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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A decadência do cessacionismo

Nada em Paulo sugere que os chamados “dons espirituais” cessariam até o tempo em que “conheceremos como somos conhecidos”. O Espírito continua a soprar à vontade e qualquer um que disser “eu sei donde Ele vem” ou “eu sei para onde Ele vai” é melhor encarar João 3.8 e, assim, pensar novamente. [N.T. Wright]
Por Gutierres Fernandes Siqueira

O cessacionismo é a crença segundo a qual os dons extraordinários, especialmente a profecia e glossolalia, ficaram restritos ao primeiro século da Era Cristã. Paradoxalmente o cessacionismo no Brasil faz barulho, e muito barulho! Talvez porque vivemos na maior nação carismática do mundo e é naturalmente que a reação seja igualmente grande. Neste texto quero apontar sobre o porquê da decadência do cessacionismo e como isso explica a virulência das suas manifestações.

Não faz muito tempo o famoso pastor batista fundamentalista John MacArthur Jr. lançou uma conferência para combater o pentecostalismo, como se esse fosse um câncer perigoso ao cristianismo. Nas palestras não havia distinção entre as loucuras do Benny Hinn com o gracioso ministério de David Wilkerson, por exemplo. Para John MacArthur e os demais conferencistas, se alguém fala em línguas a hipótese mais benevolente é que essa pessoa seja uma desequilibrada ou, em alguns casos, até mesmo endemoninhada.

No Brasil não é diferente. O pastor batista fundamentalista Marcos Granconato, uma espécie de cópia de MacArthur, dedica boa parte do seu ministério a demover pentecostais ou continuístas de sua própria crença. E aqui falo em cópia no sentido positivo e negativo do termo, logo porque o autor em nada manifesta pensamento próprio senão na repetição de argumentos do pastor californiano. Ele se comporta como uma espécie de evangelista cuja missão é arrancar jovens das “trevas carismáticas”. Como um Dom Quixote, esses teólogos se aventuram a combater inimigos imaginários com toda a força e vontade. Ou seja, um verdadeiro desperdício para a causa do Reino de Deus. Além disso, esse debate parecia até superado na década de 1980, mas há sempre certo espírito reacionário que insiste em velharias e disputas mesquinhas.

Esse comportamento histérico é explicado pela degradação da teologia cessacionista. Essa teologia foi dominante nos círculos protestantes no final do século XIX e na primeira metade do século XX, mas especialmente a partir da década de 1960 a aceitação vem sendo de uma fração cada vez mais diminuta de cristãos, sejam eles protestantes ou católicos. E isso não somente entre a teologia popular e seus expoentes nos púlpitos periféricos, mas o carisma do Espírito também chegou à academia com toda a força de um vento que assopra onde quer.

O continuísmo, ou seja, a crença que todos os dons neotestamentários são válidos para a contemporaneidade é hoje exposta por teólogos de primeira linha. Nomes como J. Lee Grady, Wayne Grudem, Jack Deere, Craig Keener, Jon Ruthven, Sam Storms, Doug Oss, Mel Robeck, Paul Elbert, Randy Clark, Robert Menzies, J. P. Moreland, Gary Greig, Mark Rutland, Michael Brown, Gary Shogren, William De Arteaga, William K. Kay, Melvin Hodges, N. T. Wright, D. A. Carson, John Piper, Mark J. Cartledge, Roger Olson, Gordon D. Fee, Krister Stendahl, Grant. R. Osborne, Jon Mark Ruthven, James K. A. Smith, Amos Yong, Wilf Hildebrandt etc.

O interessante nessa lista é enxergar expoentes das mais diversas correntes concordando em um ponto: o dom do Espírito é também para hoje. Outro ponto alto é ver grandes especialistas em hermenêutica e exegese, Novo Testamento e teologia paulina como continuístas. Há, também, diversas confissões representadas: luteranos, anglicanos, batistas, presbiterianos, metodistas e assembleianos.

O debate, em termos bem mais civilizados, também chegou ao seio católico. O teólogo francês Yves Congar (1904-1995), considerado um dos maiores especialistas em pneumatologia, era um continuísta entusiasmado. Congar, enquanto vivia, era muito amigo do maior teólogo católico do último século: Joseph Ratzinger. Poucos sabem, mas Ratzinger, considerado um clérigo bem conservador, tem uma perspectiva aberta sobre o exercício contemporâneo da profecia para além do magistério ou dos sacramentos. Veja a concepção de profecia do teólogo alemão em: RATZINGER, Joseph. Ser Cristão na Era Neopagã. Vol. 3. 1 ed. Campinas: Ecclesiae, 2016. pp 131- 150.

O que mais irrita nos cessacionistas brasileiros é esse tom de superioridade, a arrogância de quem pensa ser o suprassumo da teologia. Quanta tolice de quem está a perder o bonde da história, logo porque o século XXI tem como marca a expansão do cristianismo com face carismática. Além disso, esses sempre estão prontos a gracejos e piadas de mau gosto, especialmente envolvendo a manifestação da glossolalia. Alguns, que nem sabem usar minimamente a gramática da língua pátria, querem insinuar que os outros não conseguem discernir o delírio da linguagem.

Que o Espírito Santo venha sobre nós com graça, serviço e sabedoria!
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Se você quer aprofundamento sobre o assunto não deixe de ler essas obras em português:

- O Dom de Profecia - Do Novo Testamento aos Dias Atuais (Editora Vida) de Wayne Grudem.
- Surpreendido pelo Poder do Espírito (CPAD) de Jack Deere.
- Surpreendido com a Voz de Deus (Editora Vida) de Jack Deere.
- A Manifestação do Espírito. A contemporaneidade dos dons à luz de I Coríntios 12-14 (Edições Vida Nova) de D. A. Carson.
- Paulo, o Espírito e o Povo de Deus (Edições Vida Nova) de Gordon D. Fee.
- O Batismo no Espírito Santo e com Fogo (CPAD) de Anthony D. Palma.
- Rastros de Fogo (CPAD) de José Gonçalves.
- No Poder do Espírito (Editora Vida) de Robert e William Menzies.
- Revelação e Experiência do Espírito Santo - n. 1 (Edições Paulinas) de Yves Congar.
- Quando o Espírito Vem com Poder (ABU Editora) de John White.
- Teologia do Espírito de Deus no Antigo Testamento (Editora Academia Cristã e Edições Loyola) de Wilf Hildebrandt.
- A Doutrina do Espírito Santo (CPAD) de Stanley M. Horton.

Artigos:
- Dons Espirituais em: Dicionário de Paulo e suas Cartas (Edições Vida Nova, Edições Loyola e Editora Paulus) de Gordon D. Fee.
- 1 Coríntios em: Comentário Bíblico Pentecostal (CPAD) de Anthony D. Palma.

- Pneumatologia em: Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD) de Antonio Gilberto.

11 comentários:

Dias Neto disse...

Em termos práticos, isto é, tratando da experiência da glossolalia na vida dos que dizem possuir tal dom, o que podemos destacar como concretamente positivo? Ou, em outras palavras, que benefícios espirituais eu posso ter ao falar em línguas que, aparentemente nao possuem um significado?

Sou calvinista, inclinado ao continuísmo mas, não vejo qual o benefício dessas linguas pentecostais atuais para a experiencia cristã

Gutierres Siqueira disse...

Naquilo que a Bíblia diz, ou seja, "porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem" (1 Co 14.14). Certamente estaremos orando melhor do que na escolha da palavras próprias.

Ismael Brito disse...

A Paz do Senhor Jesus meu irmão em Cristo, Gutierres Siqueira.
Que o Espírito Santo continue a lhe inspirar e, cada dia, Sua manifestação seja notório entre nós. Peço sua licença para reverberar este maravilhoso texto em meu blog.
Que Deus vos abençoe! E que o Espírito Santo nos capacite em tudo!

Vem SENHOR e derrame sobre nós o Seu Espírito! Aleluia!

abraço fraterno
Pastor Ismael
adm.Blog "Aqui eu Aprendi!"

Fellyp Cranudo disse...

Recomendo: Café Teológico com Bp. Walter McAlister- O Dom de Línguas
Editora Anno Domini [https://www.youtube.com/watch?v=Ddpi5x9_I4k]

Anônimo disse...

Prezado Gutierres, uma questão completamente off-topic mas que certamente encontrará em você uma local de compreensão e não critica sumária.

Na esteira da descoberta hoje das tais ondas gravitacionais, diga-me, você pessoalmente já se pegou questionando a existência de Deus?

Eu sou cristão e tenho fé em Deus e me sinto confortável sob os braços do pai.

Ao mesmo tempo sou cientista e dentro do ambiente da razão me pego questionando essas coisas (o que me preocupa mesmo ser pecado mortal).

Ora é evidente que a teologia é uma forma de tentar racionalizar Deus e isso me soa as vezes pretensioso as vezes útil e por isso leio e acompanho as coisas sobre teologia.

No entanto sabendo o quanto soaria bobo para um físico mais fundamentalista nossas elucubrações teológicas.

O que você pensa sobre isso?

Abraços
Eduardo

Marco Antonio Correia disse...

Dias Neto, seus questionamentos são por demais pertinentes, os quais merecem todo respeito. Permita-me, sob outro prisma, expor meu entendimento.
Parto do pressuposto de que todos os dons espirituais, cada um com sua particularidade, possuem uma finalidade. Afinal, não existe nada que venha de Deus que seja irrelevante ou despropositado. Ou seja, quando o Ap. Paulo trabalhou esta doutrina, inspirado por Deus, demonstrou a importância dos dons, ora para edificação do homem, ora para edificação da igreja Deste modo, o dom de línguas, assim entendido como um dom dentro do conjunto dos dons espirituais, relaciona-se diretamente com a edificação do homem. É um dom que revela a intimidade deste com o Criador. É o relacionamento íntimo, pessoal, intransferível, entre o Criador e a criatura. Desta proposição, depreende-se uma conclusão lógica de que um homem edificado, torna-se edificador de outrem. Agora, faço duas observações: i) Quem não fala em línguas não é edificado? Penso que não. O dom de línguas é um dos instrumentos de edificação e capacitação existentes dentro de um rol amplo à luz da Bíblia, que por si só nunca terá como escopo precípuo substituir outros, tampouco terá a primazia dos dons. Trata-se, como falei, de uma experiência pessoal, de um desejo que precisa nascer no coração. ii) As "línguas" que vemos e ouvimos por aí são realmente a língua espiritual descrita na Bíblia? Também creio que não. Parecem mais aliterações e onomatopeias misturadas com síncopes tiradas da nossa língua portuguesa (com pitadas de gemidos e urros, par dar um efeito especial no negócio).
Pois bem, os dons estão disponíveis para a nossa época, são necessários para a edificação da igreja no decurso de sua história e, independentemente de qualquer que seja, são dispensados através da graça de Deus, não dependendo do nosso mérito para recebê-los, basta apenas crer.

Anônimo disse...

Paz Irmão Gutierres

Uma ressalva é necessária: embora continuístas, a interpretação dada a 1 Co 12-14 por muitos dos teólogos citados, é um pouco diferenciada.

Vide o comentário do Pr Hernandes sobre 1 Co 12-14 (Que transparece ser continuísta, dado o mérito do seu comentário, diferenciando sua posição da confissão de fé de sua instituição).

Uma questão interessante e muito debatida:
- dom de "línguas" = glossolália = O Carson aceita, com ressalvas. Inclusive, numa parte, posso estar errado se foi ele ou o Gordon Fee, o autor afirma (paráfrase minha): "Olha, o dom de línguas exite. Mas se isso que vemos por aí é uma legítima manifestação dele, isso tenho minhas dúvidas".

Essa é uma posição mais moderada, com a qual concordo plenamente.

Outro debate interessante: dom de profecia.
O assembleiano "da gema" crê na profecia extrabíblica. O famoso "Eis que te digo".
Outra posição fortemente combatida pelo Fee e o Carson, especialmente.

Nesses 2 pontos, por mais continuístas que sejamos, precisamos de ensino. Muito ensino.

Um último comentário: Achei o livro do Sam Storms com muito empirismo e pouca base bíblica exegética, algo que a leitura do Fee e do Carson suprem bem.

Resumo da ópera: precisamos de um ensino correto dos dons, começando pela Pessoa e Ministério do Espírito Santo.
Embora pertença a AD, não concordo com muitos ensinos. Por exemplo: "batismo com Espírito Santo" diferenciado do "dom do Espírito" dado no momento da conversão.
Acredito que muitas polêmicas começam aí, pois para "provarem o batismo", insistem no velho erro da manifestação em línguas como "prova"/referendum.

E a polêmica prossegue.

Na Paz, Soares.

Anônimo disse...

Diego
A paz do Senhor
amado como a pessoa faz para ser cheia do Espirito Santo?
é lendo biblia orando obedecendo a palavra etc?

Anônimo disse...

Gutierres

Sou ministro Presbiteriano, boa tarde

Penso que há o Pentecostalismo extremado como também há cessacionismo extremado.

Nunca gostei da postura cessacionista do MacArthut.

Há cessacionistas como Simon Kistemaker que são bem mais cautelosos e respeitam de fato os irmãos pentecostais.

Estou escrevendo uma monografia para pós, abordando a questão do continuismo moderado dentro das igrejas Reformadas.

Vamos trocando ideias.

Abraço

Alexandre Gonçalves disse...

A paz. Acho estranho associar cessacionismo apenas com calvinistas. Escrevi um artigo no Parênteses.net em que mostro ser perfeitamente cabível ser pentecostal e ser Monergistas (para não usar o termo "calvinista").
http://www.Parênteses.net/artigos/posso-ser-pentecostal-e-calvinista

José Rubens Medeiros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.