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sábado, 19 de março de 2016

Continuísmo não é pentecostalismo

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O objetivo deste artigo é delimitar conceitos e esclarecer certa confusão comum entre aqueles que conhecem o pentecostalismo artificialmente. Portanto, é necessário entender bem a diferença entre um continuísta e um pentecostal. Não visamos com isso nenhum tipo de censura, mas apenas a melhor compreensão do fenômeno carismático e de sua teologia.

O que é continuísmo?

O continuísmo ensina que todos os dons extraordinários expressos nas Escrituras estão disponíveis para os nossos dias a qualquer cristão inserido na Igreja. Portanto, todo pentecostal é necessariamente continuísta. Agora, nem todo continuísta é pentecostal, isso porque o pentecostalismo vai além do continuísmo. Alguns continuístas famosos não estão dentro da tradição pentecostal. Alguns teólogos como Donald A. Carson, John Piper, Wayne Grudem, por exemplo, são de tradição calvinista e não possuem nenhuma ligação direta com igrejas pentecostais.

O que é pentecostalismo?

É um continuísmo acrescentado de outro dom extraordinário: o Batismo no/com o Espírito Santo. Esse dom, segundo a teologia pentecostal, capacita o crente ao serviço da proclamação (cf. Atos 1.8). Não é um dom melhor nem pior do que os demais, mas difere no propósito. Enquanto os dons gerais estão voltados para dentro da Igreja, o Batismo no Espírito está voltado para fora. É a Igreja capacitada a agir no mundo, enquanto os demais dons capacitam à igreja na ação comunitária de edificação e consolo. No pentecostalismo estritamente assembleiano, especialmente baseado em uma teologia lucana diferente (todavia complementar) à teologia paulina, se ensina que esse dom vem acompanhado de um sinal, o falar em línguas. Esse sinal não deve ser confundido com o dom, que é a variedade de línguas.

Veja o quadro e entenda a diferença entre os três grupos que comungam da crença na ação dos dons em nossos dias.


Continuísmo
Pentecostalismo
Pentecostalismo Assembleiano
Dons Espirituais
Todos os dons extraordinários estão presentes na contemporaneidade.
Todos os dons extraordinários estão presentes na contemporaneidade.
Todos os dons extraordinários estão presentes na contemporaneidade.
Batismo no Espírito Santo
É sinônimo de conversão.
É um dom que capacita a igreja a proclamar o Evangelho. É diferente da conversão e pode ser acompanhado ou não de outros dons como profecia, glossolalia, curas etc.
É um dom que capacita a igreja a proclamar o Evangelho. É diferente da conversão e é acompanhado dos falar em novas línguas, não como dom, mas como sinal.
Hermenêutica
Não há diferença entre a teologia lucana e paulina na pneumatologia.
Não há diferença entre a teologia lucana e paulina na pneumatologia.
Há diferenças complementares entre a teologia lucana e paulina na pneumatologia.
Alguns Expoentes
D. A. Carson; N. T. Wright, John Stott, Wayne Grudem.
J. Rodman Williams; William Seymour; Martyn Lloyd-Jones; Gordon D. Fee; James K. Smith.
Stanley Horton, William Menzies, Robert Menzies, Amos Yong, Roger Stronstad,

15 comentários:

Dione Junior disse...

Só pra constar, John Stott e Martyn Lloyde-Jones ambos eram cessacionistas. Entretanto, como vemos no quadro, de fato, John Stott está entre os que propõem ser o "batismo no Espírito" um sinônimo de conversão/regeneração, enquanto Lloyde-Jones não.

Dione Junior disse...

Só pra constar, John Stott e Martyn Lloyde-Jones ambos eram cessacionistas. Entretanto, como vemos no quadro, de fato, John Stott está entre os que propõem ser o "batismo no Espírito" um sinônimo de conversão/regeneração, enquanto Lloyde-Jones não.

Guilherme Cancella disse...

Sou continuista e vivo em uma igreja pentecostal. É possível.

Fábio Stefani da Silva disse...

Sobre essas diferenças eu tenho uma dúvida.

Você disse que para o assembleiano o falar em línguas é um sinal, mas não é o próprio dom de línguas em si, então é só uma evidência.

Se é assim, porque muitos dos que evidenciam o batismo falando em línguas continuam falando depois, e até se cobram (ou são cobrados) quando não continuam?

Não fica meio que na cabeça das pessoas que o batismo e a capacidade de dali pra frente poder falar em línguas como uma coisa só?

PB. João Eduardo Silva disse...

Paz de Cristo! Como assembleiano me identifico mais com o continuísmo do que o pentecostalismo assembleiano. Não consigo enxergar uma capacitação especial para o evangelismo, todo cristão é convocado por Cristo para o evangelismo, falando em línguas ou não - abraços.

Anônimo disse...

Como leitor de John Piper faço um adendo: ele não se considera "Calvinista" strictu sensu. ELe se considera "Reformado", pois discorda de vários pontos do calvinismo "puro", como a posição pneumatólogica, por exemplo.

Outro adendo: a teologia assembleiana é "complicada", não no sentido de dificuldade, mas no sentido de mal formulada. Ao lermos Stott, Piper, Carson, Fee, Grudem etc., você vê uma profundidade exegética, história e bíblica que, até hoje, não vi em nenhuma obra "assembleiana". Acho as obras assembleianas extremamente empíricas. Esse é um dos motivos pelos quais não gostei do livro do Sam Storms: ele não baseia vários argumentos em textos, na boa e velha exegese, mas em diversos empirismos. Isso é complicado.

Penso que um bom conceito de "Pentecostalismo" está sendo proposto hoje em dia: a união de leituras continuístas (Carson, Grudem e Stott) com leituras pentecostais em sentido estrito (Especialmente o Gordon Fee). Não consigo me ater a teologia assembleiana, pois vejo na literalidade de 1co 12 e 1co 14 a destituição de vários argumentos a respeito do "batismo com o E. S." e suas 'evidências'.

Por fim, só cabe dizer que odeio esses rótulos. Esses "estigmas" são complicados: pentecostalismo, calvinismo, arminianismo, amilenistas, dispensacionalistas etc. Penso que faz muitos cristãos se aterem a doutrinas que, muitas das vezes, outra confissão de fé estudou e elaborou uma proposta melhor.

Um exemplo desse hibridismo que sugiro é os autointitulados "Pentecostais Reformados". A união de doutrinas calvinistas com leituras pentecostais clássicas (não assembleianas, claro).

Att.,
Soares

Anônimo disse...

Eder,
Boa noite vc esta acompanhando o Bispo Walter Mclister?
gostaria de ler sua opinião sobre o curso e em breve o livro "Pentecostal reformado".

PB. João Eduardo Silva disse...

Paz de Cristo! Gostaria de saber em qual dessas linhas vc se encaixa - Abraços no amor de Cristo.

Marcos Esmeraldino disse...

Ótimo, Gutierrez! Bem esclarecedor! Parabéns pelo trabalho!

Anônimo disse...

O fato destes teólogos não ter uma tradição pentecostal, não os desqualifica a falar sobre os dons espirituais. Eles falam corajosamente em uma contexto de tradição que não os apoiam, mas os respeitam obrigatoriamente por seu testemunho, piedade, caráter e capacidade teológica. Normalmente dominam a história da igreja e a gramática grega. Não podemos nos apropriar da Palavra e do agir do Espírito, baseados em uma tradição, mas na Palavra e na nossa própria experiência no Senhor (a Unção do Santo).

Gutierres Siqueira disse...

Dione, o Stott era continuísta sim. Está claro no livro sobre Plenitude do Espírito (Vida Nova). E por mais que se negue, Lloyde-Jones também era, embora a posição sobre profecia fosse mais cautelosa.

Fábio, se são cobrados ou não eu não sei o porquê, logo porque não posso responder pelos outros. O fato é que na teologia assembleiana há uma distinção entre a glossolalia com sinal e dom, sendo o dom de variedade de línguas.

Soares. A posição assembleiana também prima pela boa hermenêutica. Se você acompanhar o trabalho do Robert Menzies, por exemplo, ficará impressionado com a qualidade acadêmica do mesmo.

Eder, não posso opinar porque não estou acompanhando.

João, sou assembleiano.

Anônimo. Mas quem disse que eles são desqualificados?

Dione Junior disse...

Eu também não concordo com a ideia de 'evidência inicial' proposta pelo pentecostalismo assembleiano, mas procuro conviver em amor com os que pensam assim.

Dione Junior disse...

No seu comentário de Efésios Lloyde-Jones nega a continuidade de dons revelacionais e se utiliza do argumento da 'fundação da igreja'. Agora, quanto a Stott, eu li o 'Batismo e Plenitude no Espírito', e tive outra conclusão diferente de você, se ele é continuísta, então, me enganei sobre ele, vou checar novamente.

Anônimo disse...

Luciano Betim

Caro Gutierrez, graça e paz

Tenho a impressão de Stott e Jones eram cessacionistas. Posso estar enganado, mas seria bom a gente consultar.

Jéssica disse...

Que Deus te abençoe e continue te capacitando para esses estudos, me ajuda muito em entendimento!! amo seus textos e interpretações!