homens, este era o problema; deixar-se crucificar por eles demonstrava, no mínimo, uma falta de gosto”, como diria Nietzsche. Quando visitou o mosteiro católico em que Huysmans se refugiara após se converter, François pôde ver na atitude serena dos monges um “ofício de espera, de esperança última sem razão de esperar”. Enquanto ouvia seu cântico de louvor matinal, em vozes doces, humildes, ansiosas, François refletia:

O senhor Jesus devia voltar, e logo voltaria, e o calor de sua presença já enchia de alegria suas almas, este era no fundo o único tema daqueles cantos, cantos de espera orgânica e suave. Nietzsche enxergara muito bem, com seu faro de puta velha, que o cristianismo era no fundo uma religião feminina.
            
De fato, a atitude do cristão assemelha-se à da mulher, não a mulher hipermoderna embaraçada com preocupações mundanas, nem o tipo de mulher islâmica que divide o leito do seu marido com outras tantas concubinas, mas a mulher dos sonhos burgueses, que espera fielmente o seu marido retornar à casa, sabendo que também ele lhe permaneceu fiel enquanto esteve distante – ou, para ficar nos Evangelhos, uma das cinco virgens prudentes da parábola de Jesus. Não por acaso, Cristo foi auxiliado em seu ministério por muitas mulheres. Fazer de um semelhante homem Deus é fazer do corpo dos seus fiéis uma grande noiva, e “pior ainda”, dignificar a espécie humana fazendo-a ter um representante no céu. A importância conferida pelo cristianismo às mulheres é só o efeito colateral de um equívoco anterior: que Deus intervenha na História pessoalmente, em carne e osso. Dizia Rediger:

O fundador do cristianismo se divertira na companhia das mulheres, e isso se sentia (...). “Se o islã despreza o cristianismo”, citava ele, retomando o autor de O anticristo, “há mil razões para isso; o islã tem homens como condição primeira...”. A ideia da divindade de Cristo, continuava Rediger, era o erro fundamental que levava inelutavelmente ao humanismo e aos “direitos humanos”. Isso também Nietzsche já dissera, e em termos mais duros, assim como, sem dúvida, ele teria aderido à ideia de que o islã tinha como missão purificar o mundo livrando-o da doutrina deletéria da encarnação.
            
Se a primeira reação de François, após seu diálogo metafísico com Rediger, fora sentir medo por se perceber cogitando seriamente a ideia de um Criador onisciente, mesmo sendo alguém tomado pela acídia, indiferente a tudo que lhe acontece, havia algo que nada lhe custaria e que, no entanto, asseguraria sua posição como a de um componente da condição primeira, que garantiria incontáveis mulheres à disposição de sua escolha e o permitiria superar a feminilidade característica do cristianismo: bastava-lhe que se submetesse. E, sem nenhum êxtase, grande alegria ou crise de consciência, foi isso o que ele fez. François estava pronto para apreciar os deleites prometidos aos fiéis islâmicos. Tudo que ele queria, a partir de agora, era ter uma segunda vida sem grandes vínculos com a anterior.

O testemunho de uma apóstata que se converteu à heresia
            
O primeiro best-seller de Ayaan Hirsi Ali foi o livro Infiel, em que assume a posição de uma apóstata do islã. Em Herege, embora a autora permaneça sendo uma agnóstica, ela assume uma posição ligeiramente distinta: agora o que ela faz é dirigir um apelo à própria comunidade muçulmana para que esta considere a possibilidade de uma reforma em sua religião. Ali elenca cinco pontos doutrinários do islamismo que servem de pretexto ao fundamentalismo jihadista e que por isso merecem reconsideração – a reverência incondicional ao Corão e a Maomé, o enfoque na vida após a morte, a rigidez do código religioso sharia, o imperativo aos fiéis de ordenarem o certo e proibirem o errado e a convocação para uma “guerra santa”. Quando relembra, porém, seu processo de afastamento do islã, o que Ali destaca é o espírito inquisidor que manifestava desde a infância, o qual a fizera questionar: “Por que me tratam de modo tão diferente do meu irmão? Por que não sou menino?” (Herege, p. 48). Eis o que de mais relevante temos a assinalar no relato de Ali, depois de termos nos detido na história da conversão de um ocidental cuja vida interior era puro tédio e cuja vida social se baseava na diferença entre o masculino e o feminino. Essa disposição, ilustrativa da acídia hipermoderna, é de fato propícia ao islamismo. E o que o relato de Ali nos ajudará a ver é que, nas várias instâncias da fé e prática islâmicas, o que responde àquela disposição, o acirramento da diferença entre masculino e feminino, é também, em parte, o que fomenta o espírito jihadista.
            
No Alcorão, a submissão das mulheres aos homens, o princípio da custódia, está instituído em passagens como o versículo 34 da 4ª surata, que, após determinar que os homens são protetores das mulheres, orienta: “Quanto àquelas de quem constatais rebeldia, admoestai-as (na primeira vez), abandonai os seus leitos (na segunda vez) e castigai-as (na terceira vez)”. Também na sharia, diz-nos Ali, “a desigualdade entre os sexos é central” (p. 149). Um pregador muçulmano que ela conheceu na adolescência, Boqol Sawm, dizia que “as mulheres tinham de estar disponíveis para os homens a qualquer momento, ‘até na sela de um camelo’, exceto nos dias do mês em que ficavam impuras” (p. 45). No limite, é para satisfazer os homens que as mulheres existem. Grande parte do prazer do paraíso prometido aos fiéis está no desfrute das mulheres que lá estarão à sua disposição. A promessa aos fiéis é que no paraíso haverá as “de olhares recatados que, antes deles, jamais foram tocadas por homem ou gênio” (55ª surata, versículo 56). Al-Ghazzali descreve em um hadith: “em cada leito [que haverá no paraíso], [estará] uma jovem de meigos olhos negros (...). Haverá sete jovens em cada aposento (...). A cada fiel será dado tal vigor pela manhã que ele poderá coabitar com todas elas”. Essas são moças que “não dormem, não engravidam, não menstruam, não cospem, não assoam o nariz e nunca adoecem”. Mesmo as atuais mulheres de um fiel só terão as características físicas que ele realmente deseja no paraíso (pp. 117-8).
            
A um shahid (“mártir” por Alá), tais recompensas são ainda realçadas, com a promessa de que ele seja imediatamente perdoado, ascenda diretamente ao sétimo paraíso e despose 72 virgens de olhos negros, como explica num vídeo o professor da Universidade Islâmica e porta-voz do Hamas em Gaza Ismail Radwan. Em junho de 2001, um suicida que explodiu uma discoteca em Tel Aviv, matando 23 adolescentes israelenses, deixou escrito num bilhete: “Transformarei meu corpo em bombas que caçarão e explodirão os filhos de Sião e enterrarão seus restos. (...) Grita de alegria, ó mãe! Distribuí doces, ó pai e irmãos! Um casamento com as de olhos negros aguarda vosso filho no paraíso” (p. 125). De fato, muitas mães, e mesmo esposas, de suicidas muçulmanos se alegram com essa esperança. Uma britânica que, após converter-se ao islã, passou a se identificar como Umm Layth, e cujo marido tinha pretensões de mártir, tuitou em 2014: “Allahu akbar, não há palavras que descrevam o sentimento de me sentar com as akhawat [irmãs] à espera da notícia de qual dos nossos maridos alcançou a shahada”. Mariam Farhat, também conhecida como Umm Nidal, uma palestina que incentivou três de seus filhos a se suicidarem em ataques contra Israel, expressa seus sentimentos: “[Meu filho] será o intercessor no Dia da Ressurreição. O que mais eu poderia querer?”. O suicídio de alguns homens-bomba é referido por suas mães como uma partida para um casamento. Como coloca Ali, “não se trata de uma estranha e inexplicável falta de amor materno, como alguns ocidentais podem preferir acreditar. É parte de uma ideologia alternativa” (p. 123).
            
Não há como não notar o contraste dessa ideologia com a visão judaica, para a qual as mulheres são agentes de salvação. Em Jeremias 31.9, o profeta evoca Raquel para estar em par com Deus, o Pai de Israel, a fim de consolar o povo. As mães são responsáveis, a partir das suas experiências de parto, por dar nome a seus filhos – o que, para um judeu, é nada menos do que definir a essência da pessoa que nasceu. Em Gênesis 25.23, Rebeca porta a revelação de Deus: só a ela aprouve a Deus revelar que Esaú, o filho mais velho, serviria a Jacó, o filho mais novo. Em Levítico 19.3 e Provérbios 6.23, a reverência e obediência à mãe são consideradas ainda mais importantes do que ao pai. No Talmud e no midrash, a própria presença de Deus chega a ser representada como feminina. Tudo isso é possível porque, embora no mito do Éden a criação do homem seja relatada em primeiro lugar, mostra-se que a mulher é criada a partir do lado do homem, e está em equivalência com ele: ela é varoa, assim como ele é varão. O propósito de ela existir não é meramente que o homem seja satisfeito, mas que ele seja completado, e a união em que isso se dá é única e sagrada ao ponto de ser referida como um “colar-se”, da mesma intensidade com que se descreve a união íntima entre o homem e Deus. Os vários narradores dos livros bíblicos reiteram essa complementaridade (e não em primeiro lugar diferença) entre o masculino e o feminino, ao passo que a voz única do Alcorão, canalizada pelo recitador, reafirma sempre os homens como condição primeira.
            
Alá e Maomé sequer podem ser representados. Em vez de suas imagens, as mesquitas adornam-se com grafismos geométricos e, no máximo, imagens da natureza. O que se tem é um “Alá abstrato” (p. 98), ao qual se deve obedecer cegamente, sendo esta a melhor evidência do próprio islã, como dizia o imame medieval Muhammad ibn Muhammad al-Ghazali (p. 110). Essa atitude submissa que define o islamismo faz dele, mais do que uma religião, “o gabarito de uma ordem social”, na expressão de Ernest Gellner (p. 86). Quando se apresenta como um gabarito alternativo, como aconteceu durante as Cruzadas, o cristianismo se assemelha ao islã mais do que nunca (p. 116) – também segundo Claude Lévi-Strauss, em Tristes trópicos, com as Cruzadas o Ocidente foi islamizado. Eis por que a resposta teológica cristã será relevante não como pretendente a rival de coisa alguma, mas na medida em que tiver a força de alterar o traço cultural hipermoderno que torna o islamismo (ou pelo menos certa interpretação dele) atraente ao homem ocidental. Espera-se dessa resposta que ela fuja a um Deus abstrato, que ela reitere a relação de complementaridade entre o homem e a mulher (disse a pequena estudante paquistanesa Malala Yousafzai, laureada com o Nobel da Paz, em discurso na ONU: “Os extremistas [...] temem as mulheres. O poder da voz das mulheres os assusta”), que ela possa inspirar os árabes a amarem seus filhos mais do que odeiam os judeus (única condição para a paz entre os dois povos, como disse uma das fundadoras do moderno Estado de Israel, Goilda Meir) e, é claro, que ela vença a acídia.

A fé na Trindade: a resposta teológica cristã
            
A resposta teológica cristã, que precisa ser recuperada e assimilada, é o próprio elemento doutrinário distintivo do cristianismo: a fé na Santíssima Trindade. Crer na Trindade é crer que Deus é, não só uma Unidade perfeita, mas também uma Comunidade harmoniosa. Isso é o que apura a nossa visão de Deus: os homens viram a Cristo, viram o Pai falar-Lhe e o Espírito Santo descer-Lhe; uma das Pessoas divinas assumiu a forma humana, e quem o vê vê o Deus triúno. Sabemos quem são as Pessoas de Deus, e por isso sabemos com alguma clareza quais são os Seus atributos e as Suas atividades – em verdade, foi o conhecimento da Trindade o que permitiu a representação de Deus na arte cristã, pois, da proibição veterotestamentária de se fazer imagens que O retratassem, passou-se à representação do Filho que se fez homem, do Espírito Santo que Lhe desceu como pomba, da própria Trindade cuja realidade agora não está mais oculta.

É na Trindade também que se fundamenta a complementaridade entre o homem e a mulher, pois, assim como nela estão o Amante, o Amado e o Amor (segundo a classificação de Agostinho), uma relação conjugal é capaz de produzir como frutos os filhos, que testificam a reciprocidade da atitude dos pais. É uma imagem da triunidade divina não apenas o amor conjugal, mas toda e qualquer relação humana, que deve refletir a harmonia da Comunidade eterna.

A Trindade é o que fundamenta ao mesmo tempo a Encarnação, o humanismo e a fortaleza que se contrapõe à acídia. Nela está o conselho eterno de que o Filho se faria humano, portanto a decisão magnânima de que haveria na Trindade um semelhante aos homens, e esse acordo imemorial compõe o drama que só existe porque há a Trindade: é porque o Pai desejou presentear o Filho que há o mundo, é como resultado da relação eterna de amor que há na Trindade que a ideia do Pai, a Palavra do Filho e a virtude do Espírito fizeram vir à luz tudo o que existe. Tudo que há poderia não ser, mas é unicamente porque Deus é uma Triunidade: é porque participam da história eterna da Trindade que as coisas têm significado, é porque com o mundo o Pai presenteou o Filho que ele merece atenção e é porque somos parte desse drama que nos cabe agir, produzir, trabalhar, cultivar relações.

Eis uma absurdidade, ao largo da qual não se pode passar: a Trindade, embora renegada pelo cristianismo secularizado como um arcaísmo desprezível, exige uma resposta. É porque o Espírito de Deus testifica ao espírito do homem tudo o que disse Jesus que se pode esperar em Cristo por aquelas moradas que são preparadas na casa do Pai. E a própria esperança do homem não deverá estar em virgens de olhos negros, mas em um dia participar da Comunidade una, perfeita e eterna que tudo criou. Esta doutrina tem o poder de reformular toda uma cultura. Quem estiver pronto a respondê-la já terá superado a acídia que faz do ocidental hipermoderno alguém vulnerável às promessas de satisfação carnal que podem fundamentar uma religião desde a sua prática mais insípida até a leitura fundamentalista de seu texto sagrado.

Referências

Alcorão Sagrado, trad. Samir el Hayek. São Paulo: Folha, 2010.

ALI, Ayaan Hirsi. Herege: por que o islã precisa de uma reforma imediata. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

HOUELLEBECQ, Michel. Submissão. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015.

Um comentário:

Nando Jesus disse...

Excelente, Gutierres! Poucos analisam o Islã com essa profundidade. Acrescentou muito aos meus estudos. E lerei os livros.