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sábado, 2 de janeiro de 2016

A gradação da imaturidade

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há três posturas que sinalizam imaturidade na vida do cristão. Inúmeras vezes essas fases são apresentadas em gradação, ou seja, o sujeito começa crédulo, passa à militância contrária ao que acreditava piamente e depois, num estágio final, ele corre ao profundo do cinismo. É gradativa não somente na ordem, mas na “qualidade” também. O militante tende a achar que é mais “maduro” que o crédulo, mas esse apenas evolui dentro do mesmo universo de infantilidade- apesar da postura oposta. Agora, dentro dessa escala macabra, talvez a pior fase, pois é a mais arrogante e ignorante de todas, é o cinismo. O cínico normalmente já foi um crédulo e um militante. Vejamos a descrição de cada uma delas.

O crédulo

O crédulo é ingênuo. Ele acredita em qualquer um, em qualquer "milagre", em qualquer pregação e sempre está pronto a abraçar o primeiro bezerro de ouro que vê pela frente. Falta ao crédulo a prudência da serpente enquanto sobra em demasia a simplicidade das pombas (Mateus 10.16). O crédulo é um “menino inconstante” levado “em toda por todo vento de doutrina” (Efésios 4. 14). Isso mesmo: o crédulo é levado de cá para lá. Não há firmeza, estabilidade, sabedoria. “Até quando... vós, loucos, aborrecereis o conhecimento?”, pergunta proverbialmente o rei de Israel (Provérbios 1. 22-23). À semelhança da condição religiosa sob a lei, o crédulo precisa viver sob a tutela de alguém, pois é incapaz de agir como adulto de entendimento (1 Coríntios 14. 20; cf. Efésios 4. 1-7). O crédulo é capaz de glorificar a pregação que é antagônica ao ensino que ele recebeu bovinamente. Ao mesmo tempo, ele não aguenta alimento sólido (Hebreus 5.13). Há intoxicação espiritual diante de algo mais constante. Ele facilmente se escandaliza.

O militante

O militante descobriu uma "nova verdade" assistindo vídeos no YouTube e agora tem como a única missão de fé convencer a todos, nem que para isso use de ridicularizações e superficialidades. Ele “se acha” e despreza facilmente o crédulo, todavia não percebe pelo excesso de vaidade, logo porque a vaidade é nebulosa e enganosa (Provérbios 31. 30), que, igualmente ao crédulo, ainda continua sentindo, agindo e pensando como um menino (1 Coríntios 13. 11). A sua cabeça é militarizada, pois o sentido de sua vida é combater o inimigo, o mal, o abjeto externo. Ele defende a verdade, mas não se alimenta dela, como dizia o formidável C. S. Lewis. Ele confunde defesa da fé com ataque da fé.  O militante adere com todas as forças à tragédia da polarização, como lamentava John Stott. Ao contrário do apóstolo, o militante luta à maneira do homem carnal (2 Coríntios 10.3). E também esquece que a verdadeira milícia da fé depende de armas espirituais, ou seja, se submete em primeiro lugar a Deus para levar outros à submissão do Altíssimo (cf. 2 Coríntios 10. 3-6). É o bom testemunho, a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência e a mansidão que torna o crente um “bom militante” (cf. 1 Timóteo 6. 11-13). Não é o sarcasmo, a brutalidade, a ironia despropositada, o humor fora de lugar e a prontidão para debater em qualquer momento ou lugar. O homem sábio, ao contrário do militante, foge dos “desejos da mocidade” e “rejeita as questões loucas e sem instrução, sabendo que produzem contendas” (2 Timóteo 2. 21-23). O militante está cheio de zelo, mas falta-lhe entendimento (cf. Romanos 10. 1-3), pois sempre está “procurando estabelecer a sua própria justiça”. O militante esquece que o caminho para Deus é Ele próprio e não a espada contra o mal.


O cínico

Triste é a sina da imaturidade que evolui para o cinismo. Esta é a decadência total, ampla e irrestrita do homem carnal. O cínico não consegue enxergar beleza em nada. Só contempla o mal e a decadência. É malicioso e desconfia até da própria sombra. Para ele todos são enganadores e somente a sua própria fé é pura, se é que existe pureza- se é que existe o bem, o belo e o verdadeiro!  Sobra a amargura, o azedume, a feiura enquanto falta a luz de Cristo e a contemplação da graça. A Igreja? Ele só consegue enxergar a estrutura institucional com suas idiossincrasias. A liturgia? O cínico não contempla nada além da própria rotina e morosidade.  Não há graça! Isso mesmo: o cínico vive na e pela desgraça. O seu pessimismo contamina a todos. A sua escuridade esconde a Luz que ilumina o mundo. O cínico é insípido. Ele não traz gosto, não traz sabor a nada. O seu sal já não presta senão a ser pisado pelos homens (Mateus 5.13). Falta-lhe escrúpulo, pois não há moral, reverência ou cuidado pela comunidade que ele pertence. O cinismo é um ídolo; é o ídolo do nosso tempo. À semelhança do crédulo, o cínico abraça com afinco o bezerro de ouro para preencher a imensidão infinita do seu vazio, mas com a discrição e elegância de uma nova convenção social: o não parecer religioso em hipótese alguma. O cínico é pautado pela desconfiança, ao contrário do crédulo, ele faz da suspeita a sua companheira. A sua filosofia é desconfiar, mas não somente do homem finito, o que é por si bom, mas também do Deus infinito. No mundo do cínico só há espaço para a competição e o labor. Nada de trivialidades. A religião? Mera droga escapista, mera projeção de poder, mera carência afetiva; diz o cínico. Alguém quer me ensinar a Bíblia? Só pode ser um potencial autoritário (genocida, até!) querendo me dominar; pensa assim o desconfiante. Alguém falou em missões? Ora, nada mais do que a imposição da própria cultura a outrem. Alguém disse culto? Ora, mera ilusão! Sim, o único iluminado e sábio é o cínico. O cínico desconhece culpa e pecado, aliás, a culpa é uma invenção para dominação, pensa o cínico enquanto o psicopata concorda. Assim, aquele que despreza a verdade, a beleza e a bondade rejeita o próprio Deus para se afogar no seu ressentimento. O ressentir-se é a verdadeira marca do cínico. Ele é desesperado por atenção e afeto enquanto despreza a atenção e o afeto, pois o tamanho de sua sede é tanta que ele não sente o sabor da bebida que lhe é oferecida. O cínico também é um menino, mas um menino teimoso que é passível da dúvida que tenha experimentado a bondade de Deus (cf. 1 Pedro 2. 1-3). É alguém necessitado do primeiro amor. “Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras”, assim diz o Senhor (Apocalipse 2. 3-5).
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Senhor, dai-nos maturidade!

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