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sábado, 16 de abril de 2016

A incompatibilidade da fé cristã com a ideologia política

Por Gutierres Fernandes Siqueira

O sociólogo Herbert José de Sousa (1935-1997), o Betinho, foi um importante militante de esquerda no Brasil e um dos principais nomes da Ação Popular, um grupo ligado à Teologia da Libertação. Cito o famoso militante porque ele dizia que não era de “esquerda cristã”, mas apenas de “esquerda”. Gosto muito dessa definição do Betinho, pois, de fato, não há esquerda cristã, nem direita cristã, existe apenas cristianismo. O cristianismo, como visão de mundo, não precisa de qualificação ideológica. A cosmovisão cristã suplanta a ideologia.

Qual o problema da ideologia? Ela é totalizante. Toda ideologia toma um aspecto das virtudes conhecidas e eleva esse valor como categoria de pensamento. A esquerda faz isso, por exemplo, com a ideia de igualdade. A igualdade é o valor supremo da esquerda. Assim, o ideal do esquerdista é a igualdade absoluta. Nisso, não deve existir hierarquia, riquezas, estrutura familiar, gênero, etc. Tudo deve ser levado à igualdade.

A igualdade é um ideal ruim? É óbvio que não. Em muitos aspectos precisamos de igualdade. O problema está justamente na elevação dessa virtude como parâmetro para todas as outras.



E no cristianismo, qual é a virtude por excelência? Alguns responderão que é o amor. Logo porque “Deus é amor” (1 Jo 4.8) e seremos conhecidos como discípulos do Senhor pela arte de amar (Jo 13.35). Será? O mesmo Deus que é amor é também luz (1 Jo 1.5). Seria na teologia joanina o amor a definição definitiva de Deus? Se sim, então por que a declaração sobre a luz não é tomada com a mesma força? Ou mesmo a paz em Paulo (2 Co 13.11)? Tal escolha pela primeira opção é simplesmente arbitrária e não responde a uma correta correlação hermenêutica.

Pensar em apenas num atributo como propriedade inerente à particularidade de Deus como característica própria e definidora, cuja realização consuma a excelência ou perfeição dEle, é mais filosófica do que bíblica. Enquanto os gregos tomavam a justiça com a virtude suprema, muitos cristãos tomam o amor na mesma qualidade. A sustentação bíblica dessa ideia não vai longe.

Em Deus todas as virtudes são plenas e estão em equilíbrio. Nenhuma se sobrepõe sobre a outra. Deus não pode ser mais amoroso amanhã. Nele está a completude e a infinitude. Assim, conceitualmente o cristianismo como visão de mundo não pode valorizar apenas um aspecto dos atributos humanos, seja esse a igualdade, a liberdade ou a honra, por exemplo. O cristianismo nos convida ao equilíbrio. Não que o equilíbrio seja a virtude suprema, não, nada disso, mas como comportamento o equilibrado reconhece que nenhuma solução é totalizante diante da complexidade humana.

5 comentários:

Julian disse...

Mas gostaria de pontuar sobre a questão de Coríntios 13,13? O amor é maior ou não entre os outros dons, para nós?(pois sabemos que todo dom vem de Deus, e nele tudo é perfeito, porém existem relevância entre eles, por isso o amor é mais relevante?!)

Marcos Esmeraldino disse...

"Qual o problema da ideologia? Ela é totalizante. Toda ideologia toma um aspecto das virtudes conhecidas e eleva esse valor como categoria de pensamento."

Muito bom Gutierres!

Mirian disse...

A analogia de sua proposição: “Qual o problema da ideologia? Ela é totalizante. Toda ideologia toma um aspecto das virtudes conhecidas e eleva esse valor como categoria de pensamento.” De acordo com Marx, existem inconsistências entre seus escritos que não seria correto afirmar uma única definição sobre o termo ideologia. Uma ideologia compõe-se de duas concepções – Neutra e Crítica – esta segunda, nos convoca a refletir sobre a seguinte questão: Para que alguma coisa possa ser concebida como ideológica, deve obrigatoriamente haver ilusão, máscaras da realidade e falsa consciência? Isto é, uma ideologia reflete fenômenos simbólicos, estimula a cognição. Logo, como pode ser totalitária em um único atributo?

Por que? “Enquanto os gregos tomavam a justiça com a virtude suprema, muitos cristãos tomam o amor na mesma qualidade. A sustentação bíblica dessa ideia não vai longe.” Sabemos que Deus define-se com sendo Luz, Paz, Amor e tantos outros adjetivos. Mas, como explicar o superlativo em Jo 3.16? E em comum acordo com Julian, 1 Co 13.13, na versão da minha bíblia – A Mensagem diz: “Mas, por enquanto, até chegar a perfeição, temos três coisas que nos guiam até a consumação de tudo: confiança firme em Deus, esperança inabalável e amor extravagante. E o melhor desses três é o amor.” Na NVI, em Romanos 13.8 nos diz “Não devam nada a ninguém, a não ser o amor uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei.” Em 1 Coríntios 13, a eminência do amor idiotiza todos os pormenores.

Gutierres Siqueira disse...

Mírian. A história prova que toda ideologia transformada em poder real descaminha para o autoritarismo. Não há como implantar utopia no plano real da vida.

Sobre o amor o texto condena elencá-lo como a essência do ser de Deus. Deus, sendo pleno, não pode ser mais amoroso do que justo ou oniscente mais do que onipresente. Ele, repito, é pleno. Os textos citados se referem ao homem, logo, não há contradição com o que afirmei.

Ricardo Santana disse...

Deus é ganz andere...Não seria Deus em sua plenitude se conseguíssemos com palavrório descreve-lo. Porem, torna-se conhecido através da revelação ou encarnação de Cristo. E em Cristo podemos ver e entender que Deus só é possível no amor e tudo o que decorre dele. Destarte a declaração de S. João sintetiza o que Cristo revelou sobre "Deus...é amor".