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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O que é heresia?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A palavra grega haireseis, traduzida em nossas Bíblias como "heresia", não tem o mesmo sentido eclesiástico de "erro doutrinário" nos textos paulinos de 1 Coríntios 11.19 e Gálatas 5.20. Nas penas do apóstolo Paulo essa palavra ganha a conotação de "dissensões decorrentes da diversidade de opiniões e objetivos"[1]. Apenas no texto de 2 Pedro 2.1 o sentido se aproxima levemente do uso contemporâneo. Em o Novo Testamento, como lembra Alister McGrath, “a formação de facções era vista claramente como uma ameaça à unidade das comunidades cristãs”[2]. A preocupação paulina, por assim dizer, era o espírito faccioso que minava a unidade da Igreja em nome de ambições e projetos pessoais ou, ainda, a vaidades de pequenos coletivos.  Ou como escreveu João Calvino: “A heresia aparece onde o mal é por demais acentuado, e avança de uma forma tão solerte, que a hostilidade se acentua de tal forma que os homens se dispõem francamente a dividir-se em partidos opostos”[3].
“O Evangelho triunfa sobre Heresia e a Serpente”.
Igreja do Rei Gustaf Vasa, Estocolmo, Suécia, escultura de Burchard Precht.

É interessante que, diante do ineditismo de posturas de conciliação entre diversos grupos protestantes - especialmente em questões divergentes e não essenciais - alguns insistem em colar no outro o carimbo de "herege". É quase um prazer mórbido de classificar cristãos de diferentes confessionalidades de não participantes da graça de Cristo. Tal postura não é um problema intelectual, mas, como disse Paulo, é de natureza carnal. É a velha ânsia do homem caído pelo divisionismo ou espírito de corpo. É o velho Adão chamando pela infantilidade da autoafirmação através do rebaixamento do próximo. É mais uma manifestação de vaidade e orgulho de pertencimento. A nobre tarefa de manutenção da sã doutrina se transforma em um trampolim de egos inflamados.

A unidade entre cristãos diferentes em assuntos diversos não é sinônimo de pragmatismo, mas tão somente de maturidade. Há uma base em comum, especialmente manifestada nos credos ecumênicos e universais, que diz muito do pouco que é necessário para unir os cristãos ao redor da fé em Cristo Jesus, Nosso Senhor e Salvador. Louvado seja o Senhor pelos cristãos que entenderam o velho princípio repetido de Richard Baxter a John Stott: “Em coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade”[4].

Ninguém pode negar que o Novo Testamento está cheio de referências apologéticas diante dos falsos ensinos gnósticos, antinominalistas, judaizantes e legalistas. Somente um leitor míope das páginas sagradas ignora tal fato. Por outro lado, há uma apologética saturada no evangelicalismo contemporâneo. O teólogo Craig L. Blomberg[5] comenta acertadamente que há uma tendência evangélica de criar cada vez mais identificações minimalistas nas confissões de fé a fim de enfatizar as diferenças contra outros grupos cristãos, e não a unidade. A batalha e o esforço pela fé ficam restritos à periferia do evangelicalismo e pontos não essenciais se confundem com doutrinas cardeais para o prejuízo dos envolvidos. A igreja hodierna ignora que a heresia não nasce somente na abertura desordenada da confessionalidade, mas como mostra especialmente a origem do terno e a história da cristandade, a heresia está pronta a florescer nos ambientes excessivamente restritivos e exclusivistas, assim transformando a multiforme graça de Deus em um conjunto de pensamentos facciosos e sujeitos sectários, sempre divididos em lutas fratricidas nas margens dos credos e confissões universais. O sectarismo vaidoso e orgulhoso das doutrinas secundárias, uma horrível redundância, afasta a essência cristã manifestada em Cristo Jesus.



[1] Thayer's Greek Lexicon.
[2] McGRATH, Alister. Heresia: Uma História em Defesa da Verdade. 1 ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2014. P 49-50.
[3] CALVINO, João. 1 Coríntios: Comentário. 1 ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2013. pos 7407.
[4] STOTT, John R. W. Cristianismo Equilibrado. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1982. p 15.
[5] BLOMBERG, Craig L., “THE NEW TESTAMENT DEFINITION OF HERESY (OR WHEN DO JESUS AND THE APOSTLES REALLY GET MAD?)”, Journal of the Evangelical Theological Society 45/1 (March 2002) 59–72.

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